Resenha: Arquivos do mal-estar e da resistência

arquivos do mal-estar e da resistência

Mal-estar e resistência – eis o canto da sereia.

O livro é dividido em três partes: 1 – Da servidão à fraternidade; 2 – Poder e subjetivação; e 3 – Desejo de resistência; perfazendo um total de 16 artigos que serão trabalhados em doses homeopáticas, com o intuito de melhor absorvê-los.

É bem verdade que existem alguns termos e referências específicos da Psicanálise, mas nada que te impeça de compreender o conteúdo, ao contrário, abre-se o leque para pesquisas mais densas.

Feitas as devidas observações, sigamos.

Capítulo 1. A servidão

Para início de conversa, um apelo ao Dicionário da Mitologia Grega e Romana.

* Sérvio. (Seruius.) O rei Seruius Tullius é o sexto rei de Roma. A história do seu reinado é suficientemente impregnada de lendas para poder figurar na mitologia. O seu nascimento é misterioso. Contava-se que era filho do Lar da casa, que se unira a uma escrava na residência de Tarquínio, o Antigo, sob a forma de um falo de cinza (v. Lares). Uma outra versão pretendia que fosse o filho póstumo de Sérvio Túlio, que reinava em Curniculum, quando a cidade foi tomada por Tarquínio e pelos Romanos. A sua mãe ainda o transportava no ventre quando o seu pai foi morto e foi em Roma, onde era cativa de Tarquínio, que ela teria dado à luz o filho. Um dia, quando o pequeno Sérvio dormia, a sua cabeça foi rodeada de chamas. A rainha Tanaquil impediu que acordassem a criança e que apagassem o fogo. Quando o pequeno acordou, a chama extinguiu-se por si própria. Tanaquil interpretou o fenómeno como um presságio de glória e desde esse momento tanto ela como o seu marido educaram com o maior cuidado o filho da sua escrava. Quando atingiu a idade adulta, Tarquínio casou-o com a própria filha e, ostensivamente, designou-o como seu sucessor. Quando Tarquínio foi assassinado pelos filhos de Anco, Tanaquil tomou as disposições necessárias para que Sérvio pudesse assumir o poder sem dificuldades. Posteriormente, Sérvio faz ratificar a sua subida ao poder por uma verdadeira eleição popular. (p. 416)

Mitos, coincidências e influências… Vai entender…

Assim, no mundo regulado pela religião e pela teologia, a condição humana estava fundada na onipotência divina que a assujeitava de maneira involuntária, enquanto no mundo do homem empreendedor, centrado na razão e no discurso da ciência, a servidão seria essencialmente voluntária.

A construção do Estado moderno e do poder absoluto, revelando a nova ordem do mundo centrada no registro político, indicou que a dominação sobre os homens desceu do céu estrelado para o mundo sublunar, realizando-se agora pela mediação da vontade daqueles. A emergência do registro político, na sua autonomia e individuação em face do registro religioso, comprometeu necessariamente a vontade humana na sua produção e reprodução. O sujeito humano não pôde ficar mais alheio à sua maquinaria e às suas maquinações infernais. Enfim, na nova arquitetura do poder se inscreve o sujeito humano, que pela sua vontade transforma infalivelmente a antiga condição de servidão, de involuntária em voluntária. (BIRMAN, 2017, p. 22)

Em Arquivos do mal-estar e da resistência, Birman começa os trabalhos fazendo questão de pontuar a magnitude do fosso em que nos metemos ao circunscrever nossas vidas ancoradas sob os auspícios dessas duas palavrinhas – servidão voluntária. Para tanto, ele volta na toca do coelho e dá de cara com a Sra. Antiguidade, muito à contragosto, cedendo o palanque para aquela que viria a endossar todas as capas dos futuros tempos (até que fosse também substituída, ou não…) – a Modernidade.

