Resenha: Mulheres, Raça e Classe

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Estava numa roda de conversa, durante o #ocupaUneb contra a #pecdofimdomundo, quando uma das convidadas começou a falar sobre a situação das mulheres na política e no mundo e, mais especificamente, sobre as mulheres negras. Dentre as tantas palavras, oportunamente, colocadas e bem ditas – que me trazia a sensação calorosa de estar no lugar certo e na hora certa fruindo aquelas reflexões – pude guardar algo que não terá uma transcrição devidamente condizente com o que foi dito, mas que essencialmente falava o seguinte “se você saiu do beco, tenha orgulho do beco, enalteça o beco e leve o beco para onde você for. O beco faz parte da sua história e foi o povo do beco que, de alguma forma, te impulsionou a chegar aonde você chegou ou almeja ir”.

Lembro que só pensava no quanto eu gostaria que as milhares de pessoas dos becos mundo afora sentissem a importância de se valorizarem e valorizarem suas histórias; da importância de erguerem suas cabeças e seguirem firmes, e em paz com as suas consciências, porque o fato de morarem onde moram ou da condição social na qual estão, ou estiveram, inseridas não tem que ser o fator determinante de suas vidas, haja vista que tem muita gente bem nascida e aprumada nas riquezas vitalícias da roda da fortuna e que vivem aí, entrando e saindo de listas intermináveis de corrupção.

Mas, como nem tudo é possível e neste momento só posso falar por mim, sigo levando o meu beco comigo e tentando compreender o que ele tem a dizer e a pontuar na vida dos que convivem ao meu redor, afinal, nesse mundo tão grande, curioosamente, existem histórias de beco muito parecidas para se ouvir e contar.

Foi assim que esta fortaleza de mulher, vulgo Angela Davis, chegou chegando… Mó satisfação!! Quanto ao livro, bom, temos 13 capítulos a versar sobre temas que perpassam pelo legado da escravidão à perspectiva de obsolescência das tarefas domésticas, além de necessários, e atemporais, tópicos sobre a origem dos direitos das mulheres, sufrágio feminino, estupro, racismo e uma série de outras demandas que nos parecem beeeem atuais. Obviamente que nem tudo será pontuado porque, além de espantar vocês, certamente, eu não daria conta de bancar os direitos autorais, então, é isso.

O sistema escravista definia o povo negro como propriedade. Já que as mulheres eram vistas, não menos que os homens, como unidades de trabalho lucrativas, para os proprietários de escravos elas poderiam ser desprovidas de gênero. […] Tal qual a maioria dos escravos, a maior parte das escravas trabalhava na lavoura. Embora nos estados localizados na fronteira entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos uma quantidade significativa de escravas realizasse trabalhos domésticos, as escravas do extremo Sul – o verdadeiro núcleo do escravismo – eram predominantemente trabalhadoras agrícolas. […] Mas as mulheres também sofriam de forma diferente, porque eram vítimas de abuso sexual e outros maus-tratos bárbaros que só poderiam ser infligidos a elas. A postura dos senhores em relação às escravas era regida pela conveniência: quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero; mas, quando podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de modo cabíveis apenas às mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de fêmeas (DAVIS, 2016, p. 17-19).

Se pelas tuas veias corre sangue e se você não tem um coração de pedra, possivelmente, se pegará largando umas dez desgraças só de raiva. É provável, ainda, que alardeie outras tantas só pra suportar o peso da adrenalina que desembocou no teu coração, tão logo foi possível compreender o significado de estar numa posição cruel de desigualdade.

Se você ainda não caiu na real, então puxa na memória algumas cenas do filme 12 Anos de Escravidão e aí começaremos a entender que a questão da violência de gênero não está exclusivamente ligada a uma vagina, mas sim à expressão do feminino, e muito desta proposição pode ser observada no também infinitesimal número de agressões aos gays, às mulheres trans, às bixas e a tod@s aquel@s que expressam a sua feminilidade. Por sinal, no filme, você lembra de ter visto algum homem ser espancado e também estuprado tal qual acontecia com as mulheres?

