Resenha: Amor Líquido

Amor Líquido.

Vez por outra me pego pensando no modo de vida do Oliveira, sim, o do Cortázar, e, apesar de todas as nossas rusgas, confesso que me enredo um tanto naquele novelo, e é aí que reside a provocação. Explico, o fato dele não ser um devotado do lattes – apenas um amante do conhecimento e, leia-se, por gosto, por opção – não o torna um escravo do sistema, um escravo das implicações de sucesso e perfeição que a sociedade capitalista impinge à todo e qualquer indivíduo que sai do útero. Ao contrário, o conhecimento faz com que a vida dele seja o laboratório que ele precisa, enquanto ser analítico e pulsante, e suas funções laborais apenas cumprem seu papel sem o apelo de TERQUESER a mais rentável, de TERQUE manter o status quo, de TERQUE estar acima do fracasso, acima do sofrimento, acima da angústia da liberdade.

Entretanto, perceber que, apesar de toda a sua resistência, o mundo o absorveu, o catalogou num nos códigos patologizantes (pois em algum grau o amor literalmente o deixou a delirar) e o medicalizou – como aliás fazem diariamente nesse mundão contemporâneo, sofreu/chorou/não foi um sucesso/fracassou/somatizou/tratou o sintoma/a demanda vive latente, mas quem se importa?/medicaliza/se MEDICALIZOU tá tudo certo (SERÁ???? Sabemos que “o buraco é bem mais embaixo” e que “a tonga da mironga do kabuleté” diz outra coisa, mas sejamos realistas, meu caro, há aqui tantos interesses, opppppppppps, tantas respostas quanto possíveis forem e do capitalismo ao socialismo, do cartesianismo ao holismo, do jurássico ao contemporâneo, do individualismo ao coletivo, o ponto derradeiro ou o inacabado fica por sua conta, esteja à vontade, afinal, o diálogo convém mais do que nunca) – meio que dá aquela sensação de nadar nadar e morrer na praia, quando poderia ser diferente, principalmente quando você sabe que o que não falta é chão nesse planeta.

Ademais, algumas perguntas resistem; O quanto que essa obrigação de TER felicidade e SER um sucesso impacta na vida das pessoas? O quanto que essa obrigação FAZ com que as pessoas se percam ou que justifiquem os fins pelos meios? O quanto que essa obrigação truncou os valores e permitiu que chegássemos ao ponto de não mais distinguirmos nada e que, polarizando tudo e agindo autoritariamente (ainda que digam o contrário), sigamos não ouvindo o que de fato importa? Será que isso tem relação com o modus operandi desse mundo líquido?

Pois, o “só sei que nada sei“, a cada dia faz mais sentido e, não se iluda, o conhecimento não fará de você o detentor de todas as verdades ubíquas do mundo, mas te permitirá compreender alguns dos motivos pelos quais os fatos se dão, os comportamentos se sucedem, a ciclicidade dos eventos permanece e os motivos pelos quais a interação humana ainda constitui a razão da evolução nesta terra. No mais, a partir de agora, teremos a polissemia do amor, desde as relações voláteis nas redes sociais até a imperiosa dor sofrida pelos imigrantes nos países da União Europeia e do mundo, através do olhar de Zygmunt Bauman, aquele que sempre carrega os card games cruciais para cada situação. Sigamos!

De fato, é possível que alguém se apaixone mais de uma vez, e algumas pessoas se gabam – ou se queixam – de que apaixonar-se e “desapaixonar-se” é algo que lhes acontece (assim como a outras pessoas que vêm a conhecer nesse processo) de modo muito fácil. Todos nós já ouvimos histórias sobre essas pessoas particularmente “propensas” ou “vulneráveis” ao amor.

