Resenha: Cegueira Moral

Cegueira Moral

Parece clichê, mas é vida real e que segue. Estava eu no consultório da ortodontista, mais precisamente na ante-sala da recepção cujo sinal de wifi é bom e obviamente usufruía desta atratividade, aguardando o meu momento de adentrar a sala, quando enxergo uma daquelas pilhas de revista que sempre ficam empoleiradas na mesinha (isso sim é clichê!). Começo a folhear um catálogo de arte, que nunca ouvi falar e também não me recordo o nome, e eis que vejo uma indicação de livro – Cegueira Moral a perda da sensibilidade na modernidade líquida, de Zygmunt Bauman – imediamente faço uso da internet e descubro que o livro, realmente, é muito interessante.

Quando se trata de Zygmunt Bauman, sempre guardamos muitas impressões acerca das suas tags, ops, quero dizer conceitos, targets, inclusive, agora me vem à cabeça a primeira vez que pesquisei sobre essa referência, a “realidade líquida”, era o primeiro semestre de 2011 e encontrava-me numa aula de Contemporaneidade I, do Bacharelado Interdisciplinar da UFBA, que cursei por um ano e depois sai, com o coração em frangalhos, porque havia passado em Enfermagem, em outra universidade. E lembro mais ainda, eu adorava aquelas aulas e sempre ficava com a sensação de que aquele componente curricular deveria existir em todos os semestres de todos os cursos de graduação por um motivo muito simples, era efetivo, perspicaz e habilidoso na capacidade de retirar a venda dos olhos e fazer com que o sujeito passasse a enxergar o mundo criticamente… Quanta saudade!!! Pois, depois disso não mais me foi possível passar incólume à este senhor Z.

Voltando ao livro, é o título recente do autor, cuja proposta não poderia ser mais pertinente ao nosso momento de extremada fruição de relações e vivências nas redes sociais (Facebook, WhatsApp, Twitter, YouTube). Nos deparamos com um visão acurada acerca dessas contingências digitais e suas reais contribuições e consequências para o contexto sócio-político-cultural, sempre embalados por uma narrativa dinâmica e compassada entre o filósofo e cientista político Leonidas Donskis e o ilustre pensador da modernidade Zygmunt Bauman.

Optei por trabalhar o livro por partes, exatamente como ele vem para as nossas mãos, porque o considerei tão rico, que seria uma espécie de heresia literária simplesmente dar aquela “pincelada”. Sem falar, é claro, que assim eu posso compartilhar suas pérolas aqui e ter o prazer de brincar de versar à respeito. Então, sigamos!!!

Introdução: Para uma teoria da privacidade e da impenetrabilidade humanas, ou Expondo as formas esquivas do mal.

“Duas manifestações do novo mal: a insensibilidade ao sofrimento humano e o desejo de colonizar a privacidade apoderando-se do segredo de uma pessoa, aquela coisa de que nunca se deveria falar, que jamais poderia se tornar pública. O uso Global de biografias, intimidades, vidas e experiências de outras pessoas é um sintoma de insensibilidade e falta de sentido” (DONSKIS, 2014, p. 14).

Quem não lembra do estardalhaço que a mídia fez por conta das fotos que vazaram, na internet, da atriz Carolina Dieckmann? Foi um episódio irritante porque era absurdo perceber o enfoque que eles davam para a notícia, ao passo que, simultaneamente, existiam milhares de outras situações que careciam de destaque. Todavia, ali começou a rodar o redemoinho de aparições de fotos e vídeos não consentidos e, entre famosos e anônimos, muita gente figurou nos quinze minutos da fama, proposital ou acidentalmente.

