Resenha: Hamlet

Hamlet

Não vou mentir, tenho um recalque desgraçado de certas cenas de filmes em que as pessoas vão andando pelas estações de ônibus, metrô, praças e sempre rola de aparecer alguém tocando um sax, um violão, uma sanfona, um pandeiro, um apito que seja. Aqui em Salvador existem, pelo menos, quatro grandes estações de transporte e eu nunca vi tal cena. Nada, nada, nem uma flauta, e isso me emputece porque a arte muda o estado de espírito das pessoas, ter acesso à arte deveria ser tão primordial quanto feijão e arroz no prato.

Vocês já me conhecem um pouco e sabem que eu não sou de ficar rasgando seda, mas antes entalhar madeira farpada (de preferência sem pregos, pois essa loucura de “eu gosto tanto de parafuso e prego” só apetece a cria da Lispector), entretanto, preciso elencar alguns aspectos relevantes: os monólogos do Hamlet são sensacionais (você precisa ler em voz alta. Aliás, eu tenho dessas loucuras com certas leituras que me soam especiais. O impacto da palavra, a voz e o seu produto na alma conformam todo um contexto que, porra, só a arte pra justificar); você vai ficar puto por não saber escrever sequer um 3.14159265359 tão bem quanto ele (mas, que se lasque esse quê de inalcançável; também podemos aceitar que escrever feito ele não nos interessa e nem é um objetivo de vida. Saber que ele existiu e fez a sua parte, e continua fazendo através do legado que deixou, já está de bom tamanho. Que nada nos limite, mas o que vier pra somar terá caminho aberto :p Agora, caso seja da sua vontade ser páreo-duro na escrita, se jogue e faça!); você vai desejar interpretar algum dos seus personagens (tenho um saudosismo dos saraus, nunca vivi, nunca estive em nenhum, mas adoraria sentir aquele clima de leituras de poesias e textos e o escambau, adoro ver isso nos filmes); você vai rir com as largadas do Horácio (que na minha cabeça é o Matheus Nachtergaele) e como, fatidicamente, nem tudo são flores,  você vai acordar pra realidade da vida com os dilemas que traz no lombo o Príncipe da Dinamarca e que, em algum grau, pode lhe remeter aos seus. Será?

Várias vezes me pego pensando coisas do tipo, Elaine, você não poderia simplesmente fazer uma resenha breve do livro, sem esses comparativos e sem todos estes paralelos? E a resposta é que, até poderia, mas a minha cachaça é essa aqui, sabe? Não tenho pressa, aliás, tenho apenas a obrigação de usar o tempo a meu favor e sentir prazer com a leitura. Ademais, sinceramente, meu interesse aqui é largar a batata quente nas mãos de todos que circulam por este espaço e, acima de qualquer coisa, trocar ideias. Isto posto, questiono se tu te indagas à respeito da razão pela qual a arte não é acessível à todos? Porquê que, juntamente com a educação (e Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro devem chorar com gosto, até hoje, em suas nuvens), ela é ministrada em migalhas, em doses homeopáticas? Porquê que, desde a vibração dos atabaques às guitarras elétricas, os capitães do mato sempre cercearam o povo com a ideia de manter a ordem (ou não)? Porquê que tu precisa passar por situações como pagar mais caro no táxi pra voltar pra casa do que no ingresso apenas para ter acesso, afinal, os teatros e casas de show são sempre longe das periferias? Porquê que grandes shows e concertos e mostras de arte só se reproduzem em, pelo menos, quatro capitais do país? Será à toa? Pois, só sei que é cômodo, só sei que é um ato político, só sei que reflete o paradoxo das heranças excludentes às quais sempre fomos relegados.