Contudo, foi o reconhecimento de que a servidão humana tinha a marca da vontade dos sujeitos, isto é, que era produzida e reproduzida pela escolha dos homens, a condição de possibilidade para o desenvolvimento do projeto libertário, na medida mesmo em que a liberdade seria o operador da vontade do sujeito. Constituíram-se, assim, os sonhos e as utopias libertárias que permearam a modernidade. Estes se transformaram em movimentos sociais poderosos que abalaram o mundo, lançando por terra o Antigo Regime e as regalias do poder monárquico. A Revolução Francesa, marcada pelo símbolo eloquente da decapitação da cabeça do rei, foi a realização maior daquelas utopias, apostando as massas no desejo de liberdade contra a servidão. […]

Com isso, pode-se supor que o suposto exercício da liberdade, que construiria o registro da história e fecharia definitivamente as portas da teodiceia, indicaria finalmente o fim da servidão, seja esta voluntária ou involuntária. No entanto, o que veio em seguida nos mostrou que as coisas tomaram outro rumo, indicando que as relações do sujeito com a liberdade e com a servidão eram muito mais complicadas e paradoxais do que se acreditava anteriormente. (BIRMAN, 2017, p. 22-23)

Hastear bandeiras sob o signo da liberdade é tão comum ao ser humano quanto o ato de respirar, o fazemos quase que imperceptivelmente. Todavia, sucumbir ou enfrentar os ditames e os abusos de poder, bom…, isso já compreende uma outra história e exemplos mil poderiam ser aqui citados. O que importa é, até que ponto precisaremos chegar na história da desagregação humana para termos tempo de olhar para trás e mudar algo? Afinal, o que temos visto, desde tempos imemoriais, é o prazer deliberando as conquistas pautado no sofrimento do outro, nas dores do outro, na usurpação dos direitos do outro.

Temos afronta intercontinental em forma de míssil programado, temos corrupção irrefreável, temos ataque massivo aos recursos da natureza, temos todo tipo de segregação e subjugação, flanqueada por discursos camaleônicos que se metamorfoseiam à bel-prazer, e temos, inclusive, todo tipo de discurso de paz e congregação, mas falta algo mais, algo para o qual as consciências ainda andam sublimadas, propositalmente orientadas para a inação, de modo a manter as mesmas peças do tabuleiro em curso.

E sobre esse sutil papel da propaganda na alienação das massas, acredito que o posicionamento a seguir nos contempla, muito a contento: A lógica é cristalina. A propaganda política está para uma democracia assim como o porrete está para um Estado totalitário. Esta é uma atitude inteligente e vantajosa porque, uma vez mais, os interesses comuns escapam ao rebanho desorientado: ele não consegue decifrá-los. (CHOMSKY, 2013, p. 21)

A discursividade é fundamental para a implementação dos jogos de poder, já que na democracia a retórica da persuasão é crucial, dada a individualidade dos agentes sociais ser considerada um valor. Esta discursividade se funda num saber que cauciona aquela com critério de verdade. Daí por que o exercício do poder implica o saber e, reciprocamente, o saber funda as novas possibilidades de poder. Portanto, as ciências humanas legitimam as ditas práticas de poder. O saber como discursividade e como jogos de fala, pela mediação da vontade dos homens, articula-se com as estratégias de poder, de forma a se tecer as novas modalidades de servidão. (BIRMAN, 2017, p. 24)

Já em 1928, por meio do livro Propaganda, um certo sobrinho de Freud mostrava, claramente, quais eram os devidos pingos dos is: The concious and intelligent manipulation of the organized habits and opinions of the masses is an important element in democratic society. Those who manipulate this unseen mechanism of society constitute an invisible government which is the true ruling power of our country.

We are governed, our minds molded, our tastes formed, our ideias suggested, largely by men we have never heard of. This is a logical result of the way in which our democratic society organized. Vast numbers of human beings must cooperate in this manner if they are to live together as a smoothly functioning society. (BERNAYS, 2005, p. 37)

Algo que já não saibamos? Não! Mas que continua fruindo, fragorosamente, incólume.

Na retórica dos jogos de poder, existe um fragmento específico de Chomsky em Notas sobre o Anarquismo, acerca da divisão do trabalho intelectual, que me apraz sobremaneira e que, efetivamente, sou obrigada a dispor aqui porque coaduna com essa perspectiva de que, quem tem a palavra, detém o poder e as possibilidades de manobrar o discurso contingencial para a obtenção dos seus intentos (é só ligar a tv e acompanhar minimamente o que anda acontecendo no congresso brasileiro; não precisa ir muito mais longe não).

