Resenha: A Montanha Mágica

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Era manhã de natal de 2015 quando entrei no site da Cultura para comprar o livro, pois somente eles ofereciam a edição portuguesa, ademais, em todos os outros cantos o livro A Montanha Mágica encontrava-se esgotado. Chegou no dia 04/02/2016, faltando poucos dias para o meu aniversário, todavia, o semestre letivo também estava por começar, então, – JURO! – não arrisquei iniciar para ficar com o gostinho na boca e depois ser obrigada a parar. Não gosto de ler dessa forma. Esperei até 26/11/2016 e, quando estava prestes a subir a montanha, eis que um componente curricular deixava de ter sua inserção na grade letiva de 2017 para ser ofertado como curso de férias em pleno dezembro. Mais uma vez adiávamos o intento.

Um ano depois do nosso flerte, no dia 26/12/2016, pós regresso de viagem do Natal, foi que, finalmente, pude transar as ideias do Mann e conhecer a gangue da montanha, rsrsrrsrs… E foi assim que deu-se a minha saga do tempo em relação ao encontro com Hans Castorp, Joachim ZiemBen, Settembrini, Naphta, Ferge, Wehsal, Madame Chauchat e Peeperkorn, os 7 amigos de passeio, ao longo dos 7 anos de estadia, do nosso querido Hans, no Berghof, passando pelas 7 mesas da sala de jantar, e, enquanto conduzia-nos pelas suas mais inefáveis experiências no interior do quarto de número 34, ou seja, uma derivação do 7.

Escrever sobre este livro é um desafio vulgar e fugaz, pois somente a insolência poderia permitir, dadas as circunstâncias, tal empreitada dando-me condições de não levar tal tarefa tão à sério – pois nos é crível a incapacidade de fazê-lo com o devido zelo e esmero que o autor merece – e realizando-a, tão somente, com singeleza e carinho, com um franco enternecimento, como, aliás, é bastante comum à todos aqueles que dele se aproximam. Assim sendo, sigamos!!

Em pleno verão, um jovem simples partiu de Hamburgo, sua cidade natal, para Davos-Platz, no cantão de Graubünden. Ia de visita por três semanas.

Estamos a falar de uma longa viagem, de Hamburgo até essas paragens, demasiado longa, na verdade, se a compararmos com a duração da estadia. Há que passar por países de senhores diversos, subir e descer montanhas, desde o planalto da Alemanha até à margem do lago de Constança, atravessar de barco as suas águas agitadas e enfrentar desfiladeiros de outrora insondáveis.

A partir daí, a viagem, que até esse momento se processara sem grandes dificuldades e em linha recta, começa a complicar-se com demoras e transtornos. Em Rorschach, território suíço, voltamos a tomar o comboio, mas só até Landquart, uma pequena estação alpina onde nos obrigam a fazer transbordo. Depois de longa espera ao vento, rodeados de uma paisagem sem grande encanto, lá entramos num comboio de via-férrea estreita. E é no momento em que a locomotiva, pequena mas surpreendentemente poderosa, começa a trabalhar que se inicia a verdadeira aventura desta viagem, uma longa e penosa escalada que parece não ter fim. É que se a estação Landquart se situa ainda, em termos comparativos, a uma altura moderada, entra-se agora, por escarpas agrestes e assustadoras, no verdadeiro coração da montanha.

Hans Castorp – assim se chama o nosso jovem – viajava sozinho numa pequena carruagem forrada de cinzento. A seu lado, uma mala de pele de crocodilo, presente do seu tio e tutor, o cônsul Tienappel – para que conste desde já mais este nome -, a manta de viagem dobrada e, baloiçando no cabide, o sobretudo. Sentado junto à janela aberta, subira a gola do casaco leve de verão, forrado de seda, largo e moderno. A tarde começava a arrefecer, como notava  a sua alma sensível e mimada. Ao pé de si repousava uma brochura intitulada Ocean Steamships, à qual dedicara alguma atenção no início da viagem, mas que agora, abandonada sobre o banco, acumulava sobre a capa as partículas de carvão que a locomotiva ofegante soprava para dentro da carruagem.

[…] O comboio parou numa pequena estação, era Davos-Dorf, como Hans Castorp ouviu anunciar lá fora, em breve estaria no seu destino. E, de repente, ouviu a seu lado a voz de Joachim ZiemBen, a voz serena do primo, na sua pronúncia de Hamburgo, que diria:

– Viva, então não sais?  (MANN, 2009, p. 13-15).

Eu bem que adoraria ter resumido esse trecho, mas não pude me furtar de mostrar-lhes o preciosismo das primeiras linhas do Mann, numa tradução portuguesa, e sem falar que, com certeza, eu acabaria por estragar o início da coisa (seria algo do tipo: Hans, meus queridos, parte da Alemanha rumo à Suiça, no intuito de passar três semanas numa espécie de Hotel de Luxo destinado ao tratamento das doenças respiratórias – vulgo Sanatório Internacional Berghof – em companhia do seu primo Joachim, que lá se encontra em tratamento contra a tuberculose. Todavia, só na viagem ele já perde dois dias, pois o bichinho, primeiro, faz um tour de barco, depois pega um trem, em seguida outro trem e, por fim, vai de carruagem com o primo para o Berghof. Ou seja, eu assassinaria a história logo de cara e ainda correria o risco de ter algum espírito a puxar a ponta do meu lençol, à noite… Ademais, foi por gosto, mesmo, que lancei mão do trechão, afinal, é preciso pulverizar Mann o máximo possível, rsrsrsr…, no resumão acerca das 832 páginas que serão aqui conversadas casualmente.

– É este o teu quarto – disse Joachim. – Número trinta e quatro. O meu fica à direita e à esquerda mora um casal russo  – gente um pouco negligente e barulhenta, há que dizê-lo, mas não havia escolha. Então, o que achas? […]

– Muito gentil da tua parte – comentou Hans Castorp. – Que quarto agradável! Assim dá gosto passar aqui umas semanas.

– Anteontem morreu aqui uma americana – informou Joaquim. – Behrens foi o primeiro a dizer que ela cá já não estaria quando tu chegasses e que o quarto poderia, portanto, ficar para ti. O noivo, um oficial da marinha inglesa, esteve à sua cabeceira, mas não se portou propriamente à altura. Saía a todo o momento para o corredor e punha-se a chorar como uma criança. E depois esfregava a face com creme, porque as lágrimas lhe faziam arder a pele escanhoada. A americana sofreu ainda duas hemoptises anteontem à noite e depois finou-se. Mas desde ontem de manhã que o quarto está desimpedido e depois é claro que o desinfectaram a fundo, com formol, sabes, dizem que é óptimo para estas coisas (MANN, 2009, p. 21-22).

Além do tempo, questão mordaz e cravada ao longo de toda a obra, teremos também as representações das mais variadas facetas da morte, afinal, morte e vida estão tão, indissoluvelmente, imbrincadas na fonte de conhecimento do que significa ser humano quanto estar no mundo.

Ainda no tocante a citação, pontuo o aspecto da influência do patriarcado, na tradição e perpetuação dos valores sociais, que precisa ser levado em consideração, pois quando Joachim comenta que o jovem noivo – mesmo tendo perdido a noiva – não havia se comportado muito bem por estar chorando, está a demonstrar nada mais nada menos que os tentáculos da prerrogativa machista transversaliza várias obras de forma aceite e imponderável não obstante todos os sofrimentos incutidos à natureza humana. Não à toa, que séculos e séculos de “homem não chora” produziu safras inteiras de comportamentos calcados na intolerância e violência.

Obs.// Vários trechos estarão em vermelho porque, e insistirei nisso sempre, acredito que a literatura pode e deve estar presente nas salas de aula do universo acadêmico, por exemplo da área de saúde, que é a que me contempla. Neste romance encontramos um arsenal de conhecimento acerca das doenças respiratórias, dos estados psicológicos da natureza humana e dos respectivos tratamentos que lhes eram aplicados de modo que, me é impossível não bater nesta tecla, principalmente, quando têm-se a oportunidade de usar a criatividade em prol do cotidiano e, ainda assim, trilhando o extraordinário, pois a literatura nos conduz a isso, ao mundo extraordinário do impossível, ou melhor, das pontes que podem e devem ser ultrapassadas.

Eram apenas vagas recordações o que Hans Castorp conservava da sua família mais próxima. Nunca chegara a conhecer bem o pai e a mãe. Haviam morrido no breve período de tempo entre o seu quinto e sétimo aniversário, primeiro a mãe, de uma forma absolutamente inesperada, pouco antes de dar à luz, na sequência de uma obstrução dos vasos sanguíneos, causada por uma infecção venosa, uma embolia, como o doutor Heidekind explicou, que veio a provocar uma paragem cardíaca fulminante – estava a rir, sentada na cama, caiu para o lado, como que esgotada pelo riso e, no entanto, estava já morta. Hans Hermann Castorp, o pai, teve dificuldade em aceitar esta fragilidade e não a soube ultrapassar: estava demasiado afeiçoado à mulher e não era das pessoas com maior resistência. Foi um golpe duro para o coração e para a alma. No seu desalento e consternação, cometeu vários erros comerciais que levaram a firma Castorp & Filho a sofrer perdas consideráveis. Dois anos mais tarde, durante uma inspeção aos armazéns portuários, sob o vento primaveril, contraiu uma pneumonia. O coração já debilitado não resistiu à febre alta, apesar de todos os cuidados dispensados pelo doutor Heidekind. Morreu ao fim de cinco dias. Foram muitos os amigos e conhecidos que acorreram ao funeral. Ficou sepultado junto da esposa, no jazigo da família Castorp, no cemitério de Santa Catarina, um lugar muito bonito com vista sobre o Jardim Botânico da cidade (MANN, 2009, p. 31).

Hans desde muito cedo teve que aprender a lidar com a morte e as suas significações e implicações na vida, fato este que viria a moldar suas investidas comportamentais em diversas situações, situações em que teremos a oportunidade de, por exemplo, constatar que, apesar de toda a dureza das circunstâncias, a humanidade resguardada em seu íntimo ainda era capaz de se indignar e insurgir  contra a distância e o alheamento das pessoas em vista da morte, do sofrimento de quem está em seu leito de partida e para os familiares que ficam, e ficam extirpados de parte de si.

Como a mãe de Thomas Mann era brasileira, em diversos momentos me pego pensando nos nomes e alegorias que aparecem, aqui e acolá, como forma de homenagem (o caso do nome do cemitério Santa Catarina), pois que, ao seu pai – o patrício alemão – não faltam alusões, principalmente quando do enaltecimento da aristocracia e de seus valores (representados na figura do avó e dele próprio).

