Oceano solitário

 

 

oceano

– Ela está morta? – perguntei.

– Morta? – repetiu a velha senhora de roupão. Ela pareceu ofender-se. – Acha que – disse ela, cuspindo as palavras, como se aquela fosse a única forma de me transmitir a gravidade do que estava dizendo. – Acha que uma Hempstock seria capaz de fazer algo assim tão… comum…?

– Ela está ferida – disse Ginnie Hempstock, aconchegando-me. – Tão ferida quanto pode ficar. Está tão perto da morte que poderá morrer se não fizermos algo a respeito, e rápido. – Um último abraço, e: – Agora vá.

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Nienna

Nienna

Mais poderosa do que Estë é Nienna, irmã dos féanturi, que vive sozinha. Ela conhece a dor da perda e pranteia todos os ferimentos que Arda sofreu pelos estragos provocados por Melkor. Tão imensa era a sua tristeza, à medida que a Música se desenvolvia, que seu canto se transformou em lamento bem antes do final; e o som do lamento mesclou-se aos temas do Mundo antes que ele começasse. Não chora, porém, por si mesma; e quem escutar o que ela diz, aprende a compaixão e a persistência na esperança. Sua morada fica a oeste do Oeste, nos limites do mundo; e ela raramente vem à cidade de Valimar, onde tudo é alegria. Prefere visitar a morada de Mandos, que fica mais perto da sua; e todos os que esperam em Mandos clamam por ela, pois ela traz força ao espírito e transforma a tristeza em sabedoria. As janelas de sua casa olham para fora das muralhas do mundo. (p. 19-20)

 

 

TOLKIEN, JRR. O Silmarillion. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Resenha: Os Excluídos da História – Operários, mulheres e prisioneiros

Os excluídos da história operários, mulheres e prisioneiros

Há coisa de quinze dias estive com minha tia numa loja de móveis e eletrodomésticos. Enquanto aguardava o vendedor finalizar o pedido, via um jovem negro descarregando as mercadorias do caminhão de entregas, juntamente com seu companheiro de serviço.

Ele recebeu, acomodou no ombro esquerdo, um colchão de casal, depois adentrou a loja e seguiu – até ao final do imenso galpão que a constituía – encarou o primeiro lance de escadas, fez a manobra (era uma escada do tipo ziguezague) e subiu o segundo lance.

Desceu, recebeu em torno de três televisores (afinal, se é preciso subir tantas escadas, porquê não pegar logo vários de uma vez e diminuir as subidas, né? Assim pensaram e fizeram), acomodou no ombro esquerdo, e seguiu.

Recebeu mais um televisor, dessa vez com três caixas de liquidificador em cima, opsss uma caiu, o ajudante pegou do chão, reposicionou, e lá se foi outra vez.

Viro pro atendente e pergunto:

– Não tem um elevador que ele possa utilizar ou um sistema de alavancas?

– Não.

– Que absurdo… E se uma mercadoria cair e avariar, ele tem que pagar?

– Normalmente, sim.

– Ninguém se incomoda com o fato de não haver elevadores? Nem os cliente falam nada?

– Não!

– Gente, como assim ninguém se importa? Seu chefe não enxerga o perigo que isso representa? Em pouco tempo esse homem vai ter algum tipo de lesão na coluna, dificilmente vai conseguir o benefício do inss (ainda mais agora com o governo vetando tudo), se vacilar, em pouco tempo perde até o emprego, e aí, como sobrevive? Depois abrem a boca pra falar que grande parte dos processos empilhados são da justiça do trabalho. Levar em consideração as condições de trabalho, não levam, mas se utilizam do argumento dos processos para dizer que um trabalhador com carteira assinada é caro para a empresa e que isso justifica a reforma trabalhista escrota que estão nos empurrando goela abaixo.

Ao que ele emenda o soneto da pior maneira possível:

– É por isso que nossas mães dizem que a gente tem que estudar, né?

Calei a boca. Peguei a nota e, para pagar, minha tia e eu tivemos que subir o inferno das escadas… Sendo que atrás já vinha, novamente, o rapaz.

Nem imagino o peso de todas aquelas mercadorias, mas a conta não fica muito difícil, principalmente, se olharmos por outro ângulo: tal tarefa repetida várias vezes ao dia, seis (ou sete, vai saber!) dias por semana, ao longo de meses e anos. Resultado? Impacto na coluna vertebral e uma série de outras possibilidades. Mas não para por aí, como que esse homem vai suportar os necessários 49 anos de trabalho e contribuição, segundo escravizam, ohhh, ditam as novas regras da Previdência? Com quê qualidade de vida ele vai alcançar a velhice? Aliás, não precisamos nem ir tão longe, apenas pensemos juntos, será que ele consegue, ao final de um dia de batalha, sonhar com um futuro melhor, com uma mudança de emprego ou será que nem pode se permitir a esse luxo porque, afinal, precisa levar o pão para dentro de casa? Quais perspectivas de mudança de vida podem alcançar essa pessoa? A meritocracia diz que ele está no caminho certo, que ele enquadra-se nas estatísticas (só lembrando que estatísticas também mentem…) de crescimento do país etcetera etcetera etcetera

