Resenha: A montanha

A montanha

O ACIDENTE de Byrd. A prisão de Frankie. A cena humilhante com Lark. Eu não conseguia afastar a sensação de que estava sangrando, de que deixava para trás um rastro escarlate pegajoso enquanto subia as rochas caídas que me levariam até o pequeno prado de pinheiros flexíveis e, depois, à trilha coberta de vegetação que daria no Pico do Anjo. (LANSENS, 2017, p. 24)

Essa bem que poderia ser só mais uma historinha pra boi dormir, entretanto, calhou de visgar… Wolf, seu pai Frankie e Byrd são os nomes que nos inquietam. Trocando em miúdos, um pai porra louca, uma família como referência para a desestruturação, a ausência do melhor amigo, bode total no amor e uma ideia fixa martelando no juízo, mandar o mundo pros diabos no dia do seu aniversário de 18 anos saltando de um lugar chamado Pico do Anjo, no alto da montanha.

Se você nunca desejou sumir quando a coisa ficou escrota – PARABÉNS, FERA! – você é um puta miserávi, só que pra maioria da galera, de carne e osso, não é bem assim que a banda toca e, verdade seja dita, se até Pedro duvidou dos parangolé três vezes, então, fazer o quê, né? “Que atire a primeira pedra”, blá blá blá, blá blá blá…

Contudo, e é preciso ser justa, existe uma parada que nos acompanha desde a gênese do primeiro ser humano vivo nesse planeta – o instinto de sobrevivência – e o interessante nisso tudo é que, por mais que você se revolte com a ordem das estrelas nas galáxias, o mapa da mina tá todinho lá, intrínseco, cravado, codificado no seu dna, e num esplendor tal de inteligência, fazendo com que cada minúscula célula trabalhe para dar conta do recado; e é de uma natureza apoteótica vislumbrar a inteligência com a qual cada pequena partícula do nosso organismo se integra para resolver os micro e macro problemas que aparecem. A unicidade da criação é perfeita, já os nossos gênios…

Outra coisa, seguem em fila indiana mais três nomes que carecem de ser citados, Nola, Vonn e Bridget; as mocinhas que comporão, junto com o nosso bom moço, o quarteto dos perdidos na montanha; e cês já devem estar com o final da história na ponta da língua e é isso mesmo, mas, insisto, vale a pena topar a leitura nem que seja pra sintonizar na vibe de como se tornar um serumaninho melhor, afinal, sempre é tempo, toda hora é hora e você pode ser muito mais do que um punhado de habilidades desenvolvidas para constar no currículo lattes. Fica esperto!

Quanto a citar dicas de como segurar o rojão na hora que o bicho pega, siiiiiim…, tem isso também. Com uma ressalva! Sabe aquele lance de fazer fogo com dois nacos de madeira (saudadezinha A Guerra do Fogo)? Pois, bem esse, esse mesmo, não vai rolar aqui!! 🙂

Beijos!

Wolf é o que poderíamos chamar de desvio à esquerda que deu muito, muito certo (esquerda <3). Desvio à esquerda porque… bom, sua mãe morreu quando ele ainda era um guri e o pai pouco se importou com qualquer coisa, aliás, vive na base do sexo, álcool e drogas e, inclusive, perde a casa em que eles moram numa aposta; por isso eles saem do frio do Michigan para o calor da Califórnia, mais especificamente, para a Vila de Lata, trailer doce trailer da tia Kriket que, por sinal, é outra que já vive perturbada com tantos problemas.

Mas, o lance com Wolf é que você vai topar de cara com a graça dele e, pra ser bem sincera, não sintonizar com a sua frequência seria o mesmo que não gostar do Mason (Boyhood) ou do Charlie (As vantagens de ser invisível), talvez até do Aliócha (Os irmãos Karamázov) ou da Carolina (Quarto de despejo). O que eles têm em comum? A capacidade inata de lidar com as situações mais duras sem perder o senso de justiça e a amorosidade.

A narrativa é suave, bem arrematada, com alguns eventos previsíveis, mas ainda assim com surpresas muito perspicazes. E, indubitavelmente, a personagem da Nola, na minha cabeça, só aparecia com a cara da Judy Dench. Para além disso, gostaria de mencionar que lidar com a falta de perspectiva de vida é uma desgraça em qualquer país, logo, por mais que a pobreza esteja descrita num contexto muito diferenciado do nosso, é preciso prestar atenção na gana de vida de certas pessoas e na forma como elas usam as suas habilidades, neste caso incisivamente as relações interpessoais e a inteligência emocional, para superar os problemas. É bem aquele lance da oportunidade e da prontidão.

