Resenha: Frankenstein

Frankenstein.

Inspirada pelas histórias de fantasmas que eram contadas por um grupo de amigos, nas reuniões promovidas em sua casa, nos chuvosos dias de 1816, Shelley pegou-se sonhando com a trama de um rapaz, um jovem cientista, que daria vida à uma criatura abominável, a abandonaria e, a partir de então, passaria a ser punido por ter ousado crer-se um Deus capaz de despertar a centelha divina em um corpo inanimado. Tal história, lançada ao público em 1818, veio a lograr muito sucesso e o interessante é que, com ela, algumas analogias ficaram eternizadas e são muito usadas até os dias de hoje, como é o caso por exemplo, da noção de personificação entre Criador e Criatura, pois Victor Frankenstein foi o cientista, ao passo que a criatura sempre fora chamado por Monstro ou Demônio, mas suas alcunhas foram embrenhadas de tal forma, que os termos acabaram se hibridizando. A outra analogia diz respeito ao Complexo de Frankenstein, muito usado para designar, na robótica – o arvorado medo dos robôs e de que eles possam acabar com a humanidade – e, na psicanálise – para abordar os aspectos da dor da rejeição, do medo, da humilhação e sua influência direta no comportamento dos indivíduos.

Bem, conheci a história da Criatura em 1999 e o trosso grudou. A partir de então, qualquer menção à sua figura me impunha o sentimento de amor e tristeza e, não à toa, essa também é a ideia por trás de várias películas que o retratam. Posso lhes assegurar que não, isso não é mera coincidência ou produto de uma ideia vendida por Hollywood, mas sim, produto de uma história bem acabada e bem articulada por Mary Shelley que, com muita paixão e criatividade, soube conduzir a narrativa desta pobre alma.

Já disse, em diversas ocasiões, que não tenho muito saco pra joguetes e ironias e coisas do tipo (sob o meu ponto-de-vista, isso é coisa de idiotas prepotentes que subjugam a capacidade alheia, e, se tem algo nesse mundo que não se deve cutucar com vara curta, esse algo é a mente do ser humano, dela pode surgir um psicopata ou um mártir ou sei lá o quê, só dependerá dos estímulos e incentivos que lhes forem destinados) e Shelley me agrada muito nesse sentido porque, apesar de tudo o que acontecerá, de todas as situações cruéis, é possível discernir um quê de verdade.

Falei um quê de verdade e não certo ou errado, porque aí são outros mil e quinhentos; mas, insisto nessa coisa da verdade, na coisa instintiva de buscar condições para acreditar, quer seja pela descrição do tom da voz, quer seja pela história, pelos álibis, pela linguagem do corpo, enfim, por todos os sinais que nos dão a oportunidade de inferir algo e testemunhar à respeito. E esse lance não é lá tão fácil, olha como o Richard Gere se embananou todo com a personagem do Edward Norton em As Duas Faces De Um Crime ou como a Jodie Foster suou ao lidar com o Lecter, em O Silêncio Dos Inocentes. Não vamos bancar o Sherlock Holmes nestas paragens, não será necessário, mas evocaremos suas habilidades de observação para não cometermos deslizes de imparcialidade.

Independente de qualquer coisa, vou logo avisando, sou apaixonada por ele – O Monstro, ou O Demônio, ou até mesmo A Criatura, se assim o desejar.

Um dos fenômenos que atraía especialmente minha atenção era a estrutura do corpo humano e, também, de qualquer ser dotado de vida. Muitas vezes perguntava a mim mesmo se o princípio vital não teria a sobrevivência em estado latente. Pergunta arrojada, sem dúvida, que sempre foi considerada um mistério.

Não obstante, quantas vezes chegamos bem perto da solução de um problema e desistimos de alcançá-la, simplesmente por fraqueza ou negligência? Revolvendo na mente essas premissas, achei que a fisiologia era um ramo da ciência natural que estava a exigir maior atenção de minha parte, para complementar o que já tinha podido assimilar, e decidi estudar com mais afinco essa especialidade (SHELLEY, 1998, p. 46).

