Resenha: O Segundo Sexo

Algum motivo especial para trazer esta leitura, Elaine? Será que precisa de um motivo especial para tentarmos entender historicamente o porquê de, ainda hoje, tantas mulheres sofrerem violência física, psicológica ou verbal? Será que precisamos de um motivo especial para entender o porquê de ainda ganharmos aquém dos homens nas mais diversas áreas de trabalho, mesmo realizando as mesmas funções? Será, realmente, necessário entender porque ainda carregamos no inconsciente o peso dos grilhões da submissão e nos deixamos inferiorizar por isso sem gritar um basta? Será tão difícil compreender que, para além da necessidade sexual, a importância da mulher converge, inclusive, ou sobretudo, na pirâmide econômica de um país? Pois, conhecer de onde partiu e quais foram as desbravadoras do mainstream filosófico político econômico é mais do que uma leitura de férias, é uma necessidade, e mais, não apenas para as mulheres, os homens que se valham também precisam atentar para as verdadeiras lutas de classes e saber, exatamente, onde e como precisarão estar. Os tempos podem até ser outros, mas o pragmatismo insidioso ousa reinar, não absoluto, mas renitente; portanto, mais do que nunca a história surge e resiste  para nos manter à salvo da ignorância e da selvageria. Uma ode ao conhecimento!!

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir.

Nascida em 1908, Simone de Beauvoir teve uma educação católica, formou-se em filosofia na Sorbone, lecionou até 1943 e, para nossa sorte, escreveu diversos livros cuja bagagem serve, quando não muito, para tirar as vendas dos olhos de milhares de indivíduos; livros que tratam da condição da mulher TAMBÉM, mas não apenas; livros que desbravam os limites impostos, as conjunturas sóciopolíticoeconômicas ao redor do globo e sempre sob uma perspectiva filosófica acurada e, por quê não?, didática – SIM, sua linguagem é bastante prática.

Volume 1 - Fatos e Mitos - Simone de Beauvoir.

Neste exemplar, encontramos os dois volumes da obra, que aparecerão subdivididos pelos capítulos que serão trabalhados à seguir. Não vejo outra alternativa que não esta, trabalhar por capítulos, pois temo perder pontos imprescindíveis na tentativa vã de ser breve; sou dessas que prefere pecar pelo excesso ao invés da falta, como nos infere o dito popular.

Dedicatória - Simone de Beauvoir.

Publicado em 1949, O Segundo Sexo, traz em sua introdução as questões que sacudiam o tempo e a consciência da autora: “o que é uma mulher? Por que as mulheres não contestam a soberania do macho? Como tudo isso começou? Por que este mundo sempre pertenceu aos homens e só hoje as coisas começam a mudar? Trará ou não uma partilha igual do mundo entre homens e mulheres? Em que o fato de sermos mulheres terá afetado a nossa vida? Que possibilidades nos foram oferecidas, exatamente, e quais nos foram recusadas? Que destino podem esperar nossas irmãs mais jovens e em que sentido convém orientá-las? Como pode realizar-se um ser humano dentro da condição feminina? Que caminhos lhe são abertos? Quais conduzem a um beco sem saída? Como encontrar a independência no seio da dependência? Que circunstâncias restringem a liberdade da mulher, e quais pode ela superar?“.

Pois, estes são alguns dos questionamentos que teremos o prazer de analisar sob a sua perspectiva, cuja capacidade argumentativa pareia com os contemporâneos de seu tempo como Sartre e Heidegger, além de outras referências que lhe são caras.

Primeira parte - Destino - Simone de Beauvoir.

Sejam mulheres, permaneçam mulheres, tornem-se mulheres” (BEAUVOIR, 2009, p. 13).

1 - Os dados da biologia - Simone de Beauvoir.