Não estranhou, pois, que o avô sobressaísse em autenticidade e perfeição no dia da despedida final. Foi na sala de jantar, naquela mesma sala em que eles tantas vezes se tinham sentado um diante do outro, à hora das refeições. Hans Lorenz Castorp jazia agora no centro da sala, colocado num caixão com incrustações de prata, rodeado e adornado de coroas de flores. Lutara até ao fim contra a pneumonia, com tenacidade e persistência, apesar de nunca se ter adaptado completamente às condições do seu tempo, e eis que agora jazia ali no seu leito de gala, não se sabia bem se vencedor, se vencido, em todo o caso com uma expressão austera e satisfeita, os traços fortemente alterados pela luta, o nariz afilado, as pernas cobertas por uma colcha onde ninguém depositara uma palma, a cabeça enlevada por uma almofada de seda, o que permitia que o queixo assentasse de forma perfeita no recorte da golilha solene. […]

É que já era a terceira vez que, num curto espaço de tempo e em idade tão tenra, a morte se abatia sobre o espírito e os sentidos – especialmente sobre os sentidos – do pequeno Hans Castorp. Nem a experiência, nem as impressões lhe eram já novidade, antes bastante familiares, e se já das duas primeiras vezes, apesar da mágoa evidente, revelara toda a sua serenidade e segurança, sem perder o controlo sobre si, também agora isso sucedia, com maior intensidade até. No desconhecimento do significado prático destes acontecimentos para a sua vida, ou imerso numa certa indiferença peculiar às crianças, confiante em que o mundo, de uma maneira ou de outra, providenciaria a seu favor, havia manifestado, por ocasião destas mortes, uma certa frieza igualmente infantil e uma atenção bastante objectiva, à qual se associou, no terceiro enterro, um contorno especial de sensatez precoce que a experiência adquirida lhe parecia ter transmitido – e que lhe permitia outros como uma reacção natural. Nos três ou quatro meses que se seguiram à morte do pai, havia-se esquecido da morte. A lembrança voltava agora e todas as impressões sentidas naquela altura se reavivavam de novo, intensas como outrora e em turbilhão, na sua inigualável singularidade (MANN, 2009, p. 38-39).

Hoje, temos consciência da importância que reside no fato de se conversar com as crianças acerca da morte e de fazê-las participar destes momentos com vistas à uma construção de valor e de uma significação do evento, de forma consciente, de modo que tais imbricações não se transformem em traumas futuros. Todavia, o nosso pequeno Hans não teve a oportunidade de ser acolhido para este tal diálogo, ele foi muito poupado numa tentativa de evitar sofrimentos, pensou-se muito no aspecto de subtrai-lo da vivência da dor como se esta fosse a melhor solução para a sua alma efervescente de perguntas, de choros, de dor e de contemplação. O que sobrou foi uma atitude à moda da época, e da etiqueta, que ditava o comportamento social mediante tais circunstâncias. O pequeno agia como adulto e trancafiava as suas questões nos buracos insondáveis da alma e do inconsciente.

O processo do luto teve uma grande baixa quando da implantação dos conglomerados de hospitais, da hegemonia biomédica e da medicalização das doenças. O morrer passou a ter a representação das cifras e, mais do que nunca, a indústria usou da criatividade e da tecnologia para, em virtude do morrer, prorrogar a vida, mas neste contexto o processo ritualístico do enlutamento fora subtraído da realidade factível das pessoas e esta construção social reage diferentemente conforme o script das diversas culturas.

Mas, com Hans, vivenciaremos as mais variadas significações da Morte, pois partindo do princípio que estamos sempre envolvidos com processos de perdas, quer seja nos relacionamentos amorosos, nas amizades, nos empregos, etcetera, etcetera, é possível afirmar que o luto não é um processo de todo desconhecido e que, em algum nível, estamos familiarizados com as sensações/sentimentos emanados nestes contextos, como medo, angústia, dor, tristeza, solidão, contemplação, raiva e infinitos outros, sendo, portanto, que um tempo para se elaborar tais vivências faz-se necessário. Até porque, lidar com as perdas nunca foi fácil, mas cada pessoa precisa encontrar a sua forma específica para expressar/suportar/suplantar e reviver.

Assim a relação Tempo versus Morte, também aqui, produzirá o seu resultado na Consciência/Inconsciência.

Quando empreendeu a viagem em que o conhecemos, contava vinte e três anos. Por essa altura já cumprira quatro anos de estudos universitários, dois no Politécnico de Danzig e outros dois no Instituto Superior Técnico de Braunscweig e de Karlsruhe. Ficara aprovado recentemente, com uma nota decente, contudo sem louvor ou distinção, no primeiro dos exames gerais e preparava-se de momento para ingressar como engenheiro estagiário na firma Tunder & Wilms, a fim de obter a respectiva formação prática que passamos a narrar.

Os exames gerais haviam-lhe custado um trabalho árduo e persistente. Ao chegar a casa, apresentava um aspecto mais abatido do que era costume. O doutor Heidekind não o poupava a críticas, sempre que o avistava, e exigia uma mudança de ares, mas uma que fosse radical. Não chegava desta vez, dizia ele, partir para Norderney ou para Wyk na ilha de Föhr. Era necessário, na sua opinião, e isso antes que Hans Castorp começasse a trabalhar nos estaleiros, uma estadia de algumas semanas na montanha (MANN, 2009, p 49-50).

E desta forma deu-se o motivo da subida da montanha, apesar de que, travestida sob a ideia de visita ao primo Joachim ZiemBen, que lá se encontrava por haver apresentado, anteriormente, uma expectoração com sangue e, por força desta imposição orgânica, fora depressa encaminhado para Davos.

– Ela assobiou! – exclamou Hans Castorp. – Assobiou pela barriga quando passou por mim. Tens explicação para isto?

– Ah, isso – disse Joachim a rir e sem dar importância ao caso. – Não foi pela barriga, que disparate! Era a Kleefeld, Hermine Kleefeld, ela assobia com o Pneumotórax.

– Com o quê? – perguntou Hans Castorp. Sentia-se muito agitado, apesar de não saber bem porquê. Oscilava entre a vontade de rir e de chorar quando acrescentou: – Não podes estar à espera que eu entenda a vossa gíria.

– Mas continuemos o nosso passeio! disse Joachim. – Posso explicar-te também pelo caminho. Ficaste como que petrificado! Como deves supor, é da área da cirurgia, uma operação que se faz com frequência aqui em cima. Behrens tem muita experiência no assunto… Quando um pulmão está muito atacado, percebes, mas o outro está bom ou, pelo menos, bom em comparação com o pulmão doente, dispensa-se o pulmão atacado por algum tempo da sua função, para o poupar… Ou seja: faz-se aqui uma pequena incisão, aqui de lado, não sei bem em que ponto exacto, mas Behrens é um perito nisso. E depois injectam gás, azoto, para que o pulmão atingido deixe de funcionar. É claro que o gás não dá para muito tempo, tem de ser renovado mais ou menos de quinze em quinze dias – imagina, para fazeres uma ideia mais concreta, que se enche um balão. Passado um ano ou mais, se tudo correr bem, o pulmão conservado em repouso pode estar curado. Nem sempre isso acontece, como é evidente, é uma coisa que até comporta os seus riscos. Mas parece que o pneumotórax tem tido muito sucesso (MANN, 2009, p. 65).

Hans insistia por empregar a seguinte expressão “estava habituado a não habituar-se” como tentativa de não se apegar ao local que, ao término das três semanas, haveria de deixar. Todavia, tão logo viu-se, ainda que brevemente, em frente ao Conselheiro Behrens (médico da instituição, juntamente com o doutor Krokowski), fora recomendado a realizar todas as atividades que faziam parte da rotina de tratamento de Joachim, o que imputava em passeios breves pelos arredores, afim de ter o máximo de proveito daqueles ares de pronunciada leveza, de empacotar-se conforme mandava o figurino para lograr a posição horizontal de descanso na varanda e uma série de outras regras de convivência.

– ‘Deixe-se de fitas!’, diz nessas alturas – respondeu Joachim. – Pelo menos foi o que recentemente disse a um paciente – quem nos contou foi a enfermeira-chefe que assistiu a tudo e ajudou a segurar no moribundo. Um daqueles que no momento derradeiro se lembra de fazer uma cena medonha e se recusa a morrer. Foi então que Behrens o admoestou: ‘Queira fazer o favor de se deixar de fitas!’, foram as suas palavras, ao que o moribundo imediatamente obedeceu, vindo a morrer em paz absoluta.

Hans Castorp deu uma palmada na perna, endireitou-se no banco e olhou para o céu.

– Espera lá, essa é demais! – exclamou. – Vai ter simplesmente com ele para dizer-lhe: ‘Deixe-se de fitas!’ A um moribundo! Essa é demais! Um moribundo merece algum respeito. Não pode ser tratado de qualquer maneira… Quer-me parecer que um moribundo é de certa forma sagrado!

– Isso é verdade – admitiu Joachim. – Mas se dá tais sinais de fraqueza…

– Não! – insistiu Hans Castorp com uma violência demasiado exacerbada, se comparada com a oposição oferecida pelo seu interlocutor. – Ninguém me convence de que um moribundo não merece mais respeito do que qualquer cretino que passa a vida a vaguear e a rir, a encher a barriga e a ganhar dinheiro! Não me entra na cabeça… – e a sua voz vacilava de modo muito estranho. – Não me entra na cabeça que seja tratado de qualquer maneira… (MANN, 2009, p. 70-71).

NEM EU TAMBÉM ACEITO, HANS!! HOJE NÓS TEMOS MAIS CONSCIÊNCIA ACERCA DAS MILHARES DE INTERCORRÊNCIAS RELACIONADAS À VIOLÊNCIA MÉDICA; NA OBSTETRÍCIA, POR EXEMPLO, NÃO RARO OCORREM CASOS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER – ALGO ABSURDAMENTE ULTRAJANTE – CASOS QUE VÃO DESDE A VIOLÊNCIA VERBAL E/OU PSICOLÓGICA CHEGANDO ATÉ MESMO A SITUAÇÕES DE AGRESSÕES FÍSICAS ONDE, PELO FATO DO DESCONHECIMENTO DOS SEUS DIREITOS, AS PARTURIENTES ACABAM POR SOFRER TAIS DANOS. O QUE NÃO É CONCEBÍVEL SOB HIPÓTESE ALGUMA!

