Resenha: Os Excluídos da História – Operários, mulheres e prisioneiros

Os excluídos da história operários, mulheres e prisioneiros

Há coisa de quinze dias estive com minha tia numa loja de móveis e eletrodomésticos. Enquanto aguardava o vendedor finalizar o pedido, via um jovem negro descarregando as mercadorias do caminhão de entregas, juntamente com seu companheiro de serviço.

Ele recebeu, acomodou no ombro esquerdo, um colchão de casal, depois adentrou a loja e seguiu – até ao final do imenso galpão que a constituía – encarou o primeiro lance de escadas, fez a manobra (era uma escada do tipo ziguezague) e subiu o segundo lance.

Desceu, recebeu em torno de três televisores (afinal, se é preciso subir tantas escadas, porquê não pegar logo vários de uma vez e diminuir as subidas, né? Assim pensaram e fizeram), acomodou no ombro esquerdo, e seguiu.

Recebeu mais um televisor, dessa vez com três caixas de liquidificador em cima, opsss uma caiu, o ajudante pegou do chão, reposicionou, e lá se foi outra vez.

Viro pro atendente e pergunto:

– Não tem um elevador que ele possa utilizar ou um sistema de alavancas?

– Não.

– Que absurdo… E se uma mercadoria cair e avariar, ele tem que pagar?

– Normalmente, sim.

– Ninguém se incomoda com o fato de não haver elevadores? Nem os cliente falam nada?

– Não!

– Gente, como assim ninguém se importa? Seu chefe não enxerga o perigo que isso representa? Em pouco tempo esse homem vai ter algum tipo de lesão na coluna, dificilmente vai conseguir o benefício do inss (ainda mais agora com o governo vetando tudo), se vacilar, em pouco tempo perde até o emprego, e aí, como sobrevive? Depois abrem a boca pra falar que grande parte dos processos empilhados são da justiça do trabalho. Levar em consideração as condições de trabalho, não levam, mas se utilizam do argumento dos processos para dizer que um trabalhador com carteira assinada é caro para a empresa e que isso justifica a reforma trabalhista escrota que estão nos empurrando goela abaixo.

Ao que ele emenda o soneto da pior maneira possível:

– É por isso que nossas mães dizem que a gente tem que estudar, né?

Calei a boca. Peguei a nota e, para pagar, minha tia e eu tivemos que subir o inferno das escadas… Sendo que atrás já vinha, novamente, o rapaz.

Nem imagino o peso de todas aquelas mercadorias, mas a conta não fica muito difícil, principalmente, se olharmos por outro ângulo: tal tarefa repetida várias vezes ao dia, seis (ou sete, vai saber!) dias por semana, ao longo de meses e anos. Resultado? Impacto na coluna vertebral e uma série de outras possibilidades. Mas não para por aí, como que esse homem vai suportar os necessários 49 anos de trabalho e contribuição, segundo escravizam, ohhh, ditam as novas regras da Previdência? Com quê qualidade de vida ele vai alcançar a velhice? Aliás, não precisamos nem ir tão longe, apenas pensemos juntos, será que ele consegue, ao final de um dia de batalha, sonhar com um futuro melhor, com uma mudança de emprego ou será que nem pode se permitir a esse luxo porque, afinal, precisa levar o pão para dentro de casa? Quais perspectivas de mudança de vida podem alcançar essa pessoa? A meritocracia diz que ele está no caminho certo, que ele enquadra-se nas estatísticas (só lembrando que estatísticas também mentem…) de crescimento do país etcetera etcetera etcetera

Contudo, os noticiários fazem questão de evidenciar, diariamente, que a base populacional do país está invertendo e que, dentro de pouco tempo, a previdência não dará conta de pagar as aposentadorias de todos. Esquecem-se apenas de frisar que, para tal, o governo ilegítimo pretende onerar apenas o povo, pois os salários da corja do colarinho branco seguem “muito bem, obrigado!”, a corrupção não devolve grana usurpada, taxar as grandes fortunas não entra no script e transparência na gestão dos recursos é igual a unicórnio, ninguém sabe ninguém viu.

