Resenha: Admirável Mundo Novo

Ainda durante as aulas comprei o bonitinho das fotos – Admirável Mundo Novo – mais 1984 e esqueci de Fahrenheit 451. São todos do mesmo autor, Elaine? Não!! Mas, parece que são trigêmeos de pais diferentes, pois toda vez que você busca a referência de um, acaba sempre sendo levado aos outros.

Não li nada antes por falta de tempo, então, agora que o tempo se interpôs, porque precisa ser assim, ou você o busca e se relaciona, ou você nunca fará nada, afinal ele não é um produto de vitrine à sua disposição. Assim, começamos os trabalhos com Admirável Mundo Novo porque foi publicado em 1932 e porque eu quis seguir uma ordem cronológica, traçar alguns paralelos, enfim, na minha cabeça a ideia pareceu lógica.

Capa  Admirável Mundo Novo

Fiquei tentada a começar o texto naquela pegada tradicional em que todos começam explicando o que é uma distopia, etc e tal, inclusive, até pensei em aproveitar uma dessas passagens pela Saraiva e tirar uma fotinha da justa parte que conteria o significado da palavra, só para agregar valor. Até fiz isso, solicitei ao vendedor que me apresentasse a algum dicionário etimológico, pensei em ir à raiz da dita cuja, mas ele não tinha nenhum exemplar; então, Aurélio por Aurélio, eu preferi lembrar do Paulo Freire e definir na roda de conversa.

Quem aqui lembra de Matrix? Quem aqui lembra de Laranja Mecânica? Quem aqui lembra de Gattaca? Quem aqui já viu, por que quis ou obrigado, Jogos Vorazes? De modo geral, encontramos nestes filmes sociedades suprimidas por governos totalitários, populações alienadas de seu poder e capacidade, divididas por castas, cuja autonomia da engenharia genética é reverenciada como o suprassumo do poder científico e tecnológico. Chegamos a um entendimento comum do que vem a ser a antiutopia? Pois, então, agora poderemos adentrar no universo de Admirável Mundo Novo.

Orelha Admirável Mundo Novo.

Primeiro momento, adaptar-se ao contexto.

– Esse é o espírito que me agrada – disse novamente o Diretor. – Façamos a volta. Dê-lhes todas as explicações, sr. Foster.

O sr. Foster explicou tudo de forma precisa.

Falou do embrião desenvolvendo-se no seu leito de peritônio. Fez com que eles provassem o rico pseudossangue de que ele se nutria. Explicou por que ele precisava ser estimulado com placentina e tiroxina. Falou do extrato de corpo amarelo. Mostrou as canaletas pelas quais, a cada doze metros entre zero e dois mil e quarenta, ele era injetado automaticamente. Falou das doses gradativamente maiores de extrato de pituitária, administradas durante os últimos noventa e seis metros do percurso. Descreveu a circulação materna artificial instalada em cada bocal no metro cento e doze; mostrou o reservatório de pseudossangue, a bomba centrífuga que mantinha o líquido em movimento acima da placenta e o impelia através do pulmão sintético e do filtro de resíduos. Referiu-se à perigosa tendência do embrião para a anemia; às doses maciças de extrato de estômago de porco e de fígado de feto de potrilho que, por isso, era preciso fornecer-lhe.

Mostrou-lhes o mecanismo simples por meio do qual, durante os dois últimos metros de cada percurso de oito, eram sacudidos simultaneamente todos os embriões para se familiarizarem com o movimento. Aludiu à gravidade do chamado “trauma da decantação” e enumerou as precauções tomadas para reduzir ao mínimo, por um adestramento apropriado do embrião no bocal, esse choque perigoso. Falou-lhes das provas de sexo efetuadas nas proximidades do metro duzentos. Explicou o sistema de rotulagem – um T maiúsculo para os machos, um círculo para as fêmeas e, para aquelas destinadas a ficarem neutras, um ponto de interrogação preto sobre fundo branco” (HUXLEY, 2015, p. 31-32).

Deu para vislumbrar como se dão os nascimentos dos membros da sociedade por meio das incubadoras? Sentiram-se numa espécie de linha de produção? Pois, isso não é mero acaso, afinal, tudo está acontecendo no ano 632 depois de Ford. Sim, ele mesmo, Henry Ford – o empreendedor conhecido mundialmente pela concepção das linhas de montagem automobilísticas, em série, cujo interesse era produzir o máximo em menos tempo e com isso aumentar cada vez mais os lucros; aquele que serviu de inspiração para a crítica sutil e incisiva de Charles Chaplin em Tempos Modernos.

