Resenha: A Redoma de Vidro

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Desconfio de muita felicidade.

Ninguém é feliz o tempo todo, logo, quando vejo pessoas excessivamente felizes, primeiro, fico cansada, porque existe todo um dispêndio de energia pra dar conta desse tipo papel, segundo, fico curiosa, literalmente, pra conhecer todas as conexões possíveis que permitam que tal criatura consiga se manter nesse nível de gás, afinal, a nossa bioquímica também precisa se recompor (a fisiologia explica… inclusive, os mecanismos de quem recorre aos subterfúgios…), mas definitivamente, gosto de observar a uma certa distância.

Me apraz a ideia da imperfeição. Gente perfeita sempre me dá uma sensação laboriosa de querer buscar a rachadura, o remendo, porque convenhamos, perfeição não é pra esse mundo, ou então, tô mais ultrapassada do que tudo.

Outra coisa, vão me encontrar no bloco dos que quebraram a cara e conheceram algum tipo de buraco negro; taí outra coisa que, mesmo sem conhecer direito, preciso agradecer a existência, pois é preciso haver um espaço onde o nada possa existir e, nesse ínterim, consiga abarcar o todo outra vez. O lado bom desse bloco é que, provavelmente, você respeitará as lições que tirou, ahhhh se vai… O lado ruim é que você nunca mais voltará a ser a mesma pessoa de antes e isso, talvez, lhe tire um certo brilho do olhar, talvez, revele sua natureza tão objetiva na arte da sobrevivência – nem que seja só pra saber o que vem depois da linha do horizonte – que, talvez, seja algo peculiarmente cruel de enxergar no espelho, mas no final das contas, descobrimos que sempre é possível espremer a mente/alma/ou/sei/lá/o/quê ao ponto de novas conexões surgirem para lhe mostrar que a resiliência existe e que se pode usar tal capacidade até o último instante, até o limite cabal das forças (e desejar que haja gratidão e ternura por essa nova consciência. E que as missões tenham sido consideradas porque, sinceramente, se existir vida após a morte, vou virar a desgraça se tiver que voltar com o karma de bater na mesma tecla outra vez, aaaaah se vou…).

Superada a intransigência inicial com o deslumbramento de Esther Greenwood em Nova York (ela é meio chatinha no início), você vai desejar abraçá-la e lhe subtrair as dores, mas o que rola é a inequívoca certeza de que você não pode fazer isso, pois ainda que ela não fosse uma personagem, cada pessoa precisa querer superar os seus problemas, ou então, nada do que se faça – e nem todo o amor do mundo – vai permitir arrancá-la do estado de transe, do ópio venerado, da necessidade da dor e da obsessão em alcançar o tal sentido do desejo, a tal redoma que sufoca, mas que lhe é também membrana e, como tal, faz parte de si e da sua história.

Dores caladas. Traumas guardados. Intolerância. Inflexibilidade. Cobranças. Exigências de perfeição. Perdas não trabalhadas. Controle. Angústia. Tristeza. Dor. Limitação. Problemas. Dificuldade em lidar com os problemas. Obsessão. Ilusão. Ideias persecutórias. Fuga da realidade. Ideias suicidas. Busca insistente por tais temas. Manias. Alucinações. Frieza. Ausência de medo. Impeto de desafiar-se e entregar-se aos perigos. Mentira. Obsessão por ideias suicidas. Decepção. Lamento. Ausência de confiança, em si e nos outros. Abandono. Desistência da vida. Apego à morte… DOR. RECONHECER OS LIMITES. RENDIÇÃO. LAÇOS. ERGUER A CABEÇA. NOVA CHANCE. PERSPECTIVAS. FÉ. PRIMEIROS NOVOS PASSOS. RE-CO-ME-ÇO!

Eu já nem sei se estou a falar mais de Esther ou da Sylvia, só sei que, quando as dores todas gritam, nos compreendemos e, nessa hora, mais do que nunca, o que verdadeiramente importa é a compreensão, o carinho e o cuidado com a história do outro, a alma do outro, a vida do outro. Você pode até querer ajudar de alguma forma, porque não consegue se conformar com o fato de que tal sofrimento possa ter sido disparado por um gatilho tão ínfimo ou tão, abissalmente, grandioso, mas não depende de você dizer o momento em que a pessoa vai parar de verter sangue/dor/energia/alma/vida… E ainda que você esteja revestido de intenso amor nessa tentativa de ajudar, tudo só dependerá dele(a).