No mais, e voltando para o lance da loja, acompanhei o esforço hercúleo do carregador durante os quinze ou vinte minutos em que lá estive. Vi como brotavam, freneticamente, as gotas de suor, vi que sua tarefa – absurdamente necessária – não era valorizada, que a sua saúde e integridade física não eram levadas em consideração, que o dono da loja não ficaria pobre em instalar minimamente um sistema de alavancas para levantar as mercadorias, afinal, além do depósito ser no primeiro andar e a loja no térreo, também não havia elevadores para quem quer que fosse, funcionários, idosos, pessoas com deficiência, enfim, quem quer que fosse olhar, comprar e pagar pelas mercadorias, pois os caixas, também, ficavam no primeiro andar.

E outra, quando o mocinho abordou a questão “do estudar”, será que de fato essa educação tinha elementos de sociologia, filosofia, história, dentre outros aspectos que não o da competitividade, o “eu em primeiro lugar”, o mercado que prevaleça porque eu quero o meu dinheiro no bolso e o resto que se foda? É… Por essas e outras que os novos projetos do governo versam pela Escola Sem Partido, pelas Reformas da Previdência e Trabalhista, pelo extermínio da saúde pública e pela manutenção do estado de “Bem-Estar Social do Capital”, afinal, ele é quem diz o preço de tudo e, pelo visto, de todos.

O que tudo isso tem a ver com o livro? Bom, o título já rasga o verbo sem delicadeza, o único detalhe é que todas as passagens aí contidas são de operários, mulheres e prisioneiros que viveram numa França do século XIX, e SINTO MUITÍSSIMO INFORMAR, mas a sarna tacanha da EXPLORAÇÃO que parasita os homens através dos tempos NÃO PASSOU e RESISTE se metamorfoseando e os vampirizando.

Ademais, optei por trabalhá-lo seguindo as próprias modulações da autora – que o divide em três blocos – assim, neste primeiro momento, veremos a Parte 1 – Operários – que se configura por trazer, essencialmente, os seguintes elementos: trabalho autônomo, luta e rendição às máquinas, migrações temporárias aos centros urbanos, migrações permanentes, estabelecimento e formação da população parisense e, por fim, o grande evento do Primeiro de Maio de 1890.

E, sim, fui compelida a pedir ao Manifesto do Partido Comunista que começasse os trabalhos porque… Ora, porque era inevitável.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e então aprendiz – em suma, opressores e oprimidos sempre estiveram em oposição, travando luta ininterrupta, ora velada, ora aberta, uma luta que sempre terminou ou com a reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou com o ocaso conjunto das classes em luta. […]

O modo de funcionamento da indústria, até então feudal ou corporativo, já não dava conta de atender à necessidade que crescia com os novos mercados. Substitui-o a manufatura. Os mestres de corporação foram desalojados pelo estamento médio industrial; a divisão do trabalho entre as diferentes corporações desapareceu perante a divisão do trabalho no interior das próprias oficinas.

Os mercados, no entanto, seguiram crescendo cada vez mais, tanto quanto a demanda. A própria manufatura já não bastava. Foi quando o vapor e as máquinas revolucionaram a produção industrial. O lugar da manufatura foi ocupado pela grande indústria moderna; o do estamento médio industrial, pelos milionários da indústria, os chefes de exércitos industriais inteiros, os modernos burgueses.

A grande indústria produziu o mercado mundial, que a descoberta da América preparara. O mercado mundial deu ao comércio, à navegação marítima e às comunicações por terra entre os países desenvolvimento incomensurável. E esse desenvolvimento, por sua vez, retroagiu sobre a expansão industrial; na mesma medida em que indústria, comércio, navegação marítima e estradas de ferro se expandiam, desenvolvia-se também a burguesia, multiplicavam-se seus capitais, e ela empurrou para segundo plano todas as classes oriundas da Idade Média. (MARX e ENGELS, 2012, p. 44-46)

“PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNAM-SE!”

