Resenha: A Senhora de Wildfell Hall

a senhora de wildfell hall

Me pergunto se fosse o caso de ter sido apresentada à Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, O Morro dos Ventos Uivantes, Jane Eyre e A Senhora de Wildfell Hall sem suas capas originais e sem informações acerca de quem as escreveu, apenas o texto cru, se teria condições de discernir, com precisão, sobre qual era a obra de determinada autora e sobre os seus aspectos intrínsecos. Provavelmente, teria dificuldades e digo isto porque tanto Jane Austen quanto as Irmãs Brontë carregam em seu dna uma quase obrigatoriedade de preciosismo moral e ético na construção de suas protagonistas.

Sim, por meio de quaisquer que sejam os romances destas inglesas, você sempre encontrará histórias muito bem elaboradas e alicerçadas nos moldes da dignidade e da respeitabilidade, uma cobrança sumariamente excessiva, mas tacitamente destinada a poucos grupos; e, sinceramente, o indulto é pesado, pois às mulheres eram relegados os papéis de espinha dorsal, ao passo que ao homem a figura do homúnculo, plenamente disponível ao mundo sensorial, imerso nos elásticos limites da “excentricidade” – bebidas, jogos, relações extraconjugais, falcatruas, mau-caratismo, etcetera, etcetera – e com as bênçãos da sociedade, é claro… A boa e velha sociedade que vive de flertar com a hipocrisia.

Na Inglaterra da era vitoriana, onde imperavam as obtusas diferenças entre as classes sociais, o papel da mulher se restringia à manutenção do lar, cuidado dos filhos e total submissão e dependência ao marido. As personagens da grande maioria desses romances, delicadas ou, aparentemente, muito duras, tendem a encarar as situações com uma resignada força e não se abatem mediante a escalada dos montes ou montanhas de desafios, ao contrário, os encaram com uma fibra descomunal e que lhes agrega muito. Logicamente que as histórias giram em torno do amor e dos ardis e conquistas que tanto lhes floreiam o percurso, mas afinal é isso que também encaramos, né?, pois em qualquer que seja a época, tudo sempre gira em torno do amor, seja lá qual for, por quem for ou pelo quê for…

Por que ler Anne Brontë, afinal? Ora, porque em seu cerne, sim, ao vasculharmos todas as suas camadas e mais camadas de pesadas páginas, lhe capturamos o grito que sai rasgando as cordas vocais e que ecoa aos quatro cantos do mundo a inquietude, o anseio por mudanças e pela soberana necessidade de encarar os enfrentamentos da vida, independentemente dos castradores potenciais femininos, vulgo patriarcado, religiosidade e algemas sociais.

Só mais uma coisa, quer seja como Helen Graham ou Sra. Huntingdon, a moradora de Wildfell Hall é uma daquelas criaturas que você tem vontade de dar um abraço apertado e dizer “vai, minha querida, seja feliz”. E, bom… , se rolar aquele velho link entre a leitura e a lembrança da série Downton Abbey, relaxe, pois ambas conseguiram ser muito felizes na construção e condução dos seus trabalhos.

Por intermédio de uma narrativa epistolar, onde cartas são enviadas ao amigo Halford, o jovem Gilbert Markham, morador de Linden-Car, nos envolve nos detalhes de sua vida e de sua relação de amizade com Helen Graham, a mais nova residente na mansão de Wildfell Hall, em companhia do filho Arthur e da criada e companheira de sempre, Rachel.

Tomamos parte da chegada desta senhora ao condado através do bom e velho “compartilhamento de informações” e quem se presta à esse serviço é a irmã de Gilbert, Srta. Rose, afinal, a moça segue acreditando, fervorosamente, nos mandamentos biológicos da vida (sua memória evolutiva – mórula, blástula, gástrula, nêurula – é das melhores); reitero, apenas, que a mocinha nem se deu ao trabalho de verificar a procedência e a veracidade da informação, recebeu o pacote das vizinhas e já foi logo redirecionando, ou seja, em tempos de internet solta, não façam isso, meus caros e minhas caras, pode dar xabu.