Há bases bastante sólidas para se ver o amor, e em particular a condição de “apaixonado”, como – quase que por sua própria natureza – uma condição recorrente, passível de repetição, que inclusive nos convida a seguidas tentativas. Pressionados, a maioria de nós poderia enumerar momentos em que nos sentimos apaixonados e de fato estávamos. Pode-se supor (mas será uma suposição fundamentada) que em nossa época cresce rapidamente o número de pessoas que tendem a chamar de amor mais de uma de suas experiências de vida, que não garantiriam que o amor que atualmente vivenciam é o último e que têm a expectativa de viver outras experiências como essa no futuro. Não devemos nos surpreender se essa suposição se mostrar correta. Afinal, a definição romântica do amor como “até que a morte nos separe” está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas de parentesco às quais costumava servir e de onde extraía seu vigor e sua valorização. Mas o desaparecimento dessa noção significa, inevitavelmente, a facilitação dos testes pelos quais uma experiência deve passar para ser chamada de “amor”. Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões de amor, esses padrões foram baixados. Como resultado, o conjunto de experiências às quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de “fazer amor” (BAUMAN, 2004, p. 18-19).

Então, diversas são as distinções possíveis entre paixão e amor, inclusive, por entre romantismos, análises, analogias, fisiologias e descrenças, fato mesmo é que a paixão desperta qualquer apático pra vida e, se já fores um receptor altamente sensibilizado por ela, teu condicionamento segue como motor cotidiano. Chega a ser bastante comum a tênue relação entre a paixão e os estados arrebatadores da natureza, afinal a paixão avassala, consome e é imperiosa, tal qual o são as tempestades, as erupções vulcânicas, as tormentas e todos os outros estados de grande potência e fúria (não à toa os poetas românticos sempre fizeram jus a tal comparativo e, inclusive, por tal são distinguíveis); ao passo que o amor abarca os significados de um estado sublime, de condensação e liberdade da alma, onde se pode enxergar como a mais ínfima partícula compreende o todo e ao mesmo tempo pode conter o universo inteiro em seu dna, desta forma, o amor suplantaria a paixão com seus imediatismos (e egoísmos?), o amor seria a única resposta para as questões, entretanto, se ele o é ou se ainda estamos tateando em sua causa, a realidade tem nos mostrado que temos chão alhures a percorrer, pois o terreno ainda resvala selvagem.

Enquanto grande sacada da vida, as fisgadas de paixão e amor se aplicam e se entrincheiram em todos os espaços. Escancarar que meu mundo caiu só porque o crush não me dá bola já foi imortalizado pela Maysa e, nesse caso, só me resta a célere frase do poeta desconhecido, “seje menas“; “chorar na cama que é lugar quente” também é bastante útil, mas por um devido período de tempo, pois não viver os devidos lutos e/ou perdas também tem sido sinal dos tempos de felicidade 24 h no ar e, convenhamos, se você é de carne e osso e consegue discernir o que é a vida real do seu avatar online, é fundamental que você se ouça e se conheça cada vez mais, bem como que tire as melhores lições das situações diversas da vida.

Contudo, o que não falta é motivo pra ocupar o juízo, e outra, na atual conjuntura evolutiva do planeta não mais é concebível ter todo um aparato de última grandeza como o cérebro voltado apenas a questões desta ordem quando, por magnitude, um céu arde em chamas devido às desigualdades sociais, aos problemas de cunho local e global, à corrupção, aos descasos, às injustiças e a uma série de outros descalabros  que vociferam, urram e avacalham as condições de salubridade física e mental dos gentis moradores deste planetinha, o momento agora tem sido de luta, ainda que em prol da utopia que, lembremos, nasce do útero fragoso e inalienável dele – o amor.

