Resenha: A Metamorfose

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Algumas palavras têm o poder de me inculcar e “metamorfose” é uma delas. Lembro que em 2003.2, em meio a uma aula de Direito e Ética em Relações Públicas, o professor sentenciou algo do tipo “nesta profissão, vocês terão que se metamorfosear muitas vezes”, e, tais palavras desceram dubiamente atropeladas goela abaixo, com gosto de vinagre, porque deixavam de ter uma conotação positiva para adquirir ares de negatividade (de sorte que nessa época eu andava lendo Operação Cavalo de Troia e, vez por outra, trocávamos algumas ideias acerca do livro; fora este o salvo-conduto para suportar o final do período).

Já em 2013.2, em meio a uma aula de Patologia, cujo assunto configurava displasia e a sua relação de mudança na célula – um estado de desarrumação na forma e na estrutura, devido a alterações no conteúdo do dna – o professor, numa tentativa de facilitar o entendimento, aludiu “é algo que mexe com a sua intimidade, que mexe com a sua essência” e, de fato, aquilo me marcou, pois apesar de estarmos num contexto negativo, aquelas palavras fluíram aguerridas; encontrava-me numa fase de mudanças, de modo que a ideia de algo que extrapolava o imanente e transcendia me capturou… Eram tantas questões… Mas, na peneira, duas sobressaíam, migrara de humanas para as ciências biológicas e, paulatinamente, estava a me testar, além dos cabelos (tinha descoberto há pouco tempo a rosácea e, aliado ao desejo de manter a pele o mais isenta possível de qualquer química, quer fosse oriunda de produtos para o rosto ou madeixas, imperava a necessidade de aceitação dos cabelos naturais; tudo isso me fez cortá-los totalmente baixinho… Lá estava eu no sexto mês dessa aventura da qual jamais me arrependi!).

Nenhuma grande mudança virá de bandeja, tampouco acontecerá sem esforço. Ousar tornar-se aquilo que você escolheu para si é o primeiro grande passo para tudo na vida.

 Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos (KAFKA, 1997, p. 7).

Duas certezas em relação ao livro: uma, se eu escrevesse tal coisa, jamais ganharia ibope; duas, o absurdo kafkiano é mais deliberativo do nunca, ousaria dizer, quase profético.

Tá me achando com cara de louca? Tudo bem! Mas, me responda, se possível, de forma lúcida e gentil tal qual Samsa, se você acreditaria que um país, pseudo consciente, teria a sua presidenta impichada por um bando de pinóquios cupinizados sem que nada lhes fosse imputado. Ou ainda, se você consideraria possível, há coisa de sete meses, aventar a possibilidade de um clube do Bolinha (que merda de comparação. Foi mal, Bolinha!) escroto, tratorar 54 milhões de votos em prol do privilégio de poucos e, às custas do seu sangue, suor e lágrimas.

Então, o que é absurdo pra uns, é “vida que segue” pra outros, logo, o cara deitar homem e acordar como um inseto, ainda é melhor do que deitar na caminha de casa e acordar infartando na porta do hospital, que não vai te garantir tudo o que necessitas, porque as pastas da saúde e da educação vão ficar 20 (eu disse VIN-TÊ) anos sem investimentos. Isso tá pouco absurdo pra você?

Mas, voltando à história de Gregor.