Ela se chama Sra. Graham e está de luto. Não de luto fechado, mas leve. E é bem jovem, disseram elas. Não deve ter mais do que 25 ou 26 anos. Mas é tão reservada! As duas tentaram de tudo para descobrir quem ela é, de onde veio e tudo mais, mas nem a Sra. Wilson, com suas perguntas impertinentes, nem a Srta. Wilson, com suas hábeis manobras, conseguiram uma resposta satisfatória, ou mesmo um comentário casual que pudesse satisfazer-lhes a curiosidade ou esclarecer um pouco o passado dela e dar uma pista sobre quem são seus parentes e amigos. A Sra. Graham foi bastante fria com elas e pareceu mais feliz em dizer “adeus” a dizer “muito prazer”. Mas Eliza Milward afirma que seu pai pretende visitá-la em breve, para lhe oferecer conselhos religiosos. Ele receia que a moça precise deles, pois, embora se saiba que se mudou para cá no início da semana passada, não foi à igreja no domingo. E ela… Eliza, quero dizer… vai pedir para acompanhá-lo, e tem certeza de que vai conseguir descobrir alguma coisa. Você sabe, Gilbert, que Eliza consegue tudo o que quer. E nós devemos visitá-la também um dia desses, mamãe. Seria falta de educação não o fazer. (BRONTË, 2017, p. 22)

Só espero que pós-reencarnação a menina Eliza não tenha definhado ao descobrir que, com o advento da internet e exposição visceral na rede, os seus “préstimos investigativos” (para ser bem gentil) seriam de pouca monta… Mas, calma lá Elaine, pois nem tudo que reluz nas marés cibernéticas é ouro, podem ser remanescentes troianos… Enfim, sigamos para a descrição de Gilbert ao ver a Sra. Graham, em pessoa, na igreja.

E lá estava uma mulher alta e elegante, toda vestida de preto. Seu rosto estava voltado na minha direção, e havia qualquer coisa nele que me fez ter vontade de continuar observando-o. Os cabelos eram muito negros, longos e repletos de pequenos cachos lustrosos, um penteado bastante incomum naquela época, mas que sempre fica gracioso e bonito; a pele, bastante clara; e os olhos eu não podia ver, pois, como fitavam a Bíblia que ela segurava, estavam escondidos pelas pálpebras e por longos cílios negros. Mas as sobrancelhas eram expressivas e bem definidas; a testa, larga e inteligente; e o nariz, de um aquilino perfeito. Suas feições eram quase impecáveis; só que as faces eram ligeiramente encovadas, os olhos fundos e os lábios, embora muito bonitos, eram um pouco finos demais, um pouco compridos, e tinham algo que me pareceu indicar um temperamento não muito afável. E eu disse a mim mesmo: “Prefiro admirá-la a distância, bela dama, a compartilhar um lar com a senhora.” (BRONTË, 2017, p. 25)

Gilbert, Gilbert, “quem desdenha quer comprar”… Bem, minha intenção com este trecho ééé… , calma, antes disso, como é mesmo que se identifica uma “testa larga e inteligente”? Fiquei acabrunhada com isso, rsrsrs… mas, voltando à prerrogativa do texto, lhes pergunto, será mesmo que não dá pra sacar que isso fora escrito por uma mulher? O livro foi lançado sob o intermédio de um pseudônimo masculino, mas acho tão característica a escrita feminina de Anne que me cocei mediante a perspectiva de saber como o público via, para além do assombro com a ousadia dos temas tratados para a época, a relação entre o texto e o autor (alguém aí me empresta a TARDIS? O Delorean também serve, apesar de que, se o Jasão permitisse, O Berço cairia como uma luva).

O que se segue a partir de então é uma crescente e despretensiosa curioosidade do jovem rapaz pela bela dama, e, se é verdade o que dizem “que quando há interesse sempre dá-se um jeito”, veremos que Brontë não medirá esforços para nos condensar nesse enredo. Se eu pudesse descreveria tudo, me perco nessas descrições quase como se as palavras fossem um imenso cobertor quentinho, adoro o conforto do calor, ai ai… O fato é que Gilbert sai para caçar com o seu fiel escudeiro Sancho, o setter inglês, e quando alcança os portões de Wildfell Hall é visto pelo menino que lá se encontrava; nesse amor à primeira vista, menino e cachorro, cachorro e menino, eis que o garoto tenta pular o muro, fica enroscado nos galhos secos de uma árvore antiga e acaba por ser resgatado pelo bom moço à disposição na hora e local certos.