Versar sobre o amor pode ser algo de uma redundância sem tamanho, mas acabo tendo que ratificar essa sensação porque se pressiono o Bauman contra a parede quando ele diz que “em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados” isto implica questionar quais são esses elevados padrões de amor, porque os tempos são outros e eu posso sim amar alguém que conheci através de uma ferramenta virtual, porque eu posso sim dizer que estou fazendo amor com alguém mesmo sendo em noites avulsas, porque eu posso sim fazer amor, inclusive indo pra cama com alguém na primeira noite em que saímos juntos, aliás, imagina se esta primeira noite fosse escrita por um qualquer de sucesso e que nesta primeira noite do sexo mais feliz e intenso e enquadrado em todas as versões cult e cultuadas e platonificadas de amor também fosse a única porque um dos parceiros morreu, aí seria lindo e viraria até best seller. Então, a vida do grande contingencial humano não é tema de best seller e o caminho até aqui foi e segue sendo árduo no que diz respeito às lutas pelas liberdades sexuais, às lutas contra o preconceito, contra o machismo, contra os esteriótipos, e mais, mesmo tendo luta, dia após dia o que não faltam são notícias cujas linhas nos demonstram as arbitrariedades que são os crimes de ódio e sua relação direta com machismo, misoginia, lgbtfobia, xenofobia e toda uma gama de preconceitos que só encontram razão de ser e existir nos braços sórdidos e perversos da alienação. Então, me diga, os elevados padrões de amor existem? E porque estes tais padrões elevados, se tão elevados são, desqualificariam o meu nível de amor que almeja ser o melhor também? Não estaria o amor assumindo ares de seletividade? Não teria sido tal prerrogativa um tanto sólida demais para os tempos que só são/estão líquidos porque estamos ousando caminhar em busca de uma nova mentalidade de libertação dos grilhões e dos paradigmas de outrora?

Ousaria acrescentar que importante, fundamental a se trabalhar no quesito sentimentos e pensamentos, seria a condição de como sentimos e lidamos com estes tais sentimentos e pensamentos, pois, por exemplo, não estar com alguém ou estar com alguém que te faz sofrer tem impactado sobremaneira no corpo. Impactar/somatizar no corpo cria, além de uma série de conexões sinápticas para as quais sempre seu organismo tenderá a reagir ao detectar determinados disparos, uma série de consequências como, precisar lidar com estas situações de modo a necessitar de medicalizações ou não e aqui já entram as questões de saúde mental e os sistemas de saúde (e olha que nem toquei no aspectos das dts e das violências), a ser criativo e forte o suficiente para encontrar meios outros para driblar as apatias e não permitir a queda dos neurotransmissores do prazer mantendo-se com a sensação de vivo e potente e capaz de seguir com seus projetos de vida e aqui também entram as questões relacionadas aos meios de subsistência, afinal, quantos não conseguem lidar com as dificuldades oriundas das depressões, aliás, quantos não conseguirão ultrapassar as muralhas da vida porque ficaram estacionados de alguma forma nestes pontos, e vos digo, eles não estão de mimimi ou criando caso, esta é apenas uma das facetas tristes para as quais não gostamos de atrelar às paixões e amores, mas elas existem e, quando não bem trabalhadas nos campos físico/mental/emocional tendem a causar estragos em histórias de pessoas que tinham tudo pra ser diferentes. E, detalhe, este não é só mais um retrato dos tempos líquidos, apenas uma das condições dos novos tempos – a de ter acesso às informações do que antes existia, mas era suprimido por medo, dor, sensação de isolamento, ausência de meios, enfim.

E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultado sem esforço (BAUMAN, 2004, p. 21-22).

Vem cá, hoje temos as plataformas virtuais, logo precisamos lidar com isto a que  se chama de “satisfação instantânea”, mas não ansiamos por isso? Não fora esta uma demanda para a qual assinalamos haver ampla oferta com vistas à total adesão? Houve tempos em que tais plataformas eram apenas vislumbres em filmes e, nem por isso, os amores foram tão mais absolutos assim; temos é uma mania bem consciente de valorizar o passado, de julgarmos, inúmeras vezes, a melancolia por prato principal e relegarmos a nossa ação ao escanteio. Se amanhã ou depois desbravarmos o espaço e outras realidades paralelas, também como vislumbramos em filmes, qual será a desculpa? Voltaremos a cultuar a “satisfação instantânea” por ser ela a única possibilidade, tal qual o foram as cartas e telegramas do passado, entre os locais e os viajantes? Ou será ainda que tais ferramentas, ainda que não programadas com tal intenção, estão evocando a capacidade do amor de se sobrepor às tais ditas barreiras da instantaneidade para provar que, se ele é eterno robusto e inexorável como diz, ele pode sobreviver a isto que se acredita tão incoerente? Não deveria o amor ser capaz o suficiente para tal ou será que nós é que estamos cada vez mais dessensibilizados para os sentimentos e, justamente por tal, não temos mais a capacidade de reunir forças para lutar por ele?