Só sei que, na minha cabeça, os museus poderiam estar, por exemplo, nas estações de transporte. A pessoa desceria de manhã na estação, já ficava ligada no frisson do que tava rolando ou não, já começava a vibrar outra energia, a viajar por entre novas ideias e conhecimentos e estímulos que poderiam funcionar até, quem sabe?, como um fiozinho de expansão dos horizontes; antes de voltar pra casa, idem. Na minha cabeça, as bibliotecas poderiam se adequar para ficar abertas 24 h como, aliás, já funciona em outros locais; tipo, pensa aí que sensacional alguma política pública que desse subsídio para que tais instituições pudessem se manter e serem mais democráticas no uso do aparato físico e estrutural por todos, de pessoas que não têm abrigo, mas que teriam a chance de varar a noite numa perspectiva diferente à pessoas que querem estar lá para pesquisar, estudar, ler, passar o tempo, enfim. Na minha cabeça, livros inteiros-pedaços-ou-frases de Cecília Meireles à Machado de Assis poderiam estar nas paredes-no-chão-ou-no-assentos públicos, grafites dos artistas do meu bairro aos Gêmeos deveriam ser cotidiano nas ruas, e não a exceção da regra. Na minha cabeça as estações, e não nos limitem aos shoppings pelo amor do sol, as praças, e todos os ambientes urbanos deveriam ter mais povo mostrando a sua arte, deveriam se constituir como um espaço mais efetivo na vida das pessoas e não ter a sua concepção de nascimento e funcionalidade tão pouco aproveitada. Na minha cabeça tanta coisa, mas na vida real a história é outra e não existem contos de graça. Saca A Vida Secreta De Walter Mitty? Pois, esse último parágrafo foi minha versão bem viajandona, mas deixe estar que já acordei de novo. Bleh…

Hamlet, meu bem, aqui vou eu!!

HAMLET: Oh, que esta carne tão, tão maculada, derretesse,

Explodisse e se evaporasse em neblina!

Oh, se o Todo-Poderoso não tivesse gravado

Um mandamento contra os que se suicidam.

Ó Deus, ó Deus! Como são enfadonhas, azedas ou rançosas,

Todas as práticas do mundo!

O tédio, ó nojo! Isto é um jardim abandonado,

Cheio de ervas daninhas,

Invadido só pelo veneno e o espinho –

Um quintal de aberrações da natureza.

Que tenhamos chegado a isto…

Morto há apenas dois meses! Não, nem tanto. Nem dois.

Um rei tão excelente. Compará-lo com este

É comparar Hipérion, Deus do sol,

Com um sátiro lascivo. Tão terno com minha mãe

Que não deixava que um vento mais rude lhe roçasse o rosto.

Céu e terra! É preciso lembrar?

Ela se agarrava a ele como se seu desejo crescesse

Com o que o nutria. E, contudo, um mês depois…

É melhor não pensar! Fragilidade, teu nome é mulher!

Um pequeno mês, antes mesmo que gastasse

As sandálias com que acompanhou o corpo de meu pai,

Como Níobe, chorando pelos filhos, ela, ela própria –

Ó Deus! Uma fera, a quem falta o sentido da razão,

Teria chorado um pouco mais – ela casou com meu tio,

O irmão de meu pai, mas tão parecido com ele

Como eu com Hércules! Antes de um mês!

Antes que o sal daquelas lágrimas hipócritas

Deixasse de abrasar seus olhos inflamados,

Ela casou. Que pressa infame,

Correr assim, com tal sofreguidão, ao leito incestuoso!

Isso não é bom, nem vai acabar bem.

Mas estoura, meu coração! Devo conter minha língua! (SHAKESPEARE, 2016, p. 24).

Por esse trecho já nos situamos na trama. O Rei Hamlet morreu e, dentro de um curto intervalo do luto, a Rainha Gertrudes é desposada por Cláudio, irmão do rei morto. Sacou o porquê daquela frase “acontece nas melhores famílias“? Sentiram também como a mulher é retratada ora como indefesa ora como sórdida? Então, relembrando o contexto, incesto, misogenia, vingança e, já vou logo adiantando, fratricídio. Olha o prato cheio da trama!

Quando foi mesmo que a tragédia Hamletiana foi escrita? Segundo especulam, entre 1599 e 1601. Será que esse enredo era pouco ou muito inovador para a aristocracia e seus valores de grandeza e imortalidade?