De tempos em tempo, os trabalhadores vencem, mas apenas de forma efêmera. A verdadeira consequência de suas lutas não é a vitória imediata, mas a unificação cada vez mais abrangente dos trabalhadores. Estimula-a o crescimento dos meios de comunicação, que, criados pela grande indústria, põem os trabalhadores das mais diversas partes em contato uns com os outros. Basta, porém, esse contato para centralizar numa luta nacional, numa luta de classes, as muitas lutas locais, todas elas de caráter idêntico. Mas toda luta de classes é uma luta política. (MARX e ENGELS, 2012, p. 54)

PATRONATO, MÁQUINA E DISCIPLINA

Sabe-se que a industrialização na França foi relativamente morosa e em larga medida manual. A existência de uma mão de obra abundante e barata limitava o recurso às máquinas, investimento caro que praticamente não constituía uma tentação para um patronato de pequena escala e administração diária. À exceção de alguns pioneiros, muitas vezes de origem estrangeira, e apesar das exortações de uma tecnocracia muito favorável à mecanização (Chaptal, Dupin, Costaz, Christian, Bergery etc.), esse patronato não tem um projeto mecanizador. Qualquer inovação desse tipo gera uma divisão interna no patronato, pelo menos equivalente à oposição que suscita entre os patrões e os trabalhadores. O discurso dominante continua a ser o do emprego, não o da produção: cada vez que um fabricante solicita autorização para fundar uma empresa, é a esse argumento – dar trabalho aos pobres, utilizar os braços ociosos – que ele recorre. […]

A alta dos salários e as reivindicações dos operários urbanos, “turbulentos e preguiçosos”, fazem com que se saia das cidades caras demais e implantem-se manufaturas das produções mais correntes no campo. Principalmente Paris, depois de 1815-1820 , passa por um êxodo geral das grandes fábricas para a periferia e o interior, e por uma relativa desindustrialização. Em menor escala, é o caso de Lyon, sobretudo depois das insurreições de 1832-1834. As grandes cidades mantêm as indústrias altamente qualificadas cuja mecanização ainda não se tornou possível, em particular a produção de máquinas que se concentra largamente em Paris. Assim se instaura uma verdadeira divisão do trabalho entre a cidade e o campo, as grandes cidades e os centros secundários. Essa geopolítica industrial, cujo processo, que conhecemos bem atualmente e que se reproduz sob nossas vistas, vem acompanhada de um maior recurso a uma mão de obra pouco qualificada, principalmente infantil (é a grande época do alistamento das crianças da Assistência Pública), e de uma mecanização que permite empregar crianças. A maioria dos folhetos de propaganda das novas máquinas insiste na facilidade de sua utilização pelas crianças. A máquina, portanto, permite romper o nó de estrangulamento das pretensões operárias. (PERROT, 2017, p. 17-18)

Antes de qualquer coisa, vamos tentar dar aquela situada no contexto? Enquanto a França vivia o rebuliço da industrialização, das cidades em efervescência, do êxodo para as periferias na tentativa de diminuir os custos e aumentar os lucros em cima da exploração, inclusive, do trabalho infantil, no Brasil de 1822 vivíamos o início do Primeiro Reinado e, em 1841, a transição para o Segundo Reinado. Enquanto na Europa de 1848 Marx e Engels escreviam o Manifesto do Partido Comunista, no Brasil de 1850 ainda assinavam a Lei Eusébio de Queirós, cuja determinação extinguia o tráfico negreiro.

Se por um lado os trabalhadores se organizavam para boicotar as máquinas que surgiam para coibir o trabalho autônomo, suas horas de trabalho e descanso, bem como suas posturas e regras de convivência social, por outro lado, nas bandas de cá, ainda estamos inseridos num processo de escravização que, em tese, só seria abolida em 13 de maio de 1888.

Um detalhe, porém, que urde no coração de todos os povos oprimidos, independente de onde estejam, é a chama da revolução, e esta, quando despertada, pouco se importa se promoverá o enfrentamento através da convocação de homens organizados com cartazes e petições ou através do clangor de tambores; a única coisa que realmente interessa é que estejam lá, reunidos, lutando juntos, pois em toda a história da humanidade, nos momentos cruciais, somente a grande massa do povo reunido conseguiu (e conseguirá) promover as mudanças.

