Oceano solitário

 

 

oceano

– Ela está morta? – perguntei.

– Morta? – repetiu a velha senhora de roupão. Ela pareceu ofender-se. – Acha que – disse ela, cuspindo as palavras, como se aquela fosse a única forma de me transmitir a gravidade do que estava dizendo. – Acha que uma Hempstock seria capaz de fazer algo assim tão… comum…?

– Ela está ferida – disse Ginnie Hempstock, aconchegando-me. – Tão ferida quanto pode ficar. Está tão perto da morte que poderá morrer se não fizermos algo a respeito, e rápido. – Um último abraço, e: – Agora vá.

Saí do colo dela, relutante, e fiquei de pé.

Ginnie Hempstock levantou-se, o corpo flácido da filha em seus braços. Lettie estava toda mole e foi manipulada como uma boneca de pano quando a mãe ficou em pé, e eu só olhava para ela, em total estado de choque.

– A culpa foi minha. Sinto muito. Sinto muito mesmo – falei.

– Você não fez por mal – disse a velha sra. Hempstock.

Mas Ginnie Hempstock não disse nada.

Ela caminhou pela estrada na direção da fazenda, entrando por trás do galpão da ordenha. A impressão que eu tinha era de que a Lettie era muito grande para ser carregada no colo, mas Ginnie a transportava como se não pesasse mais que um gatinho, a cabeça e o tronco apoiados em seu ombro, como uma criança pequena adormecida sendo levada escada acima para a cama. Ginnie carregou-a pela trilha, junto à cerca-viva, indo cada vez mais para os fundos da fazenda, até que chegamos ao lago.

Não havia vento lá atrás e a noite estava totalmente silenciosa; nossa trilha era iluminada pelo luar e nada mais; o lago, quando lá chegamos, era só um lago. Nenhuma luz dourada reluzente. Nenhuma lua cheia mágica. Estava escuro e opaco, com a lua, verdadeira lua, a lua quarto crescente, refletida nele.

Parei à beira do lago e a velha sra. Hempstock parou ao meu lado.

Mas Ginnie Hempstock continuou andando.

Ela entrou cambaleando no lago até ficar com água na altura da coxa, o sobretudo e a saia boiando conforme avançava, dividindo o reflexo da lua em dezenas de luas minúsculas que se dispersavam e se reagrupavam ao seu redor.

No meio do lago, com a água escura acima dos quadris, ela parou. Ginnie Hempstock tirou Lettie do ombro e, com mãos habilidosas, sustentou o corpo da menina pela cabeça e pelos joelhos; então, devagar, colocou Lettie deitada na água.

O corpo da menina boiou na superfície do lago.

Ginnie deu um passo atrás, e depois outro, nunca desviando o olhar da filha.

Ouvi o som de uma rajada, como se um vento colossal viesse em nossa direção.

O corpo de Lettie estremeceu.

Não havia uma brisa sequer, mas ondas oceânicas surgiram na superfície do lago. Eu vi ondas que se propagavam suavemente de início, e depois ondas maiores que se quebravam e batiam na margem do lago. Uma delas formou uma crista e quebrou perto de mim, espirrando água na minha roupa e no meu rosto. Pude sentir o gosto em meus lábios, e era salgado.

– Sinto muito, Lettie – sussurrei.

Eu devia enxergar a outra margem do lago. Eu a vira alguns momentos antes. Mas as ondas sumiram com ela, e não dava para ver nada do que estava atrás do corpo boiando de Lettie, só a vastidão do oceano solitário, e a escuridão.

As ondas ficaram maiores. A água começou a cintilar sob o luar da mesma forma que cintilara quando estava num balde, irradiando um azul-claro perfeito. A forma escura na superfície do lago era o corpo da menina que salvara a minha vida.

Dedos magros pousaram em meu ombro.

– Pelo que você está se desculpando, garoto? Por matá-la?

Fiz que sim com a cabeça, sem condições de falar.

– Ela não está morta. Você não a matou, nem os pássaros vorazes, embora tenham feito de tudo para atingir você através dela. A Lettie foi entregue a seu oceano. Um dia, no tempo dele, o oceano a devolverá.

Pensei em cadáveres e em esqueletos com pérolas no lugar dos olhos. Pensei em sereias com caudas ondulando enquanto nadavam, como a cauda do meu peixinho-dourado antes de ele parar de nadar e boiar, de barriga para cima, como a Lettie, na superfície da água.

– Ela será a mesma? – perguntei:

A velha senhora deu uma gargalhada, como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada do universo.

– Nada nunca é igual – respondeu ela. – Seja um segundo mais tarde ou cem anos depois. Tudo está sempre se agitando e revolvendo. E as pessoas mudam tanto quanto os oceanos.

Ginnie saiu da água e parou à margem do lago, ao meu lado, com a cabeça baixa. As ondas chacoalhavam, explodiam, respingavam e recuavam. Um estrondo distante fez-se ouvir, e então transformou-se em um ribombar cada vez mais alto: algo vinha em nossa direção, cruzando o oceano. De quilômetros de distância, de centenas e centenas de quilômetros de distância ela vinha: uma tênue linha branca entalhada no azul cintilante, que agigantava-se conforme chegava mais perto.

A grande onda veio, o mundo retumbou, e eu olhei para cima quando ela nos alcançou: era mais alta que as árvores, que as casas, que a mente ou os olhos podiam comportar, que o coração podia acompanhar.

Foi só quando atingiu o corpo flutuante de Lettie Hempstock que a onda monstruosa quebrou. Achei que ficaria encharcado, ou, pior, que seria arrebatado pela tormenta do oceano, e levantei o braço para cobrir o rosto.

Não houve explosão na arrebentação, nenhum estrondo ensurdecedor, e quando baixei o braço não vi nada além da água escura e parada de um lago no meio da noite, e nada na superfície além de um punhado de ninfeias e do reflexo pensativo e incompleto da lua.

A velha sra. Hempstock também havia desaparecido. Achei que estivesse parada ao meu lado, mas só Ginnie estava lá, ao meu lado, olhando para o espelho d’água escuro do pequeno lago.

– Certo – disse ela. – Vou levar você para casa. (p. 183-186)

 

 

 

GAIMAN, N. O oceano no fim do caminho. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013.

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