Resenha: Bartleby, o escrivão

Bartleby, o escrivão

Há coisa de 15 dias estive lendo O Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa, e acabei cedendo a um impulso nada produtivo – e que, particularmente, não gosto – de deixá-lo de lado. Muito em virtude de algumas associações que vieram à tona e que me exigiram uma energia extra para a qual não havia reserva; mas também porque considerei o momento inoportuno para a aceitação de um Pessoa tão resoluto pela infelicidade, descrença e isenção para com a vida, por isso, me reservei à condição de voltar a ele depois.

Então, eis que recebo alguns livros e resolvo encarar Bartleby, o escrivão, e, meio que voltei numa aula de biofísica, quando o professor explicava sobre a energia de arranque necessária para que os elétrons pudessem alçar determinadas posições na camada de valência. Mas, à propósito, quem é Bartleby? E o que ele tem a ver com tudo isso? Bom… Potencial de ionização, sincronicidade, teoria do caos, teoria da conspiração ou quaisquer que sejam as possíveis definições para dar cabo da frequência dos eventos e da energia que os comporta, o fato é que não existe nenhuma ponta solta nesse universo que possa se dar ao luxo de pretender passar incólume aos prazeres e às dores do mundo. Sinto muito, mas NÃO há essa possibilidade. Não há! Quanto ao que fica… Aí nos cabe o Tempo, sempre soberano.

O rumor era o seguinte: Bartleby, fora um funcionário do Departamento de Cartas Devolvidas em Washington, do qual fora subitamente afastado por uma mudança na administração. Quando penso nesse rumor, mal posso exprimir as emoções que me envolvem. Cartas mortas! Não soa como homens mortos? Imaginem um homem que, por natureza e infortúnio, é propenso a uma insidiosa desesperança. Alguma atividade pode ser mais apropriada para aguçar essa desesperança do que manipular cartas mortas e separá-las para o fogo? (MELVILLE, 2017, p. 88-89)

O universo comportamental de Bartleby nos é apresentado através das lentes do advogado e dono do escritório que, por sinal, também é o narrador da história. Ressalto o aspecto comportamental porque não existe nada além disso. Bartleby é um oceano de possibilidades encerrado em si mesmo. Nada lhe escapa, absolutamente nada, e esse é o abismo que nos atormenta, pois como é possível estabelecer contato com alguém que não demove uma vírgula para entabular uma conversa? Como ultrapassar as camadas infinitas que sufocam o seu ser e lhe estrangulam a fala, apesar do aspecto aparentemente inabalável? Como adensar a magnitude da sua alma se a couraça que o recobre se faz impermeável? Como alcançar as razões que determinam a sua lógica de existir?

Em resposta ao meu anúncio, um jovem imóvel surgiu uma manhã à porta do escritório, que estava aberta, por ser verão. Posso ver a sua imagem agora: palidamente delicado, lamentavelmente respeitável, irremediavelmente desamparado! Era Bartleby. (MELVILLE, 2017, p. 27)

Se tem um cara que me apraz vestir a pele é, é, é… Ah! Seu nome pouco importa, como também não aparece, mas é sobre o narrador que estou a falar. Sua visão peculiar acerca das pessoas – pois não lhe apetece julgar, mas sim compreender – é o ponto crucial de todo o contexto. E vou lhe ser bem sincera, tu vai brincar de ser John Malkovich e vai ser bom. Ademais, somos apresentados à Turkey e Nippers, criaturas, digamos, complementares em suas agudezas e diferenças, além do contraponto Ginger Nut, o garoto de recados.

Creio que foi no terceiro dia de sua presença no escritório, antes de se tornar necessário conferir qualquer das suas cópias, que a pressa em concluir um trabalho me levou a chamar Bartleby abruptamente. Na pressa e na expectativa natural de uma obediência imediata, fiquei sentado com a cabeça inclinada sobre o original em minha mesa, a mão direita estendida para o lado, um tanto nervosamente, segurando a cópia, a fim de que Bartleby, ao sair do seu refúgio, pudesse prontamente arrebatá-la e se pôr a trabalhar, sem qualquer delonga.