Agora, digamos que trouxéssemos o Shakespeare para umas voltinhas por essas bandas, ano 2016, será que ele frequentaria de baile funk/pagodão da esquina às levadas de eruditismo atuais? Na boa mesmo? Sendo ele um curioso como penso que foi, acredito que sim, principalmente quando levamos em consideração que tudo e todos os lugares e circunstâncias se apresentariam como prato cheio para o observador que o fustigava por dentro e que tinha ânsias de conquistar o mundo com sua arte. O que será que ele faria em tempos de realidade virtual? Se Jesus Cristo e ele conquistaram zilhões de seguidores sem Facebook e sem Twitter, o que será que aconteceria nesses tempos? Tocariam fogo nas redes?!! Será que ele também revolucionaria este tempo abordando os mesmos temas (afinal, desde que o mundo é mundo, OS TEMAS SÃO SEEEEEMPRE OS MESMOS, tamo sempre rodando nas mesmas cirandas, apenas, com poucas mudanças, e grande tendência à cronificação) ou será que ele só foi imortalizado porque viveu o exato século que teria que viver? Porque essa foi a vantagem de certas estrelas, né?, viveram tempos nos quais suas luzes estiveram sempre à frente e, talvez agora, se vivos estivessem, poderiam ser só mais um anônimo de talento na multidão. Será? Enfim, mesmo que por saudosismo, prefiro acreditar que o cara vomitaria talento e inovação, só que de acordo com as nossas demarcações atuais, afinal, liberdade pode, desde que politicamente correta, né isso? Deveria ser, mas será que tem sido?

Isso te inculca? O politicamente correto tem promovido grandes mudanças, mas até que ponto? O humor, por exemplo, passou a se intitular vitimado quando das assertivas das pessoas quanto ao conteúdo preconceituoso das piadas famigeradas.

Você deixa de consumir determinada forma de arte quando o artista não age de forma coerente, quando o discurso não acompanha a prática, ou será que você aliena quando convém? Será que existe conteúdo incestuoso, radical e preconceituoso nas letras de pagode, de funk e de metal pesado? Será que uma obra literária considerada a mais fulgurante entre todas, mas que foi escrita por um calhorda pode ser relevada? Será que aquele teu diretor preferido de cinema, mesmo tendo sido acusado de estupro,  tem passaporte livre? Será que aquele grupo de músicos que cometeu estupro coletivo, depois de uma boa dose de ostracismo midiático, tá liberado pra animar tuas festinhas novamente? Todo tipo de erro é alienável?

Pois, o Príncipe Hamlet também passa a ter o juízo perturbado por várias questões que se lhe apresentam após a morte do pai…

LAERTES: Quanto a Hamlet e ao encantamento de suas atenções,

Aceita isso como uma fantasia, capricho de um temperamento,

Uma violeta precoce no início da primavera; suave, mas efêmera,

Perfume e passatempo de um minuto – Não mais.

OFÉLIA: Não mais que isso?

LAERTES: Não mais;

Pois a natureza não nos faz crescer

Apenas em forças e tamanho.

À medida que este templo se amplia,

Se amplia dentro dele o espaço reservado

Pra alma e pra inteligência.

Talvez Hamlet te ame, agora, e não haja mácula ou má-fé,

Só sinceridade nas suas intenções.

Mas você deve temer, dada a grandeza dele,

O fato de não ter vontade própria:

É um vassalo do seu nascimento.

Não pode, como as pessoas sem importância,

Escolher a quem deseja, pois disso depende

A segurança e o bem-estar do Estado.

Portanto, a escolha dele está subordinada

À voz e à vontade desse outro corpo

Do qual ele é a cabeça. Então, quando diz que te ama,

Convém à tua prudência só acreditar nisso

Até onde seu desejo pessoal pode transformar

O que ele diz em fato: ou seja,

Até onde permitir a vontade universal da Dinamarca.

Assim, pesa o que pode sofrer a tua honra,

Se ouvir suas canções com ouvido crédulo,

Lhe entregar o coração ou abrir teu mais casto tesouro

À sua luxúria sem controle.