Mas eu não estava indo me casar. Devia haver um ritual para quem nasce pela segunda vez – remendada, recauchutada, pronta para pegar a estrada novamente. Eu estava pensando nisso quando a dra. Nolan surgiu do nada e tocou o meu ombro (PLATH, 2015, p. 274).

Ao que tudo indica, Esther Greenwood, conseguiu ultrapassar a corda bamba, Sylvia Plath não, “depois de diversas tentativas ao longo da vida, se matou aos trinta anos, em Londres“.

Reconhecer os limites entre uma tristeza profunda e algo mais é elementar, doar amor e carinho é ser humano, contudo, conduzir à ajuda é imprescindível, principalmente, quando temos a compreensão de que a depressão não é uma mera fragilidade e, além de todo o potencial psíquico, existem outros agentes predisponentes como os fatores genéticos, ambientais, sociais e neurobiológicos (concentrações e/ou anormalidades cerebrais de noradrenalina, serotonina e dopamina etc.) que precisam ser balizados – e aí entram os tratamentos com antidepressivos, terapias, dentre outros – e acompanhados por profissional especializado .

O suicídio é um tema que requer muito cuidado porque, mais do que vir a tornar-se uma tentativa de chamar a atenção, um grito de desespero por não conseguir lidar com determinada situação e/ou suplantá-la, pode concretizar-se numa grande fatalidade. E é com profundo pesar que atestamos que, dia após dia, os números crescem – e são ocultados pela mídia plástica – e nós não conversamos a respeito quando, SIM, é preciso falar a respeito.

Bom… Leia o livro de peito aberto. Tente compreender o que se passa no coraçãozinho das pessoas que estão a sofrer e, se por acaso, reconhecer alguém que precise de ajuda, tente orientar/conduzir a um profissional. Julguemos menos e busquemos mais conhecimento acerca deste que é só mais um entre tantos mistérios da vida.

* PLATH, S. A Redoma de Vidro. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015.

P.S.// Só fiquei furiosa com um detalhe; quando Esther resolve que aproveitaria o verão para escrever o seu primeiro romance, PELA PRIMEIRA VEZ NA VIDA, vi a possibilidade de surgir uma heroína com o meu nome  – Elaaaaaaaaaaaaine – porém, a sua (minha) expectativa restringiu-se ao contexto de dois parágrafos. Que óóóóóóóóódio!!!! Rsrsrsrrsr…

Elaine, sentou-se na passagem coberta, com a velha camisola amarela de sua mãe, esperando que algo acontecesse. Era uma manhã sufocantes de julho, e gotas de suor escorriam pelas suas costas, uma após a outra, como insetos vagarosos” (p. 136).

A inércia infiltrava-se nos membros de Elaine feito melaço. Deve ser assim que a gente se sente quando pega malária, ela pensou” (p. 136).

Bye, curioos@s! Até mais!!!

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8 comentários sobre “Resenha: A Redoma de Vidro

  1. Em primeiro lugar: Eu adorei a resenha.
    Em segundo (e não menos importante): Fico muito feliz quando vc escreve sobre “temas” (suicídio, depressão, preconceito, machismo, entre outros) fazem parte do cotidiano mas q a grande maioria insiste em ignorar. Vc trás tudo isso com uma sensibilidade q me toca.
    É preciso ver fora da caixinha… ou pelo menos tentar.

    Brigadão, amor!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Parabéns pela resenha. Quiçá consiga ler num futuro próximo. Tenho a sensação de que há semelhante tema no livro de Irvin D. Yalom, A Cura de Shopenhauer. Trabalha com as superações e os medos. Quanto a perfeição e felicidade, desconfio daquele que diz saber o verdadeiro significado de cada uma delas. Um punhado de sentimentos bons, que superam os efeitos indesejados das dores emocionais e dos medos, podemos nominá-los felicidade, mas não há como aferir sua dimensão e permanencia. Tenho a impressão que é o mesmo que segurar um punhado de ar nas mãos. Siga escrevendo que sigo lendo.

    Curtido por 1 pessoa

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