Contudo, os noticiários fazem questão de evidenciar, diariamente, que a base populacional do país está invertendo e que, dentro de pouco tempo, a previdência não dará conta de pagar as aposentadorias de todos. Esquecem-se apenas de frisar que, para tal, o governo ilegítimo pretende onerar apenas o povo, pois os salários da corja do colarinho branco seguem “muito bem, obrigado!”, a corrupção não devolve grana usurpada, taxar as grandes fortunas não entra no script e transparência na gestão dos recursos é igual a unicórnio, ninguém sabe ninguém viu.

No mais, e voltando para o lance da loja, acompanhei o esforço hercúleo do carregador durante os quinze ou vinte minutos em que lá estive. Vi como brotavam, freneticamente, as gotas de suor, vi que sua tarefa – absurdamente necessária – não era valorizada, que a sua saúde e integridade física não eram levadas em consideração, que o dono da loja não ficaria pobre em instalar minimamente um sistema de alavancas para levantar as mercadorias, afinal, além do depósito ser no primeiro andar e a loja no térreo, também não havia elevadores para quem quer que fosse, funcionários, idosos, pessoas com deficiência, enfim, quem quer que fosse olhar, comprar e pagar pelas mercadorias, pois os caixas, também, ficavam no primeiro andar.

E outra, quando o mocinho abordou a questão “do estudar”, será que de fato essa educação tinha elementos de sociologia, filosofia, história, dentre outros aspectos que não o da competitividade, o “eu em primeiro lugar”, o mercado que prevaleça porque eu quero o meu dinheiro no bolso e o resto que se foda? É… Por essas e outras que os novos projetos do governo versam pela Escola Sem Partido, pelas Reformas da Previdência e Trabalhista, pelo extermínio da saúde pública e pela manutenção do estado de “Bem-Estar Social do Capital”, afinal, ele é quem diz o preço de tudo e, pelo visto, de todos.

O que tudo isso tem a ver com o livro? Bom, o título já rasga o verbo sem delicadeza, o único detalhe é que todas as passagens aí contidas são de operários, mulheres e prisioneiros que viveram numa França do século XIX, e SINTO MUITÍSSIMO INFORMAR, mas a sarna tacanha da EXPLORAÇÃO que parasita os homens através dos tempos NÃO PASSOU e RESISTE se metamorfoseando e os vampirizando.

Ademais, optei por trabalhá-lo seguindo as próprias modulações da autora – que o divide em três blocos – assim, neste primeiro momento, veremos a Parte 1 – Operários – que se configura por trazer, essencialmente, os seguintes elementos: trabalho autônomo, luta e rendição às máquinas, migrações temporárias aos centros urbanos, migrações permanentes, estabelecimento e formação da população parisense e, por fim, o grande evento do Primeiro de Maio de 1890.

E, sim, fui compelida a pedir ao Manifesto do Partido Comunista que começasse os trabalhos porque… Ora, porque era inevitável.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e então aprendiz – em suma, opressores e oprimidos sempre estiveram em oposição, travando luta ininterrupta, ora velada, ora aberta, uma luta que sempre terminou ou com a reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou com o ocaso conjunto das classes em luta. […]

O modo de funcionamento da indústria, até então feudal ou corporativo, já não dava conta de atender à necessidade que crescia com os novos mercados. Substitui-o a manufatura. Os mestres de corporação foram desalojados pelo estamento médio industrial; a divisão do trabalho entre as diferentes corporações desapareceu perante a divisão do trabalho no interior das próprias oficinas.

Os mercados, no entanto, seguiram crescendo cada vez mais, tanto quanto a demanda. A própria manufatura já não bastava. Foi quando o vapor e as máquinas revolucionaram a produção industrial. O lugar da manufatura foi ocupado pela grande indústria moderna; o do estamento médio industrial, pelos milionários da indústria, os chefes de exércitos industriais inteiros, os modernos burgueses.

A grande indústria produziu o mercado mundial, que a descoberta da América preparara. O mercado mundial deu ao comércio, à navegação marítima e às comunicações por terra entre os países desenvolvimento incomensurável. E esse desenvolvimento, por sua vez, retroagiu sobre a expansão industrial; na mesma medida em que indústria, comércio, navegação marítima e estradas de ferro se expandiam, desenvolvia-se também a burguesia, multiplicavam-se seus capitais, e ela empurrou para segundo plano todas as classes oriundas da Idade Média. (MARX e ENGELS, 2012, p. 44-46)

“PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNAM-SE!”