Uma das coisas que os intelectuais fazem é justamente tornar essas questões inacessíveis, por várias razões, inclusive por razões de dominação e interesse pessoal. É muito natural para os intelectuais fazerem as coisas simples parecerem difíceis. É o mesmo motivo que levava a Igreja medieval a criar mistérios. Aquilo era importante. Leia O grande inquisidor do Dostoiévsky; ele diz isso de forma magnífica. O grande inquisidor explica que você deve criar mistérios porque de outra forma as pessoas comuns vão entender as coisas e já que elas devem permanecer subordinadas, você tem de fazer as coisas parecerem misteriosas e complicadas. Esse é o teste dos intelectuais. É também bom para eles. De repente, eles são as pessoas mais importantes falando de coisas que ninguém entende. […] O efeito é uma técnica de marginalização, controle e interesse próprio. (CHOMSKY, 2011, p. 102-103)

Não resta dúvida de que a psicanálise se constituiu sob o signo da liberdade, inscrevendo-se pois num projeto libertário. Ao pretender, com Freud, tornar consciente o inconsciente, o que estava em pauta era libertar o sujeito do determinismo e do jugo do inconsciente, para ampliar o campo de liberdade daquele e lhe possibilitar maior mobilidade.

Além disso, ao deslocar-se do registro estrito de clínica para o da cultura, o que se colocou sem dúvida desde os primórdios do pensamento freudiano, o discurso psicanalítico pretendeu ser uma crítica contundente da modernidade. Por isso mesmo, referia-se constantemente aos seus malefícios. Estes incidiam sobre o campo da sexualidade, sublinhando então Freud a perda do erotismo do sujeito na modernidade. Com efeito, a dita “moral sexual civilizada” representava um pesado tributo para as individualidades, que as pagavam com a ampliação e a severidade das “doenças nervosas”. Isso porque o modelo civilizatório desenvolvido na modernidade se contrapunha de maneira cerrada ao campo das pulsões. […]

Para Freud, o gozo e o erotismo humanos, impossibilitados que seriam pelo projeto da modernidade, transformariam radicalmente as individualidades e as comunidades, de forma que o empobrecimento simbólico daí resultante e a violência produzida abririam o horizonte para um mal-estar progressivo nas relações sexuais. As diversas modalidades de violência que se constituiriam desde então, assim como a sofisticação destruidora assumida pelas novas tecnologias da guerra, seriam a revelação mais eloquente disso no espaço social. (BIRMAN, 2017, p. 24-25)

Dos conspurcados espectros da violência sexual chegando até mesmo aos projetos eugenistas, tão pesados eram os tributos que, se não podiam ser pagos, tratavam de usurpar. Acho difícil não bater na tecla do machismo, mas invariavelmente, somos conduzidos até ele. Para tanto, apenas dois, somente dois exemplos básicos, porque todo dia tem exemplo na realidade diária: guerras e estupros massivos; e técnicas de controle da sexualidade, natalidade e direitos reprodutivos. Mas, quem vai falar à respeito é Angela Davis:

A experiência da Guerra do Vietnã proporciona um exemplo adicional do modo como o racismo pode funcionar enquanto incitação ao estupro. Uma vez que foi incutida na cabeça dos soldados dos Estados Unidos a visão de que lutavam contra uma raça inferior, eles acabaram aprendendo que estuprar as vietnamitas era um dever militar necessário. Eram até mesmo instruídos a “revisar” mulheres com seus “pênis”. Tratava-se de uma política não escrita do Comando Militar dos Estados Unidos: encorajar o estupro de maneira sistemática, já que se tratava de uma arma de terrorismo de massa extremamente eficaz. (DAVIS, 2016, p. 181-182)

Durante as primeiras décadas do século XX, a ascensão da popularidade do movimento eugenista dificilmente era um avanço fortuito. As ideias eugenistas eram perfeitamente adequadas para as necessidades ideológicas dos jovens capitalistas monopolistas. As incursões imperialistas na América Latina e no Pacífico precisavam ser justificadas, assim como a intensificação da exploração da mão de obra negra no Sul e da mão de obra imigrante no Norte e no Oeste. As teorias raciais pseudocientíficas, associadas à campanha eugenista, forneciam desculpas dramáticas para a ação dos jovens monopólios. Em consequência, esse movimento conquistou o apoio incondicional de capitalistas importantes, como os Carnegies, os Harrimans e os Kelloggs. […] Em 1932, a Sociedade Eugenista podia se orgulhar de que pelo menos 26 estados haviam aprovado leis de esterilização compulsória e de que milhares de pessoas “inaptas” já haviam sido cirurgicamente impedidas de se reproduzir. (DAVIS, 2016, p. 215-216)