Como não se apaixonar pela estrutura, capacidade e pluralidade dessa máquina conhecida por corpo humano? Como não ousar desvendá-la e lhe subtrair os mistérios? Creio que Deus deve sentir-se bastante orgulhoso pelo conjunto da obra, afinal, mente, corpo e espírito interligados, bilhões de seres distribuídos em toda a, também fenomenal, natureza e, ainda assim, seres ímpares e díspares, cheios de personalidade, comportamentos, belezas, ideias, pensamentos, sentimentos, patologias, adaptações… É muita complexidade, muita, mas o interessante nisso tudo é que, por entre tentativas e erros, por entre pragmatismos religiosos e científicos, o homem nunca se permitiu cessar a busca. Aliás, oh bicho teimoso! Para o bem e para o mal, somos seres cuja curiosidade e argúcia sempre nos impeliu aos desbravamentos e mesmo que, à revelia ou não, os legados da moral e da ética pareiem pelo seu lugar ao sol da reflexão humana, numa tentativa de refrear os absurdos, ainda assim, a inteligência humana sempre haverá de nos surpreender (e outras vezes, de nos foder também, principalmente, quando você vasculha no seu lastro de dias e não encontra nada que não seja, ou tenha sido, fruto da mediocridade. Eh, vida sacana, quer dizer, bacana, cheia de riscos e compensações. Fique deprê não, meu filho, tamo junto nessa e é vida que segue, né não? Mas, podemos sentar nessa mesa curioosa de bar pra contar e chorar as pitangas. Vamo engolir esse suco feito com amor e caprichado em sais minerais, isso haverá de servir pra qualquer trosso).

Via de perto como a forma humana se degradava e se corrompia gradativamente. Assistia à podridão da morte se espargindo sobre a face florida da vida. E via essa coisa maravilhosa que é um olho, ou um cérebro, tornar-se a fonte de nutrição de um verme. Detinha-me a analisar cada fase de transição da vida para a morte e da morte para a vida, até que, em meio a essas trevas, senti uma luz brotar em mim. Uma luz tão brilhante, que me descortinava um panorama deslumbrante, e ao mesmo tempo tão singela, que me surpreendia o fato de, entre tantos homens de gênio que haviam dirigido suas indagações no mesmo sentido, estar reservada somente a mim a revelação de um segredo tão espantoso […] Efetivamente, após dias e noites de incrível esforço e cansaço, logrei descobrir a causa fundamental da geração e da vida. E, mais do que isso, tornei-me capaz de animar a matéria sem vida (SHELLEY, 1998, p. 47).

Que belo sonho! Sabe, meu querido Victor Frankenstein, aquela historinha de que nada é por acaso e tudo ao seu tempo? Pois, se possível fosse que tua epifania alcançasse a realidade, terias muita sorte de não estar vivo hoje, século XXI, para engastar-se com as perfídias capitalistas e com a ausência de moral.

Abrindo os devidos parênteses para a Shelley, é tão bonitinho ver a ingenuidade com que se explicam os eventos e, num passe de mágica, tudo se torna realidade. Essa é graça da arte, da arte que salva vidas!!!

Meu querido Victor, Fritjof Capra já dizia, por intermédio da sua analogia com o Yin Yang, que o Yang, sendo essa energia da competitividade, da agressividade, do racional e analítico, pessoas como você, dotadas em abundância destes requisitos, são também, de fato, como cometas a passar por estas terras. Sua visão de mundo para além do sutil, não nos permite cair no ostracismo e nos leva à saltos luz na capacidade de desenvolvimento nas ciências, e outros homens como você, também entraram para os anais da vida na terra. Contudo, sempre existe um preço a se pagar, né verdade, meu caro? Para a sua época, foi possível subverter a ordem natural das coisas e passar incólume aos jugos do homem, fostes vítima e réu, apenas, da tua consciência e da consciência da tua Criatura. Pagaste no corpo toda a sorte de somatizações inquiridas e ordenadas pela tua mente de homem que, em meio à toda loucura, ainda nutria alguma dose de justiça.

