Resenha: A Bagaceira

A Bagaceira

“Bagaceira – 1. pátio das fazendas onde são depositados os detritos da cana moída; 2. o próprio ambiente (moral) dos engenhos: moleque de bagaceira, por exemplo.”

“Bagaceiro – diz-se do trabalhador que transporta o bagaço de dentro do engenho para a bagaceira.”

“Bagaço – detrito de cana moída.”

Existem histórias que nos distraem profundamente e existem histórias que nos consomem genuinamente. Lançada em 1928 (com enfoque na seca de 1898), esta é do tipo que te consome porque traz consigo retratos de uma realidade não muito distante, aliás, é exatamente por abordar uma realidade não tão distante que parece cair num esquecimento propício e conveniente. Propício, porque sempre existiu (e existe) quem lucrou (e lucre) em cima da exploração do outro; conveniente, porque tanto mais esquecida, mais fácil de repetir os manejos, ainda que com outra cara e envergadura.

Histórias que metem o dedo na ferida tendem a retratar situações de abuso de poder, predominância da força, truculência, injustiça, desigualdades, corrupção, todavia, e apesar de tudo, também existe um melaço de amor pra contemporizar, afinal, sendo o mundo feito de opostos, nada resistiria de pé não fosse a natureza do amor, da resiliência, bem como o encantamento dos crepúsculos e a certeza das auroras.

A Bagaceira tem tudo isso e mais um quê de melancolia, um quê de saudade do que não existiu. É bem verdade que, em diversos momentos, bem se poderia chamar por A Desgraceira, mas tendo em vista os esforços do autor em se mostrar comedido e, ao mesmo tempo fiel às cicatrizes do tempo, aceitaremos de bom grado e sem profanação o seu parto, esquecimento e reaparição (SIM, estas palavras não foram grafadas à toa).

E, pra não dizer que não falo de amor, dedico os versos do poeta Zé da Luz ao que poderia ter sido e não foi.

Ai Se Sêsse

Se um dia nois se gostasse. 

Se um dia nois se queresse. 

Se nois dois se empareasse.

Se juntim nois dois vivesse. 

Se juntim nois dois morasse. 

Se juntim nois drumisse.

Se juntim nois dois morresse

Se pro céu nois assubisse. 

Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice

E se eu me arriminasse. 

E tu cum eu inssistisse pra que eu me arresolvesse. 

E a minha faca puxasse. 

E o bucho do céu furasse. 

Tarvês que nois dois ficasse

Tarvês que nois dois caisse

E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse.

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Resenha: Bartleby, o escrivão

Bartleby, o escrivão

Há coisa de 15 dias estive lendo O Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa, e acabei cedendo a um impulso nada produtivo – e que, particularmente, não gosto – de deixá-lo de lado. Muito em virtude de algumas associações que vieram à tona e que me exigiram uma energia extra para a qual não havia reserva; mas também porque considerei o momento inoportuno para a aceitação de um Pessoa tão resoluto pela infelicidade, descrença e isenção para com a vida, por isso, me reservei à condição de voltar a ele depois.

Então, eis que recebo alguns livros e resolvo encarar Bartleby, o escrivão, e, meio que voltei numa aula de biofísica, quando o professor explicava sobre a energia de arranque necessária para que os elétrons pudessem alçar determinadas posições na camada de valência. Mas, à propósito, quem é Bartleby? E o que ele tem a ver com tudo isso? Bom… Potencial de ionização, sincronicidade, teoria do caos, teoria da conspiração ou quaisquer que sejam as possíveis definições para dar cabo da frequência dos eventos e da energia que os comporta, o fato é que não existe nenhuma ponta solta nesse universo que possa se dar ao luxo de pretender passar incólume aos prazeres e às dores do mundo. Sinto muito, mas NÃO há essa possibilidade. Não há! Quanto ao que fica… Aí nos cabe o Tempo, sempre soberano.

O rumor era o seguinte: Bartleby, fora um funcionário do Departamento de Cartas Devolvidas em Washington, do qual fora subitamente afastado por uma mudança na administração. Quando penso nesse rumor, mal posso exprimir as emoções que me envolvem. Cartas mortas! Não soa como homens mortos? Imaginem um homem que, por natureza e infortúnio, é propenso a uma insidiosa desesperança. Alguma atividade pode ser mais apropriada para aguçar essa desesperança do que manipular cartas mortas e separá-las para o fogo? (MELVILLE, 2017, p. 88-89)

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