Pois, a cultura do estupro está tão impregnada, tão arraigada, que não precisamos recorrer à escravidão para aludir aos casos de violência, basta ligar a televisão que constataremos, TODO SANTO DIA, recortes desta realidade, quer seja ela de violência explícita (vide os diversos estupros), quer seja de violência moral e/ou institucional (lembremos, por exemplo, de um certo deputadO que declarou a uma das deputadas da Câmara que ela “não merecia nem ser estuprada” porque a considerava feia; adiante, em meio à sessão do impeachment da Presidenta Dilma, este senhor exalta a figura de um coronel acusado de torturas durante a ditadura militar; e, como se não bastasse todo o repertório baixo e vil, constantemente é notabilizado por suas posturas preconceituosas, misóginas e homofóbicas). E repito, TODOS OS DIAS SÃO NOTICIADOS CASOS DE VIOLÊNCIA DE GÊNERO.

A FE-MI-NI-LI-DA-DE tem um poder tal que atrai todo tipo de sentimento – do amor à repulsa, da ternura ao ódio, da divindade à monstruosidade -, mas te pergunto, do quê que é feita a natureza desses homens que agridem barbaramente?, porque nem os animais conseguem ser tão desprezíveis. Ademais, para além do ódio e do preconceito às questões de gênero, reiteramos a força inequívoca das relações de poder e a sua desembocadura direta na, bem estabelecida, cultura machista.

Acho que não custa perguntar como vocês estão a criar seus filhos e filhas, né?

Quando a abolição do tráfico internacional de mão de obra escrava começou a ameaçar a expansão da jovem e crescente indústria do algodão, a classe proprietária de escravos foi forçada a contar com a reprodução natural como o método mais seguro para repor e ampliar a população de escravas e escravos domésticos. Por isso, a capacidade reprodutiva das escravas passou a ser valorizada. Nas décadas que precederam a Guerra Civil, as mulheres negras passaram a ser cada vez mais avaliadas em função de sua fertilidade (ou da falta dela): aquela com potencial para ter dez, doze, catorze ou mais filhos era cobiçada como um verdadeiro tesouro. Mas isso não significa que, como mães, as mulheres negras gozassem de uma condição mais respeitável do que a que tinham como trabalhadoras. A exaltação ideológica da maternidade – tão popular no século XIX – não se estendia às escravas. Na verdade, aos olhos de seus proprietários, elas não eram realmente mães; eram apenas instrumentos que garantiam a ampliação da força de trabalho escrava. Elas eram “reprodutoras” – animais cujo valor monetário podia ser calculado com precisão a partir de sua capacidade de se multiplicar.

Uma vez que as escravas eram classificadas como “reprodutoras”, e não como “mães”, suas crianças poderiam ser vendidas e enviadas para longe, como bezerros separados das vacas (DAVIS, 2016, p. 19-20).

Se os homens eram lucrativos, as mulheres poderiam ser triplamente lucrativas, afinal, trabalhavam tal qual os homens nas plantações, seus filhos lhes eram usurpados para compor as futuras linhas de frente no manejo da enxada e ainda eram violentadas e mutiladas a bel-prazer, pelos senhorios e pelos capatazes, sem que lei alguma lhes imputasse quaisquer penalidade.

E ainda há quem não reconheça a existência de uma dívida histórica, ainda há quem abra a boca pra dizer que os sistemas de cotas não deveria existir e ainda há quem abra a boca pra falar merdas do tipo racismo reverso… E, bom, haja paciência para entabular qualquer conversa com quem não consegue compreender o significado das violências, das exclusões e da perpetuação famigerada dos abusos de poder.

Acima lhes perguntei como estão a criar seus filhos e filhas, certo? Então, é preciso saber até que ponto a educação diária de mães e pais, dentro de casa mesmo, tem servido para levantar debates que precisam ir além das paredes das escolas, e que não é e nem deve ser encarada como dever único e exclusivo dos educadores. É preciso saber até que ponto as mães e pais ainda têm perpetuado, ainda que inconscientemente, a educação que alheia e oprime uma filha em detrimento do filho. É preciso saber até que ponto estamos a passar a mão pela cabeça e a fechar os olhos para os casos de preconceitos, para o racismo e para a violência que começa dentro de casa. É preciso saber até que ponto estamos ensinando @s noss@s filh@s a não refletirem e, logo, a não se envolverem com as causas que verdadeiramente importam, inclusive, para assumirmos a nossa parcela de culpa em estarmos tão afundados na merda política, econômica, estrutural e moral que vivenciamos hoje neste país.

