Resenha: O Jogo da Amarelinha

O Jogo da Amarelinha.

Dia desses lembrei de um jogo ao qual fui apresentada enquanto estava na sétima série, o Tangram. Joguinho simples, composto por sete peças de madeira e que lhe permite criar coisas incríveis, bastando apenas abusar da criatividade. Beleza! Acabei por esquecê-lo em seguida, mas tempo vai, tempo vem, marco com minha prima no shopping e nos encontramos na Saraiva. Assim que olho a primeira tenda de lançamentos, eis que, curioosamente, me deparo com uma caixa de Tangram. Fiquei com aquela sensação gostosa da surpresa, apesar de um tanto acabrunhada com o número de peças – 72. É, né?, se tudo evolui, porque não aumentar o conteúdo da caixa?

Noutro dia desses, fiquei com a proposta do Glauber Rocha no juízo “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Não, eu não quero filmar nada, cada qual no seu cada qual, mas senti vontade de suscitar o jogo e o cineasta para alcançar o Julio Cortázar no sentido de que, partindo do simples que lhe rodeia, coisas fantásticas podem surgir; claro, nem sempre algo incrível para alguns (como, por exemplo, os encantos absurdos da simplicidade ou a beleza incandescente do comum, do cotidiano, do despercebido) será compreendido igualmente por outros, mas só o fato de todos eles existirem já faz com que mais e mais luz se mantenha firme e imponente diante dos buracos negros vários que insistem em sugar estrelas, planetas e galáxias.

Bom, se eu pudesse citar alguns aspectos que me chamam a atenção nesse mundo, com certeza, diria que a inteligência, a criatividade e a sensibilidade das pessoas têm o seu lugar assegurado, porque é muito gostoso ser surpreendida com as invenções ou releituras ou devaneios que te trazem a sensação de estar vivo, de se sentir, talvez, desarmado, modificado, insinuante e insinuado, transformado de alguma forma. Interessante também é que para cada caso uma demanda; muitas vezes produções megalomaníacas se fazem necessário, em outras circunstâncias, a simplicidade lhe arrebata com uma voracidade indescritível e, independente da magnitude da coisa, o fato de se permitir e estar aberto às possibilidades somará à tudo grande diferença.

Esse livro tem dessas nuances e começamos com duas sugestões de leitura, namorá-lo com emoção, curiosidade e espírito de aventura, ou, simplesmente, seguir um script, como a ideia “do namorinho de portão, biscoito, café“… Você escolhe! Eu optei pela proposta de brincar de amarelinha, farejando o rastro do Cortázar e foi assim que conheci Horácio, Maga, Ronald, Babs, Etienne, Gregorivius, Perico e Wong, enfim, essa galera que compunha o Clube da Serpente e que se reunia pra ouvir jazz, filosofar, beber vodca, cachaça, ou que estivesse à mão, e nos contar as histórias mais diversas, desde suas admirações ao escritor Morelli (que eles julgavam estar em outro canto do mundo, quando na verdade compartilhava da mesma Paris que eles) até ao fato de como um ovo estalado, e degradado, pode servir de inspiração artística para um dos presentes.

Enquanto lia, em diversos momentos tive a sensação de estar vendo um ex-namorado encarnado na pele do Horácio. Sabe aquele cara gente boa, inteligente, que se dá bem com todo mundo, que sempre tem algo de interessante pra falar, um boêmio?… Então, às vezes a lembrança demorava um pouquinho na brincadeira de associação, depois ficou fácil de mandar embora, até porque precisava de mais atenção.

Ao primeiro contato, tive a sensação de que o Cortázar tinha coisas demais para falar, parecia querer absorver o máximo possível de referências e fazer com que tudo, realmente, demonstrasse sentido sem que, necessariamente, estivesse alinhavado. Ele brinca com a linguística, com a gramática, com o estilo literário, com tudo e, se souberes ter paciência, perceberás que a coisa vai ganhando a envergadura vislumbrada por ele.