De tempos em tempo, os trabalhadores vencem, mas apenas de forma efêmera. A verdadeira consequência de suas lutas não é a vitória imediata, mas a unificação cada vez mais abrangente dos trabalhadores. Estimula-a o crescimento dos meios de comunicação, que, criados pela grande indústria, põem os trabalhadores das mais diversas partes em contato uns com os outros. Basta, porém, esse contato para centralizar numa luta nacional, numa luta de classes, as muitas lutas locais, todas elas de caráter idêntico. Mas toda luta de classes é uma luta política. (MARX e ENGELS, 2012, p. 54)

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Resenha: A Bagaceira

A Bagaceira

“Bagaceira – 1. pátio das fazendas onde são depositados os detritos da cana moída; 2. o próprio ambiente (moral) dos engenhos: moleque de bagaceira, por exemplo.”

“Bagaceiro – diz-se do trabalhador que transporta o bagaço de dentro do engenho para a bagaceira.”

“Bagaço – detrito de cana moída.”

Existem histórias que nos distraem profundamente e existem histórias que nos consomem genuinamente. Lançada em 1928 (com enfoque na seca de 1898), esta é do tipo que te consome porque traz consigo retratos de uma realidade não muito distante, aliás, é exatamente por abordar uma realidade não tão distante que parece cair num esquecimento propício e conveniente. Propício, porque sempre existiu (e existe) quem lucrou (e lucre) em cima da exploração do outro; conveniente, porque tanto mais esquecida, mais fácil de repetir os manejos, ainda que com outra cara e envergadura.

Histórias que metem o dedo na ferida tendem a retratar situações de abuso de poder, predominância da força, truculência, injustiça, desigualdades, corrupção, todavia, e apesar de tudo, também existe um melaço de amor pra contemporizar, afinal, sendo o mundo feito de opostos, nada resistiria de pé não fosse a natureza do amor, da resiliência, bem como o encantamento dos crepúsculos e a certeza das auroras.

A Bagaceira tem tudo isso e mais um quê de melancolia, um quê de saudade do que não existiu. É bem verdade que, em diversos momentos, bem se poderia chamar por A Desgraceira, mas tendo em vista os esforços do autor em se mostrar comedido e, ao mesmo tempo fiel às cicatrizes do tempo, aceitaremos de bom grado e sem profanação o seu parto, esquecimento e reaparição (SIM, estas palavras não foram grafadas à toa).

E, pra não dizer que não falo de amor, dedico os versos do poeta Zé da Luz ao que poderia ter sido e não foi.

Ai Se Sêsse

Se um dia nois se gostasse. 

Se um dia nois se queresse. 

Se nois dois se empareasse.

Se juntim nois dois vivesse. 

Se juntim nois dois morasse. 

Se juntim nois drumisse.

Se juntim nois dois morresse

Se pro céu nois assubisse. 

Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice

E se eu me arriminasse. 

E tu cum eu inssistisse pra que eu me arresolvesse. 

E a minha faca puxasse. 

E o bucho do céu furasse. 

Tarvês que nois dois ficasse

Tarvês que nois dois caisse

E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse.

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Resenha: Bartleby, o escrivão

Bartleby, o escrivão

Há coisa de 15 dias estive lendo O Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa, e acabei cedendo a um impulso nada produtivo – e que, particularmente, não gosto – de deixá-lo de lado. Muito em virtude de algumas associações que vieram à tona e que me exigiram uma energia extra para a qual não havia reserva; mas também porque considerei o momento inoportuno para a aceitação de um Pessoa tão resoluto pela infelicidade, descrença e isenção para com a vida, por isso, me reservei à condição de voltar a ele depois.

Então, eis que recebo alguns livros e resolvo encarar Bartleby, o escrivão, e, meio que voltei numa aula de biofísica, quando o professor explicava sobre a energia de arranque necessária para que os elétrons pudessem alçar determinadas posições na camada de valência. Mas, à propósito, quem é Bartleby? E o que ele tem a ver com tudo isso? Bom… Potencial de ionização, sincronicidade, teoria do caos, teoria da conspiração ou quaisquer que sejam as possíveis definições para dar cabo da frequência dos eventos e da energia que os comporta, o fato é que não existe nenhuma ponta solta nesse universo que possa se dar ao luxo de pretender passar incólume aos prazeres e às dores do mundo. Sinto muito, mas NÃO há essa possibilidade. Não há! Quanto ao que fica… Aí nos cabe o Tempo, sempre soberano.

O rumor era o seguinte: Bartleby, fora um funcionário do Departamento de Cartas Devolvidas em Washington, do qual fora subitamente afastado por uma mudança na administração. Quando penso nesse rumor, mal posso exprimir as emoções que me envolvem. Cartas mortas! Não soa como homens mortos? Imaginem um homem que, por natureza e infortúnio, é propenso a uma insidiosa desesperança. Alguma atividade pode ser mais apropriada para aguçar essa desesperança do que manipular cartas mortas e separá-las para o fogo? (MELVILLE, 2017, p. 88-89)

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