Vivemos a dar meras desculpas? Não seja tola, Elaine!! A verdade é que, é que…

É que nos tornamos fracos para assumir os sentimentos porque, ah, deixe-me ver, o sistema capitalista matou o amor e, logo, não aceitaremos seu embusteiro enviado por opção? Deixe-me ver, o amor custa caro, afinal, preciso postar todo dia aquela foto com o love no restaurante, no teatro, no show, no cinema, no banheiro, no… Mas, me diga, será que o homem das cavernas deixou de unir as mãos porque era preciso batalhar pelo fogo? Será que os índios que habitavam nosso chão deixaram de povoar suas terras quando eram levados a cumprir com seus rituais locais que, diga-se de passagem, também representavam sua organização social, cultural e política vigente em seu mundo consciente?

Estamos tão satisfeitos na zona de conforto da reclamação que para quê dar-se ao trabalho quando é mais fácil reclamar e receber likes e mais likes e abastecer assim o nível de nossas frabriquinhas de neurotransmissores porque, é bem verdade, agora amamos o retorno do status virtual, ansiamos por debates intensos, nos sentimos estupefatamente mais viris quando alavancamos as polêmicas, mesmo que não sejamos capazes de dar um oi a quem quer que esteja ao nosso lado esperando um pouquinho de atenção.

Dizem, e deve ser lenda urbana, que estabelecer limites fazia alguma diferença, mas reitero, deve ser lenda urbana mesmo, afinal nós queremos tudo, o tempo todo, não importando o que daí derivará, certo? Aí é que tá, mermão, a ausência de limites tem nos feito pagar altos impostos, e não pense que estou a pensar na corrupção ou nas relações sociais, apenas, neste momento; a ausência de limites não é aceita sequer pelas nossas células que, por sinal, possuem toda uma engenharia de produção, vivência e subsistência tão bem engendrada que não apetece desperdícios e nem depósitos para os quais não esteja em total acordo com todo o sistema, inclusive, quando ela percebe que não pode intervir com sua presença para alavancar as chances de sua condição e a do organismo, ela se programa para a apoptose.

Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua.

Tal como o desejo, o amor é uma ameaça ao seu objeto. O desejo destrói seu objeto, destruindo a si mesmo nesse processo; a rede protetora carinhosamente tecida pelo amor em torno de seu objeto escraviza esse objeto. O amor aprisiona e coloca o detido sob custódia. Ele prende para proteger o prisioneiro.

Desejo e amor encontram-se em campos opostos. O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo é um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. Fiéis a sua natureza, o amor se empenharia em perpetuar o desejo, enquanto este se esquivaria aos grilhões do amor (BAUMAN, 2004, p. 25).

E desde que o mundo é mundo.

Você busca o relacionamento na expectativa de mitigar a insegurança que infestou sua solidão; mas o tratamento só fez expandir os sintomas, e agora você talvez se sinta mais inseguro do que antes, ainda que essa “nova e agravada” insegurança provenha de outras paragens. Se você pensava que os juros de seu investimento em companhia seriam pagos na moeda forte da segurança, parece que sua iniciativa se baseou em falsos pressupostos.

Isso significa problemas e nada mais do que problemas – mas não todo o problema. Comprometer-se com um relacionamento, “irrelevante a longo prazo” (fato de que ambos os lados estão cientes!) é uma faca de dois gumes. Faz com que manter ou confiscar o investimento seja uma questão de cálculo e decisão. Mas não motivo para supor que seu parceiro ou parceira não deseje, se for o caso, exercitar uma escolha semelhante, e que não esteja livre para fazê-lo se e quando desejar. Essa consciência aumenta ainda mais sua incerteza – e a parte acrescentada é a mais difícil de suportar. Ao contrário de uma escolha pessoal do tipo “pegar ou largar”, não está em seu poder evitar que o parceiro ou parceira prefira sair do negócio. Há muito pouco que você possa fazer para mudar essa decisão a seu favor. Para o parceiro, você é a ação a ser vendida ou o prejuízo a ser eliminado – e ninguém consulta as ações antes de devolvê-las ao mercado, nem os prejuízos antes de cortá-los.