– Dê-me a criança! – disse, numa voz que era quase um sussurro, mas com uma veemência surpreendente; e, após arrancá-lo de mim como se meu toque pudesse contaminá-lo, apertou com firmeza uma das mãozinhas, colocando a outra sobre seu ombro e encarando-me com aqueles enormes e luminosos olhos escuros; pálida, ofegante e estremecendo de agitação. […]

– Achou que eu ia sequestrar seu filho?

Ela acariciou os cabelos dele com uma risadinha um pouco envergonhada e respondeu:

– Não sabia que ele tentara subir o muro. Tenho o prazer de me dirigir ao Sr. Markham, não é mesmo? – acrescentou, de forma um pouco abrupta.

Fiz uma mesura e aventurei-me a perguntar como sabia meu nome.

– Sua irmã me visitou há alguns dias com a Sra. Markham.

– Somos tão parecidos assim? – perguntei com alguma surpresa, não tão lisonjeado pela comparação quanto deveria.

– Os olhos e o tom de pele são parecidos, acho – respondeu ela, examinando meu rosto com atenção -, creio ter visto sua família na igreja no domingo.

Eu sorri. Alguma coisa nesse sorriso ou na lembrança que ele despertou a desagradou particularmente, pois de súbito a Sra. Graham assumiu mais uma vez aquela aparência orgulhosa e fria que fizera nascer tal perversidade em mim quando estávamos na igreja. Era um olhar de desprezo repulsivo, que surgia com tanta facilidade nela, e sem estar acompanhado por uma única distorção das feições, que parecia ser a expressão natural de seu rosto. Isso era o que me irritava mais, pois não podia acreditar que fosse uma afetação.

– Tenha um bom dia, Sr. Markham – disse ela; e, sem nenhuma outra palavra ou gesto, desapareceu para dentro do jardim com o filho.

Voltei para casa, furioso e insatisfeito. Não saberia dizer bem por que, e, por isso, não tentarei. (BRONTË, 2017, p. 31-32)

Se ele soubesse que agora as pessoas visualizam as mensagens no WhatsApp e, sequer, se dignam a responder, ai ai…

Não meus bens, não se apressem em julgar nenhum dos dois. Reconheço que é difícil, pois a linha tênue entre a frieza e a indiferença exibida pela Sra. Graham é bastante expressiva, todavia justificável. É bem verdade, contudo, que só teremos condições de superá-la graças aos esforços de Gilbert, que não se deixa vencer tão facilmente. Reitero, apenas, que Helen não é uma daquelas pessoas fechadas numa concha de aço inoxidável, ao contrário, conforme ela vai adquirindo confiança em Gilbert, vai se permitindo conhecer e ser conhecida; mesmo tendo milhares de razões para a sua, extremada, reserva e com toda a prudência possível, ela se permite estabelecer uma amizade dentro dos limites da discrição e conforme permitiam os costumes e valores da época.

– O que constitui a virtude, Sra. Graham? Resistir às tentações ou jamais encontrar tentações para resistir? Quem é mais forte? O homem que ultrapassa grandes obstáculos e realiza coisas extraordinárias, embora ao custo de enorme exaustão, e arriscando-se à fadiga subsequente, ou aquele que passa o dia todo sentado numa cadeira, sem nada de mais laborioso a fazer além além de avivar o fogo e levar comida à boca? Se a senhora quer que seu filho passe com honra por este mundo, não deve tentar remover as pedras de seu caminho, mas ensiná-lo a andar com firmeza sobre elas. Não deve insistir em levá-lo pela mão, mas deixá-lo aprender a ir sozinho.

