Prêmio Dardos

 

premiodardos.

 

Curioosos, Prêmio Dardos chegou aqui por intermédio de duas queridas, a Bia Constante e a Laynne Cris, assim, daremos continuidade à brincadeira passando o bastão para 15 outros blogueiros, que fazem a diferença em nosso cotidiano, e que também farão as suas grandes indicações. Só lembrando que a idealização desse prêmio é do Alberto Zambade, cuja criação data de 2008, e seu objetivo era reconhecer os esforços dessa galera que diariamente se empenha em transmitir ideias, valores, conhecimentos e mensagens bacanas para os zilhares de navegantes da blogosfera, além, é claro, de tentar aproximar mais ainda esse povo lindo de meu Deus.

Continuar lendo Prêmio Dardos

Resenha: Tonio Kröger

Kröger.

À primeira vista, uma novela insossa. À primeira vista, mas como bem diz o ditado: “águas paradas são profundas”, então, tenhamos muito, muito cuidado com aquilo que se nos apresenta como raso, pois, na verdade, são também nessas águas que encontramos pano pra manga e, quiçá, para revoluções imanentes, cujo poder de mudança age desde a sua fonte no dna, e acaba por eclodir num potencial catártico transcendente ao exterior.

Continuar lendo Resenha: Tonio Kröger

Resenha: A Morte em Veneza

A morte em Veneza.

Recentemente, reli O Retrato de Dorian Gray e, sincronia ou não?, eis que há pouco termino a leitura de A Morte em Veneza. Apesar de serem histórias diferentes, ambas carregam um contextual parecido, abordam o homossexualismo e demonstram os diversos comportamentos das sociedades perante autor e obra.

Publicado em 1890, o romance O Retrato de Dorian Gray foi duramente criticado, censurado e visto como imoral pela sociedade vitoriana. Oscar Wilde, que foi casado, teve filhos e separou-se para viver as relações que de fato lhe apeteciam a alma, foi condenado e preso por relacionar-se com outros homens. Passa de uma carreira de sucesso estrondoso à uma vida de necessidades sem, contudo, deixar de produzir, ao contrário, ficara mais acurado e perspicaz em sua arte.

Já a novela A Morte em Veneza, lançada em 1912, que também traz um tom de autobiográfico no que tange aos desejos homossexuais do autor, não passou por esse crivo coercitivo. Se o fato de Thomas Mann ter se casado, tido seis filhos, e quem sabe?, ter-se anulado em prol da sociedade, de uma vida de aparências, favoreceu tamanha aceitação, eu não saberia explicar no momento, o fato é que me deixou com uma pulguinha atrás da orelha, até porque sabemos que a política das convenções e conveniências sociais solapam os seres humanos e não é de agora. Entretanto, o que tento observar, é que, se os artistas exprimem suas artes baseados em si e no mundo que os rodeia, também nós, podemos depreender um pouco das vossas dores partindo da leitura das suas ações, produções e comportamentos. Aonde quero chegar com isso? Bom, se havia repressão no ar e se isso castrou alguma fagulha de vida no Mann, o fato é que nem por isso ele deixou de transmiti-la ao mundo, e perceberemos isso do primeiro ao último parágrafo do livro, mas o mais interessante é que, à despeito de quaisquer julgamentos pessoais, neste caso, a sociedade parecia impulsioná-lo ao Prêmio Nobel de Literatura. Curioso esse mundo, não? Quais interesses estariam incrustados aí? Ai ai, quem me dera uma máquina do tempo para trazer certos autores aos instantes nossos e descobrir o que eles achariam desse mundo. Será que reescreveriam suas histórias? Será que as mudariam completamente? Será que estariam orgulhosos dos avanços da sociedade? Será que revolucionariam as engrenagens do estado e suas políticas públicas e de direitos humanos? Talvez estejam em outras dimensões convergindo energias construtivas para a mudança dos paradigmas e contribuindo para nossa entrada na Era de Aquário… Tantas possibilidades… Contudo, ainda que mortos, vossos legados atemporais de reflexão permanecem vivos, diria até que mais pulsantes do que nunca.

Sigamos com a obra!

Continuar lendo Resenha: A Morte em Veneza

Cem anos de solidão

E então viu o menino. Era um pedaço de carne inchada e ressecada, que todas as formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente até suas tocas pela vereda de pedras do jardim. Aureliano não conseguiu se mexer. E não porque estivesse paralisado pelo estupor, mas porque naquele instante prodigioso as chaves definitivas de Melquíades se revelaram, e viu a epígrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada no tempo e no espaço dos homens: O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas.