Ford, aqui, assume ares de ícone máximo de reverência, afinal “Deus está morto”, como bem diria Nietzsche, em Assim Falava Zaratustra; e outra, para quê serviria um Deus numa sociedade cujo adestramento e condicionamento é pautado pela tecnologia/autoritarismo do Estado? Nesta sociedade não existe religião, não existem laços familiares, aliás, inverdade minha, até existem, mas na comunidade indígena que vive à parte da civilização, e justamente por isso são considerados selvagens, abominações. Na sociedade perfeita, o amor é proibido, o sexo estimulado, a droga é acessório comum e diário para manter a alienação, e os homens, bem, foram condicionados biologicamente a obedecerem sem questionar, mera massa de manobra que faz pulsar a sociedade fordiana, seres humanos destituídos de poder, apenas escravos que amam a sua servidão.

Folha de rosto Admirável Mundo Novo.

 

– Nós também predestinamos e condicionamos. Decantamos nossos bebês sob a forma de seres vivos socializados, sob a forma de Alfas ou de Ípsilons, de futuros carregadores ou de futuros… – ia dizer “futuros Administradores Mundiais”, mas, corrigindo-se, completou: – futuros Diretores de Incubação.

[…]

– Mas, por que precisamos manter o embrião abaixo do normal? – perguntou um estudante ingênuo.

– Que asno! – disse o Diretor, rompendo um longo silêncio. -Não lhe ocorreu que, para um embrião de Ípsilon, é preciso um meio de Ípsilon, tanto quanto uma hereditariedade de Ípsilon?

Evidentemente, não lhe havia ocorrido essa ideia. Ficou encabulado.

– Quanto mais baixa é a casta – disse o sr. Foster – , menos oxigênio se dá.

[…]

– Mas, nos Ípsilons – disse com muita propriedade o sr. Foster – nós não precisamos de inteligência humana.

Não precisavam dela e não a obtinham. Mas, ainda que nos Ípsilons o espírito estivesse maduro aos dez anos, eram necessários dezoito para que o corpo ficasse em condições para o trabalho. Que longos anos de imaturidade, supérfluos e desperdiçados! Se se pudesse acelerar o desenvolvimento físico até torná-lo tão rápido, digamos, como o de uma vaca, que enorme economia para a Comunidade! (HUXLEY, 2015, p. 33-34).

A sociedade é dividida em castas; assim, temos os alfas (mais elevados na escala social) e caracterizados pela cor cinza, os betas/cor amora, gamas/cor verde, delta/cor cáqui e, por fim, os ípsilons/cor preta.

Cada um trabalha para todos. Não podemos prescindir de ninguém. Até os Ípsilons são úteis. Não poderíamos passar sem os Ípsilons. Cada um trabalha para todos. Não podemos prescindir de ninguém… (HUXLEY, 2015, p. 99).

Percebemos claramente as intervenções que são realizadas, durante a concepção do embrião, de modo a determinar o tipo de cidadão que se pretende criar para a manutenção do estado de bem estar social e da ordem, para a manutenção do lema “Comunidade, Identidade, Estabilidade”. Atrelado a isso, outro aspecto interessante, que se estende para além da vida embrionária, diz respeito às lições hipnopédicas, que compreendem as técnicas de ensino que ocorriam durante o sono, técnicas essas que fortaleciam o condicionamento do indivíduo diante do futuro que lhe estava sendo reservado, afinal, para quê um ser pensante e que toma as próprias decisões, né? Vamos é fazer de tudo para extirpar toda e qualquer possibilidade destes indivíduos serem sujeitos, vamos torná-los meramente clones que sustentarão a estabilidade social.

A maioria das alusões ao livro retratam-no como obra de ficção científica e, de fato, para a década de 30, muito do que estava escrito não passava de mera inventividade de uma mente prodigiosa e que sempre teve muita informação pertinentemente favorável em tempo (não raras as referências aos membros da família Huxley e seus feitos na biologia, suas relações na política, etc.), mas hoje em dia, percebemos que, na verdade, o arauto dos tempos modernos já nos dava boas pistas do futuro iminente.