– Eu o levarei pela mão, Sr. Markham, até que ele tenha forças para seguir sozinho, removerei todas as pedras que puder de seu caminho e o ensinarei a evitar outras… ou a andar com firmeza sobre elas, como o senhor diz… pois, mesmo após me esforçar ao máximo, ainda haverá pedras suficientes para testar toda a agilidade, perseverança e circunspeção que ele virá a ter. É muito fácil falar em honradez e em não sucumbir às tentações. Mas para cada cinquenta, ou mesmo quinhentos homens que caíram em tentação, mostre-me um que teve forças para resistir. Por que eu deveria acreditar que meu filho será um homem entre mil em vez de prepará-lo para o pior, supondo que ele poderá ser como eu… como o resto da humanidade, a não ser que eu faça de tudo para impedir? […]

– Perdoe-me, Sra. Graham, mas está se precipitando. Não disse que um menino deva ser ensinado a correr para as armadilhas da vida, ou mesmo que deva buscar as tentações para que possa exercitar sua virtude na hora de resistir a elas. Disse apenas que é melhor armar e fortalecer seu herói do que desarmar e enfraquecer seu inimigo. Se a senhora plantar um carvalho em uma estufa e cuidar dele dia e noite, protegendo-o de qualquer sopro de vento, não pode esperar que se torne uma árvore resistente como aquelas que crescem livres nas colinas, expostas à ação dos elementos e até mesmo às mais terríveis tempestades.

– De acordo. Mas o senhor usaria os mesmos argumentos se estivesse falando de uma menina?

– É claro que não.

– Não; o senhor acredita que as meninas devam ser criadas com carinho e delicadeza como as plantas de estufa, ensinadas a procurar o apoio e os conselhos dos outros, protegidas, tanto quanto possível, até mesmo da consciência do mal. Mas poderia me informar por que faz essa distinção? Por acaso acha que as mulheres não têm virtude?

– Decerto que não acho isso.

[…] – O senhor encorajaria os meninos a terem suas próprias experiências em relação a tudo, enquanto as meninas não devem nem mesmo conhecer as experiências dos outros. Já eu acho que ambos devem se beneficiar do conhecimento de terceiros e dos ensinamentos de uma autoridade maior, para que possam saber como recusar o mal e escolher o bem, e para que não necessitem de provas de primeira mão para conhecer as consequências das transgressões. Eu não largaria uma pobre menina no mundo sem nenhuma arma contra seus inimigos, ignorante dos ardis que talvez apareçam em seu caminho; e tampouco a vigiaria e a protegeria até que, sem nenhuma confiança ou respeito por si mesma, ela perdesse a capacidade ou a vontade de se resguardar por conta própria… (BRONTË, 2017, p. 38-41)

Estabelecendo a real disposição entre as diferenças de gênero, Brontë pisa na ferida e faz doer na carne a realidade que a sociedade mantém oculta sob as ataduras, tratando de expor muito claramente as relações discrepantes que legam submissão às mulheres e privilégios aos homens. Este é o primeiro gatilho para a série de disparos que encontraremos à seguir e cujos alvos são o papel da mulher na sociedade, os alcances e os entraves do contrato social chamado casamento bem como suas consequências para os respectivos envolvidos, o papel e a influência da religião, além dos diversos pesos e medidas oriundos do que se acreditavam ser os valores morais e sua vida útil.

À propósito, o trecho acima pode, aparentemente, configurar os desvelos de uma mãe super protetora, mas, na verdade, escondem traumas profundos e que ela, através desta postura, tenta evitar que se reproduzam. Isso deixa de configurar um excesso de zelo e possível entrave para as possibilidades de desenvolvimento do menino? Talvez! Mas, lembremos que a psicanálise não era uma prática disponível nesse período que contempla o outono de 1827 à junho de 1847, logo, cada um se virava como podia e sabia.

Porque tenho amigos… ou, ao menos, conhecidos… de quem quero esconder meu local de residência atual. E, como eles podem ver esse quadro e talvez reconheçam meu estilo, apesar das iniciais falsas que coloquei ali no canto, tomei a precaução de dar um nome falso também para a casa, para que, assim, sigam uma pista incorreta se tentarem me encontrar por meio dele.

– Quer dizer que não pretende ficar com o quadro? – perguntei, ansioso por mudar de assunto.

– Não. Não tenho meios de pintar apenas para me distrair.