Cuidado, Ofélia, cuidado, amada irmã, vigia!

E coloca tua afeição

Fora do alcance e do perigo do desejo.

A donzela mais casta não é bastante casta

Se desnuda sua beleza à luz da lua.

A mais pura virtude não escapa ao cerco da calúnia.

A praga ataca os brotos da primavera

Antes mesmo que os botões floresçam;

E na manhã orvalhada da existência

Os contágios fatais são mais constantes.

Tem cuidado, então; o medo é a melhor defesa.

Uma jovem se seduz com sua própria beleza. (SHAKESPEARE, 2016, p. 29)

Seria Ofélia uma idiota? Seria Hamlet um aproveitador? De todo modo, Laertes, trata de abrir bem os olhos da irmã para aquilo que todos consideravam como o verdadeiro dote da mulher – a virgindade – aspecto este que, até hoje, levando-se em consideração as opções de vida e as configurações religiosas, ainda existe. São escolhas e cada qual tem o direito de fazê-las. Quanto ao peso da coroa na imposição dos relacionamentos, bom, só posso dizer que, para além, mas bem além mesmo da coroa real, rsrsrrs, nossos tempos ainda trazem o peso das estratificações sociais, SIM!, todavia, para quem quer e gosta de se iludir, voilà!, diga o contrário.

Mas, voltando ao peso da coroa e ainda com a desconfiança do Laertes na cabeça, aventamos, será que existiram casamentos por amor ou todos eles eram arranjados de acordo com o levantamento do patrimônio de ambos? Olha o caso da mãe e tio de Hamlet. E as decisões de Estado e de expansão territorial tinham muito ou pouco peso? As grandes fortunas só trazem felicidade e decisões acertadas? Por hora, gostaria apenas de fazer um link com aquelas pesquisas que delimitam uma espécie de valor meio-termo para que o sujeito tenha qualidade de vida, sem ser tão impactado pelos deslumbres do ilimitado e sem a penúria da contagem de moedinhas, vale a pena caçar na internet.

OFÉLIA: Terei o nobre sentido das tuas palavras

Como guarda do meu coração. Mas, meu bom irmão,

Não faz como certos pastores impostores,

Que nos mostram um caminho pro céu, íngreme e escarpado,

E vão eles, dissolutos e insaciáveis libertinos,

Pela senda florida dos prazeres,

Distante dos sermões que proferiram. (SHAKESPEARE, 2016, p. 29)

Ufa! Ofélia não é uma idiota!! Apesar de agir com ares de ingenuidade indolente, seu retrato demonstra apenas que é mais uma cria do patriarcado.

HAMLET: Continua me fazendo sinais.

(Ao Fantasma.) Pode ir que eu te sigo.

MARCELO: Não vá lá, meu Senhor. (Segura Hamlet.)

HAMLET: Tira as mãos.

HORÁCIO: Se convença, senhor – não deve ir.

HAMLET: O meu destino chama

E torna as menores artérias do meu corpo

Tão fortes quanto os nervos do Leão da Nemeia.

(O Fantasma acena.)

Continua chamando. Me deixem livre, senhores.

Pelos céus, transformarei também em fantasma

Quem me detiver novamente. Afastem-se!

(Ao Fantasma.) Pode ir – vou atrás.

(Saem, o Fantasma e Hamlet.)

HORÁCIO: A imaginação o arrasta a qualquer ousadia.

MARCELO: Vamos segui-lo; é um erro obedecer agora.

HORÁCIO: Vou com você. Mas o que é que quer dizer isso?

MARCELO: Há algo de podre no Estado da Dinamarca.

HORÁCIO: O céu providencia.

MARCELO: Vamos lá. (Saem.) (SHAKESPEARE, 2016, p. 34-35)

Além da frase famosa, temos o momento primeiro do contato entre Hamlet e o Fantasma de teu pai, o Rei Hamlet.