FICA A DICA PARA OS PROFISSIONAIS E FUTUROS PROFISSIONAIS QUANTO ÀS RESPECTIVAS PRÁTICAS HUMANIZADAS!!! E, É VÁLIDO RESSALTAR, QUE TAIS PRÁTICAS COMEÇAM DESDE A SALA DE AULA, ENQUANTO PROFESSORES E ALUNOS ESTÃO A APRENDER JUNTOS, ATÉ PORQUE, NÃO RAROS SÃO OS CASOS DE SOFRIMENTOS PSICOLÓGICOS (POR PARTE DOS ALUNOS) EM VIRTUDE DE ATITUDES DESCABIDAS E DE ABUSOS DE PODER POR PARTE DE DETERMINADOS PROFESSORES.

E REPITO, O QUE NÃO É CONCEBÍVEL SOB HIPÓTESE ALGUMA!

O professor Salzmann, por sua vez, contava que o professor Kafka não tinha o hábito de limpar bem as seringas, o que provocava infecções nos doentes (MANN, 2009, p. 78).

UM BREVE RELATO DE INFECÇÃO RELACIONADA A ASSISTÊNCIA À SAÚDE (IRAS).

VOCÊ RECONHECE A IMPORTÂNCIA DE ATOS SIMPLES, COMO A LAVAGEM DAS MÃOS, NA PROLIFERAÇÃO DE INFECÇÕES HOSPITALARES? POIS, MEUS QUERIDOS E MINHAS QUERIDAS, BASTA VOLTAR UM POUQUINHO NA HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS MÉDICAS PARA VERIFICAR QUANTAS PARTURIENTES VIERAM À ÓBITO POR CONTA DE MÃOS SUJAS, DE CIRURGIÕES, E O QUANTO TAL PERCENTUAL DESPENCOU DEPOIS QUE MEDIDAS DE SEGURANÇA DO PACIENTE FORAM INSTAURADAS. NÃO VOU NEM CITAR OUTRAS CIRCUNSTÂNCIAS, MAS SE EU FOSSE VOCÊS, CAÇAVA NO GOOGLE, AFINAL, TODOS OS MANUAIS DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE, DO MINISTÉRIO DA SAÚDE, ESTÃO DISPONÍVEIS NA INTERNET.

Hans Castorp embebia os biscoitos no chá que mandara vir. Provou um pouco de compota. Observava o pão de passas com atenção mas não se atrevia a tocar-lhe – a simples ideia o fazia estremecer (MANN, 2009, p. 100).

Esta passagem é só pra homenagear um amigo que também sofre dessas turbulências sentimentais por conta das, inofensivas, uvas-passas, hahahha…, eu as adoro!!

Ainda mal se havia, porém, instalado, quando o nariz começou a sangrar abruptamente, não lhe dando tempo para evitar que o fato se sujasse. Era uma hemorragia bastante forte e persistente: Hans Castorp passou quase meia hora a correr, sem descanso, entre o banco e o ribeiro, lavando lenço, limpando o nariz com água, estendendo-o de novo, exausto, sobre o banco de madeira com o lenço molhado no nariz. E assim permaneceu deitado até que por fim o sangue estancou. Ali estava ele estendido, sossegado, com os braços cruzados atrás da cabeça, os joelhos flectidos e os olhos fechados, escutando a água rumorejante. Não se sentia mal, antes apaziguado depois de tão intensa hemorragia, num estado de vitalidade insolitamente esgotada. Sempre que expelia o ar, não sentia durante bastante tempo necessidade de o voltar a inspirar, permanecendo antes imóvel e deixando o coração bater com tranquilidade, até voltar a respirar mais tarde leve e cuidadosamente.

De súbito, viu-se transportado para tempos e vivências do passado, que haviam dado origem a um sonho poucas noites atrás, um sonho moldado por impressões muito recentes […] O rapaz que conversava com Hans Castorp chamava-se Hippe, Pribislav de seu nome próprio. Acrescia o facto curiosa de o ‘r’ deste nome se pronunciar ‘ch’, ‘Pchibislav’, portanto. E este nome singular não ia nada mal com o aspecto físico do rapaz que, mais do que mediano, era, sem margem para dúvida, algo invulgar. Filho de um historiador e professor de liceu, Hippe era, por conseguinte, um reconhecido aluno exemplar, andando já no quinto ano, se bem que a diferença de idades entre os dois fosse mínima. Nascera em Mecklenburg e a sua pessoa parecia representar o produto de uma antiga mistura de raças, da fusão do sangue germânico com o eslavo-sorábio – ou vice-versa. É verdade que tinha o cabelo loiro – loiro e muito curto, cortado rente-, mas os olhos, de um cinzento azulado ou azul acinzentado – de uma cor algo indefinida e ambígua, talvez a cor de uma montanha distante -, eram de um feitio estranho, rasgados, oblíquos até. Sob os olhos distinguiam-se as maçãs do rosto, salientes e muito acentuadas, uma fisionomia que, no seu conjunto, não era nada desengraçada, que se tornava, no seu caso, até bastante atraente. Para os companheiros estes traços   tinham-se, contudo, tornado pretexto para a alcunha de ‘o Tártaro’.

[…] O dito momento, a dita situação ousada e aventurosa para onde Hans Castorp fora agora de novo transportado, a conversa, o diálogo que efectivamente teve com Pribislav Hippe, passou-se da seguinte maneira. Aproximava-se a aula de Desenho e Hans Castorp reparou que se esquecera do lápis. Nenhum dos colegas da turma podia prescindir do seu, mas é evidente que poderia ter pedido um emprestado a um ou a outro conhecido de uma turma diferente. No entanto, quem lhe parecia estar mais próximo, com quem parecia ter um maior grau de familiaridade era com Pribislav, o rapaz com quem ele, em segredo, convivia há tanto tempo. Num ímpeto feliz, decidiu aproveitar a oportunidade – oportunidade era como o momento se lhe afigurava – e pedir um lápis a Pribislav. Cego por uma estranha ousadia, nem se apercebeu, ou com isso nada se preocupou, de que seria um gesto bastante insólito, já que, na realidade, não travara ainda conhecimento com Hippe. E foi assim que sucedeu estar realmente diante de Pribislav Hippe, no meio do tumulto do pátio de ladrilhos vermelhos, e perguntar-lhe:

– Desculpa, podias emprestar-me um lápis?

E Pribislav fixou-o com os seus olhos tártaros, as maçãs salientes do rosto voltadas na sua direção, respondendo-lhe depois na sua voz agradavelmente rouca, sem a mínima admiração, ou pelo menos sem a dar a perceber:

– Com todo o gosto – disse. – Mas tens que mo devolver sem falta depois da aula.

E retirou da algibeira uma lapiseira prateada. O lápis vermelho saía do tubo de metal quando se puxava uma argola para cima. Hippe explicava o mecanismo simples à medida que as cabeças dos dois rapazes se aproximavam, inclinadas.

– Mas vê lá não o partas! – acrescentou ainda.

Ora, que ideia! Como se Hans Castorp não fizesse tenção de lho devolver ou não fosse ter cuidado.

Olharam ainda um para o outro, sorrindo, e não restando nada mais a dizer, viraram primeiro os ombros, depois as costas e por fim partiram.

Foi tudo. Mas Hans Castorp nunca se sentira tão feliz na sua vida como naquela aula de Desenho, empunhando o lápis que pertencia a Pribislav Hippe – demais a mais, tendo em vista devolvê-lo mais tarde ao seu dono, o que se lhe afigurava como uma consequência natural e espontânea da acção anterior e uma autêntica dádiva suplementar. Tomou a liberdade de afiar um pouco a ponta do lápis, guardando durante quase um ano três ou quatro das lascas vermelhas que caíram numa das gavetas interiores da sua escrivaninha – ninguém que ali as encontrasse poderia calcular o valor inestimável daquelas aparas. A devolução do lápis decorreu, de resto, com a maior das naturalidades, como Hans Castorp, no fundo, desejara, sentindo até algum orgulho na proeza – impassível e mimado que se tornara com aquela convivência íntima que com Hippe mantinha (MANN, 2009, p. 140-144).

Uma vez conhecida a biografia de Mann, facilmente, reconhecemos traços da mesma, como por exemplo o aspecto da homossexualidade não vivida, mas sempre reiterada em suas obras (a saber A Morte em Veneza e Tonio Kröger).

De mais a mais, o olhar de Pribislav e o “LÁPIS” terão forte influência nos fatos iminentes.

Nunca antes tivera o rosto da senhora Chauchat tão perto do seu, nunca antes o pudera examinar com tanta clareza e pormenor: pudera distinguir os pequenos fios dourados do seu cabelo, com ligeiros matizes arruivados ou acobreados, que se desprendiam da trança enrolada com simplicidade em torno da cabeça, e o seu rosto estivera a um curto palmo do dela, esse rosto de traços tão particulares e, contudo, tão familiares, esse rosto que o tocava como nenhuma coisa à face da Terra. Eram feições invulgares e marcantes, cheias de caráter (já que só o insólito nos parece sinónimo de personalidade), de um exotismo nórdico, enigmático, apelando à decifração, na medida em que as linhas e proporções não eram de fácil determinação. Mas o traço decisivo era seguramente a saliência das maçãs do rosto, sobranceiras e acentuadas: desenhando o contorno dos olhos invulgarmente distantes um do outro, invulgarmente pouco profundos, conferia-lhes, ao mesmo tempo, um traço rasgado, sendo igualmente a causa do côncavo delicado e suave das suas faces, uma concavidade que, por sua vez, tornava os lábios ligeiramente mais cheios, acentuando-lhes a opulência. Porém, eram sobretudo esses olhos tártaros, rasgados e (como Hans Castorp julgava) de um recorte simplesmente mágico, lembrando o azul acinzentado ou o cinzento azulado de montanhas distantes, que de vez em quando, em certos trejeitos de soslaio, pareciam diluir-se e obscurecer, assumindo um rasgo velado e misterioso, eram sobretudo os olhos de Clawdia que, examinando-os de tão perto sem contemplações e com alguma severidade, se assemelhavam de forma tão impressionante e assustadora, em recorte, cor e expressão, aos olhos de Pribislav Hippe! ‘Assemelhar’ não seria de todo modo o termo correcto – eram, sim, os mesmos olhos. Também a parte superior do rosto, mais larga, o nariz algo achatado, enfim, toda a fisionomia, até a alvura rósea da pele e a cor sadia das faces – que, no caso da senhora Chauchat, como dos demais pacientes do sanatório, não passava de uma ilusão de saúde, resultado efémero do repouso ao ar livre -, tudo lembrava, sem tirar nem pôr, Pribislav. E também o olhar de Clawdia era igual ao olhar que Hippe lhe lançava quando se cruzavam no recreio da escola (MANN, 2009, p. 169-170).