Desde que o discurso freudiano forjou o conceito de pulsão de morte, na aurora dos anos 1920, até formular a consequência maior disso na sua leitura da modernidade em o Mal-estar na civilização, a figura do masoquismo se destacou como sendo o paradigma maior da teoria e da clínica psicanalíticas. Assim, a figura do masoquismo passou a destacar-se como uma invariante maior a perpassar de forma monótona as diferentes modalidades de funcionalidades psicopatológicas, sejam estas as neuroses, as psicoses ou as perversões. Além disso, o masoquismo permitiria uma outra leitura da sexualidade feminina e da feminilidade. […]

Assim, é preciso dizer literalmente que o masoquismo não é o simples deleite com o sofrimento, mesmo que tenha sido esta a representação maior que se constituiu no discurso psicopatológico desde a sexologia, na segunda metade do século XIX. Não se trata pois, na experiência masoquista, para o sujeito, do simples usufruto do prazer e do gozo com a dor.

Com efeito, o que está no cerne da experiência masoquista é o evitamento do desamparo, na medida em que este é vivido como terror pelo sujeito. O masoquismo seria uma modalidade de subjetivação mediante a qual o sujeito se submete ao outro de maneira servil, seja de forma voluntária ou involuntária, pouco importa, para fugir do horror do desamparo. Para isso, o sujeito permite que o outro possa fazer o que quiser, com o seu corpo e o seu espírito, para se proteger do terror do desamparo. Além disso, o sujeito se oferece como tal ao outro, de maneira obscena, para escapulir da posição do desamparo. Nesse contexto, a dor é uma resultante e um desdobramento dessa posição obscena diante do outro, mas é aquilo absolutamente que o sujeito busca e tem a intenção de obter.

“Goze com o meu corpo como quiser e me submeta, mas não me deixe sozinho com o meu desamparo”, parece dizer nas entrelinhas o sujeito masoquista ao outro. Ou, então, “eu aceito qualquer coisa, faça comigo o que quiser, mas não me deixe desamparado”, parece sussurrar o masoquista, num aliança do sujeito contra o desamparo, que encontra eco num outro que se acredita autossuficiente e que se alimenta do terror do outro em relação ao desamparo. Como se sabe, eco é ego, e é sempre o ego que está em pauta nos dois polos da relação masoquista. Pelo e com o ego, ambos os parceiros da cena obscena evitam a dispersão promovida pelo desamparo. Esta é a razão pela qual o outro do pacto masoquista é sempre uma figura perversa, que se acredita acima do bem e do mal, isto é, supõe poder triunfar da sua condição de desamparo. Constitui-se, assim, a experiência do assujeitamento, em que a servidão se constrói nas suas várias modalidades, entre as figuras do senhor e do servo. (BIRMAN, 2017, p. 26-28)

Na modernidade líquida, e em meio aos seus também líquidos amores, presenciamos a crueza da evidência diária dos casos de desamparo e inevitável submissão às insígnias masoquistas de relacionamento. Infelizmente, por, talvez, não mais saber conviver com sua própria presença e relativa insignificância no universo, as pessoas prefiram se sujeitar aos ditames forçados do fugaz, mesmo tendo que arcar com seus altos custos biopsicossocioespirituais.

Capítulo 2. A psicanálise e a crítica da modernidade

OS HORRORES DA ATUALIDADE

Diante da impossibilidade do sujeito de afrontar a dor produzida pelo desamparo, surge como solução imediata e, de maneira submissa, a colagem ao outro, considerado poderoso e do qual espera proteção para os seus infortúnios. O sujeito oferece ao outro o seu corpo e o seu psiquismo para que aquele possa gozar como queira, desde que, em contrapartida, ele lhe ofereça proteção para o desamparo. Não obstante a humilhação que tal posição possa implicar para o sujeito, este prefere isso a permanecer entregue ao seu desamparo. Pode-se entrever, por esse viés, por que as depressões assumem tal importância na atualidade, resultantes que são do pacto masoquista, realizado à custa de uma imensa humilhação da autoestima.

