Resenha: Cegueira Moral – Parte I

1 – Do diabo a pessoas assustadoramente normais e sensatas

“Privacidade, intimidade, anonimato, direito ao sigilo, tudo isso é deixado de fora das premissas da sociedade de consumidores ou rotineiramente confiscado na entrada pelos seguranças. Na sociedade de consumidores, todos nós somos consumidores de mercadorias, e estas são destinadas ao consumo; uma vez que somos mercadorias, nos vemos obrigados a criar uma demanda de nós mesmos. A internet, com os blogs e o Facebook, versões de mercado das ruas comerciais, destinadas aos pobres, dos salões finos voltados para os VIPs, tende a seguir os padrões estabelecidos pelas fábricas de celebridades públicas; os promotores tendem a ter uma consciência aguda de que, quanto mais íntimo, picante e escandaloso for o conteúdo dos comerciais, mais atraente e exitosa será a promoção e melhores serão as avaliações (da TV, das revistas glamorosas, dos tabloides atrás de celebridades etc.). O resultado geral é uma ‘sociedade confessional’, com microfones plantados dentro de confessionários e megafones em praças públicas. A participação na sociedade confessional é convidativamente aberta a todos, mas há uma grave penalidade para quem fica de fora. Os que relutam em ingressar são ensinados (em geral do modo mais duro) que a versão atualizada do Cogito de Descartes é ‘Sou visto, logo sou’ – e quanto mais pessoas me veem, mais eu sou…” (BAUMAN, 2014, p. 37).

Precisa dizer algo mais? Acredito que não, rsrrsrs…

“Estamos testemunhando uma tendência sinistra cada vez mais forte nos Estados Unidos e na Europa. Os políticos se veem cada vez mais preocupados com áreas que servem como nova fonte de inspiração, a privacidade e a história. Nascimento, morte e sexo constituem as novas fronteiras dos campos de batalha da política. Como a política hoje está deixando de ser a tradução de nossas preocupações morais e existenciais numa ação racional e legítima em benefício da sociedade e da humanidade, e se torna um conjunto de práticas gerenciais e manipulações habilidosas da opinião pública, não é imprudência presumir que a rápida politização da privacidade e da história promete ser o caminho para sair do atual vácuo político e ideológico. Basta lembrar os debates mais acalorados sobre aborto, eutanásia e casamento gay nos últimos vinte anos, mais ou menos, para concluir que o pobre indivíduo humano, não importa se esteja percorrendo sua jornada no mundo, ou moribundo, ou consumando um matrimônio, continua a ser visto como propriedade do Estado e de suas instituições, ou, na melhor das hipóteses, como mero instrumento e refém de uma doutrina política […] Como aprendemos em 1984, de George Orwell, a história depende apenas daqueles que controlam os arquivos e registros. Uma vez que os indivíduos não têm outra forma de existência a não ser a que lhes é oferecida pelo partido, a memória individual não tem o poder de criar ou restaurar a história. Claro, isso leva o Partido Interior a afirmar que quem controla o passado controla o futuro, e quem controla o presente controla o passado” (DONSKIS, 2014, p. 39-40).

Nós, por exemplo, temos vivido tempos tão absurdos que, ao que me parece, toda a História do Brasil, estudada desde a quinta série ginasial até o terceiro ano do ensino médio (verdade, a nomenclatura mudou, mas me perdoem, eu não gravei ainda), deve ter sucumbido a algum tipo de buraco negro coletivo nas mentes das pessoas; porque somente isso para nos dar uma explicação plausível para este momento político e econômico em que as pessoas vão às ruas pedir o retorno da ditadura militar. Esqueceram o golpe de Getúlio Vargas? Esqueceram o preço do desenvolvimento promovido por Juscelino Kubitschek às custas do capital nacional e dos limites sociais? Esqueceram que, para evitar um maior derramamento de sangue e o esfacelamento do Estado, Jango fora obrigado a ceder ao golpe de 1964? Bom, a menos que já estejamos vivendo uma distopia paralela e que, por mero lapso, ninguém colocou o título na claquete: Rodando, Loucura Coletiva! Ação!!!!

“A forma-padrão de comunicação inter-humana é uma mensagem por iPhone com as palavras reduzidas a consoantes, e qualquer palavra que não consiga sobreviver a essa redução é proscrita e eliminada. As comunicações mais populares, que encontram mais eco, embora, tal como um eco, reverberem apenas por um brevíssimo instante, não podem ter mais de 140 caracteres. A amplitude da atenção humana – a mais escassa das mercadorias hoje no mercado – foi reduzida ao tamanho e à duração de mensagens que tendem a ser compostas, enviadas e recebidas. A primeira vítima de uma vida apressada e da tirania do momento é a linguagem – atenuada, empobrecida, vulgarizada e esvaziada dos significados de que seria portadora, enquanto os ‘intelectuais’, os cavaleiros errantes das palavras significativas e de seus significados, são suas baixas colaterais” (BAUMAN, 2014, p. 59).

Prova indefectível está nos resultados das provas de redação, do Enem, rsrrsrsr… Mas, olhemos os prós desse novo retrato da modernidade, pois eles acrescentam muito; com a difusão da tecnologia, simplesmente, rompemos a barreira da distância, nos aproximamos de pessoas há muito distantes, congregamos na rede as diversas classes sociais e milhares passaram a fazer uso do seu poder de voz, sem falar que a difusão do conhecimento tem sido algo sem precedentes e, hoje, muitas oportunidades encontram-se facilmente ao alcance. Poderíamos dizer ainda que, de alguma forma, fizemos valer todo o esforço que a humanidade se prestou para que o conhecimento não ficasse retido nas quatro paredes das igrejas da Idade Média, e o fato de continuarmos seguindo com esta difusão nos leva a crer que estamos caminhando, ainda que a algum ônus. Importa lembrar que isso nos é assegurado pelo simples fato de vivermos numa democracia, pois na China, por exemplo, as pessoas até usufruem de certa liberdade financeira, mas a liberdade de expressão é completamente manipulada pelo regime totalitário. Enquanto o Google e seus servidores nos forem parceiros, então, tudo estará a nosso favor, espero apenas não viver a realidade das máquinas contra os humanos, tão preconizadas na ficção, pois aí sim estaríamos em apuros, afinal, temos todos os nossos passos e segredos nesses servidores, ai ai ai…

* BAUMAN, Zygmunt. DONSKIS, Leonidas. Cegueira Moral. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

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