Para muitas pessoas, pode parecer desconfortável começar pelo capítulo 73, depois voltar ao 1, ir e vir entre as três partes do livro (Do lado de lá; Do lado de cá; e De outros lados – Capítulos prescindíveis), descobrir como a Maga e o Horácio se encontravam, rotineiramente, ao acaso por entre as ruas de Paris ou ter que se adaptar ao fato de que Rocamadour era como o filho da Maga se chamava na França, ao passo que em Montividéu sua alcunha era Carlos Francisco. Sem falar que tudo isso acontecia em meio aos nomes de Witigenstein, Kierkegaard, Beauvoir, Scheler, Dostoiévski, Faulkner, Goethe, Ella Fitzgerald, “et cetera, et cetera“, em meio ao som de See See Rider, Baby Don’t You Play Me Cheap, Mahogany Hall Stomp, “et cetera, et cetera“, aliás, algumas vezes sentia-me como se lesse Cortázar através das lentes do Woody Allen, com esse som, sob a neblina dos cigarros, o tilintar das bebidas ao cair nos copos, num cenário alá Meia-Noite em Paris e, se quem veio primeiro foi o ovo ou a galinha, pouco importa, o lance é se integrar à energia do momento, àquela densa e fugaz energia do momento.

Enquanto em Paris, se sabe que existem os aluguéis a pagar, mas não se veem os empregos, existem as obrigações, mas não se veem atividades, quando muito, nos deparamos com outros encontros do Clube da Serpente, o admirar das pequenas satisfações ao acaso, das discussões bastas e profícuas que invadem a metafísica, a filosofia e que, do nada, calham numa outra página que traz uma descrição caricata sobre um dos membros do grupo.

“Modelo de ficha do Clube.

Gregorivius, Ossip.

Apátrida.

Lua cheia (lado oposto, invisível neste então pré-sputnik): crateras, mares, cinzas?

Tendência a se vestir de preto, de cinza, de pardo. Nunca foi visto com um terno completo. Há quem diga que tem três, mas que combina, invariavelmente, as calças de um com o paletó de outro. Não seria difícil verificar isto.

Idade: diz ter quarenta e oito anos.

Profissão: intelectual. Tia-avó envia mesada módica.

Carte de séjour AC 3456923 (por seis meses, renovável. Já foi renovada nove vezes, cada vez com maior dificuldade).

[…] Gregorivius adora estabelecer um anedotário pré-natal e difama suas mães (tem três, segundo a bebedeira), atribuindo-lhes hábitos licenciosos. A herzegovina Magda Razenswill, que aparece sempre com o uísque ou o conhaque, era uma lésbica, autora de um tratado pseudocientífico sobre a carezza (tradução em quatro idiomas). Miss Babington, que se ectoplasmiza com o gim, acabou como puta em Malta. A terceira é um constante problema para Etienne, Ronald e Oliveira, testemunhas da sua esfumada aparição via Beaujolais, Côtes-du-Rhône ou Bourgogne Aligoté. Segundo o caso, chama-se Galle, Adgalle ou Minti, vivendo livremente em Herzegovina ou em Nápoles, viajando muito para os Estados Unidos com uma companhia de vaudeville, é a primeira mulher que fuma na Espanha, vende violetas na saída da Ópera de Viena, inventa métodos anticoncepcionais, morreu de tifo, está viva embora cega em Huerta, desapareceu com o motorista do czar, em Tsarkoie-Selo, pratica extorsão em seu filho nos anos bissextos, cultiva a hidroterapia, tem relações suspeitas com um padre de Pontoise, morreu quando do nascimento de Gregorivius, o qual, além do mais, seria filho de Santos Dumont. As testemunhas têm notado, de maneira inexplicável, que estas sucessivas (ou simultâneas) versões da terceira mãe são sempre acompanhadas por referências a Gurdjieff, a quem Gregorivius admira e detesta pendularmente (CORTÁZAR, 2015, p. 420-421).

Em contrapartida, também há momentos em que bate aquela raiva de Cortázar que se embrenha no Horácio e do Horácio que bebe da fonte de Cortázar, raiva quando ele descreve e insiste por qualificar a Maga como uma criatura burrinha, mas ameniza a situação dizendo que ela é dotada de uma sensibilidade, de um modo peculiar de viver a vida e superar tantas situações adversas. Venha cá, desde quando inteligência diz respeito apenas a nível conteudístico? E a inteligência emocional, e quanto a capacidade defensiva, e quanto a coragem e bravura de viver essa louca vida? Em outros momentos Horácio aparece como um boçal de merda, um cretino que foi capaz de abandoná-la num momento de profunda dor simplesmente pelo fato de que já havia decidido a seguir com a sua vida longe dela. Aaaaaaaaah!! Faça-me o favor, que desgraça de egoísmo é esse?

Daí, talvez, por necessidade minha de avaliar todos os pontos-de-vista, também me encouraço na pele do Oliveira (Horácio) e meio que entendo a sua insegurança, a sua necessidade de encontrar-se em meio ao mundo e, talvez por isso, a sua fuga aos relacionamentos e responsabilidades que o apregoariam ao chão. O coitado também tem suas dores, ainda que as escamoteie muito bem.