“O mal não está confinado às guerras ou às ideologias totalitárias. Hoje ele se revela com mais frequência quando deixamos de reagir ao sofrimento de outra pessoa, quando nos recusamos a compreender os outros, quando somos insensíveis e evitamos o olhar ético silencioso. Ele também habita os serviços secretos, quando estes, motivados pelo amor à pátria ou pelo senso de dever (cujas profundidade e autenticidade não seriam questionadas por intelectuais especializados na ética de Immanuel Kant, nem pelo próprio Kant), destroem inflexivelmente a vida de um homem ou de uma mulher comum apenas porque talvez não houvesse outro jeito, ou por estar no lugar errado no momento errado, ou porque o serviço secreto de outra nação lhes pediu um favor, ou porque alguém precisava provar a sua lealdade e dedicação ao sistema, ou seja, ao Estado e às suas estruturas de controle […] As estatísticas são mais importantes que a vida humana real; o tamanho de um país e seu poder econômico e político são muito mais importantes que o valor de um de seus habitantes, ainda que este fale em nome da humanidade. Nada pessoal, são apenas negócios, esse é o novo Satã da modernidade líquida” (DONSKIS, 2014, p. 16-17).

Diariamente somos bombardeados com imagens em que o sujeito que deveria estar prestando auxílio, na verdade, está preocupado com a qualidade da imagem e com a urgência de postar na internet, objetivando, pura e simples, lançar a notícia fresca no ar para com isso angariar curtidas, compartilhamentos, tuítes e retuítes. Diariamente nos deparamos com OS NOSSOS problemas sociais, como a poluição sonora, o lixo nos locais indevidos, a decadência do transporte público, dentre uma série de outras situações que nos acometem o cotidiano e, simplesmente, não mais nos indignamos porque já sucumbimos à isso, inexoravelmete.

“Eis aqui uma lista de nossos novos bloqueios mentais. Ela inclui nosso esquecimento deliberado do Outro, a recusa proposital em reconhecer e admitir um ser humano de outro tipo, ao mesmo tempo que descartamos alguém vivo, real, e que está fazendo e dizendo alguma coisa bem ao nosso lado – tudo em nome de fabricar um ‘amigo’ no Facebook distinto de você e que talvez viva em outra realidade semiótica. Nesta lista também se encontra a alienação, ao mesmo tempo que se simula a amizade; não ver nem conversar com alguém que está conosco e usar a palavra ‘Sinceramente’ no final de cartas dirigidas a pessoas que não conhecemos e com as quais jamais nos encontraremos – quanto mais insensível for o conteúdo, mais cortês será a saudação. Há também o desejo de nos comunicar, não com aqueles que nos são próximos e que sofrem em silêncio, mas com alguém imaginado e construído, nossa própria projeção ideológica – e esse desejo caminha de par com uma inflação de palavras e conceitos convenientes. Novas formas de censura coexistem – da maneira mais estranha – com a linguagem sádica e canibalesca encontrada na internet e que corre solta nas orgias verbais do ódio sem face, nas cloacas virtuais em que se defeca sobre os outros e nas demonstrações incomparáveis de insensibilidade humana (em especial nos comentários anônimos) (DONSKIS, 2014, p. 18).

Ah, meu caro Leonidas, isso já faz parte da realidade nua e crua que aceitamos como uma projeção de teste de resistência, enquanto seres fortes e adaptativos que somos, e que, ao que parece, as novas gerações já saem predestinadas desde o útero. É lamentável chegar a esse nível de hostilidade diária, mas é tão comum; quem hoje em dia se comunica com os seus parentes e amigos mais próximos diariamente? Temos uma demanda de contatos diários e frequentes com pessoas que jamais conhecemos pessoalmente, mas que suprem a nossa necessidade de atenção, porque todos querem atenção, porque todos precisam lidar com as suas respectivas ansiedades e parece que a resposta sobrevive na blogosfera, porque precisamos transformar a realidade digital o mais real possível e não interessa se 99% do produto das redes sociais seja de fontes desconhecidas, acrítico ou descabido, precisamos curtir, compartilhar, tuitar e retuitar. “Old times good times” é para os fracos, agora você precisa dar conta de todas as mídias, estudar, trabalhar, viver e ainda estar disponível sempre, senão, corre o risco de ser execrado à parte ou conjuntamente.