Falo alguma dose de justiça porque, sob o meu ponto-de-vista, não foste tão justo assim. Abandonaste totalmente o fruto da tua criação e o relegaste ao nada, ao abandono, à cruel desventura da vida. Sua culpa foi fundamental SIM, para que atinasses no mínimo que fosse sobre as consequências dos teus atos, visto que não lograstes outros pensamentos que não a volúpia do ego e da satisfação pessoal, quando do maniqueísmo de tuas experiências com a vida. Todavia, não redimo o outro. Que a balança penda para ambos os lados.

Mas, imaginas se tudo isto fosse possível hoje, com o avanço da engenharia genética, com o avanço das ciências, mas também com o avanço dos direitos humanos, com o avanço dos debates sobra a moral e a ética? No filme O Homem Bicentenário, a personagem do Robin Williams luta com todas as suas forças para demonstrar que o impossível também é crível, que a criatura pode, também, ser tocada pela centelha do improvável e demonstrar personalidade, amor, cognição, vontade e desejos próprios; morreu tentando provar que, assim como um homem dotado de uma peça artificial transplantada pode ser considerado um humano cyborg e responder à qualquer ato através da lei dos homens, o contrário também deveria acontecer, uma máquina que fora, ao longo do tempo, transplantada por órgãos  artificiais e respondendo à comandos similares aos dos homens em questão biológica, poderia e deveria sim, ser considerado um humano e responder sob a mesma égide das leis. Conseguiu alcançar seu intuito, mas morreu sem o saber.

Na realidade, apesar da ovelha Dolly e de uma série de outras experiências exitosas, estamos longe mesmo é de uma unanimidade de vozes em que a moral tivesse a oportunidade de ser discutida. Estamos despatriados desse sentido, estamos mais corruptíveis do que nunca e somos tão acurados na simulação, que somente à arte fica relegado o nosso sonho de ver tais conjecturas terem vazão.

É difícil conceber a variedade de sentimentos que me impeliam para a frente, no primeiro arrebatamento do êxito. Eu seria o primeiro a romper os laços entre a vida e a morte, fazendo jorrar uma nova luz nas trevas do mundo. Seria o criador de uma nova espécie – seres felizes, puros, que iriam dever-me sua existência. Indo mais longe, desde que eu teria a faculdade de dar vida à matéria, talvez, com o correr dos tempos, me viesse a ser possível (embora esteja agora certo do contrário) restabelecer a vida nos casos em que a morte, no consenso geral, relegasse o corpo à decomposição. Ressurreição! Sim, isso seria nada menos que o poder de ressurreição […] Quem será capaz de conceber os horrores dessa tarefa oculta, quando eu chafurdava na umidade dos sepulcros, ou esquartejava o animal vivo para aproveitar-lhe o sopro de vida na recomposição da minha criatura? Hoje, estremeço a essas lembranças, mas então, um impulso irresistível, frenético, me fazia prosseguir […] Coletava ossos dos necrotérios e profanava, com os dedos, os recônditos do corpo humano. Numa câmara solitária, ou antes, numa cela, na parte superior da casa, separada por uma galeria e uma escada de todos os outros aposentos, eu montara meu laboratório da vida humana.

O necrotério e o matadouro eram minhas fontes usuais de suprimento, e não poucas vezes minha própria natureza repugnava esse tipo de atividade (SHELLEY, 1998, p. 49-50).

A ingenuidade é algo que me comove. É tão interessante pensar que se é possível dar vida a criaturas, que serão felizes e ordeiras e bondosas e…, sendo que tais criaturas já são fruto de matéria abjeta e pensada, arquitetada e manipulada nos grotões da terra, sob os auspícios do obscurantismo, como que elas poderiam vir a torna-se ou sentir-se parte da sociedade? Como poderiam alcançar autonomia ou defender, com unhas e dentes, sua dignidade, seu direito de ir e vir, sua liberdade de expressão, seu direito à reprodução, seu direito à representatividade? E… É, se deu conta de que aqui não é o universo de Star Wars, né meu caro? Impossível, também, não lembrar da legião de orcs de O Senhor Dos Anéis, ou, em outra perspectiva, apesar de construídos sob a fidedignidade dos mais altos padrões da ciência, os cidadãos de Huxley, que com toda pompa e glória, são desgraçadamente acéfalos da condição que os ordena.

