Resenha: Os Irmãos Karamázov

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Tá, tudo bem, eu confesso, tenho uma queda pelos clássicos, assumo, mas que atire a primeira pedra quem nunca se embrenhou e se perdeu por estas paragens. Pronto, falei!!! E que paragens, rsrsrs…

Bom, meu primeiro contato com Dostoiévski começou com Crime e Castigo, nos idos de 1999, e, categoricamente, me vi impelida, rendida e apaixonada por Raskólnikov, o anti-herói. Sofri com a sua crise, com a sua sina, e não conseguia, ou não queria, aceitar que uma pessoa com aquela alma, índole e discernimento pudesse ter sido levado a cometer tamanha loucura. Ali, compreendi que o talentoso mestre russo não havia nascido para ficar à paisana e nem tampouco para perder tempo floreando sonhos intangíveis e imaculados; se a vida demonstrava sinais de brevidade, então, que fosse intensamente vivida.

Mas, o que tem a ver o fio com o pavio? Poderia, de fato, não coexistir nada de interessante, todavia, basta que se leia Dostoiévski uma vez, uma única vez, para ficar marcado para sempre, e literalmente, com o seu copyright, com a sua combustão e intensidade. Basta uma única vez para que você entre novamente no ciclo de vício e dependência que a sua aura e obras criam em torno de si e de quem os absorve, siiiim, você anseia cada parágrafo como se daquilo dependesse seu ar, seu fôlego e seu porvir. É, é muita faísca numa centelha só…

Então beleza, já foi fisgado, seus anticorpos já detectaram que espécime te cutucou e que são capazes de lidar com isso, joia!!! Agora trata de segurar a tua onda porque nem toda racionalidade é capaz de explicar o porquê de agirmos contra o óbvio e, muitas vezes, contra nós mesmos. Só me sinto na obrigação de esculachar a Dona Morte, pois “só acho” que ela deveria ter se atrasado mais um pouco para que Dostoiésvki tivesse continuado Os Irmãos Karamázov, dois volumes e 999 páginas não foram suficientes para dar cabo da minha sanha curiosa, enfim…

No primeiro volume, somos apresentados à família do patriarca, Fiódor Pávlovitch Karamázov, e precipitados nos dramas e origens distintas dos irmãos Karamázov, de sorte que este momento apresenta-se como fator impositivo e indubitável para a aceitação dos fatos, senão, ao menos para a contemplação dos propósitos desventurados que a vida precisa seguir para que tudo faça sentido. Cedemos à irascibilidade e afetividade de Dmitri, à doçura e equilíbrio de Alieksiêi e à sagacidade compendiosa de Ivan. Válido salientar que, entre tantas intempestividades, ainda coexiste a presença do filho bastardo, jamais reconhecido, Smierdiakóv.

O soco no estômago se dá em decorrência de discordâncias no que tange aos valores advindos da herança materna, que Dmitri acredita ter sido roubado pelo pai, e pelo triângulo amoroso que se enreda junto à senhorita Grúchenka, o que acaba de vez com qualquer possibilidade de entendimento entre pai e filho.

No segundo volume, orbitamos em torno do assassinato de Fiódor e, na maior parte do tempo, nas prerrogativas da suspeita e, posterior, prisão e julgamento de Mítia que, por sinal, dispara um discurso bastante emotivo pouco antes do cárcere:

“- Senhores, todos nós somos cruéis, todos somos uns monstros, todos levamos as pessoas ao choro, mães e crianças de colo, mas de todos – que assim fique resolvido neste momento -, de todos eu sou o réptil mais torpe! Que seja! Todo santo dia de minha vida batia em meu peito prometendo a mim mesmo corrigir-me, e todo santo dia cometia as mesmas vilanias. Agora compreendo que gente como eu precisa de um golpe, de um golpe do destino, para ser presa como por um laço e sujeitada por uma força externa. Eu nunca, nunca me levantaria por mim mesmo! Mas a tempestade desabou. Aceito o suplício da acusação e minha desonra pública, quero sofrer e com o pensamento purificar-me! Porque talvez me purifique, não, senhores? Mas, não obstante, ouçam pela última vez: não sou culpado pelo sangue derramado de meu pai! Aceito o suplício não por o haver matado, mas por ter querido matá-lo, e é possível que realmente viesse a matá-lo… Mas, apesar de tudo, tenciono lutar com os senhores e isso eu vos anuncio. Hei de lutar com os senhores até o último limite, e aí Deus decide! Adeus, senhores, não se zanguem por eu ter gritado com os senhores durante o interrogatório, oh, eu ainda era muito tolo… Dentro de um minuto serei um prisioneiro e agora, pela última vez, Dmitri Fiódorovitch, como homem ainda livre, estende aos senhores a sua mão. Ao me despedir dos senhores, despeço-me dos homens!…” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 665).

E aí, será mesmo que ele tem culpa?

P.S.// Já ia esquecendo, aclamado pela crítica como uma das melhores obras de todos os tempos, por acreditá-la substanciosa política e filosoficamente, Os Irmãos Karamázov ainda é respaldado por Nietzsche e Freud, mas o que importa mesmo é que nós, meros mortais, também temos a chance, o direito e o dever de nos deleitarmos e esbaldarmos nesse regalo chamado Dostoiévski.

* DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. São Paulo: Editora 34 Ltda., 2008.

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