Não foi por obra do mero acaso que Hans foi impactado pelo olhos “tártaros” da Madame Chauchat, também conhecida por Clawdia. O fruto do amor da infância, e preservado no âmago do seu ser, veio a encontrar semelhante projeção na figura da mulher russa – e leia-se a ironia que quiser neste aspecto, pois que, o Berghof contempla pessoas de todas as nações, mas isto, com certeza, pensado com proposital interesse – que sempre causou estrépito ao passar pelas portas da sala de jantar, de modo a anunciar a sua presença e atrair todas as atenções.

Se o sentimento da juventude não despertou maiores proporções, também o da maioridade não logrará mais que um beijo, entretanto, incidirá diretamente no quesito permanência na instituição e esta, consequentemente, sobre a alienação e conformismo do rapaz.

A visão de mundo de Settembrini assentava na dicotomia de dois princípios em disputa pela posse do mundo: o poder e o direito, a tirania e a liberdade, a superstição e o conhecimento, o princípio da inércia e o princípio do movimento em ebulição, do progresso. O primeiro poder-se-ia designar por princípio asiático, ao passo que o segundo era o europeu, dado que a Europa era o continente da rebelião, da crítica e da actividade transformadora, enquanto que o continente asiático encarnava a imobilidade, o estatismo e a passividade. Quanto a saber qual das duas forças acabaria finalmente por vencer, não restavam dúvidas – seria a das luzes, a do aperfeiçoamento conforme à razão. Na verdade, o respeito pelo ser humano arrebatava cada vez mais povos ao longo do seu caminho de luz, conquistando cada vez mais terreno na própria Europa e começando já a penetrar na Ásia. Muito faltava ainda, para que a sua vitória fosse absoluta e muitos e generosos esforços teriam ainda os homens de boa-fé, os homens tocados pela luz, de dispender até que o dia despontasse em que as monarquias e as religiões caíssem por terra nos países do nosso continente que, a dizer a verdade, não conheceram o seu século XVIII, nem viveram o seu ano de 1789. Mas esse dia haveria de nascer, assegurava Settembrini, de sorriso fininho nos lábios sob a curvatura do bigode, ele haveria de chegar-se, não transportado pelos pés das pombas, então transportados pelas asas das águias. E assim romperia a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da razão, da ciência e do direito, trazendo consigo a santa aliança da democracia de todos os cidadãos, numa palavra, a república universal, contraponto fulgurante da aliança três vezes infame dos príncipes e dos seus gabinetes – que tivera como seu inimigo mortal o avô Giuseppe. Todavia, para atingir essa meta final era necessário, antes de mais nada, neutralizar o princípio asiático e servil da inércia directamente no seu âmago e nervo vital de resistência, ou seja, na cidade de Viena. O que, portanto, estava em causa era derrotar e destruir a Áustria, primeiro como desforra do passado, depois para preparar a construção do reino da justiça e da bem-aventurança sobre a Terra (MANN, 2009, p. 181-182).

A QUEM MAIS PODERIA CABER, SENÃO, AO AMANTE DA LIBERDADE, DA IGUALDADE E DA FRATERNIDADE INSISTIR EM DEFENDER, A TODO MOMENTO, E SOB QUAISQUER CIRCUNSTÂNCIAS, A DEMOCRACIA E OS DIREITOS CIDADÃOS? ASSIM SENDO, INSERIR SIGNOS VISCERAIS – COMO O PODERIO E PRIVILÉGIO DA IGREJA E DA NOBREZA, ESTADO ABSOLUTISTA, QUEDA DA BASTILHA,  REVOLUÇÃO DO POVO, IGUALDADE ENTRE OS HOMENS, DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM, ESQUERDA E DIREITA, ALIANÇA E A ENTENTE, ETCETERA, ETCETERA – NESTA OBRA, SOMENTE PODERIA CABER A ALGUÉM DO CALIBRE E DO PESO DE UMA PERSONAGEM ASSENTADA NO ARCABOUÇO DA HUMANIDADE E SOB A ÉGIDE DOS SONHOS – SETTEMBRINI.

SETTEMBRINI É O ARAUTO DAS LIBERDADES, O PRODUTO DO POVO EM PROL DAS COLETIVIDADES, E A SUA PESSOA EM TUDO CORRESPONDE À FORÇA DAS SUAS IDEIAS E ATITUDES. FATIDICAMENTE, PENSO NELE COM OLHOS MAREJADOS, POIS QUE A SUA PRESENÇA DE ESPÍRITO LEAL ME ACOLHE, TAL QUAL ELE O FAZ COM HANS. SOMOS LEVADOS PELOS CAMINHOS DA FILOSOFIA À POLÍTICA, COM UMA TAL HUMANIDADE, COM UMA TAL ALMA VIVA, QUE ME É IMPOSSÍVEL NÃO QUERER ESTAR ALI, NAQUELE TEMPO, NAQUELA REALIDADE, PARA TER COM ELES AQUELAS CONVERSAS E PARTICIPAR DAQUELAS DISCUSSÕES.

DA QUEDA DA BASTILHA À PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL, DA ORIGEM DOS SEUS VALORES E CRENÇAS À HERANÇA FILIAL, TUDO NELE ME INSPIRA PRAZER E UMA COERÊNCIA TAL, QUE SOU LEVADA A PECAR POR ALGUM EXCESSO DE ZELO PARA COM A SUA PESSOA. REGISTRO, AQUI, QUE CONHECER A HISTÓRIA DO “FILHO TRAQUINAS DA VIDA”, ALCUNHA CONCEDIDA POR SETTEMBRINI À HANS, PARA MIM, SÓ FOI CONTEMPLADA COM PROFUNDA SATISFAÇÃO GRAÇAS AOS IDÍLIOS HUMANISTAS DE SETTEMBRINI, DE MODO QUE É MUITO JUSTIFICÁVEL TODO O CARINHO, ATENÇÃO E RESPEITO QUE HANS LHE DEVOTA TENDO EM VISTA A PERSONALIDADE SÓLIDA E O AMIGO LEAL E SINCERO QUE ELE REPRESENTA, ADEMAIS, TENDO EM VISTA QUE TODAS AS FIGURAS FILIAIS DE HANS FALECERAM ESTANDO ELE EM TÃO TENRA INFÂNCIA, NADA MAIS DO QUE COMPREENSÍVEL QUE ELE PASSE A ENXERGAR NA PESSOA DO AMIGO, O ESTADO E A CONTEMPLAÇÃO DA PROTEÇÃO AFETUOSA E DO ZELO, DIGNOS, SALIENTEMOS, DAQUELES QUE NOS APRECIAM E NOS LEVAM EM CONTA PELA AFINIDADE DAS ALMAS.

É PRECISO REGISTRAR QUE DE MUITAS FORMAS, E PARA ALÉM DE RAZÕES LÓGICAS, HANS CASTORP É UMA PESSOA ABENÇOADA; E, LOGO QUE ESTAMOS A FALAR DA INFLUÊNCIA DE SETTEMBRINI SOBRE AS SUAS FACULDADES COGNITIVAS, APROVEITO PARA EXPOR APENAS UM DOS MEUS PONTOS-DE-VISTA, CASTORP TEVE A SORTE DE ENCONTRAR UMA PESSOA IDÔNEA PARA LHE INSPIRAR A ALMA E PREVENI-LO QUANTO ÀS INVESTIDAS INFLAMADAS E, UM TANTO QUANTO, PERVERSAS DE NAPHTA, UM GRANDE DEBATEDOR DE IDEIAS E CONHECIDO DE SETTEMBRINI DE LONGA DATA. INSISTO NESTE ASPECTO PORQUE – E AQUI FAÇO UMA ALUSÃO À FIGURA DO SENHOR DORIAN GRAY (O RETRATO DE DORIAN GRAY/OSCAR WILDE), POIS ESTE JOVEM JÁ NÃO TEVE A MESMA SORTE E O SEU DESTINO LOGROU UMA DOLOROSA E CRUEL SENTENÇA – A MALDADE DAS PESSOAS PODE SER TÃO INSIDIOSA E VIRULENTA QUANTO METAMORFOSEADA E, NESTE QUESITO, NÃO SE POUPA ÀS INVESTIDAS QUE CONTEMPLEM E ABARQUEM O AUGÚRIO FINAL DOS SEUS PROPÓSITOS.

PENSEMOS, MINHAS CARAS E MEUS CAROS, PENSEMOS E PONDEREMOS MUITO AS RELAÇÕES QUE NOS RODEIAM PORQUE O MUNDO É UM CALDEIRÃO E NEM SÓ DE LENTES COR DE ROSA VIVE O HOMEM, TAMPOUCO DE PÃO E CIRCO.

Ah, sim, é o senhor agora! – disse, agarrando no braço de Hans Castorp com a sua mão gigantesca e afastando-o um pouco de si.

Observou-o intensamente. Não era para a cara que ele olhava, como geralmente sucede quando olhamos para uma pessoa, mas para o corpo. Fez o corpo girar, passando à observação das costas.

– Hum – disse. Ora vamos lá ver a qualidade do som. – E assim recomeçou o processo anterior.

Ia batendo com a mão nos mesmo pontos que escolhera ao examinar Joachim ZiemBen, repetindo por vezes a percussão em determinadas regiões. Demorou-se longamente na região da clavícula esquerda e um pouco mais abaixo, batendo alternadamente para poder comparar o som.

– Consegue ouvir? – perguntou ao doutor Krokowski sentado na outra ponta…

E o doutor Krokowski, sentado à secretária a cinco passos de distância, confirmou que ouvia, acenando com a cabeça. Com uma expressão grave, inclinou o queixo para o peito, o que fazia comprimir a barba e levantar as suas pontas.

– Respire fundo! Tussa! – ordenava o conselheiro, que voltara a agarrar no estetoscópio.

E Hans Castorp teve de obedecer durante oito ou dez, enquanto o conselheiro o auscultava. Não proferia palavra, apenas mudava o estetoscópio de aqui para ali, auscultando repetidas vezes as regiões que já percutira anteriormente. Por fim, meteu o aparelho debaixo do braço, cruzou as mãos atrás das costas e pôs-se a olhar para o chão, fixando o espaço que mediava entre si e Hans Castorp.