Xingue, xingue mesmo, que desgraaaaaaaaaaaaaaaaça!!!

Foi numa noite de novembro que contemplei o resultado do que poderia chamar a parte material dos meus trabalhos. Com ansiedade que quase chegava à agonia, recolhi os instrumentos em torno de mim e preparei-me para o ponto culminante do meu experimento, que seria infundir uma centelha de vida àquela coisa inanimada que jazia diante dos meus olhos. A chuva tamborilava nas vidraças.

Então, deu-se o prodígio.

À luz bruxuleante da vela, quase extinta, vi abrirem-se os olhos amarelos e baços da criatura. Respirou. Sim, respirou com esforço, e um movimento convulso agitou-lhe os ombros.

Quem poderia descrever o quadro de minhas emoções diante de tal catástrofe? Que pintor prodigioso poderia esboçar o retrato do ser que a duras penas e com tantos cuidados eu me esforçava por produzir? Seus membros, malgrado as dimensões incomuns, eram proporcionados e eu me esmerara em dotá-lo de belas feições. Belas?! Oh, que surpresa aterradora! Oh, castigo divino! Sua pele amarela mal encobria os músculos e artérias da superfície inferior. Os cabelos eram de um negro luzidio e como que empastados. Seus dentes eram de um branco imaculado. E, em contraste com esses detalhes, completavam a expressão horrenda dois olhos aquosos, parecendo diluídos nas grandes órbitas em que se engastavam, a pele apergaminhada e os lábios retos e de um roxo-enegrecido.

Mais mutáveis que os acidentes da vida são os da própria natureza humana. Eu trabalhara duramente durante dois anos para infundir vida a um corpo inanimado. Para tanto sacrificara o repouso e expusera a saúde. Eis que, terminada minha escultura viva, esvaía-se a beleza que eu sonhara, e eu tinha diante dos olhos um ser que me enchia de terror e repulsa (SHELLEY, 1998, p. 52-53).

Esse trecho, à primeira vista, pareceria irrelevante, mas ele me incomodou bastante no sentido de que, no caso do Victor, houve tamanha repulsa que o abandono foi crivado de ódio, medo, nojo, e, ao livrar-se da coisa, ele acreditou que estaria livrando-se de suas responsabilidades para com ela. Ledo engano e descobriu depois que o buraco era bem mais embaixo. Frankie, meu querido monstro, mostrou que a tonga da mironga do kabuletê estava bem arquitetada e que fora obrigado a armar-se para a guerra, quando na verdade toda a sua alma só almejava amor.

Infelizmente, isso é corriqueiro, é base de tantos estudos científicos, vários são os casos de gestantes que, por atributos de uma depressão pós-parto sofrem dessa ojeriza pelo rebento; é tão comum em tantas situações, como quando, por exemplo, criamos expectativas em cima de sonhos, de pessoas, de coisas, e depois somos tomados por esses sentimentos que, quando não trabalhados, confluem para a somatização no corpo ou para frequentes eventos de cunho psicológico/psiquiátrico.

Porque, meus caros, desde que o mundo é mundo, o ser humano sempre criou unidades de isolamento para conter aquilo de que não suportava ouvir, muito menos ter contato. Foi assim com os asilos e manicômios (GRAÇAS AOS CÉUS, O POVO UNIDO EM PROL DA DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS EMBRENHOU-SE NA LUTA ANTIMANICOMIAL! UM SALVE!), é assim com os presídios, é assim com tudo aquilo que se pretende isolar.

Infelizmente, muitos de nós, não temos condições ou, simplesmente, não queremos compreender o outro. É muito mais fácil julgar. Somos todos juízes. Somos todos vítimas e algozes de nós mesmos e vamos todos descer pelo mesmo ralo, fatidicamente.

Somente por volta das cinco da madrugada descobri meu filho – que, ainda na véspera, eu vira correndo, travesso, cheio de viço -, estirado na relva, lívido e imóvel. Em seu pescoço, as marcas da mão assassina (SHELLEY, 1998, p. 67).

1ª morte – irmão mais novo de Victor Frankenstein.