As observações a seguir, relativas à função do estupro durante a Guerra do Vietnã, também podem ser aplicadas à escravidão: “No Vietnã, o comando militar dos Estados Unidos tornou o estupro ‘socialmente aceitável’; de fato, era uma política não escrita, mas clara”. Ao encorajar jovens soldados a estuprar mulheres vietnamitas (às vezes, eram orientados a “revistar” mulheres “com o pênis”), forjou-se uma arma de terrorismo político de massa. Uma vez que as mulheres vietnamitas se notabilizavam por suas contribuições heroicas à luta de libertação de seu povo, a retaliação militar especialmente destinada a elas era o estupro. Ainda que dificilmente estivessem imunes à violência infligida aos homens, elas eram especialmente escolhidas como vítimas de terrorismo por uma força militar sexista comandada pelo princípio de que a guerra era um assunto exclusivamente masculino (DAVIS, 2016, p. 36).

Prática comum desde sempre, do descobrimento do Brasil à ditadura militar e, infelizmente, não foi, não é e nem ficará restrita aos casos de abusos de poder, afinal, cotidianamente, somos abatid@s e evidenciad@s por meio de novas e novas estatísticas.

Mas, mudando um pouco o rumo da prosa…

As mulheres brancas do Norte – tanto as donas de casa de classe média quanto as jovens operárias – frequentemente evocavam a metáfora da escravidão quando tentavam expressar suas respectivas opressões. Aquelas de melhor situação econômica começaram a denunciar o caráter insatisfatório de sua vida doméstica, definindo o casamento como uma forma de escravidão. Para as trabalhadoras, a opressão econômica sofrida no emprego tinha uma semelhança com a escravidão. Em 1836, quando as operárias de Lowell, Massachusetts, entraram em greve, marcharam pela cidade cantando:

Oh, eu não posso ser uma escrava,
Eu não serei uma escrava,
Oh, eu amo demais a liberdade,
Eu não serei uma escrava.

Entre as mulheres trabalhadoras e aquelas que vinham de prósperas famílias de classe média, as primeiras certamente tinham motivos mais legítimos para se comparar às escravas. Embora fossem nominalmente livres, elas eram tão exploradas em suas condições de trabalho e em seus baixos salários que a associação com a escravidão era automática. Ainda assim, eram as mulheres com recursos financeiros que evocavam essa analogia de modo mais literal em seus esforços para expressar a natureza opressiva do casamento. Na metade inicial do século XIX, a ideia de que a milenar instituição do casamento pudesse ser opressiva era de certa forma recente. As primeiras feministas podem ter descrito o matrimônio como uma “escravidão” semelhante à sofrida pela população negra principalmente devido ao poder impactante dessa comparação – temendo que, de outra maneira, a seriedade de seu protesto se perdesse. Entretanto, elas aparentemente ignoravam que a identificação entre as duas instituições dava a entender que, na verdade, a escravidão não era muito pior do que o casamento. Mesmo assim, a implicação mais importante dessa comparação era a de que as mulheres brancas de classe média sentiam certa afinidade com as mulheres e os homens negros, para quem a escravidão significava chicotes e correntes (DAVIS, 2016, p. 46-47).

Apesar da natureza da comparação entre as “escravidões” descer rasgando garganta abaixo – afinal, convenhamos que o nível de sofrimento entre as classes de mulheres brancas burguesas não chega nem aos pés do nível de dor das mulheres negras escravas, e de atestarmos que o termo ‘escravidão’ foi convenientemente utilizado, e alienado, para chamar a atenção para as suas respectivas causas -, é preciso salientar que o outro lado da moeda, nos mostra estas mulheres brancas encarando a supremacia masculina e empoderando-se ao nível de levantar suas bandeiras de luta e começarem a engrenar na arena política. Temos a oportunidade de vislumbrar diferentes formas de opressão, é verdade, mas também as diferentes formas de reação e de estabelecimento nos fronts de batalha.