Nessa postura eu estava quando o chamei, explicando rapidamente para que o desejava: conferir junto comigo um pequeno documento. Imaginem minha surpresa… mais do que isso, minha consternação, quando Bartleby respondeu, sem deixar sua privacidade, em voz singularmente suave e firme:

– Preferia não fazê-lo. (MELVILLE, 2017, p. 30-31)

Preferia não

Confesso que fiquei num misto de intensa curiosidade quando do primeiro “Preferia não fazê-lo” (sim, esse é apenas o primeiro de muitos), porque tamanha impetuosidade, ou seria franqueza?, chega a ser desconcertante, mas simultaneamente prazerosa, afinal, quantas vezes você já quis dizer um belo “preferia não fazê-lo”, mas foi lá e fez. Em contrapartida, a reação do chefe também não poderia ser menos sagaz, pois, mesmo movido pela tensão adensada em decorrência da recusa, ainda assim, consegue racionalizar ao ponto de ultrapassar as relações de poder, bem como as consequências do embate para a sua imagem em perspectiva aos outros e, mediante a urgência das tarefas por fazer, acaba por imiscuir-se de tal modo no trabalho ao ponto de permitir-se uma análise mais acurada, a sangue frio, depois.

Já disse que gosto desse narrador? Gosto!! Por que? Porque calhou de encontrar a faísca da humanidade para além do discurso, uma faísca embrenhada em pensamentos, como também germe de todas as suas atitudes; e isso faz toda a diferença.

Por outro lado, a indiferença de Bartleby é aterradora. Ele não demonstra nem o mais leve dos sentimentos. Nada o atinge, ninguém o demove. Não saber o que se passa em sua mente/alma é devastador e, como tal, destrutivo, pois cercar-se do sofrimento humano e não saber o quê fazer para lhe dirimir as dores, além de se constituir num quebra-cabeças insustentável, revela-se como outra fonte de sofrimento.

Dentre as sumidades abissalmente “frágeis” do universo literário e cinematográfico, duas surgem em perspectiva ao lado de Bartleby, nenhum deles se parece, mas todos contemplam o caleidoscópio das variáveis humanas. Em O Perfume, Patrick Süskind nos apresenta Grenouille, um rejeitado desde o nascimento, cuja potência da capacidade olfativa faz ganhar o mundo, todavia sob brumas e brumas de maldade e mau caratismo (por sinal, nunca engoli o filme e se da cena final dependesse a invenção dos irmãos Lumière, sinceramente…); em contrapartida temos Jeremy, personagem do filme Powder, um jovem que fora criado isolado do contato humano sendo o seu repertório do mundo aquele ilustrado pelos livros todos que leu quando do seu cárcere.

Todos sobreviventes, sem dúvida! Mas, será possível estabelecer algum paralelo entre os fisiologismos e as necessidade humanas de convivência, amor e afeto, além da ausência de todas elas, para determinar as possíveis influências no caminhar dos sujeitos? Até que ponto somos meros reprodutores de conceitos e até que ponto conseguimos nos embrenhar na fonte de quem realmente somos? Até que ponto o outro nos impulsiona ou nos coíbe a ser quem, de fato, deveríamos ser? Até que ponto a humanidade é isenta e até que ponto somos todos perpetradores da nova ordem mundial?

Para um ser sensível, a compaixão não raro é sofrimento. E quando se percebe que essa compaixão não pode levar a um socorro efetivo, o bom senso compele a alma a se livrar dela. O que vi naquela manhã convenceu-me de que o escrevente era vítima de um mal inato e incurável. Eu podia dar esmolas a seu corpo; mas não era o corpo que sofria e sim a alma, só que esta eu não podia alcançar. (MELVILLE, 2017, p. 51)

Bartleby, simplesmente, existe. Abdicou de viver, mas necessita de um aparato mínimo que comporte o seu estado de imutabilidade. Mas, a questão é, o que aconteceu antes? O que existiu antes do sismo?