Pois bem, tentemos entender, quais são os frequentes frutos da dor e da rejeição? Pois, tendo Frankie que se virar, desde os seus mais obtusos minutos de concebido até os catárticos momentos finais, como que ele não haveria de dar vazão à sua ira e dor por meio da revolta?

Ah, Elaine, você está defendendo o assassino?

Okay, digamos que ele fosse preso neste momento. E AQUI DOU UM SALTO NO TEMPO E FAÇO UM PARALELO COM A NOSSA REALIDADE. Paremos pra pensar só por um minuto nas condições de vida e salubridade das nossas prisões. Aqueles ambientes são capazes de restaurar a natureza humana ou de transportá-la, direto, a chafurdar no mais caudaloso mar de lama? E a história do réu? E os seus direitos?

No dia seguinte Justine morreu. De nada valeram os apelos desesperados de Elizabeth, tentando induzir os juízes a reconhecer que estavam errados. Também meus protestos foram inúteis, e a confissão  que pretendia fazer-lhes morreu-me nos lábios, ante a frieza de suas respostas e a cega convicção em seus argumentos. Eu poderia ser qualificado de louco, e isso não revogaria a sentença de Justine. Ela morreu no cadafalso, como assassina! (SHELLEY, 1998, p. 83).

2ª morte – uma irmã adotada, de Victor.

Por obra da astúcia de Frankie, Justine é encontrada com uma prova peculiar do crime e é levada ao cadafalso, inocentemente.

Nem Frankie foi preso para responder por seus atos e, também, nem Victor, se entregou para responder por todos os seus.

Perseguia-me o pressentimento de que tudo não estava terminado e que o monstro voltaria à carga, com sua maldade, sua fúria.

Na verdade haveria sempre motivos para temores, enquanto algum ser a que eu amasse estivesse vivo. Minha obsessão por esse demônio é difícil de ser descrita. Quando pensava nele, arfava de rancor, meus olhos se inflamavam e era tomado pelo ímpeto de extinguir a vida que impensadamente lhe dera. Meu anseio de vingança rompia todas as barreiras da moderação, ante a evidência de sua maldade e de seus crimes. Eu subiria ao mais elevado píncaro dos Andes, se pudesse, dessas alturas, atirá-lo ao sopé. Nessa tétrica expectativa, eu ansiava por reencontrá-lo em meu caminho e fazê-lo pagar pela morte de William e Justine (SHELLEY, 1998, p. 86).

Nunca houve um pensamento por justiça e reparação, mas antes o de vingança e extermínio.

Não houve justiça em nenhum momento.

– Maldito! – exclamei. – Como ousa aproximar-se de mim? Não teme a vingança do meu braço sobre essa cabeça diabólica? Vá-se, verme asqueroso! Ou, antes, fique, para que eu possa espezinhá-lo, fazendo-o voltar ao pó de onde o tirei. Embora não possa, pondo fim a sua existência maligna, fazer voltar à vida aqueles que você assassinou com suas artes demoníacas!

– Esperava por esta recepção – retrucou-me o demônio. – O destino dos desgraçados é ser odiado por todos. Mas por que devo ser odiado, eu, que sou mais miserável que todos os viventes? Entretanto você, meu criador, detesta e abomina a sua criatura, a quem está ligado por laços que só a aniquilação de um de nós pode dissolver. Sua intenção é matar-me. Como se atreve a brincar assim com a vida? Cumpra o seu dever para comigo, e cumprirei o meu para com você e toda a humanidade. Vou lhe expor minhas condições. Se concordar com elas, deixarei em paz os homens. Caso contrário, continuarei a saciar a sede da morte, até que ela se farte do sangue dos seus amigos que lhe restam.

– Monstro repelente! Para você, não existe inferno capaz de castigar, como merece, os crimes que cometeu! Também eu, cão maldito, me condeno por tê-lo criado! Mas chegou a hora de extinguir, com minhas próprias mãos, a centelha de vida que lhe dei!

Cego pelo furor, saltei sobre ele com todo o ímpeto de que pode um ser armar-se contra a existência de outro.

