Resenha: A Morte em Veneza

A morte em Veneza.

Recentemente, reli O Retrato de Dorian Gray e, sincronia ou não?, eis que há pouco termino a leitura de A Morte em Veneza. Apesar de serem histórias diferentes, ambas carregam um contextual parecido, abordam o homossexualismo e demonstram os diversos comportamentos das sociedades perante autor e obra.

Publicado em 1890, o romance O Retrato de Dorian Gray foi duramente criticado, censurado e visto como imoral pela sociedade vitoriana. Oscar Wilde, que foi casado, teve filhos e separou-se para viver as relações que de fato lhe apeteciam a alma, foi condenado e preso por relacionar-se com outros homens. Passa de uma carreira de sucesso estrondoso à uma vida de necessidades sem, contudo, deixar de produzir, ao contrário, ficara mais acurado e perspicaz em sua arte.

Já a novela A Morte em Veneza, lançada em 1912, que também traz um tom de autobiográfico no que tange aos desejos homossexuais do autor, não passou por esse crivo coercitivo. Se o fato de Thomas Mann ter se casado, tido seis filhos, e quem sabe?, ter-se anulado em prol da sociedade, de uma vida de aparências, favoreceu tamanha aceitação, eu não saberia explicar no momento, o fato é que me deixou com uma pulguinha atrás da orelha, até porque sabemos que a política das convenções e conveniências sociais solapam os seres humanos e não é de agora. Entretanto, o que tento observar, é que, se os artistas exprimem suas artes baseados em si e no mundo que os rodeia, também nós, podemos depreender um pouco das vossas dores partindo da leitura das suas ações, produções e comportamentos. Aonde quero chegar com isso? Bom, se havia repressão no ar e se isso castrou alguma fagulha de vida no Mann, o fato é que nem por isso ele deixou de transmiti-la ao mundo, e perceberemos isso do primeiro ao último parágrafo do livro, mas o mais interessante é que, à despeito de quaisquer julgamentos pessoais, neste caso, a sociedade parecia impulsioná-lo ao Prêmio Nobel de Literatura. Curioso esse mundo, não? Quais interesses estariam incrustados aí? Ai ai, quem me dera uma máquina do tempo para trazer certos autores aos instantes nossos e descobrir o que eles achariam desse mundo. Será que reescreveriam suas histórias? Será que as mudariam completamente? Será que estariam orgulhosos dos avanços da sociedade? Será que revolucionariam as engrenagens do estado e suas políticas públicas e de direitos humanos? Talvez estejam em outras dimensões convergindo energias construtivas para a mudança dos paradigmas e contribuindo para nossa entrada na Era de Aquário… Tantas possibilidades… Contudo, ainda que mortos, vossos legados atemporais de reflexão permanecem vivos, diria até que mais pulsantes do que nunca.

Sigamos com a obra!

A Morte em Veneza nos revela um Thomas Mann encapsulado numa escrita elegante, meticulosa e poética. Conta a história de Gustav Aschenbach, um escritor de aparentemente cinquenta anos, também disciplinado, consagrado e que vem sentindo o peso do dever nas costas. Apesar de reconhecer a importância do ócio, da distração, enquanto fonte de inspiração, sente dificuldade em largar seu trabalho, pois é extremamente ligado às rotinas e hábitos, assim, por obra de um feliz acaso, acaso?, prefiro chamar assim, Aschenbach sentiu-se como que chamado no íntimo para a necessidade de vivenciar novas aventuras, de relembrar sensações de momentos vividos em lembranças boas e que lhe impunham saudades de tempos distantes.

“Sempre, ou pelo menos desde que dispunha dos recursos necessários para valer-se das vantagens da circulação internacional, considerara as viagens apenas como uma medida higiênica que de vez em quando lhe convinha tomar, contrariando assim as suas inclinações e vontades” (MANN, 2015, p. 14).

À princípio, mandou arrumar a casa de campo de modo que pudesse se reter por lá; não ficou mais que vinte e quatro horas e logo rumou para Pula. Também lá não permaneceu, pois sentia a necessidade de vibrar num ambiente exótico, o que fez com que se alojasse numa ilha do mar Adriático, todavia tampouco demorou-se, pois intuiu que seu destino deveria ser, efetivamente, em Veneza, e foi lá que tudo aconteceu… Foi lá que passou a observar, à certa distância, uma família polonesa composta por três mocinhas, uma mãe que pouco se juntava ao grupo, uma governanta sempre presente, e um jovem rapazinho de beleza inolvidável, na faixa dos catorze anos. Nesse primeiro momento, tal qual como ocorre em O Retrato de Dorian Gray, uma ode à beleza exterior também se faz marcadamente presente, só que sob os auspícios da filosofia e da mitologia.