Por todos os motivos, a visão do relacionamento como uma transação comercial não é a cura para a insônia. Investir no relacionamento é inseguro e tende a continuar sendo, mesmo que você deseje o contrário: é uma dor de cabeça, não um remédio. Na medida em que os relacionamentos são vistos como investimentos, como garantias de segurança e solução de seus problemas, eles parecem um jogo de cara ou coroa. A solidão produz insegurança – mas o relacionamento não parece fazer outra coisa. Numa relação, você pode sentir-se tão inseguro quanto sem ela, ou até pior. Só mudam os nomes que você dá à ansiedade (BAUMAN, 2004, p. 30-31).

Me pergunto se os relacionamentos de outras décadas não passavam por tudo isso, ainda mais com o agravante elevado dos preconceitos escancarados e que oprimiam as mudanças. Agora, sejamos coerentes, o que acontece hoje é que ou nos empenhamos ou não insistimos tanto e, novamente, tantos motivos justificariam isso como, a oferta sempre em ampla ascensão, talvez uma responsabilidade para com a liberdade e o direito de escolha do outro, talvez um maior respeito às singularidades, talvez tanta coisa…

E outra, desde quando os relacionamentos vistos como transação comercial são exclusividade do mundo líquido quando sabemos que nos tempos áureos da solidez várias famílias se uniam em virtude do montante de que dispunham? Percebe?!!!

Então, eu continuo buscando justificativas novas para tentar entender o por quê pois, até então, estas alternativas também já nos são conhecidas, apenas mudaram as formas de pessoas conhecerem pessoas, de lidar com o amor entre elas ou com o poliamor, de compreender que agora os casais tem composições variadas e que as mudanças não estão apenas no plano da divagação, elas já são realidade.

Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. Em termos puramente monetários, eles custam mais do que um carro luxuoso do ano, uma volta ao mundo em um cruzeiro ou até mesmo uma mansão. Pior ainda, o custo total tende a crescer com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza. Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco atipicamente elevado e uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes  antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos. E nenhuma dose de determinação e ponderação poderá remover a sombra de dúvida que tende a adulterar a alegria. Além disso, ter filhos é, em nossa época, uma questão de decisão, não um acidente – o que aumenta a ansiedade. Tê-los ou não é comprovadamente a decisão com maiores consequências e de maior alcance que existe, e portanto também a mais angustiante e estressante (BAUMAN, 2004, p. 61).

Aí eu concordo plenamentão!!! Só preciso considerar, tristemente, que “QUE PUXA!” nem todos os filhos custam o equivalente a mansões!!! E ainda preciso avaliar isso tanto para o bem quanto para o mal porque, pensa comigo, para o bem, todas as pessoas do mundo deveriam poder ter acesso a tudo o que faz bem. Logo, todas as pessoas do mundo deveriam ter acesso a educação digna, alimentação digna, lazer digno, habitação digna, direitos e deveres assegurados e tal; mas, será que todas as pessoas do mundo considerariam ter um helicóptero como algo fundamental? Siiiiiiiiiiiiim, eu fui num exemplo esdrúxulo de propósito, poderia bem dizer um iphone, e poderia levar um tapa na cara de quem simplesmente não tem e  não acha importante ter e não acha importante sobrelotar o mundo com dejetos e quinquilharias tecnológicas a cada nova versão que saia porque o seu bom e velho smartphone do ano passado ou retrasado serve e funciona bem obrigado (e eu sou uma dessas), mas também tem quem queira, sim, e eu haveria de dizer que ele não merece sendo que ele trabalha para tal e, enfim. E o segundo exemplo ainda pode ser considerado esdrúxulo quando existem pessoas que ainda precisam superar questões prementes.