Infelizmente a fuga do gerente pareceu perturbar por completo o pai, que até então tinha estado relativamente sereno; pois em vez de correr, ele próprio, atrás do gerente, ou  pelo menos não impedir Gregor de persegui-lo, agarrou com a mão direita a bengala do gerente, que este havia deixado com o chapéu e o sobretudo em cima de uma cadeira, pegou com a esquerda um grande jornal da mesa e, batendo os pés, brandindo a bengala e o jornal, pôs-se a tocar Gregor de volta ao seu quarto. Nenhum pedido de Gregor adiantou, nenhum pedido também foi entendido; por mais humilde que inclinasse a cabeça, com tanto mais força o pai batia os pés. Do outro lado a mãe, apesar do tempo frio, tinha aberto uma vidraça e, curvada para fora, bem distante da janela, comprimia o rosto nas mãos. Entre a rua e a escadaria formou-se uma forte corrente de ar, as cortinas inflaram, os jornais sobre a mesa começaram a rumorejar, algumas folhas voaram para o chão. Implacável, o pai o pressionava, emitindo silvos como um selvagem. Mas Gregor ainda não tinha prática de andar para trás, as coisas iam realmente muito devagar. Se pudesse apenas girar o corpo, logo estaria no seu quarto, mas temia tornar o pai impaciente com essa operação que demandava tempo – e a todo instante a bengala na mão dele o ameaçava com um golpe mortal nas costas ou na cabeça. Mas no fim não restou a Gregor outra coisa senão isso, pois ele notou com horror que, andando para trás, não sabia nem mesmo manter a direção; e assim, lançando olhares incessantes e angustiados para o lado do pai, começou a dar a volta, tão rápido quanto possível, na realidade porém muito lentamente. Talvez o pai tenha percebido sua boa vontade, pois nesse lance não o perturbou, mas até dirigiu, aqui e ali, à distância, o movimento giratório com a ponta da bengala. Se apenas não houvesse esse sibilo insuportável do pai! Gregor perdia completamente a cabeça por causa disso. Já tinha feito a volta quase por completo quando, sempre ouvindo o silvo, se enganou e retrocedeu outra vez um pouco para a posição original. Mas quando enfim estava com a cabeça diante da abertura da porta, feliz, verificou que seu corpo era demasiado largo para passar sem mais por ela. Ao pai, naturalmente, na sua condição atual, não ocorreu nem mesmo remotamente abrir a outra folha da porta, para oferecer a Gregor passagem suficiente. Sua ideia fixa era simplesmente que Gregor voltasse o mais rápido possível para o quarto. Jamais teria permitido os preparativos minuciosos de que Gregor necessitava para levantar-se e, talvez desse modo, passar pela porta. Em vez disso, impelia agora Gregor com um ruído excepcional, como se não existisse nenhum obstáculo; a voz atrás dele já não soava como a de um pai apenas; realmente já não era uma brincadeira e Gregor forçou – acontecesse o que quisesse – a entrada pela porta. Um lado do seu corpo se ergueu, permaneceu torto na abertura da porta, um dos seus flancos se esfolou inteiro, na porta branca ficaram manchas feias, ele logo se entalou e não poderia mais mover-se sozinho – as perninhas de um lado pendiam trêmulas no ar, as do outro comprimiam-se doloridas no chão – quando o pai desferiu, por trás, um golpe agora de fato possante e liberador e ele voou, sangrando violentamente, bem para dentro do seu quarto. A porta foi fechada ainda com a bengala, depois houve por fim silêncio (KAFKA, 1997, p. 29-31).

Gregor, assume a dívida do pai, com o seu atual chefe, o sustento da família e aparta-se, completamente, de si; aliás, seu sonho era limar tal débito e pedir demissão. Todavia, foi surpreendido com o fato de que suportar tantas exigências estava para além das suas forças e, num dado momento, o inconsciente deflagra a mudança que ele, jamais, ousaria admitir.

Agora imagine que esse Greg é alguém que, por exemplo, tem uma doença mental; consegue perceber que a metáfora é mais corriqueira do que nunca? Quantas e quantas pessoas já foram alienadas de suas vidas porque as famílias não conseguiam lidar com as suas metamorfoses – ou ainda hoje não conseguem – e as mantiveram em níveis diversos de cárcere (nos antigos manicômios, em casa, nas prisões ou até mesmo abandonadas nas ruas…)? Quantos homossexuais não sofreram pelo fato de suas famílias não conseguirem aceitar a sua escolha e os isolaram de afeto, de compreensão, de amor, de carinho e lhes incutiram preconceitos e violências de níveis diversos? Quantas pessoas refugiaram-se nas substâncias psicoativas em decorrência de problemas mal-resolvidos com a família sendo que, estas mesmas famílias, por sua vez, os relegaram à hostilidade, ao abandono, ao desafeto?