Eu me estenderia um pouco mais sobre a ausência de um serviço social para lidar com a situação de vida daquele monte de criança, em estado de total vulnerabilidade, na casa da Kriket, bem como sobre o perfil psicológico do pai Frankie, mas os deixarei curiosos para lerem o livro e tirar as próprias conclusões. Por ora, fica um breve check list pra você que tá disposto a encarar desertos e montanhas e levar tudo numa nice.

Curioos@s, até breve!

Livro, gentilmente, enviado pelo Grupo Editorial Record em parceria com o blog Curioosamente.

* LANSENS, L. A montanha. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2017.

 


* Dicas de sobrevivência para não sucumbir “na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapêêêêê“:

1 – Conhecer o local para onde se dirige;

Assim que vi a foto da capa – uma foto aérea do pico de granito coberto de pinheiros -, soube que meu destino estava na montanha. Os detalhes saltavam das páginas como uma espécie de déja-vu em 3D; três mil metros de altura no cume, mãe das cadeias transversais de montanhas, centenas de quilômetros de mata selvagem imaculada, área de caça do bando água caliente de nativos americanos, habitat do carneiro-selvagem, do leão-da-montanha, de cascavéis, precipitação dez vezes maior do que a do deserto abaixo, chuvas torrenciais na primavera e no outono, nevascas no inverno. Era um lugar do qual eu nunca tinha ouvido falar, mas que tinha a sensação de já conhecer. (LANSENS, 2017, p. 15)

2 – Espantar mosquitos com aliados naturais – a lavanda;

[…] Ela deve  ter percebido que farejei o ar.

[…] É minha lavanda. – Retirou uma almofadinha de seda do bolso do casaco. – Carrego comigo para todo lugar. Afasta os insetos para fora quando você está dentro e para longe quando você está fora. (LANSENS, 2017, p. 26-27)

3 – Apurar os sentidos, afinal, nunca se sabe quando uma simples planta se tornará uma  promissora aliada;

Na metade do caminho até a montanha, antes da zona subalpina, senti o odor pungente de cânfora, que me fez espirrar repetidamente. Byrd sorriu quando eu me inclinei para a frente para cheirar discretamente o ombro do senhor idoso.

– Esse cheiro é de sterasote – disse ele. – Eu lhe mostro quando a gente chegar. Não tem cheiro de nada quando está seco, mas, quando molhado, fede a remédio ruim. (LANSENS, 2017, p. 32)

4 – Vista-se adequadamente;

[…] Além do mais, não dá para fazer uma escalada com esses tênis baratos de supermercado. Você precisa de botas. Sapatos são a prioridade número um. Ainda não aprendeu isso? Sério? Nessa época do ano, tem tempestades e você precisa de camadas de roupas quentes e boas botas. A chuva deixa as rochas escorregadias. E a neve também. Em julho e agosto, não; mas mesmo assim, nem queira saber o que é enregelamento. (LANSENS, 2017, p. 34)

4.1 – Ainda em relação ao “vista-se adequadamente”, tu sabia da existência de meias térmicas para trilha? Putz!! Eu não.

[…] A garota muda tremia de frio apesar de estar de casaco, e me contorci de pena quando baixei os olhos e vi seus dedos escarlates nos chinelos verdes.

Encontrei uma rocha, apoiei-me nela, arranquei as botas, tirei as meias térmicas para trilha – que Byrd me dera num Natal – e as entreguei para a garota, murmurando um “tome” como um idiota. (LANSENS, 2017, p. 45)

5 – Noções de primeiros-socorros;

Então Nola levantou a mão, tão surpresa quanto nós ao perceber um estilhaço de osso branco saindo de seu punho direito.

[…] Ela revirou os olhos como se tivesse derramado café na sua blusa e se irritasse consigo mesma por ter sido tão desastrada. Quando ela andou, uma cascata de sangue verteu do osso afiado.

Bridget gritou e virou o rosto.

A garota de chinelos verdes entrou em ação.

– Precisamos enrolar isso. Alguém tem uma echarpe?

[…] Enfiei as mãos nos bolsos e encontrei uma bandana preta amassada. Entreguei-a para a garota e a observei ajustar os ossos do punho fraturado de Nola antes de amarrar a bandana sobre o ferimento. Nola mordeu o lábio para não gritar. Aquilo devia ter doído horrores.