“A mulher? É muito simples, dizem os amadores de fórmulas simples: é uma matriz, um ovário; é uma fêmea, e esta palavra basta para defini-la. Na boca do homem o epíteto “fêmea” soa como um insulto; no entanto, ele não se envergonha de sua animalidade, sente-se, ao contrário, orgulhoso se dele dizem: “É um macho!” O termo “fêmea” é pejorativo não porque enraíza a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo. E se esse sexo parece ao homem desprezível e inimigo, mesmo nos bichos inocentes, é evidentemente por causa da inquieta hostilidade que a mulher suscita no homem; entretanto, ele quer encontrar na biologia uma justificação desse sentimento. A palavra fêmea sugere-lhe um chusma de imagens: um enorme óvulo redondo abocanha e castra o ágil espermatozoide; monstruosa e empanturrada, a rainha dos térmitas reina sobre os machos escravizados; a fêmea do louva-deus e a aranha, fartas de amor, matam o parceiro e o devoram; a cadela no cio erra pelas vielas, deixando atrás de si um rastro de odores perversos; a macaca exibe-se impudentemente e se recusa com faceirice hipócrita; as mais soberbas feras, a tigresa, a leoa, a pantera, deitam-se servilmente para a imperial posse do macho. Inerte, impaciente, matreira, estúpida, insensível, lúbrica, feroz, humilhada, o homem projeta na mulher todas as fêmeas ao mesmo tempo. E o fato é que ela é uma fêmea. Mas se quisermos deixar de pensar por lugares-comuns duas perguntas logo se impõem: Que representa a fêmea no reino animal? E que espécie singular de fêmea se realiza na mulher? (BEAUVOIR, 2009, p. 35).

Se a tentativa era a de buscar na biologia argumentos plausíveis para reduzir a mulher, pura e simplesmente, à uma opção sexual, falivelmente, tais tentativas caíram por terra. Simone não tenta demonstrar preponderância da mulher sobre o homem, de modo algum, através de argumentos bastante práticos somos conduzidos a uma realidade de complementaridade, pois, invariavelmente, os organismos foram feitos de modo a se completar e, a partir de então, darem seguimento à manutenção das espécies. Isto posto, somos levados a refletir que, se não há motivos para essa sublimação da mulher em prol do homem, por que ela ocorre? O tempo inteiro refletiremos as questões que nos alertam para a desigualdade dos sexos.

“Há, na vida, dois movimentos que se conjugam; ela só se mantém em se superando e só se supera com a condição de se manter. Esses dois movimentos realizam-se sempre juntos, pensá-los separados é pensar abstratamente. Entretanto, é ora um, ora outro que domina. Em sua união, os dois gametas superam-se e perpetuam-se ao mesmo tempo, mas o óvulo, em sua estrutura, antecipa as necessidades futuras. É constituído de maneira a nutrir a vida que despertará nele. Ao contrário, o espermatozoide não está absolutamente equipado para assegurar o desenvolvimento do germe que suscita. Em compensação, o óvulo é incapaz de provocar a mudança que suscitará uma nova explosão de vida; ao passo que o espermatozoide se desloca. Sem a previdência ovária, sua ação seria vã; mas, sem sua iniciativa, o óvulo não cumpriria suas possibilidades ativas. Logo, concluímos que, fundamentalmente, o papel dos dois gametas é idêntico: criam juntos um ser vivo em que ambos se perdem e se superam” (BEAUVOIR, 2009, p. 45).

É lindo perceber como ela dá uma excelente aula de biologia e embriologia para explicar a origem dos gametas femininos e masculinos, suas funções, seus objetivos, suas evoluções. Neste capítulo, em especial, eu só pensava o seguinte, “Por que não tive acesso a este livro quando da minha passagem pelos componentes de biologia molecular e celular e embriologia?” Rsrsrrs… É verdade, ter outras perspectivas para estes componentes curriculares abrem a nossa linha do horizonte, inclusive, para que ideias novas surjam para quem está caçando temas para o trabalho de conclusão de curso (TCC).

Por outro lado, sempre me irritou o aspecto arrogante com que determinados professores expõem suas aulas (salvo raríssimas exceções) e, sinto informar, na área da saúde isso ocorre com bastante frequência, o que até certo ponto, tira o brilho de determinados conteúdos. Acredito que os verdadeiros mestres têm prazer em expor suas aulas de modo a, muito além do estímulo à confiança mútua, também alçar voos pelos mais variados aspectos da criatividade e, sinceramente, a literatura, a filosofia, a sociologia estão aí, livres, postas e dispostas a contribuir com seus universos mágicos. Não gritamos aos quatro cantos do mundo que precisamos ser inter, multi e transdisciplinares? Então… Até porque, um sujeito que tem a capacidade de refletir a condição do outro sob os pilares da ética e da filosofia, e olhe que não estou nem pedindo empatia porque sei que isso não funciona para todos, estou sendo bem humilde; se o sujeito consegue refletir sobre aspectos filosóficos, políticos e econômicos, ainda que no raso da sua consciência, com certeza, terá fugido ao puro instinto que protege e projeta, para o futuro, apenas o seu umbigo. Por isso, e mais uma vez, reforço que os argumentos utilizados com base na biologia só reiteram a complementaridade do homem para com a mulher, para com a natureza e para com as outras espécies, afinal, somos todos um só organismo vivo.