Mas não ficou nisso, já sabia desde o primeiro dia da sua nova vida que, diante dele, o pai só considerava adequada a severidade extrema. E assim correu na frente do pai, parando quando ele se detinha e se apressando de novo apenas o pai se movia. Deram assim várias voltas pelo quarto sem que nada de decisivo acontecesse, na realidade sem que tudo aquilo tivesse a aparência de uma perseguição, em vista da velocidade lenta. Por causa disso, Gregor permaneceu provisoriamente no chão, sobretudo temendo que o pai pudesse considerar uma maldade especial uma fuga pelas paredes e pelo teto. Seja como for, precisou admitir a si próprio que não poderia aguentar essa corrida por muito tempo, pois enquanto o pai dava um passo, ele tinha de realizar inúmeros movimentos. A falta de fôlego começou a se fazer notar, uma vez que, mesmo nos velhos tempos, não tinha um pulmão inteiramente confiável. Enquanto cambaleava de cá para lá, quase não mantinha os olhos abertos, a fim de reunir todas as forças para a corrida; no seu torpor não pensava em outra maneira de se salvar senão correndo; e tinha quase esquecido que as paredes estavam à sua disposição, embora aqui elas permanecessem obstruídas por móveis cuidadosamente talhados, cheios de recortes e pontas – quando nesse momento alguma coisa, atirada de leve, voou bem ao seu lado e rolou diante dele. Era uma maçã; a segunda passou voando logo em seguida por ele; Gregor ficou paralisado de susto; continuar correndo era inútil, pois o pai tinha decidido bombardeá-lo. Da fruteira em cima do bufê ele havia enchido os bolsos de maçãs e, por enquanto sem mirar direito, as atirava uma a uma. As pequenas maçãs vermelhas rolavam como que eletrizadas pelo chão e batiam umas nas outras. Uma maçã atirada sem força raspou as costas de Gregor mas escorregou sem causar danos. Uma que logo se seguiu, pelo contrário, literalmente penetrou nas costas dele; Gregor quis continuar se arrastando, como se a dor surpreendente e inacreditável pudesse passar com a mudança de lugar; mas ele se sentia como se estivesse pregado no chão e esticou o corpo numa total confusão de todos os sentidos. Com o último olhar ainda viu a porta do seu quarto ser escancarada e a mãe se precipitar de combinação à frente da irmã que gritava; pois a irmã a tinha aliviado das roupas para permitir que ela respirasse com liberdade enquanto estava desacordada; viu-a correr ao encontro do pai e no caminho caírem ao chão, uma a uma, as saias desapertadas; e viu quando ela, tropeçando nas saias, chegou até o lugar onde o pai estava e, abraçando-o, em completa união com ele – mas nesse momento a vista de Gregor já falhava -, pediu, com as mãos na nuca do pai, que ele poupasse a vida de Gregor (KAFKA, 1997, p. 57-58).

Com um pai hostil, uma mãe indiferente e uma irmã, que à princípio tenta lhe compreender, mas depois só pensa em se livrar, na verdade, fica difícil aceitar que ele ainda devote tamanha consideração (dependência) por estas pessoas. É uma prisão sem amarras – seu cabresto é psicológico e moral, de uma submissão inumana – mas que o vai consumindo dia após dia, minando todas as suas forças, até ao ponto em que não sobra mais nada.

A vontade que impera é a de gritar: Cara, se ninguém te valoriza, cai fora e vai se encontrar em outro lugar. Não existe amor nenhum que valha o preço de uma relação com pessoas que só lhe conferem indiferença e pouco caso. Não existe possibilidade alguma disso render algo positivo, ao contrário, o que impera é a sensação de sufocamento que beira o desespero e que tende a se intensificar cada vez mais.

Será que esse contexto anda assim tão apartado da nossa realidade? Será que as nossas relações, e cobranças, andam longe disso? Ou será que temos, apenas, propiciado quadros diferentes de sofrimento? Afinal, as translações da terra continuam ininterruptas…

Contudo, você pode me perguntar, onde fica a flexibilidade, a fé na mudança, a resiliência? Fica no ponto onde se percebe que tudo isso existe, ainda que cercados por um invólucro pesado de dor e medo de errar, mas só fica aquilo que existe. Reconhecer os limites é preciso.

Mas a maior de todas as queixas era sempre o fato de que não se podia deixar o apartamento – grande demais para as atuais necessidades -, uma vez que não era possível imaginar como Gregor seria removido. Gregor porém logo compreendeu que não era apenas a consideração para com ele que impedia uma mudança, já que poderia ser facilmente transportado numa caixa adequada com alguns furos de ventilação; o que detinha a família de uma troca de casa era principalmente a total falta de esperança e o pensamento de que tinha sido atingida por uma desgraça como mais ninguém em todo o círculo de parentes e conhecidos (KAFKA, 1997, p. 62).

Nem a tentativa de amalgamar o corpo de um inseto ao couro de Greg consegue torná-lo repulsivo. Ao contrário, esse cara é de uma gentileza anacrônica, pena que só toma porrada, afinal, o mundo tolera os gentis e se refestela com os hostis.

Se tem ago ali que ultrapassa a ficção, e nem precisa de poesia para transmutar, é a caracterização da relação intempestiva de Kafka com o pai. O que nos leva a pensar na necessidade de que pais e mães busquem ter coerência e bom senso em relação aos “cuidados/exigências” que conferem aos seus filh@s, pois muitas vezes, tais cobranças, exigem preços altos demais (na alma e na consciência).