Em nenhum ato de sua vida Aureliano foi mais lúcido do que quando esqueceu os mortos e a dor de seus mortos e tornou a pregar as portas e as janelas com as cruzetas de Fernanda para não se deixar perturbar por nenhuma tentação do mundo, porque então sabia que nos pergaminhos de Melquíades estava escrito o seu destino. Encontrou-os intactos, entre as plantas pré-históricas e os charcos fumegantes e os insetos luminosos que haviam desterrado do quarto qualquer vestígio da passagem dos homens pela terra, e não teve serenidade para levá-los até a luz, mas ali mesmo, de pé, sem a menor dificuldade, como se tivessem sido escritos em castelhano debaixo do resplendor deslumbrante do meio-dia, começou a decifrá-los em voz alta. Era a história da família, escrita por Melquíades nos seus detalhes mais triviais, com cem anos de antecipação. Tinha redigido em sânscrito, que era sua língua materna, e havia cifrado os versos pares com os códigos pessoais do imperador Augusto, e os ímpares com códigos militares da Lacedemônia. A chave final que Aureliano começava a vislumbrar quando se deixou confundir pelo amor de Amaranta Úrsula, tinha sua raiz no fato de Melquíades não ter ordenado os fatos no tempo convencional dos homens, mas concentrado um século de episódios cotidianos, de maneira que todos coexistissem num mesmo instante. Fascinado pelo achado, Aureliano leu em voz alta, sem saltos, as encíclicas cantadas que o próprio Melquíades fizera Arcádio escutar, e que na realidade eram as predições de sua execução, e encontrou anunciado o nascimento da mulher mais bela do mundo que estava subindo aos céus de corpo e alma, e conheceu a origem dos gêmeos póstumos que renunciavam a decifrar os pergaminhos, não apenas por incapacidade e inconstância, mas porque suas tentativas eram prematuras. Neste ponto, impaciente por conhecer sua própria origem, Aureliano deu um salto. Então começou o vento, morno, incipiente, cheio de vozes do passado, de murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às nostalgias mais tenazes. Não o percebeu, porque naquele momento estava descobrindo os primeiros indícios de seu ser num avô concupiscente que se deixava arrastar pela frivolidade através de um páramo alucinado, à procura de uma mulher formosa que ele faria feliz. Aureliano reconheceu-os, perseguiu os caminhos ocultos de sua descendência, e encontrou o instante de sua própria concepção entre os escorpiões e as borboletas amarelas de um banheiro crepuscular, onde um peão de oficina saciava sua luxúria com uma mulher que entregava a ele por rebeldia. Estava tão absorto, que tampouco sentiu a segunda arremetida do vento, cuja potência ciclônica arrancou as portas e as janelas dos umbrais, destroçou o telhado da varanda oriental e desenraizou os alicerces. Só então descobriu que Amaranta Úrsula não era sua irmã e sim sua tia, e que Francis Drake tinha assaltado Riohacha somente para que eles pudessem se buscar pelos labirintos mais intrincados do sangue, até engendrarem o animal mitológico que haveria de pôr fim à estirpe. Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando conforme vivia esse instante, profetizando a si mesmo no ato de decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra (MARQUES, 2014, p. 444-446).

Continuar lendo Cem anos de solidão

Resenha: O Retrato de Dorian Gray

O Retrato de Dorian Gray.

Lembram daquelas coleções que acompanhavam as assinaturas de jornais? Pois, foi assim que tive acesso a esta obra, nos idos de 1999, e lembro que fiquei encantada. Recordo também que só uma ideia me passava pela cabeça “como é possível não filmarem este roteiro com o Jude Law por Dorian Gray?”. E não era só pelo fato dele ser britânico não, mas é que, na minha cabeça, a descrição da personagem havia sido esculpida e encarnada sob a efígie dele. Talvez, isso me tenha repelido à película lançada em 2009, inclusive, nessa época eu, simplesmente, não vislumbrava, não tinha alcance de quem poderia interpretar o Lorde Henry Wotton, para mim, ainda não havia nascido o cara ou, até então, ele ainda não havia alçado voo. Hoje, nos meus mais claros pensamentos ele é o Lorde Henry Wotton – Benedict Cumberbatch.

Continuar lendo Resenha: O Retrato de Dorian Gray

Caminhos…

Dreams

Dia desses, na verdade, um dia desses de 2012, estava eu numa aula de filosofia e com a cabeça atulhada de pensamentos. Não havia como prestar atenção, não havia como estar ali porque não era só questão de juízo, era questão de alma, então, sai da sala e fui pro ponto de ônibus. Tava puta mesmo com a vida, farta. Inquirindo Deus por tudo, mas sem compreender nada, comunicação unilateral, pois estava congestionada.

No ponto, enquanto o ônibus não chegava e a minha paciência estourava e fuzilava qualquer um por meio do olhar, eis que me deparo com a seguinte cena: um louco, para o carro bruscamente numa via de tráfego ligeiramente intenso (leia-se 15 h, numa mão única); os dois carros de trás pararam também bruscamente, por sorte não colidiram, e os ônibus continuaram a passar pela direita. Esse “louco” sai do carro deixando a porta aberta e corre no meio da rua. Eu penso, “puta merda, lá vem confusão, a energia tá pesada” e continuo puta.

Continuar lendo Caminhos…

Resenha: O Segundo Sexo

Algum motivo especial para trazer esta leitura, Elaine? Será que precisa de um motivo especial para tentarmos entender historicamente o porquê de, ainda hoje, tantas mulheres sofrerem violência física, psicológica ou verbal? Será que precisamos de um motivo especial para entender o porquê de ainda ganharmos aquém dos homens nas mais diversas áreas de trabalho, mesmo realizando as mesmas funções? Será, realmente, necessário entender porque ainda carregamos no inconsciente o peso dos grilhões da submissão e nos deixamos inferiorizar por isso sem gritar um basta? Será tão difícil compreender que, para além da necessidade sexual, a importância da mulher converge, inclusive, ou sobretudo, na pirâmide econômica de um país? Pois, conhecer de onde partiu e quais foram as desbravadoras do mainstream filosófico político econômico é mais do que uma leitura de férias, é uma necessidade, e mais, não apenas para as mulheres, os homens que se valham também precisam atentar para as verdadeiras lutas de classes e saber, exatamente, onde e como precisarão estar. Os tempos podem até ser outros, mas o pragmatismo insidioso ousa reinar, não absoluto, mas renitente; portanto, mais do que nunca a história surge e resiste  para nos manter à salvo da ignorância e da selvageria. Uma ode ao conhecimento!!

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir.

Continuar lendo Resenha: O Segundo Sexo