Se no livro muitos episódios assumem ares de invencionice absurda, a realidade, infelizmente, nos provou e prova diariamente o quanto temos sido superiores na arte de usurpar vidas e ceifar sociedades, que o diga a infâmia da eugenia, enquanto ideia fixa na mente da sociedade nazista alemã; os extermínios recorrentes no continente africano, as barbáries promovidas pela organização terrorista ISIS, sem falar nas pequenas doses diárias de ultrajantes golpes desferidos em nome da estabilidade políticoeconômica e para os quais nos mantemos à parte e inertes (as nossas periferias vivenciam isso cotidianamente), e olhe que sem o uso do Soma – a droga alienante da fuga e do esquecimento.

No universo de Huxley, estão todos mortos e sepultados; os deuses, o Cristianismo, o Liberalismo, a Democracia, a Monogamia, as Doenças, a Sujeira, os Clássicos da literatura, a Paixão, o Amor, a Velhice, a Solidão, a Intelectualidade, a Arte… E, para todo e qualquer mal-estar, raiva, mau-humor, cansaço, angústia, ou quem sabe, pensamento próprio, havia o Soma.

O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregados de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem (HUXLEY, 2015, p. 264).

O prato perfeito para um Estado que detém total poder e controle. Como dizem por aí, “cada povo tem o governo que merece”, e eu completo, e paga pela sua impotência e ignorância.

Aqui, inclusive, faz-se necessário uma breve alusão aos Senhores Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis, quando em seu livro – Cegueira Moral – atestam que “a literatura distópica descreveu os pesadelos do século XX. Nós de Zamyatin, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell e Escuridão Ao Meio-Dia de Arthur Koestler (embora este último se qualifique em menor grau para o clube dos romances de advertência) previram essas simulações de realidade, ou fabricações de consciência, que eram (e continuam a ser) profunda e marcadamente características do mundo dos modernos meios de comunicação de massa” (DONSKIS e BAUMAN, 2014, p. 88).

Aldous Huxley.

Encontramos várias referências ao momento histórico que lhe cerca (como é o caso do período entre guerras) e alusões a várias referências importantes, como Karl Marx (inclusive, o sobrenome de um dos principais personagens, não à toa, recebe a alcunha de Marx), Sigmund Freud, Charles Darwin, Napoleão Bonaparte e uma série de outras influências que lhe são caras. Todavia, faz-se necessário um parênteses especial para as obras de William Shakespeare (Otelo, O Rei Lear, Romeu e Julieta, Hamlet, etc.) que são as responsáveis, juntamente com a presença da Bíblia Sagrada, por impingir de humanidade a alma do nosso querido Sr. Selvagem, vulgo John.

Engraçado é que, à princípio, me envolvi com o Bernard por acreditar que, de fato, ele tivesse uma alma altruísta e o apelo social que, aparentemente, transparecia. Mas, fui obrigada a resignar-me quando percebi que ele era, senão, mais do mesmo, um vaidoso egocêntrico, de todo modo, essencial para o desenrolar da trama. Até mesmo o Helmholtz fica a desejar e quando, enfim, havia recolhido-me à minha insignificância, aceitado que minhas expectativas na humanidade eram tolas e vãs, eis que o Sr. Selvagem serve a sua densa consciência num prato raso, porém fausto e quente. A humanidade, também aqui, poderia ser cunhada como a última que morre.

Valeu, Sr. Huxley!

* HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Globo, 2014, 22.ª edição.

* BAUMAN, Zygmunt. DONSKIS, Leonidas. Cegueira Moral. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

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12 comentários sobre “Resenha: Admirável Mundo Novo

  1. após semanas timidamente aqui volto
    boa resenha, a qual de fato li, após ver o filme Gattaca citado no primeiro parágrafo

    este livro, que li no ensino médio, me acompanhou por anos
    e sempre a admirável o selvagem, por sua compaixão e tragédia, o martir do humanismo, num mundo frio e de castas, um mundo dependente químico somático

    o li na aula de biologia, a profa. demonstrou que de certo modo estamos no admirável mundo novo, isso já na década de 90…..

    semana retrasada li parte do prefácio deste livro em alemão na saraiva do Eldorado. Explicou nela como o livro foi feito, após uma viagem de Huxley pelos EUA; o que é utopia, o seu objetivo era o de crítica o capitalismo globalizado, em excesso de produção e fetichismo da mercadoria.

    Curtido por 1 pessoa

  2. História Fantástica.
    Leitura Deliciosa.
    Que final… Meu Deus!
    Esse livro prendeu minha atenção do início ao fim.
    E esse tal Processo Bokanovsky?
    Sei não, viu.

    Lanee… ótima resenha. Presente maravilhoso!
    Obrigada.

    ADOREI!

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