“Quando empregamos o conceito de ‘insensibilidade moral’ para denotar algum tipo de comportamento empedernido, desumano e implacável, ou apenas uma postura imperturbável e indiferente, assumida e manifestada em relação aos problemas e atribulações de outras pessoas (o tipo de postura exemplificado pelo gesto de Pôncio Pilatos ao ‘lavar as mãos’), usamos a ‘insensibilidade’ como metáfora; sua localização básica é na esfera dos fenômenos anatômicos e fisiológicos dos quais é extraída – seu significado fundamental é a disfunção de alguns órgãos dos sentidos, seja ela ótica, auditiva, olfativa ou tátil, resultando na incapacidade de perceber estímulos que em condições ‘normais’ evocariam imagens, sons ou outras impressões […] A função da dor, de servir de alerta, advertência e profilaxia, tende a ser quase esquecida quando a noção de ‘insensibilidade’ é transferida dos fenômenos orgânicos e corpóreos para o universo das relações inter-humanas, e assim conectada ao qualificativo ‘moral’. A não percepção dos primeiros sinais de que algo pode dar ou já está dando errado com nossa capacidade de conviver e com a viabilidade da comunidade humana, e que, se nada for feito, as coisas poderão piorar, significa que o perigo saiu de nossa vista e tem sido subestimado por tempo suficiente para desabilitar as interações humanas como fatores potenciais de autodefesa comunal – tornando-as superficiais, frágeis e fissíparas” (BAUMAN, 2014, p. 20-22).

“Tirando vantagem dos impulsos morais instigados pelas transgressões que ela própria gerou, estimulou e intensificou, a cultura consumista transforma cada loja e agência de serviços numa farmácia fornecedora de tranquilizantes e anestésicos: neste caso, drogas destinadas a mitigar ou aplacar não as dores físicas, mas a dor moral. Com a negligência moral crescendo em alcance e intensidade, a demanda por analgésicos aumenta, e o consumo de tranquilizantes morais se transforma em vício. Portanto, a insensibilidade moral induzida e maquinada tende a se transformar numa compulsão ou numa ‘segunda natureza’, uma condição permanente e quase universal – com a dor moral extirpada em consequência de seu papel salutar como instrumento de advertência, alarme e ativação […] Com a dor moral sufocada antes de se tornar insuportável e preocupante, a rede de vínculos humanos composta de fios morais se torna cada vez mais débil e frágil, vindo a se esgarçar. Com cidadãos treinados a buscar a salvação de seus contratempos e a solução de seus problemas nos mercados de consumo, a política pode (ou é estimulada, pressionada e, em última instância, coagida a) interpelar seus súditos como cidadãos; e a redefinir o primeiro lugar, e só muito depois como cidadãos; e a redefinir o ardor consumista como virtude cívica, e a atividade de consumo como a realização da principal tarefa de um cidadão” (BAUMAN, 2014, p. 24).

Fala-se tanto em superar os pragmatismos da política parasitária, da educação bancária, da saúde carente, mas e o seu papel CIDADÃO? Tem feito? Tem abrido os olhos para o que, de fato, importa? Tem analisado seus comportamentos e condutas diárias? Será que pode mudar algo? Será que consegue tornar-se mais humano para os que estão ao seu lado, ao seu redor? Nem vou arriscar a máxima do “amar ao próximo como a ti mesmo” porque andamos tão esquecidos e ultrajados de nós mesmos… São muitas questões e, como não rola grana pra terapia individual, façamos por intermédio das novas plataformas digitais, rsrsrsrrs… Darwin nunca fora tão certeiro quanto em seus estudos proféticos acerca da teoria da evolução e adaptação, vai ser visionário assim na casa da p#$@&…

* BAUMAN, Zygmunt. DONSKIS, Leonidas. Cegueira Moral. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

Continuações:

Cegueira Moral – Parte I

Cegueira Moral – Parte II

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16 comentários sobre “Resenha: Cegueira Moral

    1. Então, Bruno, o meu ponto de vista é de que o consumismo gera insensibilidade sim, não apenas no que tange ao aspecto moral, mas, inclusive, levando o indivíduo a esquecer a sua parcela de responsabilidade na sociedade; consumimos muito mais do que necessitamos, geramos zilhões de toneladas de lixo, milhares de pessoas trabalham como escravos, outros perdem empregos pq essas mercadorias produzidas por um preço rebaixado chega até nós por uma ninharia e, simplesmente, não refletimos sobre nada. Queremos usufruir de tudo, mas responsabilidade nada.
      E concordo com você no aspecto de que o orgulho, também, leva o ser humano pro buraco.
      O mundo não é uma colônia de férias :/

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      1. infelizmente é verdade :/

        consumismo é doença do consumo, este é positivo aquele negativo gera individamente quase eterno; fora o mal estar ambiental e social….

