Resenha: Tonio Kröger

Kröger.

À primeira vista, uma novela insossa. À primeira vista, mas como bem diz o ditado: “águas paradas são profundas”, então, tenhamos muito, muito cuidado com aquilo que se nos apresenta como raso, pois, na verdade, são também nessas águas que encontramos pano pra manga e, quiçá, para revoluções imanentes, cujo poder de mudança age desde a sua fonte no dna, e acaba por eclodir num potencial catártico transcendente ao exterior.

De cara, conheceremos um Tonio Kröger adolescente, inseguro, como aliás é normal entre os jovens, muito sensível, que adora escrever versos e que também ama a solitude do seu quarto onde pode ouvir o marulhar da fonte e o farfalhar dos ramos da velha nogueira  do lado de fora. Filho de um casal de comerciantes, seu pai era cônsul, bem posicionados na sociedade, Tonio sentia-se um tanto decepcionado consigo próprio por não ser lá um excelente aluno, ao contrário, considerava entediante as aulas, os colegas, os professores  e tudo o mais, assim, sua satisfação consistia em viver o seu mundo, os versos, o seu violino e, nessa época, seu amor/amizade/endeusamento ao amigo Hans Hansen.

Hans usava um boné de marinheiro dinamarquês com fitinhas curtas, sob o qual despontava seu topete louro-palha. Era extraordinariamente bonito e bem-feito, de ombros largos e quadris estreitos, com uns olhos azul-ferrete bem separados e penetrantes. Mas, sob o gorro de pele redondo de Tonio, num rosto moreno e de traços sulinos bem marcados, uns olhos escuros e delicadamente sombreados, com umas pálpebras demasiadamente pesadas, tinham uma expressão sonhadora e meio tímida… A boca e o queixo eram de uma suavidade incomum. Caminhava a passos indolentes e irregulares, enquanto, em suas meias pretas, as esbeltas pernas de Hans tinham um andar elástico e ritmado […] A verdade é que Tonio amava Hans Hansen e já tinha sofrido muito por ele. Quem mais ama é o vencido e tem de sofrer – sua alma de catorze anos já recebera da vida essa singela e dura lição, e sua índole peculiar o fazia sempre tomar nota de tais experiências, quase que inscrevê-las em seu íntimo e em certa medida alegrar-se com elas, sem, contudo, adotá-las como orientação para sua conduta pessoal nem encontrar nelas alguma utilidade prática (MANN, 2015, p. 90-91).

Conforme atestamos em A Morte em Veneza os traços autobiográficos do autor se fazem presentes e, também aqui, reconhecemos tais inferências, até porque esta novela foi lançada antes, 1903, ao passo que a outra, 11 anos depois, enfim… O amor platônico, reprimido, obrigado a viver na latência.

Como em casa desperdiçava seu tempo, nas aulas se mostrava sempre lento e de espírito ausente e era malvisto pelos professores, ele constantemente voltava da escola trazendo boletins deploráveis, o que deixava seu pai, um homem comprido, vestido com apuro, de olhos azuis meditativos e com uma perene flor silvestre na lapela, muito zangado e preocupado. Para a mãe de Tonio, porém, sua bela mãe de cabelos negros que se chamava Consuelo e se distinguia tanto das demais senhoras da cidade, pois um dia seu pai a fora buscar bem lá embaixo no mapa – para sua mãe os boletins eram totalmente indiferentes… (MANN, 2015, p. 92).

Thomas Mann.

Outro aspecto importante da vida do autor é transduzido na pele da personagem – a sensação de não pertencimento. Acreditava estar alheio à sociedade, isolado, inclusive, via na figura da mãe brasileira a descendência indígena e o exotismo, ao passo que no pai identificava a figura da nobreza da classe alemã; dessa conjunção surgiriam as circunstâncias psicológicas que iriam acompanhá-lo por tanto tempo e que viria a marcar presença em várias de suas obras, a explicar muito de suas relações com o país, muito de suas alusões a história da Alemanha e, por fim, ao reencontro com a sua humanidade.