O masoquismo nos indica ainda outros rastros para apreender outras figurações do mal-estar hoje. Antes de mais nada, as diferentes formas de servidão que nos assolam atualmente, em suas versões voluntária e involuntária. A escolha de figuras e de instituições supostamente poderosas, capazes de proteger o sujeito nas relações de trabalho e em outras modalidades de relação social na atualidade, tem o impacto de produzir e de reproduzir no sujeito as mais terríveis formas de servidão.

Nesse contexto, organiza-se o que Reich denominou nos anos 1930 de “psicologia de massas do fascismo”, um texto de grande atualidade, se considerarmos o retorno maciço do neonazismo hoje, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Com efeito, pelo desmantelamento do Estado de bem-estar social, com a hegemonia do modelo neoliberal na economia e a mundialização do mercado, o desamparo das pessoas tem atingido limiares inimagináveis. Com isso, a busca de bodes expiatórios pela violência neonazista se funda nessa acoplagem metapsicológica esboçada acima, na qual as diferenças étnicas e sexuais se transformam em alvos fáceis de massas desesperadas ao domínio de líderes carismáticos. (BIRMAN, 2017, p. 52-53)

Mediante tamanha sensação de desamparo, no aspecto micro, temos as relações pessoais à la carte, bastando apenas que o sujeito se cadastre em qualquer dos milhares de aplicativos de encontros self-service; ao passo que, numa perspectiva macro, encontramos os líderes criados sob o escrúpulo da propaganda alçando posições de grande destaque no cenário mundial e, consequentemente, estabelecendo muito mais do que os “muros” de segregação.

Na época de trevas que vivemos hoje, o discurso modernista entra em crise. O seu potencial crítico se evapora. As vanguardas estéticas são criticadas pelos próprios artistas, assim como os projetos revolucionários são engavetados e varridos da cena social e do cenário político. Com isso, aumenta-se o desamparo das subjetividades, deixadas sem rumo, à deriva, e lançadas aos seus próprios destinos.

Nesse contexto, as drogas são ofertadas em larga escala pela medicina e pela psiquiatria para apaziguar a desesperança e os gritos de terror que solapam as subjetividades. Com a psicofarmacologia e as neurociências, a maciça medicalização do sofrimento no Ocidente, que caracterizou a modernidade, atinge níveis de barbárie. Além disso, as drogas pesadas circulam pela rede internacional de narcotráfico, oferecendo formas de excitabilidade e de gozo para as subjetividades paralisadas pela violência do desamparo. De qualquer forma, são as duas faces da mesma moeda, as ditas drogas medicinais ofertadas pela psiquiatria e as drogas pesadas comercializadas a preço de ouro pelo narcotráfico; pela mediação de ambas alimenta-se a ilusão de que a dor do desamparo pode ser recusada pela transformação da alquimia dos humores.

Em contrapartida, organizam-se outras modalidades de regulação do mal-estar no campo social. Destacam-se aqui as novas formas de salvação oferecidas pelo fundamentalismo e pelas práticas, ao mesmo tempo religiosas e terapêuticas, de autoajuda. Com isso, um novo processo de evangelização do mundo está em franca marcha, procurando oferecer paliativos ao sofrimento promovido pela escalada do desamparo. (BIRMAN, 2017, p. 54)

Fatidicamente, estas são algumas das formas pelas quais os sujeitos se veem submersos na tentativa de fuga da realidade, quer seja pela alienação mediante os psicoativos ou determinadas crenças. E tais aspectos não se restringem às Cracolândias mundo afora e nem aos extremistas radicais a solapar o mundo islâmico, ao contrário, muitas vezes está tão perto que você só enxerga depois do inevitável ter se manifestado e conjurado as palavras do desespero.

