Resenha: Cenas Londrinas

cenas londrinas

Deixe-me ver, um sexteto afiado ou um punhado de palavras cortantes? Sinceramente? Tanto faz, pois em se tratando de Virginia Woolf  a expectativa é sempre compensadora. E tanto mais importa se estamos a cruzar as casas de grandes homens, as abadias e catedrais da cidade ou o retrato de uma londrina; a única coisa que conta, de verdade, é sacar o quê que esse abalo sísmico tem a dizer.

Desembaraçada e trigueira, a temos na compilação dos cinco ensaios que sacodem a poeira de Londres, a sua cachaça mais querida. Lépida e faceira, a aspergimos no lar de Mrs. Crowe, a única crônica do pedaço.

Lamento, contudo, a abusada obtusidade da publicação, 94 páginas. Isso sim, é de causar contragosto; logo, se me permitem, deixo um conselho breve, sorvam cada gole do chá das cinco com calma, com entrega, e, bom… , sem pressa, pois esta será, talvez, a melhor forma de desfrutar.

P.S.// Deixo-os com uma única citação milimetricamente pulsante (algo dificílimo para mim, rsrsrs… ). E, por favor, apertem o play.

O baratinho de ler VW é que ela não manda recado, diz na lata; é cunhada daquele mesmo grafite que registra e sublinha o papel de uma vez só. Se tentar apagar, vai borrar, mas mesmo assim vai ficar foda.

Curioos@s, aquele abraço!

cenas londrinas.

Das docas, descemos os olhos para o coração do navio atraído de suas andanças para a terra firme. Passageiros e malas desapareceram; os marinheiros também. Infatigáveis guindastes estão agora em atividade, arremessando e balançando, balançando e arremessando. Barris, sacas, caixotes içados e transportados com regularidade para terra firme. Ritmicamente, habilmente, com uma ordem que produz certo deleite estético, barril é depositado junto a barril, caixa junto a caixa, tonel junto a tonel, um atrás do outro, um em cima do outro, um ao lado do outro em intermináveis arranjos pelas aleias e galerias dos imensos armazéns de teto baixo, simplórios, comuns, inteiramente comuns. Madeira, ferro, grãos, vinho, açúcar, papel, sebo, frutas – seja o que for que o navio tenha recolhido das planícies, florestas e pastos do mundo inteiro é içado e depositado no lugar certo. Mil navios com mil cargas são descarregados toda a semana. E não só cada volume dessas diversas e variadas mercadorias é erguido e depositado com precisão; cada um deles é também pesado, aberto, testado e registrado, sendo novamente fechado e recolocado sem pressa, sem desperdício, sem afã, sem confusão, por poucos homens apenas de camisa que, trabalhando com a máxima organização pelo interesse comum – pois os compradores aceitarão sua palavra e se submeterão à sua decisão -, mesmo assim, são capazes de fazer uma pausa no trabalho e perguntar a um visitante ocasional: “Quer ver o que encontramos, às vezes, em sacas de canela? Olhe só essa cobra!” (WOOLF, 2017, p. 28)

 

Time – Pink Floyd

Livro, gentilmente, enviado pelo Grupo Editorial Record em parceria com o blog Curioosamente.

* WOOLF, V. Cenas londrinas. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s