Resenha: Profissões para mulheres e outros artigos feministas

Profissões para mulheres e outros artigos feministas

Sete artigos enxutos. Discussões que ultrapassam séculos.

Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento? Mas esperem aí. Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre o romance de um homem famoso. E, quando eu estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poeta, “O Anjo do Lar”. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo. E, quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto. Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: “Querida você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura”. E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro – digamos, umas quinhentas libras anuais? -, e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir. Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atitava nela. Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo em busca de aventuras. Mas foi uma experiência real; foi uma experiência inevitável para todas as escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atividade de uma escritora.

Mas continuando minha história: o Anjo morreu, e o que ficou? Vocês podem dizer que o que ficou foi algo simples e comum – uma jovem num quarto com um tinteiro. Em outras palavras, agora que tinha se livrado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é “ela mesma?” Quer dizer, o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato é uma das razões pelas quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da maior importância (WOOLF, 2016, p. 11- 14).

Em relação ao Anjo do Lar, em primeiro lugar, já vai tarde… Em segundo lugar, essa praga só podia ser invenção de um macho assentado na sociedade patriarcal que lhe sustenta, afinal e sobretudo, é esta sociedade que lhe digna poder, que é responsável pela construção do ideário coletivo, dos padrões que seguirão dominantes e que determinarão e defenderão os interesses das classes que lhes apetecem, bem como subordinarão outras tantas lhes atribuindo significados diversos. Assim, nada foi mais comum do que relegar à mulher o papel de capacho do capacho, mais artificial do que boneca inflável, que estava (ainda está?) sempre disposta à servilidade e, claro, que também deveria aceitar que ele cometesse toda a sorte de aventuras e depois voltasse tranquilamente para o lar, afinal, nesta época, uma mulher divorciada equivalia a uma representação pecaminosa, ultraje maior entre todas as desditas, desgraça pior que poderia recair sobre a imagem de uma família padrão de exportação. Em terceiro lugar, oh fantasma miserável!!!, porque tô pra ver entidade obsessiva mais impetuosa que essa para, em pleno século XXI já rodado nas tamancas, se fazer presente no subterfúgio machista/dominante/tacanho pra vangloriar “a bela, recatada e do lar” e se escorar no cinismo típico. Cansativo! Aliás, cansativo é pouco e haja paciência…

A linha correu pelos dedos da moça. Um tranco puxou a imaginação. Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes maiores. E então bateu em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada, tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do sonho. E de fato ficou na mais viva angústia e aflição. Falando sem metáforas, ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela, como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe dizia que os homens ficariam chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que escrevem – ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois, embora sensatamente os homens se permitam grande liberdade em tais assuntos, duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a mesma liberdade nas mulheres (WOOLF, 2016, p. 16-17).

De Rosalind Franklin à Anaïs Nin – só para brincar com os extremos dos campos de atuação e para mostrar que as mulheres sempre estiveram presentes em todos os contextos – a corrida pelo reconhecimento de suas descobertas sempre se deu de forma intempestiva, e por que não dizer conflituosa?, junto aos homens. Bem ao contrário, estes se excitavam mais em tolhê-las (por medo da competição? Por raiva? Por recalque? Lembremos apenas que as vozes que ditam palavras ao vento carregam alguma espécie de fascínio/domínio, e em sua relação com o poder, os homens jamais abdicaram de cravar espaço) do que alcançá-las em suas compreensões.

