Resenha: Cegueira Moral – Parte II

2 – A crise da política e a busca de uma linguagem da sensibilidade

“Vivemos numa época em que os intelectuais à moda antiga, ou da era pré-Facebook, correm o perigo de serem relegados para as margens da política e da área pública. Correm o risco de se tornarem não entidades. […] Estamos nos aproximando depressa de uma fase da vida política em que o grande rival de um partido bem-estabelecido não será outro partido de corte ou tonalidade diferente, mas uma organização não governamental ou um movimento social influente. […] Os autocratas russos e chineses percebem isso muito bem. Como todos nós sabemos, ONGs não são bem-vindas em regimes tirânicos; nem tampouco o Facebook, em especial após uma série de ‘revoluções pelo Facebook’ no Oriente Médio, ou a Primavera Árabe, ou mesmo durante a revolução de Facebook dos jovens espanhóis indignados em Madri. Com toda a probabilidade, esses atos de resistência e inquietação social antecipam uma era de movimentos sociais virtuais que serão conduzidos ou integrados por partidos políticos novos ou convencionais. De outro modo, os partidos serão extirpados da face da Terra por esses movimentos. Vivemos uma época de obsessão pelo poder” (DONSKIS, 2014, p. 64-65).

Convenhamos que a obsessão pelo poder sempre existiu, né meu caro? Todavia, agora ela veste um tecido virtual, de plurialcance, camaleônico e de largo espectro, inclusive, isso se aplica tanto para os movimentos úteis quanto para os inúteis. Aonde iremos parar, por enquanto, só o Zuckerberg e o Vale do Silício poderão dizer, mas com certeza uma cascata recheada de plugins novos, de preferência com hologramas, virá por aí.

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Resenha: Cegueira Moral – Parte I

1 – Do diabo a pessoas assustadoramente normais e sensatas

“Privacidade, intimidade, anonimato, direito ao sigilo, tudo isso é deixado de fora das premissas da sociedade de consumidores ou rotineiramente confiscado na entrada pelos seguranças. Na sociedade de consumidores, todos nós somos consumidores de mercadorias, e estas são destinadas ao consumo; uma vez que somos mercadorias, nos vemos obrigados a criar uma demanda de nós mesmos. A internet, com os blogs e o Facebook, versões de mercado das ruas comerciais, destinadas aos pobres, dos salões finos voltados para os VIPs, tende a seguir os padrões estabelecidos pelas fábricas de celebridades públicas; os promotores tendem a ter uma consciência aguda de que, quanto mais íntimo, picante e escandaloso for o conteúdo dos comerciais, mais atraente e exitosa será a promoção e melhores serão as avaliações (da TV, das revistas glamorosas, dos tabloides atrás de celebridades etc.). O resultado geral é uma ‘sociedade confessional’, com microfones plantados dentro de confessionários e megafones em praças públicas. A participação na sociedade confessional é convidativamente aberta a todos, mas há uma grave penalidade para quem fica de fora. Os que relutam em ingressar são ensinados (em geral do modo mais duro) que a versão atualizada do Cogito de Descartes é ‘Sou visto, logo sou’ – e quanto mais pessoas me veem, mais eu sou…” (BAUMAN, 2014, p. 37).

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Resenha: Cegueira Moral

Cegueira Moral

Parece clichê, mas é vida real e que segue. Estava eu no consultório da ortodontista, mais precisamente na ante-sala da recepção cujo sinal de wifi é bom e obviamente usufruía desta atratividade, aguardando o meu momento de adentrar a sala, quando enxergo uma daquelas pilhas de revista que sempre ficam empoleiradas na mesinha (isso sim é clichê!). Começo a folhear um catálogo de arte, que nunca ouvi falar e também não me recordo o nome, e eis que vejo uma indicação de livro – Cegueira Moral a perda da sensibilidade na modernidade líquida, de Zygmunt Bauman – imediamente faço uso da internet e descubro que o livro, realmente, é muito interessante.