– Bem, Castorp – e era a primeira vez que ele se dirigiu ao jovem pelo apelido apenas – as coisas correm praeter-propter como eu sempre suspeitei. Nunca tirei a vista de cima de si, Castorp, posso agora dizer-lho – desde o princípio, isto é, desde o dia em que me distinguiu com a imerecida honra de o conhecer, que alimentei a firme presunção de que era, sem o saber, um dos nossos e que o dia chegaria em que o iria compreender. O mesmo aconteceu com tantos outros que aqui chegaram para se distraírem, olhando para tudo de nariz empinado, até que um dia perceberam que não seria má ideia – e não apenas ‘má ideia’, se é que me entende – fazerem por estas bandas uma paragem mais prolongada e abandonarem a sua atitude de curiosidade desinteressada.

Hans Castorp ficou lívido e Joachim, que se preparava para abotoar os suspensórios, parou, à escuta…

– O senhor tem aqui um primo tão simpático, tão amável – prosseguiu o conselheiro, ao mesmo tempo que apontava com a cabeça na direção de Joachim e se baloiçava ora nas pontas dos pés, ora sobre os calcanhares -, um primo que em breve, esperamos todos, poderá afirmar que um dia esteve doente. Contudo, quando esse dia chegar, não deixará de ser verdade que ele esteve em tempos doente, este seu primo-irmão, o que lança a priori, como os filósofos dizem, alguma luz sobre o seu caso, caro Castorp…

– Mas, senhor doutor, ele não é meu primo-irmão.

– Ai não? Ora esta! Mas com certeza que não quer renegar o seu primo, pois não? Primo-irmão ou não, continua a ser um parente próximo. De que lado, afinal?

– Do lado materno, senhor doutor. É filho de uma meia-…

– E a mãezinha vai bem?

– A minha mãe já não é viva. Morreu, era eu criança.

– Oh, e de quê?

– De uma embolia, senhor doutor.

– Uma embolia? Bom, já sucedeu há muito tempo. E o senhor seu pai?

– Morreu de pneumonia – respondeu Hans Castorp – assim como o meu avô – acrescentou.

– Ai sim, os dois? Muito bem, deixemos os seus antepassados. Passando à sua pessoa: o senhor sempre foi bastante anémico, não é verdade? Mas o trabalho físico e intelectual não o cansava facilmente, pois não? Ai cansava? E sofria amiúde de palpitações? Só agora? Muito bem. Para além do mais, tudo indica ter uma propensão compulsiva para infecções das vias respiratórias. O senhor por acaso sabe que já esteve doente?

– Eu?

– Sim, é de si que estamos a falar. Consegue ouvir a diferença? – E o conselheiro bateu alternadamente na região superior e inferior do tórax, concentrando-se no lado esquerdo.

– Ali o som parece ser um pouco mais surdo do que aqui – disse Hans Castorp.

– Exactamente. Devia pensar em seguir medicina. Temos aqui, portanto, uma opressão e as opressões têm a sua origem em focos antigos, já calcinados ou cicatrizados. Castorp, o senhor é um doente veterano, mas não podemos culpar ninguém por só agora o descobrir. O diagnóstico precoce é difícil – pelo menos, para os colegas da planície. Não quero com isso insinuar que tenhamos o ouvido mais apurado, embora a prática e a experiência tenham a sua influência. Mas o ar aqui de cima ajuda-nos, está a ver, este ar rarefeito e seco das montanhas.

[…]

– É que o senhor, para além das opressões – explicava o conselheiro -, apresenta um som rouco em cima, à esquerda, um som que é praticamente um ruído e que advém, sem sombra de dúvida, de um foco novo – não quero afirmar desde já que se trata de um foco infeccioso, mas é, em todo o caso, um foco húmido. Se voltar lá para baixo e continuar a fazer a vida de antigamente, só lhe posso dizer, meu caro, que, mais dia menos dia, é todo o lóbulo pulmonar que vai para o maneta.

Hans Castorp estava como que paralisado. Um tremor estranho tomara conta dos seus lábios e via-se com nitidez o coração pulsar sob as costelas. Olhou para Joachim em busca dos seus olhos, que não encontrou, voltou a procurar o rosto do conselheiro, as suas faces azuladas e os olhos igualmente azuis e salientes, o bigodinho revirado de um dos lados.

– E depois temos a confirmação objectiva – acrescentou Behrens – dada pela sua febre: 37,6 às dez horas da manhã, o que corresponde aproximadamente às observações acústicas.

[…]

– A primeira coisa que vai fazer, Castorp, é meter-se dentro dos lencóis, para vermos se umas semanas de cama chegam para lhe tirar a ressaca. Tudo o resto vem depois. Tiraremos uma linda fotografia às suas entranhas – decerto que irá apreciar esta perspectiva do seu interior. Mas desde já lhe digo: um caso como o seu não se cura de um dia para o outro e nunca prometemos curas milagrosas ou resultados sensacionalistas. Tive desde logo a sensação de que o senhor seria um doente mais paciente e mais talhado para este estado do que o nosso brigadeiro, que pensa logo em partir mal vê uns décimos a menos no termómetro (MANN, 2009, p.207-210).

Eis o diagnóstico. Cai por terra a pretensa ideia da visita de três semanas para uma estadia cujo tempo era indeterminado.

Curioosamente, Hans reage muito docilmente a todo o processo. É bem verdade que a sua natureza é pacífica – inclusive, em determinados momentos Settembrini o instigará neste tocante, de ser o paciente perfeito, que aceita tudo e que está confortável em sua posição – e que ele também não padece de necessidades prementes, aliás, até mesmo o aspecto financeiro imputado à manutenção da sua estadia no Berghof é tratado sem maiores preocupações, afinal ele tem capital (controlado pelo seu tutor) e isto nunca fora problema, mas no tocante às ambições pessoais, é como se todas houvessem se esvaído em meio ao constructo alienante da montanha mágica, dando lugar puramente às necessidades e interesses que dali advinham.

– Maria Mancini. Postre de Banquett, de Bremen, senhor conselheiro. Custa muito pouco, é quase de graça, não mais do que dezanove pfennig, mas tem um bouquet que é raro encontrar por esse preço. Samatra-Havana, como pode ver. Tomei-lhes o hábito. Trata-se de uma mistura muito conseguida e bastante aromática, não se tornando, porém, pesada. É um charuto que gosta de arder por muito tempo, só lhe sacudo a cinza duas vezes, quando muito. É evidente que tem os seus pequenos caprichos, mas o controlo de fabrico deve ser extremamente rigoroso porque o charuto Maria é de absoluta confiança quanto às suas qualidades e puxa com uma uniformidade impecável. Dá-me licença que lhe ofereça um?

– Obrigado, podemos proceder a uma troca.

E tiraram as suas charuteiras.

– Este aqui tem raça – disse o conselheiro, ao mesmo tempo que oferecia um dos seus a Hans Castorp. – Temperamento, está a ver, seiva e pujança. Santo Félix do Brasil, sempre foi a minha marca preferida. Não há preocupação que lhe resista, arde como aguardente e tem qualquer coisa de fulminante quando se aproxima do fim. Recomenda-se alguma moderação no seu uso, não é possível acender um atrás do outro, isso está para além da resistência de qualquer homem. Mas mais vale uma boa baforada do que passar a vida com leves fumaças… (MANN, 2009, p. 287).

Alusão (Homenagem? Coincidência? Sincronia?) à mãe brasileira.

E, bom, até então, o cigarro representava, tão somente, uma fonte de prazer e bem-estar, assim, acredito que poderíamos dispensar maiores correlações entre a possibilidade dos males advindos do cigarro e da sua relação de prazer/doença estar relacionada a uma condição de genealogia com a mãe de forma consciente, enfim, vai saber… Freud explicaria…

O que era a vida? Não se sabia. Sem dúvida que a vida tinha consciência de si mesma a partir do momento em que se constituía como tal, desconhecendo, porém, o que isso significava. Sem dúvida que a consciência, enquanto resposta a estímulos, despertava logo, até certo ponto, nos estádios menos desenvolvidos, mais informes, da vida, apesar de ser impossível associar a primeira manifestação de uma reacção consciente a este ou àquele momento da sua evolução geral ou individual, de ser impossível condicionar a consciência à eventual presença de um sistema nervoso. As formas animais menos desenvolvidas não possuíam sistema nervoso, e muito menos cérebro, e não era por isso que alguém ousava negar-lhes a capacidade de resposta a um estímulo. Era também possível anestesiar a vida, a vida em si, e não meramente determinados órgãos ligados às respostas e aos reflexos, não meramente os nervos. Era possível neutralizar provisoriamente a sensibilidade de qualquer matéria dotada de vida, tanto do reino animal como do vegetal, sendo possível narcotizar óvulos e espermatozóides mediante clorofórmio, cloridrato ou morfina. A consciência de si era, portanto, uma mera função da matéria transformada em vida e, a um nível mais elevado, esta função voltava-se contra o seu próprio portador, tornando-se o desejo de conhecer e de explicar o fenómeno que a produzia, um desejo da vida, ao mesmo tempo auspicioso e desesperado, de si conhecer a si mesma, um mexer e remexer da natureza em si própria, anseio inglório em última análise, já que a natureza não pode reduzir-se a conhecimento e a vida não pode, por mais que queira, perscrutar-se a si mesma.