Qual foi, por exemplo, a origem da extraordinária multiplicação de romances escritos por mulheres no século XVIII? Por que começou nessa data, e não na época do renascimento elisabetano? Teriam finalmente decidido escrever porque desejavam retificar a opinião corrente sobre o sexo feminino, expressa em tantos volumes e por tantos séculos por autores do sexo masculino? Se for isso, a arte dessas mulheres possui um elemento que deveria estar ausente da obra de todos os escritores anteriores. Mas é bastante claro que a obra de Miss Burney, a mãe da ficção inglesa, não se inspirava em nenhum desejo de reparar injustiças: a riqueza do cenário humano que a filha de dr. Burney teve a oportunidade de observar foi estímulo suficiente; mas, por forte que tenha se tornado o impulso de escrever, de início foi grande a oposição não só das circunstâncias, mas também da opinião pública. Seus primeiros manuscritos foram queimados por ordens da madrasta, e como castigo ela teve de ficar bordando, mais ou menos como Jane Austen, poucos anos depois, teria de esconder seus escritos embaixo de um livro quando alguém entrava na sala, e Charlotte Brontë teria de interromper o trabalho para ir descascar batatas. Mas, resolvido ou encaminhado o problema doméstico, restava o problema moral. Miss Burney havia mostrado que era “possível para uma mulher escrever romances e ser respeitável”, mas o ônus da prova ainda voltava a recair sobre cada nova escritora que surgia. Mesmo nos anos vitorianos, George Eliot ainda era acusada de “grosseria e imoralidade”, por tentar “familiarizar o espírito de nossas jovens nas camadas médias e altas com temas que seus pais e irmãos jamais se atreveriam a comentar na presença delas” (WOOLF, 2016, p. 26-27).

Ainda bem que sempre existiu quem desse a cara a tapa! Mas, tome barreira para ultrapassar…

Com este espírito desbravador no ar, aproveito para propor uma brincadeirinha. Entra agora num desses famosos sites de vendAs online e faz uma busca por Mein Kampf – Hitler, logo seguirão alternativas diversas de eBooks e livros impressos (inclusive, ostentando edições e reedições); em seguida, busque por Parte de Minha Alma – Winnie Mandella, e nada será encontrado. Pra não dizer que não falei das flores, só vim encontrar a edição que tenho em mãos no site da Estante Virtual e, creiam, custou R$ 5, 00, ao passo que o frete R$ 8, 36. Sim, deveria ficar feliz por comprar um grito de independência por cinco conto, mas o que prevalece é o fato de que não existem reedições (ou, ao menos, eu não as encontrei), de que poucos conhecem suas palavras de luta, de que tão pouco se lhe dão que é quase como se nunca tivesse existido e é no esquecimento (IMPOSTO) que se facultam as imposições dos autoritarismos, milhares de vezes maquiados sob a falsa égide de escolhas de uma maioria (Bourdieu bem explicita em seus artigos os efeitos dos ditames da minoria dominante e respectiva profusão da meritocracia, enfim…).

Lhes pergunto, por que ainda prevalecem os escritos de homens escrotos, misóginos, fascistas, racistas, que pregam a escória em detrimento de manifestos da liberdade escritos por mulheres? Que sociedade é essa que você vive e se molda, dia após dia, sem questionar?

Bom… No artigo intitulado A Posição Intelectual das Mulheres encontramos uma espécie de bate-bola entre Woolf e um amigo, que escrevia sob o pseudônimo de Falcão Afável, acerca de uma coletânia de ensaios do romancista Arnold Bennet, que creditava às mulheres uma inescrupulosa inferioridade intelectual. Só posso descrever a participação de Virginia com uma palavra – LACRADORA – pois, de fato, suas assertivas são tão argutamente bem colocadas que ao Falcão Afável, crivelmente em desvantagem, faltou humildade para se recolher à sua insignificância.

Beijinho no ombro, querido!

Mas, qual a necessidade de citá-lo aqui? A vontade de rir, pura e simples, por um lacre bem dado? Não! Até porque essa história de lacre por lacre não me apetece. A questão é enxergar a necessidade de mudança de posicionamento quando se percebe uma realidade tal.