Segundo Chomsky, estas “garotas de fábrica” de Lowell, já emanavam ideias libertárias, ainda que jamais tivessem tido contato com qualquer socialista de renome:

Essas trabalhadoras desenvolveram suas próprias concepções de como o mundo deveria ser organizado. Tinham seus próprios jornais. Na verdade, o período de maior liberdade de imprensa nos EUA foi, provavelmente, a década de 1850. Naqueles anos, a imprensa popular, levada a cabo pelas garotas de fábrica de Lowell e de outros lugares, era semelhante ao da imprensa comercial ou mesmo maior. Eram jornais independentes – há muita coisa interessante, se você puder lê-los agora, e surgiram espontaneamente, sem nenhum apoio. As escritoras nunca tinham ouvido falar de Marx, de Bakunin ou de qualquer outro socialista; e desenvolveram as mesmas ideias. Aquilo que elas chamavam de “escravidão assalariada”, alugar a si mesmo para um patrão, não era para elas muito diferente da escravidão pessoal, em função da qual se combatia na guerra civil. Você deve lembrar que, em meados do século XIX, essa era uma posição comum nos EUA – por exemplo, as posições defendidas pelo Partido Republicano e por Abraham Lincoln. A ideia de que não há muita diferença entre vender e alugar a si mesmo não é original. Neste sentido, a ideia de se alugar, significando por isso trabalhar por um salário,, parecia degradante. Era um ataque à integridade pessoal. Essas trabalhadoras desprezavam o sistema industrial que se desenvolvia, o qual estava destruindo sua cultura, sua independência e sua individualidade, obrigando-as a se subordinarem aos patrões (CHOMSKY, 2011, p. 150).

E vos pergunto, aonde foi parar essa consciência quando, hoje, mais do que nunca, estamos tão necessitados dela?

As pessoas negras que recebiam instrução acadêmica inevitavelmente associavam o conhecimento à batalha coletiva de seu povo por liberdade. Ao fim do primeiro ano de funcionamento de uma escola para crianças negras em Cincinnati, estudantes a quem foi feita a pergunta “sobre o que você mais pensa?” deram as seguintes respostas:

1) Nós […] seremos bons meninos e, quando nos tornarmos homens, vamos livrar os pobres escravos do cativeiro. Fiquei triste em ouvir que o barco de Tiskilwa afundou com duzentos pobres escravos […] dói tanto em meu coração que eu poderia desmaiar em um minuto. (Sete anos de idade)
2) […] Estamos estudando para tentar arrebentar o jugo da escravidão e partir as correntes em pedaços para que a posse de escravos termine para sempre. (Doze anos)
3) […] Bendita seja a causa da abolição. […] Minha mãe, meu padrasto, minha irmã e eu nascemos na escravidão. O Senhor permitiu que as pessoas oprimidas fossem libertadas. Que venha logo a época feliz em que todas as nações conheçam o Senhor. Agradecemos a ele por suas muitas bênçãos. (Onze anos)
4) […] Isto é para informar vocês de que tenho dois primos escravos que têm direito à liberdade. Eles fizeram tudo que é necessário, mas não deixam eles irem. Falam em vendê-los rio abaixo. Se fosse com vocês, o que vocês fariam? (Dez anos)

A última resposta que sobreviveu em registros é de uma aluna ou aluno do dezesseis anos dessa escola recém-aberta em Cincinnati. Trata-se de um exemplo  fascinante do modo como estudantes atribuíam um sentido contemporâneo à história mundial, mais próximo de sua realidade e de seu desejo de liberdade.