Pessoas, por favor, digam mais “eu te amo”, “eu acredito e confio em você”, “estou contigo pro que der e vier”, pois creiam, faz toda a diferença.

Curioos@s, até mais!

* KAFKA, F. A Metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

P.S.// Nesse contexto de carência de humanidade e de laços fraternos, só me vinha à cabeça a cena final do filme Para Sempre Alice, quando daquela pergunta da filha à mãe com Alzheimer: “Você gostou do que eu acabei de ler? Você gostou? Sobre o que era?” Ao que ela responde: “Amor. Sobre amar“.

Essa cena…

 

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11 comentários sobre “Resenha: A Metamorfose

  1. Gostei muito!!!!! Muito mesmo!!!!! Quando centrou sua análise da obra kafkaniana às diferenças humanas geradoras das hostilidades, fostes maravilhosa.
    Extraio de tudo, sempre, a lição que Rousseau em seu Contrato Social e parto da premissa de que “TODO SER HUMANO É BOM”. O homem, na sua primitividade e longe dos grilhões sociais, é bom. Mas em sendo um animal gregário, o homem deve, necessariamente e para viver em paz coletivamente, dar conta de um acordo coletivo, um CONTRATO SOCIAL. E as armas para trabalhar os diferentes ou “párias” e marginalizados neste CONTRATO SOCIAL (como Gregor, no livro) são muito complexos. O seu ponto de vista, exposto no texto e por mim entendido (e gostado), da busca à tolerância e convivência comum dos diferentes é apenas UM PONTO DE VISTA, dentre outros igualmente bem calcados.
    Termino com um texto por mim escrito que tenta, de forma bem didática, mostrar a visão rousseana do CONTRATO SOCIAL (à época estava estudando a versão de Thomas Hobbes e seu Leviatão que, como citei antes, é uma visão muito bem calcada mas DIAMETRALMENTE oposta da visão tolerante de Rousseau).

    *****************************

    “A fim de que o pacto social não represente, pois, um formulário vão, compreende ele tacitamente este compromisso, o único que poderá dar força aos outros: aquele que recusar obedecer à vontade geral a tanto será constrangido por todo um corpo, o que não significa senão que o forçarão a ser livre, pois é essa a condição que, entregando cada cidadão à pátria, o garante contra qualquer dependência pessoal” (J. J. Rousseau, Contrato Social, livro I, cap. VII)

    A idéia mestra no conceito rousseano é a de que a verdadeira felicidade do homem só pode ser atingida quando este homem pertencer, estiver vivendo em um grupo social. Este homem, ao se identificar com sua comunidade, poderá quase alcançar a mesma felicidade imaginada pela praticamente inalcançável felicidade apreendida do ‘homem original’ de Rousseau, em que este vive no estado natural, de plena autarquia. Isto porém, é algo inalcançável ao homem atual civilizado. Assim, Rousseau coloca sua visão eudaimonista (verdadeira felicidade) como dependente de uma vida em comunidade, onde a vida política seria capaz de levar o homem a um estado de felicidade plena, só superada, em grau, pela felicidade inatingível do ‘homem original’; e esta troca de uma vida de ‘homem original’ para ‘homem social’ dá-se, em primeira instância, para que o homem, com a ajuda de outros, possa superar as intempéries naturais capazes de ameaçar sua existência ou pelo menos a qualidade desta. Por fim, para Rousseau, somente dentro de um grupo social pode o homem ser verdadeiramente amado por outrém.
    As demandas oriundas deste então estabelecido grupo social, tais como defesa e preservação do interesse individual e coletivo, devem ser administradas e coordenadas à luz de um CONTRATO SOCIAL. E isto nada mais é que a entrega total de cada membro de uma sociedade às regras estabelecidas por esta comunidade à qual pertença. Todos se alienam ao escopo da moral coletiva, abrindo mão de sua moralidade individual em prol da coletividade. Este indivíduo tornar-se-á, então, um membro individual mas pertencente a uma coletividade, indivíduos interdependentes uns dos outros mas apoiados uns nos outros. Assim o indivíduo, sob a ótica de Rousseau, seria ao mesmo tempo súdito e soberano. Mas para que esta realidade seja coletivamente factível, Rousseau acrescenta à sua formulação de CONTRATO SOCIAL, a idéia de vontade geral, onde Rousseau, baseado em construtos anteriormente dispostos por Diderot, define que cada indivíduo é capaz de, a despeito de suas paixões individuais, entender quais são os seus deveres frente à comunidade. E em Rousseau este entendimento se dá pela simples necessidade inerente ao homo sapiens de buscar a eudaimonia como acima descrita (verdadeira felicidade vivendo em comunidade). A vontade geral é, portanto, a vontade do corpo político formado por indivíduos associados de maneira supra-autárquica, numa coletividade que busca a felicidade plena destes indivíduos, o bem comum.
    Porém nem sempre a vontade de todos os cidadãos coincide com a vontade geral. A princípio, Rousseau estabelece que, se a opinião individual não coaduna com a dos outros cidadãos, este indivíduo deveria se imbuir da certeza de que está ele próprio enganado no seu julgamento de o que seria a vontade geral (aqui percebe-se fortemente como o conceito de Rousseau de o coletivo estar muito acima do individual se demonstra em suas idéias, pois, neste ponto o filósofo estabelece que o indivíduo deve, automaticamente, perceber que seu voto apreciou uma idéia errada do que ele julgou ser a vontade geral; Rousseau aventa esta hipótese e não a de que o indivíduo julgou erradamente sob sua visão individual, sob seus próprios interesses egoístas, hedonistas). Mas se este indivíduo oriundo da coletividade, que demonstrar egoísmo ou paixão constantes, se recusando a obedecer ao corpo político, será forçado ‘a ser livre’.
    Encerrando então esta análise, para Rousseau o ‘ser livre’ aqui é colocado como uma maneira de cerceamento do indivíduo que se recusar em cumprir o CONTRATO SOCIAL baseando-se na exclusão do indivíduo do grupo social, relegando-o a uma vida isolada, alijando-o do convívio em comunidade. Isto colocaria este indivíduo mais próxima à existência do ‘homem original’, onde este sujeito pudesse exercer sua vida autárquica afastado do ‘homem social’. Longe portanto do convívio com outros indivíduos da sua sociedade original, estando ele não mais submetido politicamente, sendo portanto, agora, um homem autárquico, mas também afastado da seguridade e das garantias da vida em comunidade.

