Resenha: O Oceano No Fim Do Caminho

 

O Oceano No Fim Do Caminho.
O Oceano No Fim Do Caminho

“Esse é o tipo de água debaixo da qual é possível respirar, pensei. Talvez haja um segredo para se respirar dentro d’água, algo simples que qualquer um poderia fazer, se ao menos soubesse como. Foi tudo o que pensei.

E foi o meu primeiro pensamento.

Meu segundo pensamento foi de que eu sabia de tudo. O oceano de Lettie Hempstock fluiu dentro de mim e preencheu o universo inteiro, do Ovo à Rosa. Eu soube. Soube o que era o Ovo – onde o universo se iniciou, ao som de vozes incriadas cantando no vácuo – e eu soube onde estava a Rosa – a dobra peculiar de espaço no espaço em dimensões como origami e que florescem como orquídeas estranhas, e que marcaria a última época boa antes do consequente fim de tudo e do próximo Big Bang, que não seria, agora eu sabia, nem nada do gênero.

Eu soube que a velha Sr.ª Hempstock estaria aqui para esse, da mesma forma que esteve para o anterior.

Eu vi o mundo no qual andara desde o meu nascimento e compreendi sua fragilidade, entendi que a realidade que eu conhecia era uma fina camada de glacê num grande bolo de aniversário escuro revolvendo-se com larvas, pesadelos e fome. Eu vi o mundo de cima e de baixo. Vi que havia padrões, portões e caminhos além da realidade. Eu vi todas essas coisas e as compreendi, e elas me preencheram, da mesma forma que a água do oceano me preenchia.

Tudo sussurrava dentro de mim. Tudo falava para tudo, e eu sabia de tudo” (GAIMAN, 2013, p. 163).

Esta é só uma dentre as tantas passagens delicadas e profundas do livro. Tudo aqui é gentilmente tratado de forma em que a seriedade é posta na mesa e, ao mesmo tempo, trabalhada de modo a dar seguimento à vida, afinal, o mundo não para.

Nosso “amigo” (não conheceremos seu nome, aliás, poucos são os que aparecem) sai de um funeral e resolve dar uma volta no lugar em que morou durante a infância. Passa em frente à antiga casa e revê histórias há muito esquecidas em sua mente, mas segue em frente até adentrar na antiga estradinha de pedras e deparar-se com a casa de fazenda com tijolos vermelhos das Hempstock, aí sua memória retorna aos sete anos de idade e passamos a vivenciar, num dia, algumas das suas mais preciosas lembranças.

E que lembranças… Por sinal, quanto conservamos de nossas lembranças? Quanto delas realmente existiu ou foi moldada pela nossa mente fantasiosa para nos permitir seguir adiante? Porque determinados fatos nos marcam tanto ao ponto de nos imobilizar ou nos libertar?

Muitas vezes, pra não dizer o tempo todo, acreditamos cegamente que temos o comando da vida sob nossas mãos. Isso de alguma forma nos conforta, nos dá prumo, nos guia para as escolhas que julgamos coerentes, mas também nos torna um tanto oblíquos, tolos, arrogantes com a pretensa certeza de que o rei na barriga está sendo satisfeito e que tem o poder. Aliás, se tem uma coisa que eu aprendi ao longo das minhas trinta e tantas casinhas de vida é que esse mundo é uma caixinha de surpresas, nem sempre agradáveis, entretanto, nem tudo está perdido e que existem bússolas pra nos orientar enquanto navegamos em mares revoltos e opressores. Existem bússolas (intuições) e também o calor do carinho verdadeiro que só os amigos do coração sabem propiciar quando você está triste.

Fui escolhida pelo livro do Neil Gaimam – O Oceano No Fim Do Caminho – num momento bastante propício, pois realmente precisava desse abraço forte, reconfortante, e foi, exatamente, assim que me senti com a leitura.

À todos, compartilho “aquele abraço”.

* GAIMAN, Neil. O Oceano No Fim Do Caminho. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013.

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