5) Vamos voltar ao passado e observar o modo como os bretões, os saxões e os germânicos viviam. Eles não tinham estudo e não conheciam as letras. Não parece, mas alguns deles foram nossos antepassados. Vejam o rei Alfred, que grande homeante ele foi. Por um tempo, ele não sabia o abecedário, mas antes de morrer comandou exércitos e nações. Ele nunca desanimou, sempre olhou adiante e estudou com mais afinco. Acho que, se as pessoas de cor estudarem como o rei Alfred, elas logo poderão se livrar do mal da escravidão. Não consigo entender como os estaduinenses dizem que este é um país de liberdade, com toda a escravidão que existe. (DAVIS, 2016, p. 112-113)

Mas, para os meritocratas de carteirinha – que vivem insistindo na permanência das iniquidades para que se dê a perpetuação dos seus privilégios – as chances de todos são iguais.

Aproveito o ensejo para linkar o último depoimento – mesmo dando um salto expressivo entre a escravidão e a democracia, e ainda sob os auspícios da visão anarquista – com algumas palavras do Chomsky (quem assistiu ao filme Amistad saberá exatamente o porquê da necessidade dessa inserção, afinal, convencer todos aqueles parlamentares do óbvio ululante não foi tarefa simples, apesar de que, na realidade, a coisa conseguiu ser mais difícil e, provavelmente, seguirá deixando suas marcas para o além-mundo).

A crítica da “democracia” entre os anarquistas sempre foi uma crítica da democracia parlamentar, da maneira como ela surgiu nas sociedades fortemente repressivas. Considere os EUA, que têm sido tão livres quanto qualquer outro país, desde suas origens. A democracia americana foi fundada sobre o princípio, enfatizado por James Madison na Assembleia Constituinte de 1787, de que a principal função do governo é “proteger uma minoria de ricos, em detrimento da maioria”. E, assim, ele advertiu que, na Inglaterra – o único modelo “quase democrático” da época -, se fosse permitido à população comum exprimir sua opinião sobre as questões públicas, ela implementaria a reforma agrária e outras atrocidades, e que o sistema americano deveria ser cuidadosamente construído, de maneira a evitar crimes contra os direitos de propriedade, que deveriam ser defendidos (e de fato, prevalecer). A democracia parlamentar, nesses moldes, merece severas críticas dos verdadeiros libertários; eu nem toquei em diversos outros aspectos não exatamente sutis – a escravidão, para mencionar apenas um, ou a escravidão assalariada, muito criticada por trabalhadores que nunca tinham ouvido falar de anarquismo ou comunismo durante o século XIX, e também depois disso (CHOMSKY, 2011, p. 60).

Pois, meu querido, em pleno século XXI, o raio-x dessa constatação é Trump no poder. É o mundo girando nas mesmas cirandas e se fodendo até não poder mais.

As trabalhadoras não se uniram em massa para levantar a bandeira do sufrágio até o início do século XX, quando suas próprias lutas criaram motivos especiais para que reivindicassem o direito ao voto. Quando as mulheres da indústria de confecções de Nova York entraram em greve durante o inverno de 1909-1910, no famoso “levante das 20 mil”, o voto começou a adquirir a particular relevância para a luta das trabalhadoras. Como as líderes operárias começaram a argumentar, as trabalhadoras poderiam usar o voto para exigir salários mais altos e melhores condições de trabalho. O sufrágio feminino poderia servir como uma arma poderosa na luta de classes. Depois que o trágico incêndio da empresa Triangle Shirtwaist, em Nova York, tirou a vida de 146 mulheres, a necessidade de uma legislação que proibisse condições de trabalho insalubres para as mulheres se tornou drasticamente óbvia. Em outras palavras, as trabalhadoras precisavam do voto a fim de garantir sua sobrevivência (DAVIS, 2016, p. 148).

Em 1848, ano em que Karl Marx e Friedrich Engels publicaram seu Manifesto Comunista, a Europa era cenário de inúmeros levantes revolucionários. Um dos participantes da Revolução de 1848, um oficial de artilharia e colega de trabalho próximo de Marx e Engels chamado Joseph Weydemeyer, imigrou para os Estados Unidos e fundou a primeira organização marxista da história do país. Em 1852, quando Weydemeyer criou a Liga Proletária, ao que parece nenhuma mulher estava associada ao grupo. Se, entretanto, houve mulheres envolvidas, há muito tempo elas caíram no anonimato histórico. Ao longo das décadas posteriores, as mulheres permaneceram ativas em suas associações operárias, no movimento antiescravagista e no desenvolvimento de campanhas pelos próprios direitos. Mas, para todos os efeitos, pareciam estar ausentes das fileiras do movimento socialista marxista. Assim como a Liga Proletária, a Associação Nacional de Trabalhadores e a Agremiação Comunista eram totalmente dominadas por homens. Mesmo o Partido Trabalhista Socialista era predominantemente masculino.