– A mamãe manda todos os quadros dela para Londres – disse Arthur. -Alguém os vende e nos manda o dinheiro. (BRONTË, 2017, p. 54)

Tendo cedido aos interesses da irmã Rose em visitar os moradores de Wildfell Hall, Graham surpreende -se saindo de lá mais atormentado do que gostaria, apesar de que tal evento só faz aguçar ainda mais a curioosidade do jovem por esta senhora que encontra-se de luto, vive numa mansão quase abandonada e com recursos discretos, sempre reclusa e que, agora, expressa ainda mais esta vulnerabilidade – a fuga. Eis que aos poucos o quebra-cabeça vai mostrando.

Um segundo gatilho importante é que, ao demonstrar que vive da renda oriunda de suas pinturas, a Sra. Graham expõe a sua autonomia e desejo de independência (o sustento é necessidade primaz agora) e também impõe-se perante a hipocrisia da moral e dos bons costumes que ditava às “mulheres de boa conduta” o dever de serem sustentadas e submissas ao marido independentemente da tirania, opressão e humilhação que este lhes relegasse.

Lembremos que nesta época o divórcio era algo abominável para a reputação e que as opções de trabalhos para mulheres, além de difíceis, tendo em vista toda a conjuntura, normalmente centravam-se nas tarefas domésticas, inclusive, alcançando a prostituição quando inseridas numa ausência absoluta de oportunidades. A nossa protagonista sempre esteve numa condição social que, apesar das restrições (estudos, por exemplo), sempre teve acesso ao que condizia com as mulheres da sua classe, como é o caso do acesso à literatura, música, pintura, etc., tendo esta, dessa forma, lançado mão desta habilidade adquirida e desenvolvida para sobreviver (importante frisar que foram a sua resignação e desejos de libertação que a dispuseram a encarar a realidade. É preciso deixar claro, pois, para não incorrermos no risco de generalizar e, assim, considerarmos que o acesso a tais possibilidades facultaria à todas tamanho anseio por mudanças e autonomia. Antes de qualquer coisa, importa o querer).

– Sra. Graham, no caminho para cá estávamos discutindo uma questão a que poderá responder com facilidade, pois diz respeito principalmente à senhora. Sempre conversamos sobre nossos vizinhos, mas nós, os nativos daqui, nos conhecemos há tanto tempo e já falamos tanto uns dos outros que nos cansamos da brincadeira. Por isso, uma estranha em nosso meio é uma adição inestimável às nossas esgotadas fontes de divertimento. Bem, a questão, ou questões, que quero que a senhora responda são…

– Cale a boca, Fergus! – exclamou Rose, numa explosão de apreensão e fúria.

– Não calo, não. As questões que quero que a senhora responda são: onde nasceu, quem é sua família e onde morava antes de vir para cá. Alguns acham que é uma estrangeira, outros, que é inglesa. Alguns dizem que é do Norte e outros, que é do Sul. E alguns dizem…

– Bem, Sr. Fergus, eu lhe direi. Sou inglesa e não vejo como alguém poderia duvidar disso; nasci no interior, nem muito para o norte, nem muito para o sul de nossa querida ilha; e foi no interior mesmo que passei a maior parte da minha vida. Agora, espero que esteja satisfeito, pois não gostaria de responder a mais perguntas neste momento. (BRONTË, 2017, p. 69)

“Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai até Maomé”, mesmo dignando-se a recusar o convite dos vizinhos para um chá, a Sra. Graham viu-se obrigada a recebê-los e, de certa forma, lhes prestar algumas informações acerca de sua vida com o intuito de manter a curiosidade alheia dentro dos limites considerados, digamos, saudáveis para uma boa convivência e para a manutenção da sua privacidade e de seus interesses. É bem verdade que a ausência de “diálogo” torna a convivência um tanto quanto restrita, mas “ninguém é obrigado”, entretanto, o que se estabelece aqui é a relação: até que ponto segue a intromissão e até que ponto existe uma conversação profícua, onde haja de fato um interesse em aprofundar as relações sem enveredar pelo caminho da indiferença? Até que ponto somos frios e grosseiros para nos preservar e até que ponto somos apenas pessoas discretas?