Mas ele escapou-me com a maior facilidade e disse:

– Contenha-se! Suplico-lhe que me ouça, antes de pretender descarregar todo o seu ódio contra mim. Não basta o que tenho sofrido, e você ainda procura aumentar-me a desgraça? A vida, embora não tenha sido para mim mais do que um calvário, é meu único bem e eu a defenderei. Lembre-se de que me fez mais poderoso do que você mesmo. Sou bem mais alto, meus músculos são mais rijos. Mas não me deixarei levar pela tentação de um confronto com você. Sou sua criatura e saberei manter minha condição de sujeição e docilidade para com meu senhor natural, desde que também desempenhe seu papel e resgate sua dívida comigo. Parece esquecer, Frankenstein, que me deve a mesma igualdade de tratamento que dispensa a seus semelhantes, e que tenho direito à sua clemência e mesmo ao seu afeto. Lembre-se de que é meu criador. Quanto a mim, em vez de um novo Adão, sou o anjo decaído que você priva do direito à alegria, sem que me caiba culpa. De todas as benesses de que tenho conhecimento, eu sou sempre irrevogavelmente excluído. No entanto, eu era bom e compreensivo. Foi a desgraça que converteu-me em demônio. Devolva-me a felicidade e voltarei a ser virtuoso (SHELLEY, 1998, p. 93-94).

Em tempos de delação premiada, de silêncios indevidos, de acusações arbitrárias, ler o Frankie querendo se explicar, pedindo atenção, é algo, no mínimo, desalentador e triste.

Pois bem, comecemos os trabalhos com a definição de direitos humanos que encontra-se, tranquilamente, na primeira página do Google: “Os direitos humanos são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição” (Declaração Universal dos Direitos Humanos).

Por essa lógica e por essa brecha, o Frankie ou o Demônio, poderia muito bem adentrar neste “qualquer outra condição” não poderia? Ele foi fruto de uma criação ilegal, foi abandonado, não recebeu nenhum tipo de educação, lazer, condição de saúde, nada, nada daquilo que a Organização Mundial de Saúde (OMS, 1964) prega como o ideal.

Então, meu caros, seria muito fácil culpabilizá-lo por tudo e execrá-lo ao bel prazer. Mas, não é bem assim que a banda toca. Sabemos que as desigualdades sociais têm muito poder perante os vários desatinos humanos, mas também as ausências afetivas crivam-nos em agruras. Como poderia eu culpar alguém que o tempo inteiro buscou amor? Como poderia eu culpar alguém sem lhe ouvir o pretérito de vida e lhe prestar a devida justiça? Como poderia eu impugnar toda a concepção desta pessoa e não lhe permitir o devido aparato moral, ético, educacional, emocional e social para que pudesses se desenvolver?

De novo, relegamos às Febens espalhadas pelo Brasil, milhares de jovens, relegamos aos presídios, outros tantos homens e mulheres, relegamos aos asilos uma cacetada de idosos. Será que houve justiça sempre? Será que houve neutralidade ou uma tentativa de resolver, ao invés de legá-los ao ostracismo e ao decaimento do corpo e da alma?

Lembro agora do filme O Contador de Histórias, uma história linda que merece ser apreciada. Tem relação com esse contexto de desigualdades e injúrias, mas acima de tudo, uma bela lição de amor.

– Desapareça! Não lhe darei ouvidos. Somos definitivamente inimigos e não pode haver qualquer entendimento entre nós. Vá-se, ou vamos nos enfrentar até que um de nós pereça!