O que era a vida? Ninguém sabia. Ninguém conhecia o momento em que, na esfera da natureza, a vida despertava e se inflamava. A partir desse momento, nada era mais espontâneo ou imediato na vida, embora a vida em si fosse espontânea. A única coisa que talvez se pudesse afirmar sobre a vida era que a sua estrutura devia ser de tal modo evoluída que não encontrava qualquer correspondência, nem tão pouco longínqua, no mundo inanimado. Entre a amiba pseudópode e o animal vertebrado havia uma diferença ínfima e insignificante, quando comparada com a diferença que existe entre a mais simples manifestação da vida e a natureza que nem merece ser designada de morta, uma vez que é inorgânica. É que a morte resumia-se à negação lógica da vida, enquanto que entre a vida e a natureza inanimada se erguia um abismo que a investigação científica em vão tentava superar. Alguns cientistas empenhavam-se em esbatê-lo mediante teorias que ele logo devorava, sem com isso perder um centímetro em amplitude ou latitude. Outros haviam consentido, no desejo de encontrar um elo de ligação na absurda assunção da existência da matéria viva não estruturada, uma espécie de organismos não organizados que se extinguiam de imediato numa solução proteica, à imagem do cristal mergulhado em lixívia. Mas eram hipóteses logo derrubadas pelo princípio que estabelece a diferenciação orgânica como pré-requisito e expressão de toda a vida e a procriação como condição inabalável da existência de todo e qualquer ser vivo. O júbilo com que se extraíra o protoplasma das profundezas do mar terminara em humilhação, pois os investigadores chegaram à conclusão de que haviam confundido o protoplasma com sedimentos de gesso. Para não terem que render-se à evidência de um milagre – pois que a vida, a formar-se e a decompor-se na mesma matéria que a natureza orgânica, seria, de imediato, um milagre -, foram, então, obrigados a defender a teoria de uma protogeração, ou seja, de uma formação da matéria orgânica a partir da inorgânica, o que era, contudo, outra espécie de milagre. E assim continuaram a idealizar estágios intermédios e pontos de passagem, a admitir a existência de organismos que se encontrariam num nível de desenvolvimento inferior a todos os outros conhecidos, que, por usa vez, tinham como precursores formas de vida ainda mais primitivas, protozoários que nunca ninguém chegaria a vislumbrar, pois que a sua dimensão nem microscópica era, e que pressupunham uma síntese dos compostos proteicos anterior à sua suposta constituição…

O que era, então, a vida? Era calor, calor produzido por algo sem existência própria mas que preservava a forma, uma febre da matéria que acompanhava o processo imparável da decomposição e recomposição da estrutura insustentavelmente complexa e insustentavelmente prodigiosa das moléculas proteicas. Era o ser do que, na verdade, não pode ser, daquilo que, só a muito custo, mantém um certo equilíbrio, ao mesmo tempo suave e amargo, na esfera do ser, nesse processo intrincado e febril de desagregação e renovação. Não era matéria e não era espírito. Era algo entre as duas coisas, um fenómeno suportado pela matéria, como o arco-íris desenhado sobre a catarata ou como a labareda. Contudo, ainda que não materiais, o impudor da natureza sensível e susceptível e a forma lasciva do ser tornavam-se voluptuosos até ao limite do prazer e da repulsa. Era um frémito secreto e sensual na frialdade casta do universo, uma sordidez oculta e lasciva feita de nutrição e expulsão, um sopro excretor de ácido carbónico e de substâncias perniciosas de origem e natureza incógnitas. Era o vicejar, desabrochar e configurar de algo túmido feito de água, proteínas, sal e gorduras, a que se dá o nome de carne, algo tornado possível devido à sobrecompensação da sua instabilidade, de algo desterrado para as leis inatas da criação, e que se transformara depois em forma, imagem e beleza, continuando, porém, a ser símbolo da sensualidade e do desejo físico. É que essa forma e beleza não eram suportadas pelo espírito, como sucede nas obras poéticas e musicais, nem tão pouco por uma matéria neutra e consumida pelo espírito que deste se tornasse símbolo inocente, como sucede com a forma e a beleza nas artes plásticas. Era antes suportada e configurada pela substância que, por motivos desconhecidos, despertara para a volúpia, pela própria matéria orgânica que se faz e putrefaz, pela carne e seus odores… (MANN, 2009, p. 311- 313).

Este é mais um daqueles capítulos sensacionais onde temos a oportunidade de atestar o poder da plasticidade dos desejos e da força da intenção, pois não existem limites para uma mente curioosa. De forma poética, suave e envolvente, Hans se embrenha nos conhecimentos que lhe apetecem a alma, assim, depararemos com as suas conjeturas acerca da biologia, anatomia, fisiologia, embriologia, física, química, astronomia, botânica, etcetera, etcetera, porque ele é essa pessoa apaixonada pelo conhecimento e que tem o tempo, esse tempo tão intrincado e multifacetado em miríades de conceituações, a seu dispor.

ALIÁS, QUALQUER HORA DESSAS, AINDA TRANSCREVEREI POR COMPLETO ESSE BENDITO CAPÍTULO NUM POST QUALQUER DA VIDA.

– Quem tem um lápis como deve ser? – Quem me empresta um? Tenho de voltar a tentar! Um lápis, um lápis! Quem tem um? – gritava, voltando-se para a direita e para a esquerda, com o cotovelo esquerdo ainda firmado no tampo da mesa e a mão direita agitando-se no ar.

[…]

– Eu? – respondeu a paciente dos braços nus ao ‘tu’… Sim, talvez.

E, todavia, havia no seu sorriso e na sua voz um laivo daquela agitação que nos acomete quando a primeira palavra é pronunciada após um longo e silente conhecimento mútuo – uma agitação astuciosa que secretamente transporta todo o passado para o momento presente.

 – És muito ambicioso… És… muito… impaciente – prosseguiu ela na sua troça, com o seu sotaque exótico, com o seu ‘s’ estrangeiro, com o seu ‘e’ estrangeiro e demasiado aberto, acentuado ainda por cima – com a sua voz levemente velada e agradavelmente rouca – a palavra ‘ambicioso’ na primeira sílaba, o que lhe dava um som perfeitamente inédito.

Remexeu na sua bolsinha de couro, inspecionou o conteúdo em busca da lápis, retirando finalmente uma pequena lapiseira de prata oculta sob um lenço, que foi o primeiro a aparecer. Era um objeto frágil e delgado, uma peça de adorno delicada, quase incapaz de servir o fim para que fora destinada. O lápis de outrora, o primeiro, havia sido mais robusto e fácil de manusear (MANN, 2009, p. 376).

No capítulo atrelado à comemoração do carnaval (Noite de Walpurgis), mais uma vez, sob a égide da figura do “lápis” (aliás, os olhos tártaros e o lápis, como sempre), Hans cria coragem e abre o coração para Clawdia. Entretanto, o pseudo-romance – que não foi escrito sob as estrelas – terá q esperar, pois que a bela tem viagem marcada para o dia seguinte.

Com o intuito de esperá-la, o “filho traquinas da vida” fica preso ao Berghof, enquanto a paixão vai se camuflando na doença, tomando parte na apatia e configurando a sua morte no tempo.

Caro! – começou o senhor Settembrini. – Caro amico! Haverá que tomar decisões, decisões de um alcance inestimável para a felicidade e para o futuro da Europa. E caberá ao seu país tomá-las, no seu seio elas serão consumadas. Situado entre o oriente e o ocidente, ele terá de escolher, ele terá de decidir-se, definitiva e conscientemente, por uma das duas esferas que disputam a sua posse. O senhor é jovem, será um dos agentes desta decisão, será convocado a exercer a sua influência. Abençoemos por isso o desígnio que o trouxe até estas paragens assombrosas, concedendo-me a oportunidade de influir sobre a sua natureza jovem e maleável, de modo a que a minha eloquência não totalmente inexperiente, não perfeitamente neutra, possa conscientizá-lo da responsabilidade que lhe cabe, a si e à sua pátria, face à civilização… (MANN, 2009, p. 583).

EIS QUE, NESTE EXATO FRAGMENTO, TEMOS UMA ESPÉCIE DE ORÁCULO DO FUTURO DO NOSSO QUERIDO “FILHO TRAQUINAS DA VIDA”, CONFORME VEREMOS, SEGURAMENTE, PROFETIZADO PELO SEU FIEL ESCUDEIRO E AMIGO DE TODAS AS HORAS – SETTEMBRINI.

“É que a literatura não era outra coisa senão isso: a aliança do humanismo e da política, aliança que seria tanto mais fácil de concretizar quanto o humanismo já fosse política e a política humanismo…” (MANN, 2009, p. 183).

Ninguém mais do que Thomas Mann sofreu e viveu a sua obra e o seu pensamento. Pois ele mesmo passou por tudo quanto agora lhe parece pecaminoso e condenável. Ele mesmo era o artista alienado, marginal e entretido no jogo brilhante das formas e ideias. Ele mesmo era, durante a Primeira Guerra Mundial, o típico alemão apolítico que opunha a música e a metafísica alemães à raison francesa e ao senso político dos ingleses. A sua emigração geográfica para os Estados Unidos afigura-se-lhe hoje uma consequência da sua emigração íntima e espiritual, que anteriormente o afastara, como a maioria dos intelectuais alemães, da presença do povo. E como emigrante teve a terrível experiência de ver esse mesmo povo ‘estourar numa embriaguez infernal’, como dizia o compositor do seu romance. Ninguém mais do que Thomas Mann sabe que parte da culpa decorre da não participação dos intelectuais na vida política do país (ROSENFELD, 1994, apud MANN, Ensaios, 2015, p. 156).

Diversas são as circunstâncias em que Settembrini chama Hans à luz da razão e, no trecho, acima – retirado de um dos três ensaios presentes no final do livro A Morte em Veneza/Tonio Kröger – encontramos um retrato do homem Thomas Mann enquanto cidadão, pois que por bastante tempo ele andou apátrida da sua realidade deixando de se posicionar perante às questões fulminantes do tempo que o cercava e que comungava com o cenário mundial.

Às sete horas morreu – Alfreda Schildknecht estava no corredor, só a mãe e o primo se encontravam no interior do quarto. O corpo fora escorregando na cama e ele ordenou laconicamente que o soerguessem. Estava a senhora ZiemBen a cumprir a ordem, passando o braço pelos ombros do filho, quando ele declarou, com uma certa pressa na voz, que tinha de escrever e despachar de imediato um requerimento a solicitar  a prorrogação da sua licença. E enquanto o dizia , deu-se a ‘rápida passagem’, que Hans Castorp seguiu com recolhimento, iluminado pela luz avermelhada do pequeno candeeiro da mesa-de-cabeceira. Os olhos reviraram-se, a fadiga inconsciente desapareceu dos traços fisionómicos, a tumefação do sacrifício dissipou-se visivelmente dos lábios e a beleza da juventude viril voltou ao semblante emudecido do nosso bom Joachim. Chegava, deste modo, ao fim.

[…]

Quanto tempo vivera Joachim, afinal, ali em cima, na companhia de Hans Castorp, até decidir partir sem autorização prévia? Quanto tempo vivera ele, afinal, ao todo? Quando é que se dera concretamente aquela primeira partida obstinada, quanto tempo estivera ele ausente e quando é que havia regressado de novo? Há quanto tempo estava Hans Castorp, por sua vez, na montanha quando o primo voltou para depois partir de vez? Quanto tempo é que a senhora Chauchat – para mudarmos de personagem – se ausentara e desde quando, ou seja, em que data, é que ela voltara (sim, porque ela já voltara)? Quanto tempo terreno passara Hans Castorp no Berghof até ela regressar? Se alguém lhe tivesse colocado tais questões, o que, de resto, não aconteceu – nem ele as colocou a si próprio, talvez por já conhecer a resposta -, Hans Castorp ter-se-ia limitado a tamborilar com os dedos na fronte, remetendo-se ao silêncio. E este fenómeno não lhe causava menor inquietação do que aquela incapacidade que sentira de forma passageira, na noite da sua chegada, em indicar a sua idade ao senhor Settembrini. Desde então, essa inépcia piorara, uma vez que esquecera de todo, e de vez, que idade tinha! (MANN, 2009, p. 607-613).