Uma coisa é certa e eu topo total com o Bauman, a responsabilidade, os laços estabelecidos entre pais e filhos, até hoje, compreendem relações que tem uma dinâmica emocional/econômica/espiritual duradouras, adoraria dizer vitalícias, mas não posso,  afinal, existem os pais que não assumem, as mães que abandonam, existem as pessoas que se perdem pelo advento das guerras, existe uma infinidade de situações cabais para o aspecto financeiro/econômico que envolve as famílias e que, independente de nossos desejos, existem e bom… Há de existir uma razão para todas as coisas, nem que seja para analisarmos o impacto que incide desde a ausência do uso de métodos contraceptivos por parte do casal chegando até mesmo ao impacto das políticas públicas e suas ações (ou inações) na vida das pessoas.

O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais frequente e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida – ao contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetuar. Os contatos exigem menos tempo e esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A distância não é obstáculo para se entrar em contato – mas entrar em contato não é obstáculo para se permanecer à parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de um botão […] “Estar conectado” é menos custoso do que “estar engajado” – mas também consideravelmente menos produtivo em termos de construção e manutenção de vínculos (BAUMAN, 2004, p. 83).

É, isso tem acontecido!

Seria tolo e irresponsável culpar as engenhocas eletrônicas pelo lento mas contante recuo da proximidade contínua, pessoal, direta, face a face, multifacetada e multiuso. E no entanto a proximidade virtual ostenta características que, no líquido mundo moderno, podem ser vistas, com boa razão, como vantajosas – mas que não podem ser facilmente obtidas sob as condições daquele outro tête-à-tête, não virtual. Não admira que a proximidade virtual tenha ganhado a preferência e seja praticada com maior zelo e espontaneidade do que qualquer outra forma de contiguidade. A solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum (BAUMAN, 2004, p. 85).

É, isso também tem acontecido!

A modernidade produziu desde o início, e continua a produzir, enormes quantidades de lixo humano.

A produção de lixo humano era particularmente ampla em dois ramos da indústria moderna (ainda totalmente produtivos e operando a todo vapor).

A função manifesta do primeiro deles era a produção e reprodução da ordem social. Todo modelo de ordem é seletivo e exige que se cortem, aparem, segreguem, separem ou extirpem as partes da matéria-prima humana que sejam inadequadas para a nova ordem, incapazes ou desprezadas para o preenchimento de qualquer de seus nichos. Na outra ponta do processo de construção da ordem, essas partes emergem como “lixo”, distintas do produto pretendido, considerado “útil”.

O segundo rama da indústria moderna conhecido pela produção contínua de grandes quantidades de lixo humano era o progresso econômico, o qual, por sua vez, exige a incapacitação, o desmantelamento e a aniquilação final de certo número de formas e meios de os seres humanos ganharem a vida- modos de subsistência que não podiam nem iriam ajustar-se a padrões de produtividade e rentabilidade em constante elevação. Via de regra, os praticantes dessas formas de vida desvalorizadas não podem ser acomodados en masse nos novos arranjos da atividade econômica, mais esguios e inteligentes. Eles tiveram negado o acesso a esses modos de subsistência na medida em que os novos arranjos se tornaram legítimos/obrigatórios, enquanto os modos ortodoxos, agora desvalorizados, não mais permitem que se sobreviva. Eles são, por esse motivo, o lixo do progresso econômico (BAUMAN, 2004, p. 150).

E aqui ou você acorda pra realidade de que o preconceito, o racismo, o autoritarismo, a intolerância e o abominável sempre existirão, em suas maquiagens diversas, ou então pega teu passaporte e vai pro mundo das maravilhas.

A desgraça sempre esteve atrelada àqueles que se acreditaram no direito de se sobrepor aos outros, quando nada e nem motivo algum deveria existir que pudesse abrir prerrogativa para tal. Da escravidão ao holocausto, de todas as tragédias que assolaram a história da humanidade, infelizmente, ainda não podemos dizer que exista imunidade para os males do ódio; eles apenas mudaram de nome, permeiam outros redutos e convivem de outras formas.

Lixo humano. O simples fato de ler e digitar tais palavras já traz toda uma carga de conflitos que, inevitavelmente, te força a se perguntar por quê? Todavia, hoje, 2016, apesar de todas as barbáries, de todos os paradoxos, temos a obrigação de gritar ATÉ QUANDO? E, como bem descreve o Bauman, “aquele que busca a sobrevivência assassinando a humanidade de outros seres humanos sobrevive à morte de sua própria humanidade” (p. 105), só acrescento que, hoje, mais do que nunca, os meios para alardear aos quatro cantos do mundo existem, como também as formas de se organizar por justiça.