Não cabe a mim e nem ao outro pegar a poção da consciência e fazê-la adensar em seu juízo. Não, isso não funciona desta forma. Conscientização é o tipo de coisa que precisa partir do indivíduo, ele precisa ser tocado no íntimo, algo precisa fazer sentido dentro dele de modo que a transformação se dê. Assim, é preciso que a reflexão se faça presente sempre para que tenhamos a oportunidade de mudar e um bom exemplo disso é perceptível no quanto tivemos que evoluir em lutas, ao longo desses séculos, para chegar ao ponto de compreendermos que palavras como “judiar” e “denegrir” carregam uma carga absurda de dor e preconceito chegando ao ponto de nos fazer pensar antes de falar, de modo que não venhamos a ofender ninguém. Percebe?

É preciso refletir acerca do que se faz e fala e não dá para aceitarmos que tantos impropérios ainda sejam difundidos, e o pior, muitas vezes, por aqueles que estão ao nosso lado como os nossos amigos, nossos companheiros, nossos familiares, enfim… Se não quer levar um lacre, pensa na merda que vai fazer ou falar, e evita, ou melhor, EVOLUI, porque ninguém é obrigad@ (e poxa, ainda por cima é burrice agir assim em tempos como o nosso, de vida acentuadamente online. Depois não vá chorar o leite derramado, ops, o meme viralizado).

Uma sineta tilintou; uma figura se levantou; do meio de nós saiu uma mulher; subiu no estrado; falou exatamente cinco minutos; desceu. Tão logo se sentou, outra mulher se levantou; falou exatamente cinco minutos e desceu; então se levantou uma terceira, e depois uma quarta – e assim por diante, uma oradora após a outra, uma da direita, outra da esquerda, outra do meio, outra do fundo – cada uma delas ia até a tribuna, dizia o que tinha a dizer e dava lugar à seguinte. Aquela regularidade tinha algo de militar. Eram como atiradoras, pensei eu, levantando-se uma por vez para disparar com o rifle num alvo. Às vezes erravam, e estouravam as gargalhadas; às vezes acertavam, e estouravam os aplausos. Mas, saísse o tiro certo ou errado, não havia dúvida de que a mira era cuidadosa. Não se atirava a esmo; não havia eloquência fácil. A oradora ia até a tribuna armada com seu discurso. Trazia no rosto decisão e determinação. […] Havia debate e oposição; perdiam resoluções, venciam emendas. Mãos se erguiam rijo feito espadas, ou se comprimiam rijo junto ao corpo. As oradoras se sucediam; a sineta dividia a manhã em tempos exatos de cinco minutos cada.

[…] Qual o sentido daquilo? Aquelas mulheres reivindicavam divórcio, educação, direito de voto – boas coisas, todas elas. Reivindicavam salários maiores e jornadas menores – haveria coisa mais razoável? E no entanto, mesmo sendo tudo tão razoável, uma grande parte tão indispensável e uma parte tão engraçada, no espírito das convidadas uma onda de desconforto pesava e se movia de lá para cá, incômoda. Todas essas questões – era isso talvez que estava no fundo – que interessavam tanto às pessoas aqui, questões de saneamento, de educação, de salários, essa reivindicação de um xelim a mais, de um ano a mais na escola, de oito em vez de nove horas atrás de um balcão ou numa fábrica, não me tocam, não na carne e na alma.

[…] Talvez tenha sido neste momento que você abriu a gaveta e tirou um maço de papéis. Você não desamarrou logo o barbante que os prendia. E disse que às vezes recebia uma carta que não conseguia se decidir a queimar; uma ou duas vezes alguma associada tinha escrito, por sugestão sua, algumas páginas sobre a própria vida. Podia ser que achássemos esses papéis interessantes; que, se os lêssemos, as mulheres deixariam de ser símbolos e se tornariam indivíduos.