“Com o advento do patriarcado, o macho reivindica acremente sua posteridade; ainda se é forçado a concordar em atribuir um papel à mulher na procriação, mas admite-se que ela não faz senão carregar e alimentar a semente viva: o pai é o único criador. Aristóteles imagina que o feto é produzido pelo encontro do esperma com o mênstruo; nessa simbiose a mulher fornece apenas uma matéria passiva, sendo o princípio masculino força, atividade, movimento, vida. É essa também a doutrina de Hipócrates, que reconhece duas espécies de sêmens: um fraco ou feminino e outro forte, masculino. A teoria aristotélica perpetuou-se através de toda a Idade Média e até a época moderna” (BEAUVOIR, 2009, p. 40).

Observemos como se dão as relações, HOJE, com as mulheres no Oriente Médio, como a burca esconde todo tipo de interesse sexual por baixo do reduto religioso. Observemos como a prática milenar de extirpar o clitóris de milhares de jovens, em diversas comunidades africanas, surge para reduzir ao nada o potencial feminino. Observemos como aspectos políticos, sociais, econômicos e religiosos interferem na condição da mulher e, sejamos muito honestos, raramente para dispor de políticas públicas; o que mais percebemos são os casos de estupro, que resvalados ao inconsciente por medo e vergonha só se multiplicam, os casos de agressão física, os casos de perseguição e assassinato, enfim, uma gama de acontecimentos que gritam por meio de números e evidências o quanto são absurdos e arraigados no inconsciente coletivo, mas que perpetuam-se causando danos atemporais.

Lembro de duas cenas no cinema que me deixaram angustiada pela brutalidade e que, só de pensar que são comuns, causa mais revolta ainda, todavia, no decorrer dessas cenas verificamos como a sociedade reage diferentemente à situações parecidas quando elas ocorrem nos diferentes sexos. Em Pulp Fiction, a personagem do Bruce Willis (Butch) e do Ving Rhames (Marsellus) são pegos pelo suposto policial Zed, levados para os fundos de uma loja, e por meio de um joguete ele opta por começar os trabalhos do dia – o estupro – pelo Marsellus (Ving). É escroto, é ultrajante, é absurdo porque ninguém merece passar por isso. Você só sente a onda de serotonina baixar quando o escroto recebe o troco e, como numa irmandade, os dois homens que antes se enfrentavam, depois disso, se acumpliciam.

Já em Boys Don’t Cry, a personagem da Hilary Swank, que apresenta-se como transgênero e se apaixona pela mocinha do filme recém-separada do namoradinho bad boy, é brutalmente estuprada e fica por isso mesmo. É simplesmente abominável, inexpugnável, mas o quê acontece? Também aqui a violência foi usada como recurso para fazer a justiça com o boyzinho? Não que eu queira, e não estou defendendo o “o olho por olho dente por dente”, não é disso que se trata. Não, meus caros!! Entretanto, preciso fazer duas ressalvas, o temperamento explosivo do Tarantino é nosso velho conhecido e a obra dele é uma ficção, ao contrário do drama dirigido pela Kimberly Peirce; a história é baseada em fatos reais e não houve o acumpliamento nem a repercussão da mídia em prol de novas medidas públicas para o combate à violência contra as mulheres e homossexuais. A dureza da realidade que paira sobre isso é esta – a praticidade ou a indiferença diante dos casos de gêneros.

“É, portanto, à luz de um contexto ontológico, econômico, social e psicológico que teremos de esclarecer os dados da biologia. A sujeição da mulher à espécie, os limites de suas capacidades individuais são fatos de extrema importância; o corpo da mulher é um dos elementos essenciais da situação que ela ocupa neste mundo. Mas não é ele tampouco que basta para a definir. Ele só tem realidade vivida enquanto assumido pela consciência através das ações e no seio de uma sociedade; a biologia não basta para fornecer uma resposta à pergunta que nos preocupa: por que a mulher é o Outro? Trata-se de saber como a natureza foi nela revista através da história; trata-se de saber o que a humanidade fez da fêmea humana” (BEAUVOIR, 2009, p. 70).

2 - O ponto de vista psicanalítico - Simone de Beauvoir.

Simone tenta desconstruir algumas contribuições propostas por Freud que ajudaram a sedimentar o aspecto sexual e genital da mulher, tão somente. Ela aponta ainda que Freud reconhece a libido sexual feminina como sendo tão evoluída quanto a do homem, todavia, não a estuda, ao contrário, “a vê como um desvio complexo da libido humana em geral”. Então, ela mostra as abordagens freudianas que competem aos dois sexos, como é o caso da fase oral, a fase anal e a fase genital quando, nesta última, se diferenciam as versões feminina e masculina.

