Resenha: O Retrato de Dorian Gray

O Retrato de Dorian Gray.

Lembram daquelas coleções que acompanhavam as assinaturas de jornais? Pois, foi assim que tive acesso a esta obra, nos idos de 1999, e lembro que fiquei encantada. Recordo também que só uma ideia me passava pela cabeça “como é possível não filmarem este roteiro com o Jude Law por Dorian Gray?”. E não era só pelo fato dele ser britânico não, mas é que, na minha cabeça, a descrição da personagem havia sido esculpida e encarnada sob a efígie dele. Talvez, isso me tenha repelido à película lançada em 2009, inclusive, nessa época eu, simplesmente, não vislumbrava, não tinha alcance de quem poderia interpretar o Lorde Henry Wotton, para mim, ainda não havia nascido o cara ou, até então, ele ainda não havia alçado voo. Hoje, nos meus mais claros pensamentos ele é o Lorde Henry Wotton – Benedict Cumberbatch.

Bem, sigamos com a história. Um pintor, um amigo por modelo e um quadro a se formar. Um quadro a se formar, Elaine? Desculpa, fui realmente pobre na descrição, mas é que fiquei tentando conceber algo cabível quando, na verdade, não há; este quadro não nasceu, ele coincidiu com a junção dos átomos, moléculas, células e toda a alma do Sr. Dorian Gray somadas às do artista Basil Hallward num cataclismo de pura magia e revés do destino. É, o destino e suas peças… Não poderia me furtar de acrescer à cena uma figura de peso, senão a mais marcante, para o bem e para o mal, o espectador mais influente desta trama artística, o amigo que faria vezes de advogado do diabo de Dorian Gray, o Lorde Henry.

Indo direto ao ponto, Basil acredita que esta pintura representa o estágio máximo de toda a sua arte na terra, a pintura como sagração hors concours da sua alma, isso tudo em virtude da beleza hedonizada do jovem Dorian (e paixão deste para com o mocinho); quanto mais avançava nas pinceladas, mais e mais o jovem imergia na vaidade dos seus traços. Tamanha é a expressão e a insânia por esta beleza que, num dado momento, Dorian exprime o seguinte desejo: “se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!… Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!” (1999, p. 33-34).

E, de fato, isso ocorre. Dorian permanece lindo, triunfante e, imaculadamente, jovem, enquanto que ao quadro cabe envelhecer e expurgar todos os males sob o rigor crível da consciência da alma. Daí vocês me lançam, até parece que escuto suas verbalizações, “sim, Elaine, que novidade tem nisso? Estamos cansados de ver pessoas que topam tudo em nome da beleza, desde os transtornos alimentares, conscientes e inconscientes, chegando aos mais absurdos delírios de consumo de próteses para bater o recorde do Guinness Book. Você, Elaine, não está me trazendo nada novo!”.

Calma gente, vamos encarar algo por trás da beleza, vamos desvendar os mistérios da alma de um homem; vamos principiar pelas injeções de conselhos imorais, egocêntricos e perversos do seu terno amigo Harry, conheceremos seus prazeres e vícios, entenderemos os motivos pelos quais ele se tornou esse ser, e mais, enxergaremos nesse raio-x um homem vazio de princípios tão somente? Não, enxergaremos também, e arriscaria a dizer que principalmente, um homem sem amor, um homem que carece da seiva primaz da vida – o amor.

O Retrato de Dorian Gray..

Basil Hallward é o amigo sincero e coerente, por isso mesmo, considerado o chato que, dentro em breve, será posto de lado e lembrado, apenas, quando da fúria de Dorian pelo fatídico dia em que a pintura foi criada. Em compensação, Harry é a expressão máxima do prazer, do prestígio, da insensatez, da graça, da nobreza, do único espelho que o nosso jovem cobiça. Dorian é totalmente influenciado por Harry, uma marionete que se compraz com o seu papel. Quantos não conhecemos com esse perfil por aí, hein? Digo é nada, só observo!