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Sandalhadas…

Ao acordar, foi escovar os dentes e percebeu que havia uma barata, virada de pernas pro ar, na parte do box. Olhou pra ela e pensou, acordei tão bem, tão em paz que não quero carregar o peso de começar o dia como uma assassina de baratas, então, deixou-a no local. Seguiu com a rotina, tomou seu café da manhã e quando foi tomar banho, deparou-se novamente com a criatura. À princípio, optou apenas por arrastá-la para o extremo oposto do box, apesar de sentir a frustrante sensação de estar postergando um problema para depois. Assim, fez o planejado, entretanto, quando a arrastou, a criaturinha acabou por virar-se e saiu correndo, desesperada, fazendo valer seu último fôlego, sua última chance de sair ilesa.

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Resenha: Assim Falava Zaratustra

Assim Falava Zaratustra.

Comprei-o sem realizar uma prévia pesquisa acerca de qual editora seria a mais indicada, todavia, acredito que este exemplar, da Editora Vozes, me caiu muito bem devido às suas notas de rodapé que, mais do que nunca, foram bem-vindas, afinal Assim Falava Zaratustra não é um livro de bolso, ao contrário, é bastante denso.

Não sou conhecedora do universo de Nietzsche e este foi o meu primeiro contato com a sua obra, efetivamente, pois apenas conhecia alguns dos conceitos mais recorrentes; desta forma, movida pela curiosidade, alcancei o fruto de um intenso e elaborado trabalho; que, por sinal, muitos estudiosos o recomendam como uma espécie de última leitura, depois de nos familiarizarmos com os seus termos e ideias (dispostos em outras publicações como, Crepúsculo dos ídolos, Além do Bem e do Mal, Ecce Homo, Genealogia da Moral, Gaia Ciência), mas, enfim, fui intuitivamente conduzida e tratei de buscar outras referências para melhor compreendê-lo.

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Desabafo

Se tem uma coisa que me dilacera a alma é perceber que estou indo para a universidade apenas para ter uma “educação bancária”.
Perceber que terei que ouvir um assunto, depois decorar a tabuada pra transcrever na prova, sim, porque o que importa é vírgula por vírgula, afinal, para quê um discurso que foge à forma de gesso?
Agora me diga, para quê fazer alarde acerca do cartesianismo quando não se para de decretar as especialidades?
Desgraçada ditadura militar que abortou a educação vislumbrada por Anísio Teixeira.
Desgraçada ditadura militar que até hoje ecoa, viraliza as mentes que só anseiam pelo próprio umbigo.
Elucubrar pra quê? Sendo que o mundo ideal não existe! Aceita o mundo como ele é e sê feliz com isso.
Haja bofe pra não infartar; ou pior, pra não perder a energia da potência.

Coincidência? Sincronia?

Será mesmo que existe COINCIDÊNCIA? Segundo a Teoria do Caos, pequenas mudanças em determinados eventos podem ocasionar consequências inimagináveis e que, levando-se em conta a imprevisibilidade dos mesmos, poderiam gerar o caos. Maaaaas, e daí? Bem, gostaria de propor que guardássemos a palavra SINCRONIA como o “Ás da manga”, para tentarmos elucidar alguns fatos mais adiante.

É sabido que Nietzsche, e também Freud, apreciavam bastante o nosso querido camarada Dostoiévski, e que todos eles foram mentes muito à frente do seu tempo, não só em nível de elucubração, mas também de ações e atitudes que alçassem mudanças no contexto do seu tempo. Isto posto, lhes mostro a encruzilhada em que me vi presa; em Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski faz uma clara denúncia/crítica acerca das especialidades médicas, e o faz por meio de uma personagem bastante inusitada – o diabo (figura literária utilizada para denotar o alterego de outro personagem). Até aí, tudo bem, nada de novo, mas eis que

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