Salienta ainda qual foi o diferencial no que tange às concepções freudianas concernentes ao aspecto do erotismo. No aspecto masculino, este localiza-se diretamente no pênis, ao passo que na mulher, encontra-se dividido em duas fases, a clitoridiana (estágio infantil) e a vaginal (após a puberdade). Outro aspecto que precisa ser levado em consideração diz respeito ao “complexo de Édipo”, que confere ao jovem uma fixação na mãe ao passo em que quer identificar-se com o pai e, por medo de que o pai possa puni-lo ou mutilá-lo, surge o “complexo da castração”, derivando em sentimentos de agressividade em relação ao pai em concomitância à aceitação da sua autoridade. Com seu desenvolvimento, essas tendências incestuosas ficam recalcadas, o complexo desaparece e o filho consegue superar o pai que havia instaurado dentro de si, alcançando por fim a libertação.

No que tange à menina, o “complexo de Electra”, inicialmente, ocorre por meio de uma fixação na figura materna; somente por volta dos cinco anos de idade é que a fixação passa à figura paterna, que é quando ocorre a descoberta da diferença anatômica dos sexos, o que a leva à uma reação de “castração” por reconhecer-se despossuída de pênis, mutilada, com isso a menina poderia vir a reagir recusando sua feminilidade, tornando-se frígida ou homossexualizada. Neste ponto, Simone não se faz de rogada e lança forte crítica à Freud, pois acredita que o “complexo de Electra” fora formulado pautando-se num modelo masculino, o que não comportaria a essência da mulher, tornando, portanto, a teoria muito vaga.

E ela arremata a sua assertiva da seguinte forma “é somente no momento da puberdade, em ligação com o erotismo vaginal, que se desenvolvem no corpo da mulher várias zonas erógenas. Dizer que na criança de dez anos os beijos e as carícias do pai têm “uma aptidão intrínseca” para despertar o prazer clitoridiano é uma asserção que na maioria dos casos não tem qualquer sentido”.

“Para nós, a mulher defini-se como ser humano em busca de valores no seio de um mundo de valores, mundo cuja estrutura econômica e social é indispensável conhecer; nós a estudaremos numa perspectiva existencial através de sua situação total” (BEAUVOIR, 2009, p. 85).

3 - O ponto de vista do materialismo histórico - Simone de Beauvoir.

E, por fim, alcançamos o ponto de vista do materialismo histórico cujo enfoque beauvoiriano expõe que, desde a Idade da Pedra, enquanto a mulher participava igualmente da vida econômica (e aqui ela faz uso da perspectiva histórica de Engels em A Origem Da Família), havia igualdade, pois se os homens caçavam e pescavam, as mulheres lidavam com a jardinagem e a tecelagem. Agora, a partir do momento em que ocorre a descoberta do cobre, do ferro e do estanho e à tiracolo surge a necessidade de desbravar mais florestas para tornar os campos mais produtivos, surgem também a propriedade privada, os senhores de escravos e da terra, e eis que o homem ousa tornar-se, fatidicamente, o proprietário da mulher.

“Nisso consiste ‘a grande derrota histórica da mulher'” (BEAUVOIR, 2009, p. 88).

“O direito paterno substitui-se então ao direito materno; a transmissão da propriedade faz-se de pai a filho e não mais da mulher a seu clã. É o aparecimento da família patriarcal baseada na propriedade privada. Nessa família a mulher é oprimida. O homem, reinando soberanamente, permite-se, entre outros, o capricho sexual: dorme com escravas ou hetairas, é polígamo. A partir do momento em que os costumes tornam a reciprocidade possível, a mulher vinga-se da infidelidade: o casamento completa-se naturalmente com o adultério. É a única defesa da mulher contra a servidão doméstica em que é mantida; a opressão social que sofre é a consequência de uma opressão econômica. A igualdade só poderá restabelecer quando os dois sexos tiverem direitos juridicamente iguais, mas essa libertação exige a entrada de todo o sexo feminino na atividade pública” (BEUAVOIR, 2009, p. 89).

Pois, minha querida, infelizmente, ainda não chegamos a esse ponto em que todo o sexo feminino cria consciência de si e do seu papel na sociedade, mas estamos caminhando, ainda que a lentos passos, mas estamos caminhando.

 

* BEAUVOIR, Simone de, 1908-1986. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009, 2. edição, tradução Sérgio Milliet.

 

P.S.// Pauta do próximo post: Segunda Parte – História.

Até lá!!

 

 

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4 comentários sobre “Resenha: O Segundo Sexo

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