A loura Inge, Ingeborg Holm, filha do dr. Holm, que morava na Praça do Mercado, lá onde ficava o chafariz gótico, alto, pontiagudo e rebuscado, era ela que Tonio Kröger amava quando tinha dezesseis anos (MANN, 2015, p. 98).

Dois anos se passam e agora é a vez da jovem Ingeborg Holm atuar como alvo das suas paixões contidas. Mais uma vez nada acontece e a sensação de vazio continua a assombrar nosso mocinho. Ora, o que buscam aqueles que, por motivos diversos, sentem-se perdidos? Encontrar-se não é verdade? Pois, com Tonio não é diferente, todavia, por mais que tentasse sentir, no peito e nas relações, a sensação de pertencimento, a necessidade de contribuir para a construção de algo, infelizmente não a encontrava em sua origem e nem ao seu redor. Assim, quem lhe salvaguarda o espírito, ora como irrestrita salvação ora como inequívoca maldição, é a literatura.

O tempo passa, seu pai morre, sua mãe casa-se novamente, vendem a casa, mudam-se… Até que, num certo dia, Tonio, já homem feito e escritor publicado, sentindo a necessidade de espairecer, resolve fazer uma viagem. Em seu itinerário, inclui o local da antiga morada; ali, refaz o trajeto que fazia nas voltas para casa ao sair da escola com o amigo Hans, sente o impacto das antigas emoções e, sentindo-se satisfeito no que tange ao passado, dá continuidade a viagem rumo à Dinamarca.

Por ironia do destino, acaba se hospedando num hotel que, no decorrer de determinada semana, acaba por recepcionar um baile, uma espécie de encontros de famílias que viajam ao campo e que se encontram para uma festa dançante alá as tradições da época. Dentre os presentes, Tonio reconhece, na figura de um jovem casal, os seus antigos amores de infância.

Tonio Kröger olhava para eles, para os dois por quem sofrera de amor tempos antes – Hans e Ingeborg. Eram eles, não tanto por sinais particulares ou pela semelhança das roupas, mas em virtude da identidade de raça e tipo, aquela espécie clara, de olhos azul-ferrete e cabelos louros, que evocava uma ideia de pureza, desanuviamento, alegria e uma reserva ao mesmo tempo orgulhosa e simples, intocável… (MANN, 2015, p. 140).

Sentiram na descrição acima a noção intrínseca do eurocentrismo enquanto molde do bom, do puro e do belo? Lembram de como Tonio sentia-se excluído e que, portanto, o que ele mais ansiava era o comum, o trivial, que aqui nos é apresentado nas figuras, pretensamente perfeitas, do Hans e da Inge. Sentiram o peso que é dado à miscigenação? Hoje, mais do que nunca estamos atentos ao que antes era apenas licença poética. Hoje, não mais nos é permitido passar incólume a isso, à noção de inferioridade, ao preconceito, à debilidade em virtude da mistura de nacionalidades (e olhe que não estou abordando os genocídios e nada disso, estou abordando o que se passa no terreno velado, tal qual nos é apresentado na obra). Aliás, várias são as teses que nos mostram claramente o quão forte é o poder da ilusão eurocêntrica sobre filósofos vários e o quanto isso incutiu nas sociedades, fundo e mais fundo, preconceitos diversos. Como disse acima, a obra parece insossa, mas tenhamos cuidado, sejamos cautelosos e busquemos, ou tentemos, nos colocar na posição que o autor nos pretende sob seus variados pontos-de-vista e repercussões psicológicas, e, feito isto, tenhamos o cuidado de distinguir as suas intenções, dores e prazeres.

Quanto ao final da novela, bom, só posso dizer que nos remete àquela velha história dos caminhos, dos aprendizados espalhados em todo e qualquer momento bastando que para isso você esteja atento, afinal, até uma bula de remédios do século passado pode servir de inspiração para uma nova tese de mestrado, doutorado, filme, livro ou sei lá o quê, basta apenas que te INSPIRE.

Até mais!!

* MANN, Thomas. A morte em Veneza. Tonio Kröger. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, 1ª edição.

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