“E por entre cumprimentos e galanteios humorísticos, Sócrates instruía a Fedro sobre o anseio e a virtude. Falava-lhe da emoção ardente que acomete um indivíduo sensível sempre que seus olhos avistam um símbolo da beleza eterna; falava-lhe dos desejos de pessoas profanas, maldosas, incapazes de pensar em beleza, em face da sua imagem, e que não sabem reverenciá-la; falava-lhe do pavor sagrado, a dominar os nobres, logo que se lhes apresente um semblante divino ou um corpo perfeito; descrevia como então estremecem, perdem o juízo, mal se atrevem a lançar um único olhar e como veneram a quem possui a beleza. Até mesmo lhe ofereceriam sacrifícios, como a um ídolo, se não receassem que os outros os considerassem malucos. Pois a beleza, meu caro Fedro, só ela é ao mesmo tempo adorável e  visível. Porque, repara, é a única forma do espiritual que podemos conceber e suportar com os nossos sentidos. Ora, que seria de nós se a esfera divina, a razão, a virtude, a verdade se manifestassem a nós através dos sentidos? Não pereceríamos, não nos consumiríamos de amor, como se deu com Sêmele perante Zeus? Assim, a beleza é o caminho que conduz o homem sensível ao espírito. É apenas o caminho, apenas um meio, Fedrozinho… E, em seguida, o astuto cortejador pronunciou a frase mais sagaz, ao asseverar que aquele que ama é mais divino que o amado, uma vez que no primeiro está o deus, mas no segundo, não; quiçá o pensamento mais terno, mais irônico que já tenha sido formulado, e do qual se originam toda a travessura e toda a oculta volúpia do anseio” (MANN, 2015, p. 54-55).

Apesar da forte atração que o jovem Tadzio passa a exercer sobre a figura de Aschenbach, este jamais ousou lhe pronunciar uma única palavra, fosse por medo ou por pura repressão dos sentidos, da moral e da conduta, o fato é que se lhe tornou impossível pensar em viver a vida longe do garoto.

“Por fim, o amoroso perturbado nada mais sabia nem desejava senão perseguir sem cessar o objeto de seu fervor. Sonhava com ele nas horas da sua ausência, dirigindo, à maneira dos apaixonados, ternas palavras à sombra de seu ídolo. A solidão, o ambiente exótico, a felicidade de uma tardia e intensa embriaguez encorajavam-no, persuadiam-no a que se permitisse sem receio nem rubor as maiores excentricidades. Aconteceu, por exemplo, certa vez, quando regressava de Veneza a altas horas da noite, que ele se detivesse no primeiro andar do hotel, diante da porta do quarto do belo rapazinho, e em completo enlevo encostasse a testa no gonzo, sentindo-se incapaz, por muito tempo, de arredar o pé, não obstante o perigo de ser apanhado e surpreendido nessa situação absurda” (MANN, 2015, p. 64-65).

Quem nunca? Mas, licença poética à parte, a sorte é que ele era um stalker da velha guarda, caso contrário, em meio às redes sociais, poderia a vir a tornar-se um homem perigoso e Tadzio, uma vítima. Mas, como não estamos na “era moderna” e a novelinha é bem curta e bastante prazerosa, fica aqui a minha dica de leitura para quem, como eu, deseja principiar pelos universos de Thomas Mann. Super recomendo e o Google também, aliás, não faltam menções ao filme do diretor italiano Luchino Visconti, peças teatrais e todo tipo de adaptação para este famoso roteiro.

Abração!!!

P.S.// Volto depois com Tonio Kröger – a outra novelinha desta edição.

* MANN, Thomas. A morte em Veneza. Tonio Kröger. Companhia das Letras: São Paulo, 2015, 1ª edição.

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15 comentários sobre “Resenha: A Morte em Veneza

  1. meu primeiro livro de Mann
    o extase homoafetivo estético, não sensivel pelo toque
    a doença em dupla face: em veneza e no âmago de aschenbach, mas esta nele é positiva, é a vitória sobre a rotina moralista germânica…..a ida a morte extatica…

    em Montanha Mágica isso é ainda mais acentuado- só que há também ideologias moldadoras da primeira grande guerra- modernismo positivismo x romantismo medievalista: setembrini x nafta

    Curtido por 2 pessoas

    1. A doença, realmente, é duplamente utilizada por Mann, aliás, como em várias passagens suas que são cheias de significações, requerendo, desta forma, maior atenção de nossa parte.
      Lindo o vídeo, querido!! Richard Wagner é uma inspiração para Mann. Belíssima ópera! Obrigada mesmo!!!

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      1. há um ensaio de Mannn sobre Wagner, foi lançado ano passado no Brasil num livro chamado- Pensadores modernos- no qual há também: Schopenhauer, Nietzsche e Freud- seria legal se conseguisse lê-lo. é bem esclarecedor a relação dele com estes pensadores.

        no livro alemão que li primeira vez este artigo há sobre o dostoievsky e o tolstói.

        Curtido por 2 pessoas

  2. Elaine, coloquei o seu blog nos meus favoritos. Quero ler suas resenhas com calma, absorver as informações e ler os livros também. Seu conteúdo é demais, mesmo! Gostaria que soubesse que não tens apenas mais uma seguidora, mas uma leitora. Abrçs!

    Curtido por 1 pessoa

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