Contudo, é preciso abrir um parêntese para o caráter, inicialmente, sexista nos escritos marxistas, apesar de termos consciência de que a compreensão do papel das mulheres nas lutas de classes viria a ser valorizado posteriormente. Segue, abaixo, trecho do Manifesto do Partido Comunista que bem expressa tal assertiva:

Quanto menos habilidade e força o trabalho manual demanda, ou seja, quanto mais a indústria moderna se desenvolve, mais o trabalho dos homens é substituído pelo das mulheres. Em se tratando da classe trabalhadora, diferenças de sexo e idade já não têm importância social nenhuma. O que há são instrumentos de trabalho de custos variados, de acordo com idade e sexo (MARX e ENGELS, 2012, p. 52).

Sim, concordamos que já não havia diferença de sexo e, tampouco de idade, no que tange à força de trabalho, todavia, esquecem-se de que mulheres também exerceram trabalhos que exigiam-lhes habilidade e força e que, portanto, menosprezar-lhes tais atributos, em decorrência do surgimento da indústria e em decorrência do seu gênero é restringir-lhe à uma categoria de inferiorização perante os homens. Estamos a falar não apenas sobre a história das mulheres brancas e abastadas (essas sim, pegavam leve, ou nem pegavam), mas também, e principalmente, das mulheres negras trabalhadoras e escravizadas e das trabalhadoras brancas periféricas e proletárias que encaravam toda a ordem de trabalhos duros e de longas horas de jornada, sem jamais serem reconhecidas, e sempre mais e mais exploradas.

Quando feministas do século XIX apresentaram a reivindicação pela “maternidade voluntária”, nasceu a campanha pelo controle de natalidade. Suas proponentes foram chamadas de radicais e submetidas à mesma zombaria que recaiu sobre as primeiras defensoras do sufrágio feminino. A “maternidade voluntária” era considerada uma audácia, uma afronta e uma excentricidade por pessoas que insistiam que a esposa não tinha o direito de recusar-se a satisfazer os anseios sexuais do marido. Com o tempo, claro, o direito ao controle de natalidade, assim como o direito das mulheres ao voto, seria um ponto mais ou menos pacífico para a opinião pública estaduinense. Mas em 1970, um século depois, o apelo por aborto legal e de fácil acesso não era menos controverso do que a questão da “maternidade voluntária” que deu início ao movimento pela contracepção nos estados Unidos.

[…] A vitória mais importante do movimento contemporâneo pelo controle de natalidade [nos Estados Unidos] ocorreu no início dos anos 1970, quando o aborto foi finalmente declarado legal.

[…] O fracasso da campanha pelo direito ao aborto em conduzir uma autoavaliação histórica levou a uma apreciação perigosamente superficial das atitudes de suspeita da população negra em relação ao controle de natalidade em geral. É verdade que, quando algumas pessoas negras não hesitaram em igualar o controle de natalidade ao genocídio, a reação pareceu exasperada – e até paranoica. Ainda assim, as ativistas brancas pelo direito ao aborto não compreenderam uma mensagem profunda, pois sob esses gritos de genocídio havia importantes indicações sobre a história do movimento pelo controle de natalidade. Esse movimento, por exemplo, tornou-se conhecido por defender a esterilização involuntária – uma forma racista de “controle de natalidade” em massa. Se algum dia as mulheres viessem a desfrutar do direito de planejar sua gravidez, tanto as medidas legais e facilmente acessíveis de controle de natalidade quanto o aborto teriam de ser complementados pelo fim da prática abusiva da esterilização (DAVIS, 2016, p. 205-206).