A Sra. Graham comenta em alguns momentos que não se sente muito disposta em eventos com grandes movimentações e conversas, algo que é absolutamente compreensível tendo em vista a sua personalidade e história de vida, mas quantos de nós também somos assim e somos mal-interpretados e taxados por grosseiro por não querermos falar ou uma maior exposição, dadas as circunstâncias do interesse, enfim, ficam as questões para análise (lembrando que existe uma grande diferença entre analisar e julgar): até que ponto a ausência de diálogo interfere nas relações? Queremos ser interpretados de uma forma quando damos sinal de outra? Queremos apenas um distanciamento saudável, mas sem diálogo é possível estabelecer relações de confiança? Afinal, a comunicação é a base para tudo ou será que não? Até que ponto o silêncio fala ou realmente omite?

Em relação à Sra. Graham, com muita calma, cuidado e desvelo, além da compreensão da pessoa em questão e apesar de todas as dificuldades (afinal, ainda não se sabe a extensão dos seus traumas), Graham, aos poucos, consegue diminuir as distâncias e tornar a convivência de ambos aprazível. Ele consegue discernir que a figura da pessoa que ele aos poucos ia conhecendo, era muito diferente daquela que as línguas ferinas faziam questão de pintar.

Terceiro gatilho – direito à privacidade e de ser quem você é ou quer ser, independente das exigências sociais.

Como ninguém vive num mar de flores, após tantos e deliberados ataques às virtudes da jovem senhora, Graham vê-se determinado a afastar-se, afinal, já não conseguia mais esconder seus sentimentos e também não conseguia suportar a rejeição daquela a quem amava. Coube à Helen, mais especificamente ao seu diário, esclarecer os fatos do seu passado.

Agora, conheceremos a história do seu pretendente Arthur Huntingdon, o casamento, a breve lua de mel e a dolorosa constatação da personalidade do seu marido: um homem que humilha os amigos, debocha da sua fé, que vive a lhe passar na cara como eram suas relações com outras mulheres, violento com os animais, grosseiro, cínico, hipócrita e que na primeira oportunidade que teve, viajou com a mesma para Londres e poucos tempo depois a mandou de volta para a mansão, de modo que ele pudesse resolver os negócios; negócios estes que significavam, também e principalmente, relegar-se aos mais frutíferos prazeres com toda a sorte de fanfarronices.

Preciso acrescentar que o relacionamento abusivo era todo mantido na base das chantagens emocionais, insultos, humilhações, opressões e atitudes perversas? Mas, como não há nada ruim que não possa ficar pior… Helen fica grávida. Não que a gestação seja ruim, jamais e muito pelo contrário, pois é em nome da proteção e criação do filho que Helen encontrará forças para desbravar o mundo, todavia, o nascimento da criança aumentará ainda mais os limites do abismo na relação do casal.

Quarto gatilho – enfrentamento.

Que alegria incerta senti quando saímos da propriedade e fechamos o postigo! Parei por um instante para aspirar o ar frio e revigorante, ousando me virar e olhar a casa pela última vez. Tudo era escuridão e silêncio; nenhuma luz tremulava nas janelas, nenhuma fumaça obscurecia as estrelas que brilhavam acima, no céu gélido. Quando me despedi para sempre daquele lugar, cenário de tanta culpa e tristeza, senti-me feliz por não o ter deixado antes, pois agora não havia dúvida de que tal decisão fora correta. Não tinha nenhuma sombra de remorso por aquele que deixava para trás, nada para perturbar minha felicidade além do medo de ser detectada, e cada passo deixava essa possibilidade um pouco mais para trás. […]

Como pretendia fazer o papel de viúva, achei que seria aconselhável chegar à minha nova residência vestindo luto: por isso, usava um vestido e um manto de seda pretos simples, um véu preto (com o qual escondi cuidadosamente o rosto durante os primeiros 30 ou 40 quilômetros da jornada) e um chapéu preto também de seda, que fora obrigada a pegar emprestado de Rachel, já que não possuía nenhum. Ele não estava na última moda, é claro, mas isso era ainda melhor, naquelas circunstâncias. Arthur usava suas roupas mais simples e estava embrulhado num xale de lã grossa; e Rachel, envolvida por um casaco cinza com capuz bem puído, que lhe dava mais a aparência de uma mulher comum, ainda que decente, do que da criada de uma senhora. (BRONTË, 2017, p. 399-400)

Então, vocês podem me perguntar sobre desde quando fugir significa enfrentar, ao passo que eu lhes recordo que qualquer Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) estava longe de existir nessa época e que, mesmo agora, havendo tal instituição, agressões, maus-tratos, homicídios e feminicídios ainda fazem parte da realidade diária. Logo, ter coragem de abandonar tudo e recomeçar, significa, SIM, um ato de resistência e de muita coragem.