Quanto àquela pergunta que não quer calar, àquela em que você diz, mas Elaine, e quanto ao papel ético dos profissionais envolvidos com a produção de novas drogas (e criação de novas doenças), bem como da sabotagem dos governos que, para deixar fluir o grande mercado internacional do tráfico de drogas que permeia e produz grande parte das riquezas que circulam livremente, fazem cara de paisagem? Pois, né? Pois…

Capítulo 3. Sobre o mal-estar, na modernidade e na brasilidade

CULPA E VERGONHA

A ostensiva desigualdade na distribuição do gozo e a ausência correlata de um Estado que pudesse regular minimamente a repartição justa daquela estão certamente na base do mal-estar presente na tradição brasileira. Se essas marcas sempre caracterizaram a sociedade brasileira desde a Proclamação da República, não resta dúvida de que a recente inserção do país no modelo do neoliberalismo intensificou bastante aquelas marcas fundadoras. Isso porque a desconstrução do Estado do bem-estar social – que já era bastante precário entre nós – lançou no mais completo abandono parcelas significativas da população brasileira. Essas parcelas populacionais foram simplesmente fadadas à morte, pela impossibilidade que já tinham antes de qualquer inserção social, pelo precário estatuto da cidadania instituído. […]

Em tudo isso, a marca patrimonialista do Estado brasileiro assumiu signos ainda mais agressivos e ostensivos, conduzindo ao que se pode denominar de um verdadeiro genocídio praticado pelo Estado brasileiro, centrado principalmente, é claro, nas classes populares. No entanto, as classes médias também se proletarizaram a olhos vistos, como se sabe, segundo todas as informações confiáveis, divulgadas pelos órgãos governamentais e de pesquisa acadêmica. (BIRMAN, 2017, p. 73-74)

O mais interessante é perceber a encenação do governo no papel do gigante míope que fecha os olhos para o político brasileiro que abocanha o capital alheio, mas que não titubeia em deliberar que a classe trabalhadora envergue a própria lápide.

Mais do que nunca, Freud acertava quando da deliberação acerca da disseminação do mal-estar em virtude da concentração do gozo nas mãos de um Estado que se manifesta enquanto legislador único e imparcial, em detrimento do ideário de igualdade e fraternidade.

O campo da saúde pública se desorganizou por completo, impedindo que a assistência médica pudesse efetivamente se realizar. A educação foi também destruída, nos diferentes níveis de escolaridade. A universidade pública se deteriorou, na política neoliberal para a promoção das universidades privadas, tal como havia ocorrido no ensino médio. Com isso, o tecido social foi devastado, pela retirada do Estado do bem-estar no campo da saúde e da educação. (BIRMAN, 2017, p. 74)

Só não diria que se desorganizou por completo porque ainda tem muita gente brigando para impedir que isso aconteça, muita gente indo para as ruas reivindicar os direitos de todos. Sem falar que, para além dos holofotes, existem muitos heróis e heroínas anônim@s batalhando pela saúde pública e, não fosse isso, talvez já estivéssemos pagando pelo mesmo SUS que muitos falam mal, por não se darem ao mínimo trabalho de conhecer o grande potencial de que dispomos (observe que nem mencionei a necessidade de lutarem para melhorá-lo, que é o que efetivamente falta).

Assim, como os ditos crimes de colarinho branco e a corrupção cresceram nas elites, ficando essas quase sempre impunes, as classes médias e populares repetem o mesmo padrão ético, promovendo também a violência, a delinquência e a criminalidade. Com efeito, se a distribuição justa do gozo é impossível, é preciso arrancá-lo custe o que custar, com as mesmas armas usadas pelos acumuladores do gozo coletivo, parecem dizer em uníssono todos os miseráveis das condições mínimas do gozar. (BIRMAN, 2017, p. 74-75)

Que as lágrimas de crocodilo derramadas por determinados espécimes de cidadãos não nos contaminem o corpo e a alma. Amém!

 

Curioos@s, até breve!!

Livro, gentilmente, enviado pelo Grupo Editorial Record em parceria com o blog Curioosamente.

* BIRMAN, J. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

Leituras de apoio:

* BERNAYS, E. Propaganda. Ig Publishing: Brooklyn, New York, 2005.

* CHOMSKY, N. Mídia: propaganda política e manipulação. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.

* CHOMSKY, N. Notas sobre o anarquismo. São Paulo: Hedra, 2011.

* DAVIS, A. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

* GRIMAL, P. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

 

 

 

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