Um dos momentos mais tristes do livro, contudo, em meio a um turbilhão de acontecimentos que vem a partir daí, existe um em particular em que percebemos que Hans não estava preparado para vivenciar, apesar de muito curioso para tentar desmistificar qualquer possibilidade de charlatanismo. Trata-se da aparição do espírito de Joachim numa roda espírita.

Fiquei muito chateada por ele ter perdido aquela oportunidade. Odiei aquela atitude irascível e abrupta, apesar de compreender seus motivos.

E como assim não aparece um filho de Deus pra lhe dar um abraço? Aliás, incomoda bastante essa ideia de que todos precisam manter as aparências sempre apesar de tudo o que lhes rodeia. Em momento algum, da infância à idade adulta, Hans derrama uma lágrima, e olhe que ele é uma das pessoas mais humanizadas que existe no contexto, todavia, se em virtude do tempo, do patriarcado, do momento histórico ou se, exclusivamente, da vida da personagem, as emoções são contidas demais, o que também evidencia suas lacunas e problemas.

A substituição do tema da morte pelo da loucura não marca uma ruptura, mas sim uma virada no interior da mesma inquietude. Trata-se ainda do vazio da existência, mas esse vazio não é mais reconhecido como termo exterior e final, simultaneamente ameaça e conclusão; ele é sentido do interior, como uma força contínua e constante da existência. E enquanto outrora a loucura dos homens consistia em ver apenas que o termo da morte se aproximava, enquanto era necessário trazê-los de volta à consciência através do espírito da morte, agora a sabedoria consistirá em denunciar a loucura por toda parte, em ensinar aos homens que eles não são mais que mortos, e que se o fim está próximo, é na medida em que a loucura universalizada formará uma só e mesma entidade com a própria morte (FOUCAULT, 2014, p. 16).

Acontecimentos vários terão lugar nos capítulos seguintes e eis que os espectros da guerra começam a se fazer transparecer lá, na montanha mágica, o lugar que parecia estar sob a redoma do inaudito e apartado do mundo.

Foi então que se deu o assassinato do príncipe herdeiro, premonição de tempestade para todos, à excepção de certos sonhadores alemães em hibernação , um aviso dado aos iniciados, em cujo grupo incluímos, com todo o direito, o senhor Settembrini. Hans Castorp viu-o arrepiar-se, na sua condição de humana, perante aquele acto terrorista, viu, por outro lado, como o seu peito se enchia de ar ao pensar que se tratava de um acto de libertação levado a cabo por uma nação e dirigido contra o bastião que ele mais odiava, se bem que, por sua vez, fosse necessário perceber que era fruto da acção moscovita, o que o voltava a angustiar. Não pôde, no entanto, deixar de interpretar o ultimato dirigido pela monarquia à Sérvia, três semanas mais tarde, como um atentado à humanidade e um crime hediondo, atendendo às consequências que ele, como iniciado, podia desde já entrever, mas que saudava também com a respiração ofegante… (MANN, 2009, p. 810).

E…

A comunidade da montanha precipitava-se, de cabeça, dos seus cinco mil pés de altura, para a planície e respectiva provação, suspensa de estribos do pequeno comboio tomado de assalto, abandonando ao deus-dará, se necessário fosse, a bagagem, que se ia empilhando e entupindo o cais da estação, essa estação fervilhante onde parecia chegar o calor e o cheiro a queimado da planície – e Hans Castorp corria atrás dos outros. Lodovico abraçou-o no meio do tumulto – abraçou-o literalmente, apertando-o nos braços e beijando-lhe as duas faces, como é costume no sul (ou na Rússia), o que trouxe, não obstante toda a comoção, algum embaraço ao nosso passageiro apressado. Mas quase que perdia a presença de espírito, quando, no último instante, o senhor Settembrini o tratou pelo nome de baptismo, chamando-lhe ‘Giovanni’ e abandonando a forma usual de tratamento no ocidente civilizado, isto é, deixando imperar o ‘tu’!

E cosi in giù – disse – in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! Teria preferido ver-te partir noutras circunstâncias, mas enfim, os deuses assim o quiseram e não de outra maneira. O meu desejo era ver-te regressar ao trabalho e eis que te lanças na luta ao lado dos teus compatriotas. Era a ti, meu Deus, que tal sorte estava destinada e não ao nosso tenente. As voltas que a vida dá… Luta com coragem na frente para onde o sangue te convoca! É tudo o que podemos fazer por ora. A mim, perdoa-me que empregue o resto das minhas forças a incitar também o meu país à luta, do lado que lhe for designado pelo espírito e pelos interesses sagrados. Addio!

Hans Castorp enfiou a cabeça por entre dez mais que enchiam o caixilho da janela,. Acenou por cima de todas elas. O senhor Settembrini retribuiu o aceno com a mão direita, enquanto, subtilmente, passava a ponta do anelar da mão esquerda pelo canto do olho (MANN, 2009, p. 811-812).

Hans enterrou a mãe, o pai, o avô, formou-se engenheiro, adentrou o Berghof, “habituou-se a não se habituar” e depois habitou-se em esquecer-se de sonhar, visitou diversos pacientes moribundos em seu leito de morte e segredou-lhes palavras de conforto, sobreviveu ao primeiro “lápis” e ao segundo também, criou laços de amizade e proteção verdadeiros, superou a tuberculose, perdeu-se – literalmente falando – e reencontrou-se na montanha, ampliou o leque de conhecimentos acerca de si e do mundo, sobreviveu à partida para a planície/depois ao retorno/e deu o último adeus ao primo amado, recebeu notícias de falecimento do tutor, interagiu com o espiritismo, foi amplamente fustigado e contemplado e manobrado e equacionado pelo Tempo e, por fim, quando tudo parecia estar no seu mais perfeito estado de inebriamento alienante, eis que surge a guerra para nos mostrar que, independentemente do tempo e da morte, o que ainda reinava nele era a renitência pelo viver.

E se nem a ironia da realidade foi capaz de lhe abater o ar dos pulmões, porquê que eu, justo eu, vou me inquietar em saber se ele viveu ou morreu, sendo que provas diversas foram dadas acerca da sua gana de vida, força e resiliência? Aliás, no Aqui e Agora, só me resta pensar que ele estava preparado pra encarar o que quer que se lhe tenha apresentado.

Um beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeijo, meu querido!!!

“FINIS OPERIS”.

Curioos@s, até breve!

*  FOUCAULT, M. História da loucura: na Idade Clássica. Tradução José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 2014, 10ª edição.

* MANN, T. A montanha mágica. Tradução de Gilda Lopes Encarnação. Portugal: Publicações Dom Quixote, 2009, 8ª edição.

*  MANN, T. A morte em Veneza. Tonio Kröger. Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, 1ª edição.

P.S.// Segue, abaixo, algumas informações complementares.

Aquele abraço e até mais! Mais uma vez! 🙂

Conrad retornou das férias para se juntar ao contra-almirante e aos cinco ministros na reunião, e mais uma vez recapitulou os planos de guerra. Ele se concentrou no Plano B (para uma guerra nos Balcãs contra a Sérvia) e tratou o Plano R (Rússia) como mera contingência. Conrad não teve papel ativo na formulação do ultimato, o qual, em todo caso, Berchtold e os ministros já tinham concluído que devia ser escrito de maneira a garantir que a Sérvia o rejeitasse. O ultimato começava com um longo preâmbulo repreendendo a Sérvia por não ter honrado o compromisso firmado em março de 1909, no término da crise bósnia, de buscar relações ‘amigáveis e corteses’ com o Império Austro-Húngaro; a seguir, culpava a Sérvia pelo assassinato de Francisco Ferdinando:

Pelas declarações e confissões dos autores do assassinato de 28 de junho, está claro que a ação foi concebida em Belgrado, que os assassinos receberam de oficiais e altos funcionários sérvios as armas e bombas com as quais estavam equipados e, por fim, que o envio dos criminosos e suas armas para a Bósnia foi providenciada sob a condução de autoridades de fronteira sérvias .

O documento impunha o texto de uma nota de contrição (de 178 palavras) que a Sérvia seria obrigada a divulgar, depois listava dez exigências. Algumas eram específicas, outras, mais gerais; o segundo ponto, exigindo a dissolução da Narodna Odbrana, e não da Mão Negra, revelava que os líderes austro-húngaros não sabia da existência do grupo terrorista que efetivamente levou a cabo o assassinato. Inseridas na lista havia duas exigências que nenhum Estado soberano poderia aceitar: o quinto ponto, que dava a organizações e representantes do governo austro-húngaro autoridade para atuar na supressão de movimentos subversivos em território sérvio, e o sexto ponto, que autorizava funcionários do governo austro-húngaro a ter papel ativo nas investigações, trâmites legais e processos judiciais contra os conspiradores sérvios (SONDHAUS, 2015, p. 68).

O ULTIMATO DO IMPÉRIO AUSTRO-HÚNGARO À SÉRVIA

O ultimato do Império Austro-Húngaro à Sérvia, entregue no dia 23 de julho de 1914, fazia as seguintes exigências ao governo sérvio:

1 – Extinguir qualquer publicação que incite o ódio e o desprezo à monarquia austro-húngara e a tendência geral contra sua integridade territorial;

2 – Dissolver imediatamente a sociedade chamada Narodna Odbrana e proceder do mesmo modo contra todas outras sociedades (e suas ramificações na Sérvia) engajadas na propaganda contra a monarquia austro-húngara;

3 – Eliminar, sem demora, de instituições públicas sérvias […] tudo que sirva para fomentar a propaganda contra o Império Austro-Húngaro;

4 – Remover, do serviço militar e da administração geral, todos os oficiais e funcionários ligados à propaganda contra a monarquia austro-húngara;

5 – Aceitar a colaboração de representantes do governo austro-húngaro, em território sérvio, na supressão de movimentos subversivos direcionados contra a integridade territorial da monarquia;

6 – Iniciar procedimentos judiciais contra os cúmplices da conspiração de 28 de junho que estão em território sérvio; além disso, órgãos delegados pelo governo austro-húngaro tomarão parte na investigação;

7 – Prender imediatamente o major Voislav Tankosic  e […] Milan Ciganovic, funcionário público sérvio, que foram comprometidos pelos resultados das investigações preliminares em Sarajevo;

8 – Evitar […] a participação de autoridades sérvias no tráfico ilegal de armas e explosivos através de fronteira; dispensar e punir severamente os funcionários do serviço de fronteira […] culpados de terem auxiliado os responsáveis pelo crime de Sarajevo ao facilitar sua passagem pelas fronteiras […];

9 – Fornecer […] explicações acerca de declarações injustificáveis de autoridades e funcionários de alto escalão sérvios, tanto na Sérvia quanto no exterior, que, não obstante sua posição oficial, não hesitaram, após o crime de 28 de junho, em expressar sua hostilidade para com o governo do Império Austro-Húngaro; e, por fim,

10 – Notificar sem demora o Governo Real e Imperial Austro-Húngaro da execução das medidas supracitadas […].