“Porque influenciar uma pessoa é emprestar-lhe a nossa alma. Essa pessoa deixa de ter ideias próprias, de vibrar com as suas paixões naturais. As suas qualidade não são verdadeiras. Os seus pecados, se é que existe o que se chama pecado, vêm-lhe de outrem. Essa pessoa torna-se o eco da música de outra pessoa, intérprete de um papel que não foi escrito para ela” (WILDE, 1999, p. 25).

Começamos com um Dorian bobo, que se apaixona por uma atriz de um teatro periférico e que enxerga nessa menina a futura mulher dos seus sonhos. Até que, num fatídico dia, ela, transbordante de amor por ele, ignora a sua arte, interpretando as heroínas shakespearianas indolentemente, e com isso acaba por envergonhá-lo diante dos amigos, que a qualificam como uma beleza estonteante, porém péssima atriz, e tal foi a força da repercussão destes comentários no âmago do nosso querido Dorian que ele, simplesmente, corta relações com ela, ali, naquele instante. Mais tarde viria a saber que a donzela comete suicídio por sua causa.

Eis que começa a sanha dos desatinos de Dorian. Em sua face, nada se percebia, mas no quadro começavam a surgir os primeiros sinais de torpeza e maldade, sinais estes que só viriam a crescer de acordo com a conduta do jovem e admoestá-lo por tabela.

“Atrás de toda coisa bela, há sempre um quê de trágico. Para que desabroche a mais insignificante das flores, é necessário o trabalho de mundos” (WILDE, 1999, p. 43).

Sabe, meus queridos, apesar de tudo, sinto pena de Dorian. Nessa loucura que é a sua vida, ele demonstra desde sempre que é um garoto perdido. No início do livro, descobrimos que sua família é nobre e detentora de muitos bens e, à despeito de toda a criteriosidade da etiqueta e da hipocrisia da sociedade, sua mãe havia se apaixonado e fugido com um rapaz pobre e que, mais tarde, correriam os boatos de que a morte deste teria ocorrido em função do intermédio do avó, que havia contratado um brutamontes para assassiná-lo. Com isso, sua mãe morrera em pouco tempo e ele passou a ser criado por este avó que não o suportava e só o mantinha à distância. Sentiram o drama das relações? Sentiram como este quadro viria a susceptibilizar o jovem e expô-lo a toda ordem de torpezas e influências? Nada acontece por acaso e nem toda vida é superficial.

Dorian, tendo tudo e nunca lhe faltando limites, descobre nos prazeres um objetivo de vida e, portanto, entrega-se de corpo e alma, sem pestanejar. Acontece que a cada incursão nesse mundo vasto de ilusões, mais e mais ele afundava em princípios e valores, mais e mais ele chafurdava na lama da maldade e da crueldade. Como um oposto do Rei Midas, tudo o que ele tocava se tornava vil e nefasto, toda gente que dele se aproximava, angariava um final trágico.

Apesar de tudo, a história é divertida, é autêntica, é curioosa e, mesmo o Henry sendo um escrotinho misógino, mesmo sentindo raiva dele em diversos momentos, ele também nos faz rir em tantos outros. E mais, não dá pra não ler e não visualizar as cenas como tendo uma aura nas locações e figurinos e louças e tapetes de Downton Abbey, rsrsrrs…

Mais um crrrrrássico de carteirinha!!!

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!!! Quem quiser fugir de spoilers, corra do filme A Liga Extraordinária (com o Sean Connery <3). 😀

Beijo

P.S.// Os aspectos que tratam do homossexualismo foram, marcantemente, levados em consideração, censurados mesmo, quando do lançamento da obra e diversos cortes foram realizados para que a mesma pudesse ser lançada. A vida e obra do autor também merece atenção e respeito e, apesar dele ter sofrido tanto em seus derradeiros dias, nada tira o brilho e o prestígio dos seus escritos.

  • WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. São Paulo: Biblioteca Folha, 1998.
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4 comentários sobre “Resenha: O Retrato de Dorian Gray

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