FANTASMA: Sou o espírito de teu pai

Condenado, por um certo tempo, a vagar pela noite

E a passar fome no fogo enquanto é dia,

Até que os crimes cometidos em meus tempos de vida

Tenham sido purgados, se transformando em cinza.

Se não me fosse proibido

Narrar os segredos das profundas,

Eu te revelaria uma história cuja palavra mais leve

Arrancaria as raízes da tua alma.

E gelaria o sangue da tua juventude,

Fazendo teus dois olhos abandonarem as órbitas

Como estrelas perdidas; enquanto teus cabelos,

Separados em tufos, ficariam com os fios em pé:

Cerdas na pele de um porco-espinho.

Mas esses segredos do sobrenatural

Não são pra ouvidos feitos de carne e sangue,

Escuta, escuta, escuta!

Se você algum dia amou seu pai…

HAMLET: Ó, Deus!

FANTASMA: Vinga esse desnaturado, infame assassinato.

HAMLET: Assassinato!

FANTASMA: Todo assassinato é infame:

Este é infame, perverso – monstruoso.

HAMLET: Me conta tudo logo, pra que eu,

Mais rápido do que um pensamento de amor,

Voe para a vingança.

FANTASMA: Te vejo decidido:

E serias mais insensível do que as plantas adiposas

Que apodrecem molemente nas margens do rio Letes

Se ficasses impassível diante disso. Então, Hamlet, escuta:

Se divulgou que fui picado por uma serpente

Quando dormia em meu jardim;

Com essa versão mentirosa do meu falecimento

Se engana grosseiramente o ouvido de toda a Dinamarca.

Mas saiba você, meu nobre jovem:

A serpente cuja mordida tirou a vida de teu pai

Agora usa a nossa coroa.

HAMLET: Ó, minha alma profética! Meu tio!

FANTASMA: Sim, essa besta incestuosa e adúltera,

Com seu engenho maligno e dádivas de traição –

Maldito engenho e dádivas malditas

Por seu poder de sedução! – descobriu, pra sua lascívia incontrolável,

A volúpia da minha rainha tão virtuosa – em aparência.

Oh, Hamlet, que queda foi aquela!

De mim – cujo amor ainda mantinha a dignidade

Dos votos feitos em nosso matrimônio –

Rebaixar-se a um canalha, cujos dons naturais

Eram mais que execráveis, comparados com os meus!

Mas, assim como a virtude não se deixa corromper,

Ainda que a luxúria a corteje em forma de anjo,

Também a lascívia, mesmo ligada a um anjo refulgente,

Continua devassa nos lençóis celestes,

E goza na imundície.

Mas, espera! Já sinto o odor do ar matutino;

Devo ser breve; eu dormia, de tarde, em meu jardim,

Como de hábito. Nessa hora de calma e segurança

Teu tio entrou furtivamente, trazendo, num frasco,

O suco de ébona maldita,

E derramou, no pavilhão de meus ouvidos,

A essência morfética

Que é inimiga mortal do sangue humano,

Pois, rápida como o mercúrio, corre através

Das entradas e estradas naturais do corpo;

E, em fração de minuto, talha e coalha

O sangue límpido e saudável,

Como gotas de ácido no leite. Assim aconteceu comigo;

Num segundo minha pele virou crosta leprosa,s

Repugnante, e me surgiram escamas purulentas pelo corpo.

Assim, dormindo, pela mão de um irmão, perdi, ao mesmo tempo,

A coroa, a rainha e a vida.

Abatido em plena floração de meus pecados,

Sem confissão, comunhão ou extrema-unção,

Fui enviado para o ajuste final,

Com todas minhas imperfeições pesando na alma. (SHAKESPEARE, 2016, p. 35-37).