FORMAS DE LUTA

A oposição às máquinas assume várias formas, e a destruição é apenas a última delas. Se algumas surgem no calor da ação, por outro lado a maioria, longe de ser espontânea e imprevista, implica modos mais ou menos avançados de organização: desde a reunião até a associação, basicamente de oficiais. As petições, cartazes, interdições são as manifestações mais correntes. Dirigidas aos prefeitos, mas às vezes também ao poder central (Ministério do Interior, Câmara dos Deputados), as petições mostram a vontade legalista dos operários, afirmam sua confiança nas autoridades garantidoras do contato tácito que liga o governo ao povo: emprego em troca de imposto. Como os desempregados poderiam pagar imposto? É um dos argumentos que se levantam contra as máquinas, cuja má qualidade de fabricação também é denunciada: já é a censura à “porcaria” recorrente em todo o século. O ideal econômico difundido é um estado estável e estacionário, comprometido pela ambição de alguns. (PERROT, 2017, p. 30)

Não é de agora, e muito menos em virtude da criação dos sindicatos e associações, que os homens passaram a reconhecer a importância da organização conjunta para fazerem valer suas prerrogativas. Muito pelo contrário, e justiça seja feita, devemos aos nossos ancestrais pré-históricos a competência social adquirida de conviver em “grupos”/”bandos”/”sociedades” – com vistas à preservação da espécie – bem como o legado atemporal, e incondicional, da comunicação enquanto arma estratégica (e ritualística) de enraizamento, afinal, desde as primeiras pinturas rupestres que cravamos a história do homem na eternidade.

Se a comunicação é vital em qualquer contexto, com a internet (apesar do seu parto ter sido acalentado por interesses e premissas de guerra, a década de 90 mostrou que nem mesmo o criador, Tim Berners-Lee, tem mais braços para lidar com a criatura) e através das redes sociais, as conexões passaram a manifestar uma nova feição enquanto mecanismo de congregação das massas e foi com a Primavera Árabe, em 2011, que tudo mudou de figura; mais uma vez, o povo percebeu que gritando em uníssono, ganharia poder.

E, bom…, se ultrapassamos os séculos e as ferramentas evoluíram tanto, logo, as formas de censura também estariam em seu encalço, né verdade? Assim, constatamos que a necessidade de obter, replicar ou confiscar a informação permitiu que grandes decisões fossem tomadas e, para o bem e para o mal, decisões que acabariam por impactar na vida de milhares de outros. Muitos cavalheiros foram para a fogueira da inquisição por ousarem transmitir as boas novas, por ousarem desafiar o status quo, mas não nos iludamos, pois a inquisição ainda vive, apenas segue metamorfoseada, basta que olhemos a situação, por exemplo de homens que ousaram lançar verdades na internet – por exemplo, pulverizando informações acerca de alvos civis de guerra ou ainda de invasões criminosas no ciberespaço “confidencial” realizadas por determinada agência de segurança nacional – para que fossem perseguidos e…, o resto vocês já sabem.

Ademais, enquanto ainda não é possível controlar todas as mentes, segue-se alienando, que no final das contas dá quase no mesmo, e a Propaganda, meus caros, já nasceu vaticinada, maculada e convicta de seu papel. Então, leiam sempre nas entrelinhas.

A ERA DO OLHAR

Em seu famoso Panopticon (1791), Jeremy Bentham pensa resolver o problema disciplinar da prisão – e, diz ele, de todas as coletividades onde existem problemas de fiscalização – “por um simples projeto arquitetônico”: do seu pavilhão situado no centro de um círculo, o inspetor “vê sem ser visto” os detentos, cujas celas com grades simples e abertas à sua vista distribuem-se ao redor. Só o seu olhar, e a consciência que os presos dele têm, bastam para fazer com que reine a ordem.

A visibilidade e a vigilância também são os princípios da disciplina nas fábricas. (PERROT, 2017, p. 55)

A boa e velha tática de controle, conhecida por vigilância, que referencia o nível de poder, todavia, não menos devassada pela dubiedade de suas ações e conveniências.

Se a visibilidade e a vigilância ganham notoriedade com as fábricas – e sejamos conscientes, o ser humano não é nenhum anjo de candura – há muuuuuito, a elas não se restringem. O ideal panotípico segue na arquitetura dos shoppings, das universidades, das prisões e nos ambientes em que estão conglomerados grandes potenciais humanos, ou seja, onde haja a “necessidade de manter o controle”.

Entretanto, e curioosamente, se antes a vigilância execrava a noção de privacidade, hoje em dia, o que se almeja é tudo menos o confinamento ao mundo real. Quem não vive online, acredita-se invisível, logo o verdadeiro panóptico – vulgo massivos servidores do Google e cia limitada – tem bastante facilidade em nos identificar cotidianamente, afinal, é no day by day que alimentamos a sua fúria irascível por bytes.