– Que posso fazer para abrandá-lo? Não haverá súplica capaz de modificar sua atitude para com sua criatura, que lhe implora bondade e compaixão? Creia-me, Frankenstein, eu era bondoso. Trazia amor e humanidade dentro da alma, antes que viesse a ficar só, miseravelmente só, como agora. Se você, que é meu criador, me renega, que posso esperar de seus semelhantes, que nada me devem? Deles só tenho recebido o escárnio e a repulsa. As montanhas desertas e as geleiras pouco acessíveis são meu refúgio. Venho vagando por aqui há muitos dias. As cavernas de gelo, que somente eu não temo, são a minha morada, a única que o homem não me recusa. Aqui, sob estes céus sombrios, a natureza não me é hostil quanto os seus semelhantes, Frankenstein. Se a multidão soubesse da minha existência nessas paragens, faria o que você pretende fazer, armando-se para destruir-me. Não é natural que odeie os que me combatem? Não quero, pois, transigir com meus inimigos. Se sou um desgraçado, eles vão acompanhar-me em minha desgraça. Todavia, está em seu poder compensar-me e, em troca, livrar os homens de um mal cuja intensidade e alastramento dependem tão-somente de você, e que, muito mais do que apenas a você e sua família, pode estender-se a milhares de outros. Que sua compaixão seja tocada, e lance sua misericórdia sobre mim! É preciso que ouça minha história. Depois poderá escolher entre abandonar-me ou compadecer-se de mim. Mas ouça-me, Frankenstein. Os culpados, por sanguinários que sejam, têm, pelas leis humanas, direito a defesa, antes de serem condenados. Acusa-me de assassínio. Entretanto você não se dispõe, em sã consciência, a exterminar sua própria criatura? Oh! a bela e louvável justiça dos homens! Contudo, não lhe peço que me poupe. Após ouvir-me, poderá, se quiser ou puder, aniquilar a obra que saiu de suas mãos.

– E por cúmulo – disse – você ainda se atreve a invocar-me acontecimentos tenebrosos de que fui o miserável autor! Maldito seja o dia, cão danado, em que o fiz ver a luz pela primeira vez! Malditas sejam minhas mãos, que lhe deram forma! Por sua causa conheci a desgraça além do inexprimível, deixando-me até sem poderes para considerar se sou ou não justo com você. Suma! Livre-me de sua presença asquerosa!

– Tal como o quer, assim o deixo, meu criador – disse – ele, tentando colocar ante meus olhos suas mãos odientas, que afastei com violência. – Eis como posso afastar de si uma visão que o transtorna. Entretanto, em  nada lhe prejudicará ouvir minha história, o que peço e imploro, em nome do que já tive de bom e deixei de ter. É uma longa e estranha história, e a temperatura deste lugar não é conveniente à sua compleição. Venha à cabana na montanha. O sol ainda vai alto e, antes que se esconda atrás das neves, você terá ouvido meu relato e terá condições de decidir. Depende de você proporcionar-me o convívio dos homens e deixar-me levar uma vida inofensiva, ou tornar-me um flagelo de seus iguais, o autor da ruína de meu próprio criador (SHELLEY, 1998, p. 94-96).

Acho engraçado que, à Criatura não cabe a irascibilidade e a loucura, mas ao cientista tudo pode acontecer para que o “mal” seja reparado. O “mal”, como se a Criatura houvesse ordenado que ele a engendrasse.

Não vou mentir, cada palavra acima me dói. É tão arbitrário isso, é tão louco alguém que só quer sentir-se pertencente, amado, alguém que sonha em conhecer o mundo, ser tão maltratado, enxotado, repudiado… E, afinal, será que estamos, hoje, tão longe assim desse cenário? Será que essas situações não se dão, mas sob outras perspectivas? Se não, então, estamos todos muito avançados e as pessoas só procuram os consultórios psicológicos em busca da paz mundial… Hoje ignoramos na cara ou na teletela, ops, nos notebooks e smartphones, hoje estamos mais refinados na arte de ignorar e, provavelmente, Frankie, apesar de todos os gritos em prol do diferente e das minorias, provavelmente, você ainda se sentiria só e excluído. Apesar de que gostaria muito de estar errada em tal afirmação.

Do capítulo XI ao XVI encontraremos, senão a melhor parte da história, ao menos a versão dos fatos de Frankie, desde os seus primeiros momentos de vida até o seu último pedido à Frankenstein – uma companheira da mesma espécie e com os mesmos defeitos.

Frankenstein assume a incumbência, todavia, estando prestes a finalizar a obra, decide que não daria vida a outra criatura capaz de cometer outros desatinos e que, talvez, ainda pudesse vir a procriar aumentando ainda mais o terror no mundo e a sua culpabilidade, assim, destrói o que viria a ser a companheira de Frankie e passa a arcar com a ira do monstro.