Hamlet descobre que, na verdade, o pai fora assassinado pelo próprio tio e que este, com o intuito de espoliar tudo, casou-se com a rainha assumindo desta forma todo o legado do Rei morto. Mas, o que eu acho sensacional mesmo neste trecho é a forma curiosa com que o crime transcorre – suco de ébona no pavilhão auricular. Será que isto procede? Cadê os professores de toxicologia? Rsrsrsr… De todo modo, me faz lembrar da sensação gostosa que é perceber os avanços da ciência através dos seus retratos oportunos na literatura. Em Frankenstein, nos deparamos com uma fisiologia descrita de forma ingênua, pela Mary Shelley, porém muito contundente para a época da criação do Monstro; já em Drácula, de Bram Stoker, a descrição de um granuloma de corpo estranho me transportou direto para o laboratório, numa aula prática de patologia clínica, cuja lâmina do dia era, justamente, a do tema abordado. Aprender por intermédio dos tentáculos da criatividade é sempre muito prazeroso. Como não internalizar? Rsrsrsrssr…

HAMLET: Ninguém deve saber o que foi visto hoje.

HORÁCIO & MARCELO: Senhor, ninguém saberá.

HAMLET: Muito bem – então jurem.

[…]

HORÁCIO: Ó dia, ó noite! Isso é espantosamente estranho!

HAMLET: Portanto, como estranho deve ser recebido.

Há mais coisas no céu e na terra, Horácio,

Do que sonha a tua filosofia. (SHAKESPEARE, 2016, p. 40).

Trechinho transcrito só para visualizarmos mais uma de suas célebres frases.

HAMLET: Ser ou não ser – eis a questão,

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias –

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;

Só isso. E com o sono – dizem – extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis uma consumação

Ardentemente desejável. Morrer – dormir –

Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Os sonhos que hão de vir no sono da morte

Quando tivermos escapado ao túmulo vital

Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão

Que dá à desventura uma vida tão longa.

Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,

A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,

As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,

A prepotência do mando, e o achincalhe

Que o mérito paciente recebe dos inúteis,

Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso

Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,

Gemendo e suando numa vida servil,

Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –

O país não descoberto, de cujos confins

Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,

Nos faz preferir e suportar os males que já temos,

A fugirmos pra outros que desconhecemos?

E assim a reflexão faz todos nós covardes.

E assim o matiz natural da decisão

Se transforma no doentio pálido do pensamento.

E empreitadas de vigor e coragem,

Refletidas demais, saem de seu caminho,

Perdem o nome de ação. (SHAKESPEARE, 2016, p. 67-68).

É, caros amigos, graças aos céus, crise existencial, assim como o mosquito multimídia da dengue/zika/chikungunya, não tem preconceito e consome qualquer ser humano, esteja ele preparado ou não. Se, conforme reza a lenda, ninguém passará incólume às dores da vida, porquê justo o Príncipe haveria de fugir às perturbações do ódio, da vingança, da honra, da coragem, da dor, do amor e de todas as tormentas que assolam a razão, a coerência e a consciência? Aliás, se escapasse, não teria ele a humanidade que caçamos ao vasculhar sua história e completude de ações. Talvez, muito mais que as resinas com seus poderes hipnóticos de estética perfeita, a amálgama tenha mais substância a dar à ele e a todos nós.

PRIMEIRO COVEIRO: Mas como vão enterrar numa sepultura cristã? Ela não procurou voluntária a sua salvação?

SEGUNDO COVEIRO: Eu te digo que sim; mas cava a cova dela bem depressa. O juiz examinou o caso e decidiu-se enterro cristão.

PRIMEIRO COVEIRO: Como é que pode ser? Só se ela se afogou em legítima defesa.

SEGUNDO COVEIRO: Parece que foi.

PRIMEIRO COVEIRO: Bom, deve ter sido se defendendo; não pode ser doutro jeito. E aí está o nó: se eu me afogo voluntário, isso prova que há um ato; e um ato tem três galhos; que é a ação, a facção e a executação. Argo, foi uma afogação voluntária.

SEGUNDO COVEIRO: Claro, mas ouve aqui, cavalheiro coveiro…

PRIMEIRO COVEIRO: Com a sua licença! (Mexe na poeira com o dedo.) Aqui tem a água; bom. Aqui tem o homem; bom. Se o homem vai nessa água e se afoga, não interessa se quis ou se não quis – ele foi. Percebeu? Agora, se a água vem até o homem e afoga ele, ele não se afoga. Argo, quem não é culpado da própria morte, não encurta a própria vida.