[…] Mrs. Burrow, por exemplo, tinha trabalhado nos pântanos de Lincolnshire aos oito anos de idade, com mais quarenta ou cinquenta crianças, e um velho acompanhava o grupo com um chicote comprido na mão, “que não esquecia de usar” […] Old Betty Rollet se matou quando não aguentou mais. Tinham visto mulheres quase mortas de fome esperando nas filas para receber pelas caixas de fósforo enquanto sentiam o cheiro da carne assando para o jantar do patrão que vinha lá de dentro. A varíola tinha se espalhado em Bethnal Green e elas sabiam que as caixas continuavam a ser feitas na mesma sala infecta e vendidas ao público totalmente contaminadas. Tinham passado tanto frio trabalhando nos campos de inverno que não conseguiam correr quando o capataz liberava. Tinham vadeado as enchentes quando o Wash transbordava das margens. Bondosas damas de idade lhes tinham dado pacotes de comida que consistiam apenas em casca de pão e couro de toicinho rançoso. Tudo isso tinham feito, visto, conhecido quando outras crianças ainda brincavam de espirrar água nas poças da praia e aprendiam a ler contos de fada junto à lareira. Naturalmente tinham outro ar no rosto. Mas eram rostos decididos, lembrávamos, rostos com algo indômito neles. Por assombroso que possa parecer, a natureza humana é tão resistente que é capaz de sofrer tantas feridas, mesmo na mais tenra idade, e sobreviver a elas.

[…]

E há um fragmento de uma carta de Miss Kidd – a melancólica figura de roxo que datilografava como se trouxesse nos ombros todo o peso do mundo. Ela escreve: “Quando eu tinha dezessete anos, meu patrão da época, um cavalheiro de boa condição social e alta posição na cidade, mandou que eu fosse à sua casa certa noite, a pretexto de apanhar um pacote de livros, mas na verdade com um objetivo muito diferente. Quando cheguei à casa, toda a família estava fora e, antes de me deixar ir embora, ele me obrigou a me render a ele. Fui mão aos dezoito anos” (WOOLF, 2016, p. 67-92).

Me perdoem pelos fragmentos estilhaçados, e referenciados a mal termo apenas no parágrafo final, mas precisava disso para tentar trazer à luz o fio de pensamento que me encanta em Woolf e, preciso ressaltar, todos eles foram gentilmente subtraídos do ensaio Memórias de uma União das Trabalhadoras, talvez, um dos meus preferidos.

Em particular, me agrada muito o fato de Woolf externalizar a sua irritação diante da logística da reunião de trabalhadoras na qual ela estava presente, pois fora convidada a dar uma opinião à respeito. Mas, me agrada pela ausência de hipocrisia e pela posterior tentativa de compreender o que significava toda aquela estrutura e organização de mulheres que lhes era de uma realidade muito diferente e que, até então, não haviam tocado particularmente a sua noção de “sentido”.

Esse “sentido” só alcança significado quando existe uma busca, quando existe um envolvimento tal que ultrapasse o invólucro e alcance a sua densidade, aí sim, as coisas mudam de perspectiva. E foi isto que ocorreu com Woolf a partir do momento em que ela passou a ler os relatos de algumas das várias operárias que tanto fizeram para pleitear aqueles breves cinco minutos de fala na tribuna. A partir de então, não mais seria a mesma, era inconcebível refutar o germe da realidade que se lhe tomava a consciência, a voz e o corpo.

Será que nos parece tão distante, para além do tempo-espaço transcorrido, as realidades vividas por estas mulheres? Nos traz algo de novo tais fragmentos? Ou será que ainda temos muito o que batalhar para superar tais realidades?

Sim, é bem verdade que hoje temos condições menos penosas de acesso ao divórcio, temos a Lei Maria da Penha, votamos, mas ainda somos mal-remuneradas, ainda não temos creches para deixar (e não é só no trabalho não, procura na tua universidade por exemplo, porque na minha não tem, aliás, não temos nem restaurante universitário quanto mais…) os filhos enquanto trabalhamos, ainda temos que brigar por saneamento, por educação, por tanta coisa que já deveria ter ficado no passado que é como se Woolf estivesse aqui, falando a plenos pulmões num belo dia de março de 2017.