“A esposa não tinha o direito de recusar-se a satisfazer os anseios sexuais de seu marido”. O pior é que ainda há quem pense que as mulheres nasceram, exclusivamente, para serem reprodutoras, objetificadas, domésticas, mandadas, limitadas, subservientes e, ahhhhhh, ainda e de novo, máquinas de sexo, gostosas e aceitarem tudo e…

No mais, você consegue conceber que existiram, E EXISTEM, políticas públicas concebidas pra esfacelar camadas da população? Pois, cantando Edson Gomes, “o inferno é aqui, baby”.

* DAVIS, A. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 1. ed., 2016.

Material de apoio:

* CHOMSKY, N. Notas Sobre o Anarquismo. São Paulo: Hedra, 2011.

* MARX, K., ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Penguin Classics/ Companhia das Letras, 1. ed., 2012.

 

No final do ano passado, em meio a uma aula de saúde do homem, enquanto discutíamos alguns artigos acerca da visão do pensamento do homem brasileiro, e a minha equipe ficou com o recorte de Pernambuco, num dado momento eu aventei a questão da ausência de acessos à maiores recursos e de perspectivas de vida e tal (lembrando que isto em termos relacionados ao conteúdo abordado naquele artigo, okay?), e de cara tal concepção foi rebatida quando percebemos que o paulista, mesmo tendo as mais diversas oportunidades, também padecia de inúmeros preconceitos, involuções e pequenezas de pensamento em relação às mulheres.

Lembro ainda que acabei citando a ironia do filme do SpielbergInteligência Artificial – quando no fim da raça humana, somente as máquinas sobrevivem e elas  meio que se transformam em formas ultra inteligentes que se comunicam por uma espécie de telepatia e não apresentam diferenças de gênero; e esse era o x da questão, pois, quando no fim, justamente em meio à evolução das máquinas, não havia mais distinções de gênero, havia a igualdade e a possibilidade de as tão sonhadas sociedades libertárias – a quintessência da humanidade – deixarem de ser utopia para se tornar realidade.

Caraaaaaaaaalho…

 

 

 

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8 comentários sobre “Resenha: Mulheres, Raça e Classe

  1. Encantada com suas palavras, me senti e tenho certeza que outras também se sentiram! Eu ainda moro no beco e me sinto honrada em falar dele, ao ensinar meu endereço e tudo o que ele representa para mim. Continue assim uma alma sensível e brilhante!!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Questões polêmicas, pontos de vista difusos, assunto para uma eternidade, se é que teremos uma. Escreves com sangue nos olhos, com sentimentos a flor da pele, com a artéria pulsante do beco fluindo sob a cor da pele, sob o gênero, sob a unidade pensante. O beco que cada um carrega para sua vida. Por sorte, também o tenho em mim. Aliás, Mariel está certo ao dizer que “concordar com tudo” não tem um porquê. Contudo, quando há concordância cega e desconsideramos a tríade da verdade, uma verdade sua, uma verdade minha e a verdade, deixamos um campo fértil de mudanças perder-se na radicalidade das humanidades. Siga dizendo, que sigo te escutando. Assim, cosntruimos um saber polimorfo com muitas verdades.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querido, não sei por qual motivo, mas seu comentário foi para numa pasta de spam e só vi agora. Desculpa!! E questão resolvida, rsrsrsrrs… Sim, “assunto para uma eternidade” e continuaremos conversando sobre tooooodos eles aqui, na medida do possível.
      “Contudo, quando há concordância cega e desconsideramos a tríade da verdade, uma verdade sua, uma verdade minha e a verdade, deixamos um campo fértil de mudanças perder-se na radicalidade das humanidades. Siga dizendo, que sigo te escutando. Assim, cosntruimos um saber polimorfo com muitas verdades” – e é justamente isso que busco, construir um conhecimento em conjunto, trocar ideias, conhecer novos pontos de vista para os quais eu não havia atentado e cuja procedência me permita um novo olhar. A educação problematizadora, que Paulo Freire nos lega, tem o seu espaço aqui, e com todo o carinho do mundo.
      Quanto ao “sangue no olho”, é fogo, rsrsrrsrs…, não posso negar.
      Beijocona 🙂

      Curtido por 1 pessoa

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