A Primavera Árabe, em 2011, mostrou a força dos movimentos do povo e sua relação com as mídias sociais, frente a governos autoritários, e a partir de então, esta voz tem ressoado alto; esta relação do povo, para o povo, nos meios de comunicação, passou a ter uma outra conotação e adquiriu ares de ferramenta consolidadora, principalmente quando levamos em consideração que os veículos de comunicação sempre serviram aos detentores do poder, então, eis que, aos poucos, as cartas da mesa passam a ser manuseadas por outras mãos (ainda que não tenham sido concebidas com esse intuito, afinal, imagina lá se plataformas como Facebook e Twitter teriam sido amplamente pulverizadas ao mundo se em suas testas estivessem cravadas as insígnias da revolução do povo. Muito pelo contrário, elas cresceram num ventre totalmente elitista e que, por “vontade do destino” poderíamos assim timidamente dizer – ou será que estaríamos excomungando o “destino/interesse econômico” que tais rebentos dignariam aos seus criadores? – enfim, voltando, caíram nas mãos do povo. Agora, leia-se mãos do povo, entre aspas, porque até que ponto do estamos concordando em sermos monitorados em tudo ou não – e para isso o Orwell foi bem mais convincente com suas teletelas, talvez apenas nada sutil – eu não saberei dizer).

Sim, e é bem verdade, todos usam as redes sociais para espalhar o que querem, o ISIS, por exemplo, tem exportado grandes atores pro mercado internacional com seus vídeos de feitos abomináveis. Existe o lado clandestino da internet para negócios escusos. Existem os motores de busca que garantem a privacidade e as informações do usuário, existe tanta coisa por aí, ou será que você continua achando que o país das maravilhas haveria de ser justamente a internet?

A unidade da humanidade é o derradeiro horizonte de nossa história universal. Um horizonte que nós, seres humanos, estimulados e guiados pela razão e pelo instinto de autopreservação, estamos destinados a perseguir e, na plenitude do tempo, alcançar. Mais cedo ou mais tarde, advertiu Kant, não haverá uma nesga de espaço vazio onde possam procurar abrigo ou resgate os que considerem os espaços já ocupados muito apinhados, inóspitos, inconvenientes ou inadequados. E assim a Natureza nos obriga à visão da hospitalidade (recíproca) como o preceito supremo que precisamos – e acabaremos sendo forçados a – abraçar e obedecer para pôr fim à longa cadeia de tentativas e erros, às catástrofes causadas por esses erros e às devastações que elas deixam em sua esteira.

Os leitores de Kant puderam aprender tudo isso em seu livro dois séculos atrás. O mundo, contudo, mal prestou atenção. Parece que, em vez de escutar atentamente seus filósofos, sem falar em seguir suas advertências, prefere homenageá-los com placas. Os filósofos podem ter sido os principais heróis do drama lírico do Iluminismo, mas a tragédia épica pós-iluminista quase apagou suas falas (BAUMAN, 2004, p. 152).

Primeira consideração, será mesmo que no texto do Kant haveria alguma palavra que desse a entender a existência dessa “nesga” de espaço vazio? Desculpa aí tradução, pode até parecer piada insólita, mas é só curioosidade mesmo. 🙂

Bauman faz de Kant arauto dos tempos e nós lembramos destas palavras do Bauman (passando à francesa para lembrar que o livro é de 2004) ao assistir diariamente às notícias referentes aos refugiados na União Europeia. Mas, tendo em vista a senda dos imigrantes (fugas de um contexto de vida que envolve desde a violência em alta escala à fugas do estado de miséria mesmo e das condições de violações dos direitos humanos), algumas perguntas não deixam de nos inculcar o juízo, principalmente quando sabemos que os governos envolvidos nas tentativas de alocamentos não são de todo esse altruísmo maquiado com desvelo, bem ao contrário, até que ponto eles estão agindo por puro interesse econômico? Ainda que a Alemanha tenha a necessidade de espantar alguns espectros do passado, será mesmo que seu empenho voga meramente no aspecto humanístico? Por que, os ingleses já demonstraram suas intenções em meio à saída do bloco europeu e, apesar de grande parte da população ter-se mostrado contrária, o referendo apurou um maior número de votantes pela saída (e como lá não é Brasil, né? decisão tomada pelo povo é acatada), então, sigamos.