Então era preciso tomar alguma providência drástica e excepcional. Mas o quê? Não vai certamente mandar um guarda agarrá-lo e arrastar sua inocente palidez para o cárcere, não é mesmo? E que motivo poderia apresentar para isso? Que ele é um vagabundo? Que se recusa a sair do escritório? Mas por que ele não quer ser um vagabundo, vai classificá-lo como tal? Isso é um absurdo. Não tem meios visíveis de sustento? Por aí posso pegá-lo. Errado novamente: ele de fato se sustenta e essa é a única prova irrefutável que qualquer homem pode apresentar em seu favor. Então não há o que fazer. Se ele não quer me deixar, então eu tenho de deixá-lo. Mudarei de escritório. Irei para outro lugar e o avisarei de que, se o encontrar em minhas novas salas, serei obrigado a tratá-lo como um invasor comum. (MELVILLE, 2017, p. 73)

Nosso jovem nunca saía do escritório e, num dado momento, descobrimos que, irremediavelmente, sobrevive lá. Dentre as tantas tentativas – todas frustradas – de seu chefe para tentar resolver a sua saída do local, para não sucumbir ele próprio à loucura, não restou outra alternativa que não fosse a mudança do escritório para um outro ambiente.

As situações são absurdas em todo o contexto, do mutismo absoluto, às tentativas de compreensão e proteção do sujeito. Ademais, o quê que a humanidade faz quando se vê à frente com os seus “monstros”? Isola! E entre os tantos eventos que se sucedem, o escrivão acaba preso. Lá encontra, finalmente, a redenção; ou a conjuração dos seus sonhos mais profundos.

Avistei o definhado Bartleby, estranhamente encolhido na base de um muro, deitado de lado, os joelhos levantados, a cabeça encostando na pedra fria. Ele não se mexia. Parei por um instante, depois me aproximei. Inclinei-me e constatei que os olhos vazios de Bartleby estavam abertos; a não ser por isso, ele parecia estar profundamente adormecido. Algo me impeliu a tocá-lo. Ao fazer contato com a sua mão, um calafrio me subiu pelo braço, desceu pela espinha até os pés. (MELVILLE, 2017, p.87)

Triste…

No final das contas, a batata quente vai esfolar as suas mãos também porque, infelizmente, versões de Bartleby existem em todo lugar, às vezes, mais próximo do que se imagina… Se por um lado, hoje, temos a consagração da Psicologia a nosso favor, em contrapartida, as camadas de argamassa e verniz andam proficuamente espessas e escamoteadas…

“Ó Bartleby! Ó Humanidade!”

Curioos@s, até breve!!

Livro, gentilmente, enviado pelo Grupo Editorial Record em parceria com o Curioosamente. Brigadão!

* MELVILLE, H. Bartleby, o escrivão. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

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8 comentários sobre “Resenha: Bartleby, o escrivão

  1. Nossa! Excelente resenha de um excelente livro. Também concluí a sua leitura recentemente e ainda estou a processar toda a história em meu limitado poder de compreensão do ser humano e seus aspectos psicossociais. Leitura profundamente psicológica e intrigante. abraços.

    Curtido por 1 pessoa

  2. O livro do Desassossego, é cheio de uma vazio de Pessoa. Uma coletânea de escritos entremeados no tempo de uma Lisboa que hoje se veste diferente. Uma solidão nada poética, diria. Mas fado de poeta é isso mesmo, carece de intensidades para escrever verdades dualistas, as vezes feias ou lindas, as vezes alegres ou tristes, as vezes nem verdades nem nada, apenas um vazio existencial. Fez bem em não sossegar no Desassossego. A introdução, Richard Zenith canta a pedra ao dizer que muita coisa, muita coisa mesmo, fica no dito pelo não dito, começos sem finais, nem pés nem cabeça… Já fui mais Pessoa outrora, agora, nem tanto. Mas sempre chego a mesma conclusão: mesmo não gostando, ainda assim, o dessabor é conteúdo do saber.
    Bóra lá ler as resenhas da menina moça mulher!

    Curtido por 2 pessoas

  3. Laneeee… Mais uma resenha perfeita. Eu adorei. Estou começando a me preocupar quando em terei tempo de ler todas essas obras fantásticas que vc posta aqui no blog. Vou montar um cronograma.

    Beijão.

    Curtido por 2 pessoas

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