SEGUNDO COVEIRO: Mas isso tá na lei?

PRIMEIRO COVEIRO: Claro que está; é alei das perguntas do juiz.

SEGUNDO COVEIRO: Quer que eu te diga? Se essa não fosse da nobreza, nunca que iam dar pra ela uma sepultura cristã.(SHAKESPEARE, 2016, p. 118).

Então, uma série de eventos intrincarão Hamlet, Polônio (pai de Ofélia, Laertes e cupincha do novo rei), a própria Ofélia e Laertes, o rei e a rainha. Mas, a cena acima, em específico, demonstra a preocupação dos coveiros em relação aos valores da época, sua relação com o suicídio da jovem e seu direito de ser sepultada, ou não, em solo sagrado quando tem-se em vista os preceitos cristãos. Entretanto, a moral da história é clara, onde reinam os privilégios, “os fins justificam os meios“. Será isso alguma novidade?

HAMLET: Oh, eu morro, Horácio;

O poderoso veneno domina o meu espírito.

Não vou viver pra ouvir notícias da Inglaterra;

Mas profetizo que a eleição recairá em Fortinbrás.

Ele tem o meu voto agonizante;

Diz-lhe isso e fala de todas as ocorrências,

Maiores e menores, que me impulsionaram a…

O resto é silêncio. (Morre.) (SHAKESPEARE, 2016, p. 139).

Gente, final redondo, sem arestas, com aquela pegada de “justiça seja feita” e que venham os novos tempos. Siiiiiiiiiiim, é bem verdade, é uma pena que isso só aconteça nos livros e que estejamos tão necessitados, tão carentes dessa idealização. “Corram para as colinas“, talvez fosse o mais prudente a indicar, mas antes, entremos em algum teatro cujo cartaz seja – HAMLET.

Shakespeare, vamo marcar qualquer coisa uma hora dessas? 😛

Curioos@s, até breve!

* SHAKESPEARE, William. Hamlet. Porto Alegre: L&PM, 2016.

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14 comentários sobre “Resenha: Hamlet

  1. SHAKESPEARE NA ÁREA!!!!

    Quando mais nova achava que as obras de Shakespeare eram superestimadas; estava na 7ª série quando li Hamlet a primeira vez e não entendia por que todos eram apaixonados por essa obra. Hoje mais velha e um pouco mais esclarecida, descobri o que ninguém me contou naquela época, SHAKESPEARE verdadeiramente é atemporal (Me sinto uma boba que entendeu a piada depois de todo mundo).
    Concordo totalmente com você OS TEMAS SÃO SEMPRE OS MESMOS; desde que o mundo é mundo existe disputa por poder, vaidade, hipocrisia e fantasmas (cada um tem o seu).

    Parabéns Lane, adorei a resenha. Há muito tempo queria um parecer seu sobre esse clássico.

    Eii, agora que recomeçou não pare. Senti falta dos seus posts.

    Beijão
    .

    Curtido por 2 pessoas

    1. Sim, Jubs, atemporal e superestimado também, vc foi no alvo. E juro que vou me esforçar pra dar as caras mais vezes. Que Nossa Senhora do Ócio Criativo me fortaleça.
      Beijos, amore!!
      P. S. / Lembro da sua moral na biblioteca!! *-*

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  2. Final de semana chegando e não tem nada melhor do que conhecer novos BLOGS com diversos assuntos e até mesmo cultura diferente… Adoro fazer novos colegas nessa blogoesfera imensa! 🙂
    Que bacana que entrei aqui, Elaine!
    Parabéns pelo espaço. Super clean e ótimos posts.
    Sucesso!

    Estendo aqui o convite para conhecer o meu blog… Ficarei contente com sua visita!

    HuG! 😀

    http://www.andrehotter.com
    👻 Snapchat: andrehotter
    📸 Instagram: @andrehotter

    Curtido por 1 pessoa

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