O Governo Imperial Austro-Húngaro aguarda a resposta do Governo Real o mais tardar às seis horas da noite de sábado, dia 25 de julho (SONDHAUS, 2015, p. 71).

GOSTARIA DE LEMBRAR-VOS, APENAS, QUE NA ERA www OS GOVERNOS NÃO MAIS LANÇAM MÃO DE ULTIMATOS DESSA ALCUNHA, SIMPLESMENTE, INVADEM QUAISQUER CONTAS E DOCUMENTOS DE LÍDERES DE GOVERNOS DIVERSOS, QUE LHES APETEÇAM, PARA OS FINS QUE LHES SÃO CONVENIENTES.

ADEMAIS, SÃO POUCOS OS “LOUCOS”, OS “CIVIS”, OS QUE AINDA TÊM HUMANIDADE, OUSADIA E CORAGEM PARA PEITAR ESSAS MURALHAS. E ESSES POUCOS SERÃO TÃO DESBARATADOS PELO PODER ESTRANGULADOR DO ESTADO, DA MÍDIA IMISCUÍDA E CONTROLADA PELOS GOVERNOS, QUE SUAS INTENÇÕES, AINDA QUE EM PROL DO RESGATE DAS MASSAS DA LETARGIA DA ALIENAÇÃO – COMO FOI O CASO, POR EXEMPLO, DO JULIAN ASSANGE, EDWARD SNOWDEN, DENTRE OUTROS – TERÃO QUE SE ESFORÇAR SOBREMANEIRA PARA SOBREVIVER À FORTE AREIA MOVEDIÇA DA DISTORÇÃO DAS IDEIAS.

“Quem não for capaz de defender uma ideia com a sua própria vida, a força do seu braço, o correr do seu sangue, não está à altura dessa mesma ideia. E temos de continuar a ser nós mesmos, independentemente da intelectualização das nossas ideias” (MANN, 2009, p. 797).

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“Se a loucura conduz todos a um estado de cegueira onde todos se perdem, o louco, pelo contrário, lembra a cada um a sua verdade (FOUCAULT, 2014, p. 14).

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Conclusão: guerra por acaso ou de caso pensado?

     Em seus inúmeros tomos e compêndios sobre a eclosão da Primeira Guerra Mundial, muitos acadêmicos perderam de vista o fato de que os tiros disparados por Gavrilo Princip em 28 de junho de 1914 foram os primeiros disparos da guerra, e que o arqueduque e sua consorte foram as primeiras baixas do conflito. Naquela manhã de domingo em Sarajevo, a Sérvia começou a Primeira Guerra Mundial. O reino da Sérvia não era um Estado revolucionário como mais tarde seriam a União Soviética ou a República Islâmica do Irã, cujas autoridades centrais deliberadamente direcionavam suas interações  com o mundo exterior em dois níveis: de maneira convencional, via embaixadas e organizações internacionais, e em sigilo, via atividade terrorista ou revolucionária. Tampouco era um Estado internamente fraco ou falido tal como o Afeganistão no final do século XX, desempenhando o papel de anfitrião de atores estrangeiros radicais não governamentais por quem seus líderes nutriam uma simpatia geral. Pelo contrário, a Sérvia era um Estado disfuncional ou semifalido que operava como Estado revolucionário porque um elemento transgressor e inescrupuloso dentro de seu próprio exército – apoiado ou tolerado por eminentes autoridades de sua política – comandava uma organização terrorista internacional. A Sérvia também diferia muito dos Estados falidos no sentido de que estava unificada internamente em torno de uma única ideia nacional. Era a força dessa ideia que tornava a Sérvia perigosa, pois era responsável por fazer com que muitos líderes sérvios fechassem os olhos para os terroristas, uma vez que o objetivo fundamental e definitivo deles era, afinal de contas, realizar essa ideia nacional.

       O programa sérvio de terrorismo patrocinado ou tolerado pelo Estado contra o Império Austro-Húngaro propiciou o contexto em que a Monarquia Dual decidiu, em julho de 1914, resolver seu problema sérvio por meio da guerra. Os austro-húngaros estavam dispostos a correr o risco de um conflito mais amplo com a Rússia desde que contassem com o apoio da Alemanha. As lideranças da Monarquia Dual esperavam plenamente que a ameaça de intervenção germânica em seu nome fosse suficiente para compelir a Rússia a recuar e abandonar a Sérvia à própria sorte, o que tinha ocorrido na crise bósnia de 1908 e 1909. Assim, seu ultimato a Belgrado incluía exigências que eles sabiam que os sérvios não poderiam acatar. A mobilização geral da Rússia em apoio à Sérvia deu às lideranças alemãs uma oportunidade de ouro para que deflagrassem a guerra europeia que almejavam, mas para justificar seu ataque à França os alemães enviaram a Paris um ultimato com exigências que eles sabiam que os franceses não poderiam aceitar. Do lado da Entente não houve equivalente a esses ultimatos. A bem da verdade, as potências da Entente não fizeram ultimatos desse tipo a não ser o derradeiro ultimato britânico de 4 de agosto, em que a Grã-Bretanha ameaçava declarar guerra caso a Alemanha não desse um basta imediato às operações militares contra a Bélgica.

     Portanto, nem de longe a Primeira Guerra Mundial começou por acidente. A Áustria-Hungria se expôs ao risco de uma guerra mundial para obter a guerra local que o império queria, e a Alemanha tirou partido da guerra local de seu aliado para obter a guerra geral que ela mesma queria. No processo, a Monarquia Dual se viu presa a uma armadilha, atada ao compromisso de lutar fundamentalmente em nome dos objetivos de guerra alemães, ao fim e ao cabo sob direção alemã. Contudo, em retrospecto, as lideranças em Viena deixaram que a Crise de Julho saísse de controle muito antes de 3 de julho, quando a guerra geral tornou-se uma certeza e Berlim começou a ditar as ações austro-húngaras. Sua decisão de permitir que os soldados em licença para a colheita retornassem conforme o planejado estendeu seu cronograma de ação, dando às outras potências muita margem de manobra para direcionar os eventos para outros rumos e demasiado tempo para que diminuísse a reação favorável de indignação internacional com o assassinato do arquiduque. Além das decisões russas de mobilização, durante a crise, as potências da Entente não tomaram medidas provocativas, mas o encadeamento da Grã-Bretanha apoiando a França, que apoiava a Rússia, que apoiava a Sérvia, jogou sobre os ombros da Tríplice Entente a responsabilidade de ter apoiado o país cujos objetivos e diretrizes políticas tinham levado aos primeiros disparos. Se, por um lado, a Rússia não controlou as ações da Sérvia, assim como a Alemanha não controlou a Áustria-Hungria, em ambos os casos, as garantias de apoio de um aliado mais forte encorajaram o agente primário. Nos tensos dias do início de agosto de 1914, pouca gente teria previsto que, de todos os países diretamente mais responsáveis pelo início da guerra, apenas a Sérvia sairia com seus objetivos realizados (SONDHAUS, 2015, p. 77-70).

* SONDHAUS, L. A primeira guerra mundial. Tradutor Roberto Cataldo. São Paulo: Contexto, 2015, 1. ed., 2ª reimpressão.

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14 comentários sobre “Resenha: A Montanha Mágica

  1. Lembro qdo subi e desci “A montanha” tanto tempo atrás e do quanto foi pesada a leitura para no fim se transformar em bagagem. Hoje, ao te ler e sobretudo tua densidade me faz colocar Mann de novo na lista de espera. Fiquei qdo o li fascinado que em seguida parti para “Mário e o Mágico”, rico também. O universo de Mann é precioso e exige que decididamente que estar nele deva ser “dentro de verdade do seu univetso”. Tua leitura me põe mais uma vez lado a lado com TM. Teu texto é profundo e de uma riqueza singular. Grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ainda não conheço “Mário e o Mágico”, espero conseguir ler também, porque no final das contas, as listas de espera só crescem, né? Inclusive Doutor Fausto vive me olhando do alto da sua posição na pilha, ao que eu aceno com um “Olá, tudo bem? Até mais ver!!” e acabo saindo à francesa, rsrsrrsrs…
      Ameeeeeeei cada palavra, caro amigo, e mais feliz ainda em saber q Mann voltou para a sua lista de espera!!!
      Adorei!!
      Beijooooooooca

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  2. Primeiramente, wow! Tenho quase absoluta certeza de que essa foi a melhor resenha que já li! Quase dá para relevar os seis meses sem postagens, quase.
    “A Montanha Mágica” é um dos muitos livros que sempre digo que vou ler e acabo esquecendo, mas dessa vez não haverá escapatória, bom trabalho 😛
    Texto magnífico como sempre, Elaine (:

    Curtido por 1 pessoa

    1. Igooooooooooooooooooor, obrigada, querido!
      E não, não haverá escapatória!! Hahahahhaha… 😀
      Inclusive, vc já poderia começar os trabalhos nos presentear com uma resenha gostosa sobre o filme também, que tal?
      Wooooooooooooow, já quero!!

      E prometo que me esforçarei para não ficar tanto tempo longe. 🙂 “Tenho quase certeza absoluta” 😀 😀 😀
      Beijoooooooooca

      Curtido por 1 pessoa

  3. Simplesmente sensacional.
    A espera de uma nova resenha sua valeu cada ponto e cada vírgula desse texto.
    Você não faz resenha, você faz uma análise profunda da vida que existe dentro de cada livro. Toca cada leitor de forma única.
    Não perca isso.
    Grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Gabe, vc tocou num aspecto importante, pois, de fato, a resenha soa para mim como fruto de um bate-papo entre nós – autor/personagens e eu – vamos nos terapeutizando, rsrsrsrs…, em cada processo.
      O lado, talvez, ruim é que se alguém precisar de um livro meu emprestado, o terá todo riscado.
      Meu querido, beijo no fígado, e brigadão por cada palavra de incentivo. (:

      Curtido por 1 pessoa

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