Por outro lado, o que tem sido feito dos haitianos que chegaram ao Brasil desde 2010, fugidos das consequências do terremoto que assolou Porto Príncipe? Não pense você que eles sofreram (e sofrem) pouca discriminação não. Não pense você que as muralhas da exclusão não se impuseram diante deles, bem ao contrário, e inclua tudo no pacote desde o que diz respeito à ajuda de custo para manutenção, às oportunidades de encontrar emprego, abrigo, alimentação… Lembremos qual é a região mais rica do nosso país e qual é a menos valorizada, lembremos onde há maior investimento em políticas públicas, lembremos até mesmo onde há epidemia de malária e porque, simplesmente, não interessa pensar em grandes investimentos e coisas do tipo. Lembramos? Boooooom!!! Lembramos também que não para por aí, né? Ótimo!!!!

Já que deportações e expulsões criam imagens de televisão dramáticas e perturbadoras, e podem desencadear os clamores do público, maculando as credenciais internacionais dos responsáveis, a maioria dos governos prefere, se possível, passar ao largo do problema fechando as portas àqueles que batem em busca de abrigo.

A atual tendência a reduzir drasticamente o direito de asilo político, acompanhada pela firme recusa ao ingresso de “migrantes econômicos” (exceto nos momentos, poucos e transitórios, em que as empresas ameaçam mudar-se para onde a mão de obra está se esta não for trazida para onde elas estão), essa tendência assinala não uma nova estratégia com relação ao fenômeno dos refugiados, mas uma ausência de estratégia, assim como o desejo de evitar uma situação em que essa ausência acarrete embaraços políticos (BAUMAN, 2004, p. 165).

Por essas e por outras que constatamos que o “sair bem na fita” esconde mais do que pode sugerir os montes de sorrisos idôneos, mas vivemos no mundo líquido do “registre tudo o que puder” ou “você estará automaticamente excluído”, logo, seguimos os ares da boa conduta dos novos tempos, sem vergonha e sem fleuma, apenas sendo a sociedade do espetáculo com seus episódios líquidos diários e permanentes, pois é, permanentes.

Bauman, mais uma vez, muito grata!

Curioosos, até breve!

 

* BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

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4 comentários sobre “Resenha: Amor Líquido

  1. Dei uma rápida lida no seu texto, mas já coloquei nos favoritos, porque é muita informação, tenho que ler de novo com mais atenção Bauman é um dos autores que está na minha lista, dele comecei a ler modernidade líquida e achei incrível, uma leitura complexa e ao mesmo tempo gostosa, dinâmica de ler, né?

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    1. Meniiiiina, e num que é? Rsrsrsrs… A gente vai absorvendo o livro tão naturalmente que dá prazer. O Eric Hobsbawm também promove esse envolvimento, só que ainda não tive a oportunidade de lê-lo em livro físico, só virtual e parar pra fazer resenha de livro virtual, pra mim, é tenso, me cansa os olhos, aí não rola, mas uma hora dessas ele aparece também.
      Beijocona, Thais! Adoro seus comentários!!

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  2. “-Qual a sua definição de amor?
    -Amor?
    é como quando você vê a névoa de manhã, quando você acorda antes do sol nascer. É como um breve instante que depois desaparece.
    -Sério?
    -Absolutamente.
    – Desaparece?
    -Sim. Rapidamente. Apenas isso, o amor é uma névoa que queima com a primeira luz de realidade.”
    Bukowski quando perguntado sobre o amor.

    Adorei o texto Elaine! Tanto, que comentar ficou difícil. Vou reler e depois tento.

    Bj!

    Curtido por 1 pessoa

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