Lembro-lhes, novamente, que as leis não consideravam as mulheres e suas necessidades, tampouco a sociedade; Helen se mantinha dentro da mansão muito mais como uma escrava subordinada aos quereres de Arthur Huntingdon do que como uma esposa. E, como se não bastassem todas as desventuras, ainda era obrigada a assistir às imposições de comportamento despropositados que seu marido impunha ao filho, comportamentos esses que beiravam o vício alcoólico até o mais abjeto desrespeito à mãe.

Não fossem os propósitos da escritora em demonstrar que nós, mulheres, somos mais fortes do que acreditamos ser e que a resiliência existe, diria que a Sra. Helen Huntingdon esteve a um passo da loucura, mas, bem ao contrário disso, ela mostrou ser detentora de uma garra e determinação louváveis, dignas de quem sabe o quer, o que nos leva ao nosso próximo e quinto gatilho – a resignação.

O Sr. Huntingdon está muito doente, mas não está morrendo e não corre nenhum risco imediato de vida; e está bem melhor agora do que quando cheguei. Encontrei a casa numa triste confusão: a Sra. Greaves, Benson, todos os outros criados decentes tinham ido embora, e aqueles que haviam ocupado seus lugares eram um grupo negligente e desordeiro, para não dizer pior – precisarei substituí-los se for permanecer aqui. Uma enfermeira profissional, uma mulher velha e severa, fora contratada para cuidar do pobre inválido. Ele sofre muito e não tem força de vontade para suportar a situação. Os ferimentos causados pelo acidente, no entanto, não foram muito graves e, de acordo com o médico, teriam sido uma bobagem num homem de hábitos moderados. Mas com o Sr. Huntingdon a coisa é bem diferente. Na noite em que cheguei, assim que entrei em seu quarto, estava numa espécie de delírio. Só notou minha presença quando me dirigi a ele, e então, me confundiu com outra pessoa… (BRONTË, 2017, p. 434-435)

Mais do que a necessidade de ter uma consciência tranquila, Helen ainda se permite exercer toda a sua humanidade quando retorna, por livre e espontânea vontade, para ajudar o homem que encontra-se no fosso da própria existência. E para além de qualquer expectativa em regozijar-se com tal retorno, Helen o procura pela abnegada necessidade de ajudar alguém que precisa, o homem que já foi o centro do seu mundo e também o destruidor de muitas das suas certezas e alegrias. Detentora de uma fé muito sólida, ela se propõe a cuidar – inclusive, doando sempre mais do que os limites do próprio corpo permitiam em termos de resistência física e psicológica – de modo a garantir que, mesmo no fim dos seus dias, Arthur tivesse condições de alcançar algum nível de dignidade.

Se a escritora pretendia legar a possibilidade de repensarmos os nossos vícios e atos, a sociedade, a moral, a fé, o comportamento, os costumes, as injustiças, o legado para além do dinheiro, o enfrentamento, a coragem, a força, as virtudes e a necessidade de sermos homens e mulheres melhores,  com esta história, ela também ousou sonhar que podemos fazer contato com a centelha de humanidade pura que existe no âmago de cada um e, bom… , desta forma e sob esta perspectiva, permanece o desafio.

Curioos@s, até breve!!

Quanto à Gilbert, ahhhh, corre pro livro que ele te conta o final. 😉

 

 

 

Livro, gentilmente, enviado pelo Grupo Editorial Record em parceria com o blog Curioosamente.

* BRONTË, A. A senhora de Wildfell Hall. Rio de Janeiro: Record, 2017.

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