A garota manteve a pressão no ferimento, mas Nola estava sangrando muito, e logo a bandana ficou encharcada. Meu coração disparou, pois sabia o quão depressa uma vida podia se extinguir.

– Isso não é o ideal – disse Nola.

– Precisamos de mais ataduras – disse a garota. – E de uma tala. (LANSENS, 2017, p. 49)

5.1 – Ainda em relação às “noções de primeiros-socorros”;

Abri a jaqueta de Vonn e vimos de cara onde as presas afiadas da jovem cascavel haviam rasgado as camadas de lã e perfurado o braço. Eu me lembrei de Byrd dizendo que as picadas de cascavéis bebês eram as piores. Minha mente começou a pensar alucinadamente em tudo o que não devia ser feito ao ser picado por uma cobra.

– Será que não é melhor chupar o veneno? – perguntou Bridget.

– Não.

– Será que é melhor apertar o lugar da picada?

– Não.

– Será que é melhor tentar acordá-la?

– Não. Ainda não.

– Não podemos fazer nada? – disse Nola.

Lembrei-me de alguma coisa sobre urina. Errado. Frankie que tinha dito isso. Fiquei parado. Retire todas as joias e bijuterias. Não faça pressão. Não faça torniquete. Não coloque gelo. Mantenha o local da picada numa altura mais baixa do que a do coração.

– Precisamos deixá-la parada – falei – para que o coração dela não bombeie depressa e faça o veneno se espalhar mais rápido. E manter o local da picada mais baixo do que a altura do coração. Não podemos chupar o veneno porque senão também poderemos ficar envenenados. E isso não ajudaria ninguém. (LANSENS, 2017, p. 283)

6 – Manter a calma!! Sem falar que um reforço positivo cai bem também;

– Você fica bastante calmo nas situações de crise – disse Nola. (LANSENS, 2017, p. 51)

7 – Ter alguma noção da fauna que habita o local, bem como do seu comportamento;

Eu tive que olhar rapidamente quando um pequeno lagarto de cauda azul disparou do arbusto perto do meu pé. Seria um sinal? Houve então um som de tique, e  lembrei-me das cascavéis e de como elas gostam de sol. Fiquei atento, examinando as pedras em volta. (LANSENS, 2017, p. 144-145)

8 – Água em qualquer ambiente, ou seja, carrega a porra do seu squeeze ou a sua garrafinha plástica de água mineral ou a sua garrafinha de vidro ou o seu cantil de metal ou seu copo abre-fecha da infância ou sei lá que inferno, mas carregue a porra da sua água (e o protetor solar também, né mores?!).

A chuva pareceu vir em resposta ao grito de Bridget, e foi torrencial, uma bênção e uma maldição. Colocamos as línguas para fora para apanhar as gotas gordas e sugamos o líquido frio que coletávamos com as mãos em concha. Mostrei às mulheres como lamber a água da chuva que rapidamente se reunia nos buracos das rochas. (LANSENS, 2017, p. 235)

9 – Nada de buscar abrigo sob as árvores numa tempestade (essa é crrrássica);

Todo mundo sabe que não se deve ficar embaixo de uma árvore durante uma tempestade, mas nosso instinto de encontrar abrigo deve ser maior que nosso medo de raios, porque é a primeira coisa que muita gente faz. (LANSENS, 2017, p. 235)

10 – Não foi de caso pensado, mas como rolou uma espécie de Top 10, vamos fechar com chave de ouro – Inteligência Emocional -, ou seja, tente segurar a porra da sua onda da melhor forma possível, afinal, tá todo mundo se fudendo junto.  :p

– Precisamos ir. Precisamos sair da neve – falei, ajudando Vonn e depois Bridget a se colocarem de pé.

Desci da rocha e estremeci com a dor cortante no calcanhar. Eu me lembro de ter dito a mim mesmo que a dor era minha amiga. Que as partes do meu pé que doíam seriam aquelas que eu conservaria, caso escapássemos daquela vivos. (LANSENS, 2017, p. 267)

P.S.// Tenta pesquisar antes de receber um prato como pronto. Duvide sempre e busque mais (eis mais uma dica de sobrevivência).

 

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4 comentários sobre “Resenha: A montanha

    1. Brigadão, querido!
      Um excelente final de ano pra vc e família, cheio de muita paz, carinho, prosperidade e aconchego. Aaaaahhh! E muita comidinha gostosa e trossinhos de chocolate, rsrsrs…
      “Navalha literária” foi ótimo! :p
      Beijoca

      Curtir

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