        “começamos pela ferida”_ beuys: ferida culturo-natureza, a qual se amplia com a doença do consumismo + orgulho….

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  1. A ignorância básica é se ver separado dos demais seres – de todos eles – e da natureza. A compreensāo de que estamos todos ligados, ou seja, conseguir enxergar e sentir a inseparatividade, é o que faz brotar naturalmente o sentimento de que o sofrimento de cada ser é também sofrimento meu. Se nos vemos como um sistema, um organismo, compreemos que nāo poderá jamais haver felicidade duradoura para uns enquanto outros tiverem fome. Mais cedo ou mais tarde as mazelas da fome, a violência, o caos, baterāo à porta dos “felizes”, e se eles nāo abrirem, essas portas serāo arrombadas. A soluçāo, portanto, é educar as futuras geraçōes para que se vejam como uma única é inseparável humanidade. Enquanto um único ser estiver em sofrimento todos deveríamos nos sentir profundamente incomodados. É a ignorância, portanto, no meu singelo modo de ver, a causa da indiferença, insensibilidade, egoísmo e desigualdade social.

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  2. Boa tarde.

    Cara Elaine, d´antemão, explicitando minha alegria por ter vossa pessoa visitado meu blogue, vindo aqui e ficando duplamente feliz, pois o que escreveis é motivo de júbilo, em forma de rica discussão.
    Atendo-me a este tema, iniciei pensando em Ubuntu (o conceito, não o Sistema Operacional, mesmo que um decorra do outro); depois passei para Karl Jaspers, um dos primeiros pensadores a discutir a unicidade humana. Mas não fiquei só aí (lástima!): pensei, paralelamente, no filme Máquina do Tempo, de Herbert George Wells. Pronto. Meu ponto de análise.
    Neste filme, notadamente o de 1960, com Rod Taylor como protagonista, a humanidade perde toda a empatia. Ninguém mais se importa com ninguém. As pessoas são predadas por uma variante da própria raça, ou seja, os Elois são presas dos Morloks. Todos acham, se não normal, fato da vida. Ninguém reage. Quando a sirene dos Morlocks é acionada, os Elois se dirigem, em fila, para o abatedouro (bem contrastante com o Somos à medida que os outros o são, do Jaspers…).
    Ou algum de nós considera uma mesa, repleta de jovens (ou não tão jovens) ensimesmados, olhando seus smarts, monitorando se há alguma “curtida” nas Redes Neurais, digo, Sociais?
    A propósito, dias há em que discuti com amigos de Grupo de Discussão, donde uma das meninas falava em felicidade e solidão.
    No calor da discussão, perguntou-se: É impossível ser feliz sozinho?
    Minha resposta foi um peremptório SIM. Expliquei, à guisa de desonubilar:
    Se houver empatia (esta parece a palavra-chave), a infelicidade do meu irmão me afetará, fatalmente; não posso ser feliz vivenciando a infelicidade do outro. Daí decorre que o sozinho aqui é de grupamento, não de solitude ou de solidão.

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    1. Morvan, gostei bastante do seu espaço e das discussões que levanta. Com certeza voltarei mais vezes.
      Repare, não conhecia esse filme, mas a temática distópica (apesar de q a nossa realidade tem andado mais conturbada do que nunca) me agrada e, pela sua descrição, me pareceu uma boa pedida. Anotando o nome desde já.
      Ainda hoje conversava com uma amiga sobre a capacidade do ser humano em se tornar, a cada dia, mais e mais indiferente aos sentimentos e situações das pessoas. Isso é muito preocupante, contudo, enquanto ainda tivermos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro (a empatia, como vc bem referiu), enquanto ainda ousarmos não nos conformarmos com isso (e desde os pequenos atos cotidianos), penso, ainda faremos valer o ar que respiramos.
      Vamos acreditar, né?
      Abração!! 🙂

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