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    1. Sensacional!
      De fato, tinha consciência da ausência dessa conotação, que normalmente é muito contemplada em diversas resenhas, mas como nada acontece por acaso, eis que surge você e a abarca de forma muito aprazível e contundente.
      Muito bacana mesmo a troca!!
      Abração

      Curtido por 1 pessoa

  2. Interessante o ponto de vista sobre Kafka, ou melhor sobre a verdade de Greg. Já sob Rousseau, é válido pensamento para época em que dissertou sobre a ideia do Contrato Social. Temos na figura dele, um seguidor das ideias Marxistas e, por que não, da moral Kantiana. Mas, se pemitem um olhar mais contemporâneo, obrigo-me a rever estas ideias supra postadas e concordar com aquilo que Foucault insitiu sobre a felicidade como sendo algo subjetivo, tanto quanto a verdade que de alguém sobre alguma coisa. Temos nas ideias rosseaunianas um rico material histórico, mas que não tem e nem alcança o objetivo de mostrar não o quanto a verdade é mutável ou a definição relativa ao sujeito, e sim de que modo as subjetividades como experiências de si e de outros se constituem através das obrigações de verdade, através das ligações que podemos chamar de veridicção. Então, se pensarmos aprofundadamente sobre o tema, sobre a constituição das experiências de si e dos outros através da história politica dessas veridicções, então, teremos que históricamente ” a verdade, é uma construção politica”. Levandonos a crer que não há uma epistimologia que possa depurar os métodos para nos dar o conhecimento do que as coisas realmente são. Por hora, estanco-me na dúvida do que Greg representa para a verdade de Kafka. É uma mutação social, uma metamorfose individual, uma generalização daquilo que temos de pior e de melhor? O que mais nos atormenta senão a subjetividade da verdade?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Mais é claro que vc tem espaço para nos trazer “um olhar mais contemporâneo”, aliás, aproveito pra dizer que estou adorando essa flexibilidade de ideias e interpretações. Cadê o Café do WordPress pra reunir esse povo, hein?
      O tema das subjetividades sempre me contempla, Marcelo.

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  3. Como sempre trazendo um texto altamente ácido em reflexões, daqueles que você lê, se mexe na cadeira e pensa que se continuar vai ter muita coisa para pensar ao longo do dia.
    Parabéns. De verdade. Sua interpretação de Kafka é magnífica.

    Curtido por 1 pessoa

  4. “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

    Como dizia um velhinho colombiano (Gabriel García Marquez), não há um começo de livro mais incrível. Uma mescla que dá o tom ao que depois seria o realismo fantástico.

    Gostei da leitura bem pessoal da obra. Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

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