A FÁBRICA E SUA DISCIPLINA

O regulamento de fábrica torna-se a peça-mestra do sistema. […]

Os regulamentos preveem todo um elenco de sanções: essencialmente multas em caso de faltas, atrasos, falhas de fabricação, mas também por deterioração das máquinas, brigas dentro ou na frente da fábrica, cachimbos mal apagados, “bagunças”, “disputas, grosserias, conversas obscenas, maneiras indecentes” embriaguez, falatórios, deslocamentos fora do serviço, insolência em relação aos chefes, escritos nas paredes etc. etc. O regulamento sugere uma imagem reflexa do trabalhador e sua turbulência, ao mesmo tempo em que revela sua dupla finalidade: econômica decerto, mas também profundamente políticadisciplinar o corpo do operário, seus gestos e comportamento. (PERROT, 2017, p. 65-66)

Esse tipo de definição da construção da cultura comportamental exigida pelas empresas – a boa e velha história da exigência dos deveres e do esmaecimento dos direitos – é muito frequente no contextual histórico dessas instituições, inclusive, muito em virtude da confluência das inúmeras cobranças, maus tratos, péssimas condições de trabalho, número extensivamente arbitrário de horas trabalhadas, má alimentação, ambientes insalubres e mal iluminados, etcetera etcetera, que vimos a ascensão auspiciosa da psicologia nas relações de trabalho.

Em contrapartida, é preciso muito cuidado para não cair na esparrela da autoridade travestida de liberdade de expressão, pois com certeza, muitos de nós (e me incluo sem prazer) já tivemos que engolir vários sapos em prol da convivência, em ambientes ditos “libertadores”… Quando eu digo que a palavra metamorfose me inculca não é à toa…

O contramestre tem um duplo papel: um papel clássico de vigilância, especialmente importante na indústria têxtil, onde as relações eram particularmente ruins com as operárias, que protestavam contra as intimidades e exigências sexuais dos contramestres; os jornais operários estão cheios de recriminação a esse respeito. Pelo favoritismo, alguns exerciam uma verdadeira chantagem. Por outro lado, o contramestre tem uma função técnica crescente; ele deve vigiar e muitas vezes regular as máquinas, e com isso insinua-se pessoalmente no processo de produção que assim escapa aos trabalahdores. (PERROT, 2017, p. 68)

Esse trecho é só pra lançar a pergunta no ar: você acredita que existe algum momento na história da humanidade em que não haja relato ou evidência de violência contra a mulher? Reflita!

As populações parisienses do século XIX têm grande mobilidade no uso do espaço, e isso vale para todas as classes, como mostra, por exemplo, o estudo dos livros do registro público de imóveis. As migrações temporárias, características principalmente dos operários da construção acentuam essa mobilidade. […]

As coisas mudam por volta dos anos 1880. De temporárias, as migrações passam a ser permanentes. A “grande depressão” dos anos 1882-1890 contribuiu para romper os laços com a terra e povoar as grandes cidades. Muitos migrantes trazem suas mulheres e instalam-se em Paris sem esperança de retorno. Assiste-se à formação da população “parisiense“. (PERROT, 2017, p. 114-115)

Se antes as populações migravam sem preconceito entre campo e cidade, inclusive, até mesmo as fábricas fugiam para o campo em virtude do aumento dos custos, hoje em dia isso praticamente não existe. Praticamente porque, a depender de onde se coloque em pauta a periferia, isso pode até acontecer, mas via de regra não é assim que a coisa funciona; ao contrário, o que encontramos é o processo de gentrificação muito consolidado.

Mas também é preciso levar em consideração que muitas são as empresas que se fixam em determinados ambientes, com o discurso da captação de mão de obra, de enriquecimento da economia local, da abertura de capital, quando na verdade, além de serem eximidas dos devidos impostos e de agirem sob a falsa égide da responsabilidade social e do marketing “do bem”, acabam é devastando e poluindo lençóis freáticos, poluindo o ar, empobrecendo o solo, acabando com fauna e flora, dentre uma série de outras agressões, mas “as imponentes” continuam com as suas atividades sem que nada lhes aconteça, nada. Como a memória do povo é curta… Seguimos chafurdando na lama enquanto recrudesce o extermínio ambiental.