Quantas de nós já ouvimos histórias de nossas mães e avós e vizinhas e amigas que trabalhavam desde a mais tenra infância? Aliás, recentemente, trouxe para o blog o livro da Carolina Maria de Jesus com sua alta carga de sofrimento e de buscas e, independente da realidade da Inglaterra de 1890 ou do século XX ou XXI no Brasil, nada disso nos é novo, mas para muita gente não indigna mais e é aí que mora o perigo.

Fico me perguntando sobre quantos dos amigos que passam por aqui acham tudo isso mero mimimi, e pouco se importam, e seguem suas vidas perpetuando os mesmos comportamentos hegemônicos da supremacia masculina… Sobre quantos daqueles que se veem incomodados com tais realidades não se importariam, ou melhor, até sentiriam prazer em se ver como homens feministas e que concebem estas tantas causas como bandeiras reais de luta…

Conforme disse anteriormente, gosto da fala direta da Woolf e da sua verdade sem hipocrisia. Gosto quando ela diz que não se sentia bem em tal lugar, mas que teve a oportunidade de mudar de pensamento depois que se permitiu envolver (até porque existem situações para as quais não temos palavras que caibam ou comportem algum significado – apesar de que, nessas horas existe a chance de um abraço e de um olhar que sele as buscas, existe a chance de simplesmente estar e ser). Compreendo que ninguém sabe tudo, mas seja curioos@, ouse refletir acerca do que se fala para além da sua zona de conforto, porque esta sim espera te prender, te calar e te ocultar do mundo que vibra adiante da sua frequência.

Questione, duvide de mim, pegue o livro, embrenhe-se nas discussões que tiver acesso, ouça, fale quando se sentir pronto, seja gentil e diga que não entendeu, peça ajuda, ninguém nasce sabendo, e isso não é feio e não é um problema, aliás, problema mesmo é creditar invisibilidade às questões das outras pessoas, às suas dores, às suas necessidades, problema mesmo é ser uma pessoa com a alma amputada, com o espírito morto, pois para tal não existe prótese e nem desfibrilador que dê conta. Faculte valor à sua capacidade de ser HUMANO. Sempre. Por favor.

Curioos@s, até mais!!

* WOOLF, V. Profissões para mulheres e outros artigos feministas.Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.

Anúncios

5 comentários sobre “Resenha: Profissões para mulheres e outros artigos feministas

  1. Como sempre, impecável na escrita. Seus textos, que enxergam além das resenhas críticas, que se expõem, se desnudam sem pudores literários, deixam uma marca muito sua, muito pessoal. Gosto como escreves, como orientas teu leitor e como argumentas sobre tuas ideologias, se é que podemos chamá-las assim. Dizer-te que esse assunto de gênero refaz um novo caminho para acabar chegando sempre no mesmo lugar comum, é repetir-se numa história da humanidade. Por isso, tenho a impressão que a auto-crítica, a auto-reflexão, enquanto proposta do reconstruir-se, é de maior valia do que a crítica de gênero própriamente dita. Entendo que no momento em que “matamos a pessoa que nos mata”, que reconhecemos esse outro que é espelho em nós e que parece fazer tudo ao contrário do que imaginamos como ideal, tem um valor especial no processo de ressignificação das angústias sociais que partilhamos através dos tempos da humanidade. Sim, refletir sobre si mesmo, em busca do Eu kierkergaardiano, do Eu de potência, me parece mais frutífero que tentar desentortar uma “goiabeira” milenar. Siga dizendo, que sigo te ouvindo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Marcelo, “que bons ventos o trazem”, hein? Já estava morrendo de saudade. 🙂
      Repare, compreendo perfeitamente o seu ponto-de-vista acerca da auto-crítica enquanto proposta profícua, e me agrada saber que vc pensa assim, todavia, a maioria não se vasculha desta forma e por isso é que ainda engatinhamos no quesito discussões de gênero, por isso a necessidade de não abrir mão.
      E, sim, seguirei escrevendo e seguiremos trocando ideias. 🙂
      Beijo beijo

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s