– Você agora, meu querido Henry! O terceiro, depois que dois já foram aniquilados por mim! Quem sabe de outras vítimas que aguardam seu destino? Mas você, Clerval, meu amigo mais querido, meu benfeitor… (SHELLEY, 1998, p. 171).

3ª morte – Henry Clerval – melhor amigo de Victor Frankenstein.

Assim, Frankenstein foi assistindo à eliminação de membro após membro de sua família. Despediu-se do mundo por obra do esgotamento, fruto do fracasso e da decepção de ter que deixar viva a sua obra maculada. Passado o derradeiro momento, Frankie encontra o corpo frio daquele que lhe renegara,  e, desviando-se de R. Walton – amigo do morto e dono da embarcação que os abrigava – despede-se daquele que lhe deu a vida e do mundo que jamais lhe aceitou.

“Adeus! Deixo-o, e com você o último ser da espécie humana a quem estes olhos jamais contemplarão. Adeus, Frankenstein! Tu buscaste minha extinção para que eu não pudesse repetir minhas atrocidades. Morto tu, cumprirei agora o teu desígnio. Acenderei minha pira funerária em triunfo e exultarei na agonia das chamas. Minhas cinzas serão varridas pelos ventos e lançadas no mar. Meu espírito partirá para a paz ou o degredo da eternidade. Adeus!” (SHELLEY, 1998, p. 215).

E, se não fora considerado humano, porque haveria de melindrar-se com questões morais e éticas à respeito do suicídio, aliás, nem tempo teve para chegar a concebê-las. Matou-se por obra, pura e exclusiva, de seu instinto de dignidade e dever para com o seu criador e para com o mundo.

“O choro é livre”, liberte-o você também.

Shelley, eternamente grata!

P.S./ Sei que já abusei da fala, mas só mais um detalhe, nos capítulos em que narra sua história, Frankie nos revela três livros que, fatidicamente, reagiram alquimicamente sobre a sua alma, foram eles, Paraíso Perdido, Vidas Paralelas, de Plutarco, e Os Sofrimentos do Jovem Werther. Fico pensando o que seria dele se alcançasse alguns nomezinhos inesquecíveis dos últimos séculos.

* SHELLEY, Mary. Frankenstein. São Paulo: Publifolha, 1998 (Biblioteca Folha. Clássicos da Literatura Universal; 3).

* CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 2006, 30ª reimpressão 2014.

* DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS. DUDH. Disponível em: <http://www.dudh.org.br/definicao/ >. Acesso em: 25/03/2016.

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8 comentários sobre “Resenha: Frankenstein

  1. Uma das coisas que me mais me impressionou sobre este livro e que descobri há pouco é que se trata de uma narrativa epistolar, certo? Não fazia ideia! Gostei muitíssimo das suas observações, esta é uma obra que me interessa muito, ainda que não tenha lido. Acho inquietante o fato de ela perdurar por tanto tempo, principalmente porque a autora a escreveu sem pensar nisso, quer dizer, escreveu durante uma brincadeira. Tenho um livro (muito bom) dividido em duas partes, ele fala sobre a história de Frankenstein e sobre a imagem que nos foi vendida por Hollywood. Ele traça o inicinho da vida da autora, conta a história dos seus pais, de sua irmã (que se não me engano, namorou o Lord Byron) e etc (ainda não li todo, rs), e também toca no mesmo ponto do seu texto, o fato de a história ser sempre readaptada, como o caso do Homem Bicentenário (eu nunca tinha feito essa ligação) e tantos outros. Enfim, muito bacana a sua resenha e espero ler este livro em breve para que possamos trocar mais ideias. Abrçs!

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    1. Sim, Thais, trata-se de uma narrativa epistolar, e o curiooso é que a história é tão bem orquestrada que em momento algum vc se esquiva, muito pelo contrário, rsrsrrs… O Lorde Byron era amigo da família, a mãe dela uma feminista aguerrida e vários foram os eventos que culminaram na apropriação desta personalidade forte chamada Mary Shelley. Vale muito à pena ser lido, querida!! E mais, tenho certeza de que vc encontrará, além do livro, versões em filme super bacanas para nos mostrar sob o seu olhar. Beijoca 😉

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