Esse povo do século XIX tem o sentimento muito forte de que o espaço público lhe pertence. Tudo o que ele pede é poder utilizá-lo à sua vontade, de modo indiferenciado, capaz de aceitar uma certa desordem. Pois essa desordem, que tanto incomoda os higienistas, esses primeiros urbanistas, é favorável a uma flexibilidade, a uma variedade de usos incontrolados. É por isso que a noção de equipamentos coletivosapropriação pública do espaço, certamente, mas para uso bem definido – não é necessariamente popular. A delimitação de espaços coletivos, pelo contrário, pode ser vista como uma restrição e uma exclusão, como o fim de um direito costumeiro. Como os camponeses pobres do século XVIII, os operários das cidades reivindicam “livre percurso”, “pasto solto” e manutenção dos direitos comunais. (PERROT, 2017, p. 128)

“Esse povo do século XIX tem o sentimento muito forte de que o espaço público lhe pertence”, de fato, invejável!

A primeira coisa que me veio à cabeça foi a intervenção na capilaridade urbana do, na época então prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad ao peitar as diversas instâncias públicas para apregoar a implantação das ciclovias em meio ao rebuliço geral da população, parte enxergando a importância vital de se aproveitar melhor o espaço público, e parte excomungando a plenos pulmões a iniciativa.

Em outra perspectiva, o que fez o atual prefeito? Exterminou os grafites – extensão da arte do povo no espaço público, arte de rua, protesto, alegoria, expressão de crenças e valores – não importa o nome que você lhe impinja, é arte, inclusive berços do grafite, como Berlim, escancaram para o mundo o potencial dos seus artistas, mas nós o que fazemos? Cobrimos de cinza, assim como colocamos debaixo do tapete tudo o que induza às necessidades dos que demandam outros níveis de atenção. A nossa cultura de esconder, ao invés de trabalhar os pontos que clamam por um olhar e escuta qualificada (vide o que fazem nas cracolândias, nos hospitais mega lotados, nas prisões, nos asilos) segue com a sua sina perversa de isolamento e estrangulamento do potencial humano.

A republiqueta das bananas segue vivendo de maquiagem, propaganda, alienação e isolamento.

A INVENÇÃO DO PRIMEIRO DE MAIO

A invenção do Primeiro de Maio, como se sabe, está ligada ao nascimento da Segunda Internacional, cujo primeiro congresso se realiza em Paris em julho de 1889. Em 20 de julho, sábado, ao cabo de um debate bastante confuso, no qual se discutiu principalmente a escolha da data, é votada, por proposta de Raymond Lavigne, um militante guesdista de Bordeaux, a segunda moção: “Será organizada uma grande manifestação internacional com data fixa, de modo que, em todos os países e em todas as cidades ao mesmo tempo, no mesmo dia marcado, os trabalhadores intimem os poderes públicos a reduzir legalmente a jornada de trabalho “a oito horas e a aplicar as outras resoluções do Congresso Internacional de Paris. Considerando que uma manifestação semelhante já foi decidida para o Primeiro de Maio de 1890 pela American Federation of Labour, em seu Congresso de dezembro de 1888, realizado em Saint-Louis, adota-se esta data para a manifestação”.

Vários traços surpreendem nesta resolução. Em primeiro lugar, a vontade de mostrar a força do proletariado pela simultaneidade da demonstração (“data fixa…, ao mesmo tempo… no mesmo dia marcado”), reveladora de um certo sentido de encenação e de uso da mídia típico de uma psicologia das multidões em pleno desenvolvimento. Trata-se de dar à classe operária consciência de si mesma através da realização de gestos idênticos num amplo espaço e de impressionar a opinião pública com tal espetáculo.

Segunda característica: o interlocutor designado pelos trabalhadores são “os poderes públicos”, isto é, o Estado e suas diversas instâncias. Concorda-se em “intimá-los” a aplicar as reformas sociais, e particularmente a redução da jornada de trabalho, elemento unificador da reivindicação operária.