Tenho certeza que, justamente, por intentar a possibilidade do leitor olhar por diversos ângulos em busca da versão que melhor lhe aprouver, Cortázar também traz, num dos poucos acessos de doçura, o capítulo 32 que se propõe como uma carta da Maga ao falecido Rocamadour (segundo Horácio, seria uma espécie de carta para ele, talvez, uma alfinetada, mas eu prefiro pensar que foi um desabafo daquela pobre, doce e forte mulher que, resilientemente, sobrevive à mais uma intempérie em sua vida). Gostei de saber que, mesmo sem o seu pequeno e sem o amor de Horácio, ela segue em frente com a sua vida, pois ela bem merece ser feliz.

No capítulo 7, a volúpia, acho até que um dos mais citados na blogosfera, no 34, um jogo de gato e rato entre uma linha e outra e, no 69, bom, parece até linguagem de facebook, mas lembremos que foi uma brincadeirinha lançada em 1963.

Num dado momento da segunda parte, Horácio retorna à Argentina e passamos a nos inteirar da vida de seus amigos, Traveler e Talita onde, por sinal, viverão uma espécie de triângulo quase amoroso, do tipo que vai não vai e que servirá de pano de fundo para os iminentes delírios do bom moço; embalado por uma boa dose de si mesmo e pelo represamento de certas emoções, tais delírios acabarão se adensando de tal forma que só mesmo a força da amizade para se sobrepor ao potencial conturbador e disparado à revelia dos mesmos.

No mais, posso dizer que gosto de ler o Oliveira, me divirto com o seu modo de viver, com a sua capacidade intelectual ao passo em que leva a vida prática com uma descrença imperturbável. Na medida em que não se prende a nada e nem à ninguém, viveu com a Maga, com quem se descobriu, muito depois, apaixonado, da mesma forma com que convive indiferentemente com a Gekrepten. Partilha de um dia-a-dia de trabalho, num zoológico, com seus amigos, da mesma forma com que depois trabalharão num hospício e assim, por entre mates e discussões, vão levando suas vidas. O curioso é que, quanto mais se espera dele, mais e mais afiado ele fica em escorregar.

 

O Jogo da Amarelinha 1.

Jubs, digo e repito, amo mais porque tenho mais cabelo cacheado na cabeça! 🙂

Horácio Pontes, grata pela dica, querido. Beijo grande pra você!

 

* CORTÁZAR, Julio. O Jogo da Amarelinha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

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12 comentários sobre “Resenha: O Jogo da Amarelinha

    1. Oi, Bia! Tudo bom?!!
      Menina, não sei se o Tangram ainda é utilizado nas escolas, mas torço para que sim porque, além de ser criativo, desperta a concentração e estimula pacas a imaginação. Massa saber que vc também passou por essa experiência prazerosa.
      E ó, leia mesmo e depois compartilhe conosco seus pontos-de-vista. Vai ser muito bacana a troca!! Beijoca

      Curtido por 1 pessoa

    1. Hahahahahahah… É ela, minha prima Juliana, presença marcante aqui no blog. Temos muitas histórias pra contar, Mariel, e como ela insiste em dizer que ama mais, eu rebato dizendo q amo mais porque tenho mais cabelos cacheados só pra não entregar minhas primaveras dizendo que eu peguei no colo, dei mingau, fiz careta e enchi de beijo desde sempre, rsrsrs… O tempo vooooooa… Beijocona procê!

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  1. Laneeeee… Adorei essa resenha. Estou LOUCA para ler ao estilo “amarelinha”.
    Menina, o Cortázar é de uma genialidade impressionante, não é? Nem li ainda, e já estou fascinada.

    E olhe, quem AMA mais SOU EUUU!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Então, é um dos melhores SIM.
      Mas, as histórias das pessoas que cuidam dos “seus” e fazem de tudo para que eles fiquem bem ainda ganham a liderança no meu coração, e, nessa linha, ninguém bateu a saga dos anéis, de Tolkien. Amo todos, de O Silmarillion a O Retorno do Rei, pois, infelizmente, ainda não tive o prazer de ler Contos Inacabados.
      Também adoro a saga de J.J.Benítez, Operação Cavalo de Tróia, mesmo parando no terceiro de seus nove volumes. Nunca chorei profusamente com nenhuma outra leitura, como aconteceu com esta. Me toca, profundamente, a alma.
      Enfim, obrigada pelas dicas. Ainda constam mais alguns na lista, em algum momento darei cabo deles.
      Abraço

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