Terceiro traço: a referência ao precedente americano para a escolha da data de Primeiro de Maio, preferida a outras – 14 de julho, 18 de março ou 21 de setembro -, descartadas por serem ligadas demais à história política francesa, singular demais para um encontro universal. O Primeiro de Maio americano, inaugurado em 1886 pelos Cavaleiros do Trabalho, já tinha suas vítimas: naquele dia, a violência dos confrontos com as forças armadas resultara em mortes em Milwoukee (sic) e em Chicago. O processo dos oito “mártires de Chicago”, entre os quais quatro foram enforcados em 11 de novembro de 1887, tivera uma repercussão real, visível nos jornais e no imaginário popular. (PERROT, 2017, p. 135-136)

Se cabe a invenção do Grande Dia aos americanos, em virtude do seu fatídico primeiro de maio de 1886, ou aos franceses, em decorrência da grande manifestação dos “sem trabalho” de março de 1883, não se sabe ao certo dizer, até porque cada um vai queimar a pólvora pro seu lado, o fato é que deu-se o evento e estamos, em pleno século XXI, cheios de pautas de reivindicação, principalmente quando temos as reformas trabalhista e da previdência sendo votadas com vistas ao esfacelamento dos direitos do cidadãos.

Mas, o que de fato é invejável no contexto do 1º de Maio de 1890 é a intervenção das esquerdas reunidas e a compreensão do povo acerca das suas bandeiras de luta. Isso sim, é algo que, por mais que desejemos, não temos ao alcance dos olhos e que tende a nos levar mais diretamente pro desfiladeiro.

“Todo mundo espera com terror o primeiro de maio. […] Temem-se grandes manifestações; grupos vindos de localidades da montanha com bandeiras e mulheres à frente (as mulheres: isto é, a fúria) convergiriam para Pont-Trambouze, num campo alugado para esse fim. “Os proprietários do campo, sobretudo os que ocupam posições isoladas, estão apreensivos sobre os danos que lhes poderiam ser causados pelos manifestantes, sobretudo quando voltarem ao escurecer [o cair da noite] para suas respectivas localidades. Há os que estão literalmente enlouquecidos, acreditando que ocorrerão excessos, pilhagens.” “Realmente tremo com o que vai acontecer no primeiro de maio”, escreve um informante da polícia lionesa.[…]

Mas psicoses de medo semelhante, cujas implicações teriam de ser destrinçadas, são assinaladas em muitos outros lugares. Principalmente em Paris começam os êxodos burgueses que, daí por diante, assinalarão todos os Primeiros de Maio impetuosos (como em 1906, ponto culminante do medo burguês e talvez da esperança operária). A amplitude das precauções tomadas – adiamento de cerimônias religiosas ou prazos de pagamentos, fechamento obrigatório dos grandes estabelecimentos públicos ou privados, prisões preventivas, medidas militares – atesta a premência do perigo. Essa expectativa de uma jornada tumultuada, que os anarquistas se empenhavam em difundir, radica-se certamente na experiência histórica das “jornadas” revolucionárias. Apesar das instruções guesdistas de calma, a ideia de uma manifestação pacífica, de uma festa operária do trabalho, tem dificuldade em prosperar, tanto a imagem do mundo operário, principalmente desde a Comuna, está associada à violência. (PERROT, 2017, p. 147-148)

“Que as classes dominantes tremam ante a revolução comunista. Os proletários nada têm a perder com ela do que seus grilhões. Têm, sim, um mundo a ganhar”. (MARX e ENGELS, 2012, p. 83)

Enquanto uma manifestação de produtores e cidadãos, lutando por uma legislação “protetora” do trabalho de mulheres e crianças, o Primeiro de Maio foi em larga medida um acontecimento de homens adultos. Certamente havia mulheres e crianças num segundo plano, em reuniões e algumas manifestações, mas raramente apareciam nas procissões e nunca eram incluídas entre os representantes, embora os organizadores tivessem abordagens nitidamente distintas da questão. Os guesdistas, preocupados com a política, dirigiam-se aos trabalhadores do sexo masculino. Os anarquistas mais populistas mostravam uma grande disposição em relação às mulheres e jovens: em Vienne, chegaram mesmo a concentrar sua campanha sobre eles. O lado festivo do Primeiro de Maio viria a se acentuar nos anos seguintes: as manifestações, assunto ainda predominantemente masculino, viriam seguidas de “reuniões de famílias”, abarcando o núcleo familiar tão forte no meio operário. Grande reunião às três horas. Tragam suas esposas”, dizia um anúncio na frente de uma maison de peuple belga. A fronteira entre o público e o privado, o exterior e o interior cruzava o Primeiro de Maio como todas as outras formas da cultura operária. No entanto, as mulheres e menores realmente desempenharam um certo papel na ação, ainda que muitas vezes forçando sua própria presença, principalmente através da participação em greves posteriores ou nos movimentos que se desenvolveram a partir do Primeiro de Maio. (PERROT, 2017, p. 151)

Mesmo tendo em vista o potencial de luta em prol das liberdades, às mulheres e jovens, coube somente o papel tangencial nas relações. Apesar de que, e é preciso reconhecer, entre os anarquistas houve um esforço para mudar esse panorama quando da tentativa transversal de congregação de forças. Mas ainda assim, a erva-daninha do machismo não deixou de estender os seus tentáculos, nem mesmo entre os revolucionários, cujo viés sexista esteve atrelado às representações e às tomadas de decisões.

Enfim…

Muito frequente desde o impeachment da presidenta Dilma foi a pergunta “e agora?”, principalmente enquanto enxergávamos o desmoronamento da credulidade na esquerda e o crescimento da onda conservadora com suas medidas perversas de decapitação da democracia. Era como se as manifestações, os cartazes, os piquetes, as petições não funcionassem mais, era como se faltasse algo efetivo, radical, como se faltassem aqueles anarquistas do século XIX, cheios de gana de revolução e ímpetos de uma ação mais agressiva…

Infelizmente, nesse Primeiro de Maio de 2017 temos muito o que lamentar e mais ainda o que batalhar, se pretendermos alçar um futuro com dignidade neste país.

Com ou sem uma população amplamente acordada para o seu potencial revolucionário, o fato é que o espírito de luta não pode acuar, não pode ceder mais espaço aos escrúpulos do retrocesso e aos privilégios da malha suja da política representativa. Mais do que nunca tem que ter povo na rua, pooooooovo na rua, porque a luta não acabou e nem está em vias de acabar.

Os militantes operários têm essa “loucura do futuro” pela qual se reconhecem os profetas – tem fé, em suma.

A ideia da iminência de uma grande transformação tinge esse fim de século. O pessimismo das classes dirigentes chama-a de “decadência” ou “catástrofe”, o otimismo socialista denomina-a “Revolução”. (PERROT, 2017, p. 164)

“PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNAM-SE!”

Ficamos por aqui. Até breve, curioos@s!!

Livro, gentilmente, enviado pelo Grupo Editorial Record em parceria com o blog Curioosamente.

* PERROT, M. Os excluídos da história – Operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017.

Livro de apoio:

* MARX, K; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista, 1ª ed. São Paulo: Penguim Classics/Companhia das Letras, 2012.

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6 comentários sobre “Resenha: Os Excluídos da História – Operários, mulheres e prisioneiros

  1. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e então aprendiz – em suma, opressores e oprimidos sempre estiveram em oposição, travando luta ininterrupta, ora velada, ora aberta, uma luta que sempre terminou ou com a reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou com o ocaso conjunto das classes em luta. […]

    Uma pegada Freireana nesse texto!

    Você se supera menina!

    Embora obrigo-me a discordar de poucos pontos, dentre eles a questão da violência “contra a mulher”. Essa que sempre existiu e sempre existirá na história da humanidade. Assim como a violência contra os homens (oprimidos ou não) que é tão nefasta e incalculável, porém admitida como algo normal, afinal de contas, a brutalidade pertence aos homens desde o momento em que este se reconhece como tal. Mundo dos humanos, das imperfeições, da indigações e indignações. Mundo em que o capital assume o controle de tudo e de todos. Mas uma capital que é fruto do próprio homem. Um ciclo sem fim humanidades ferindo-se, destituindo-se de razão e movendo-se na emoção da sua efemeridade.

    Moça do badauê, você escreve com tanta qualidade que ao ler-te, sinto a furia da sua pena!

    boa semana!

    Curtido por 2 pessoas

    1. “Moça do badauê” foi ótimo, rsrsrsrsrs… E acho super bacana qdo vc discorda e coloca os seus pontos de vista, caso contrário, só concordando, não haveria graça e nem crescimento no debate.
      Vc sempre acrescenta!
      Beijoca, querido, e uma ótima semana pra ti também.
      Heeey! A pegada Freireana é amor! 🙂

      Curtido por 1 pessoa

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