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O livro do desassossego

Ler Pessoa é como se estivesse o tempo inteiro a enxergar Halguém.

Reconheço a inspiração dos diários, o vocabulário fausto, as palavras inequívocas e obstinadamente talhadas para reverberar ali, naquela caixa de ressonância.

Não consigo lhe extrair mais que um sopro lacônico por resposta e, às minhas miríades convulsas de perguntas, apenas a distância.

Entretanto, poderia supor que sinto seu cheiro de angústia, sua rabugice, sua boçalidade e, por que não?, a sua ternura; sua sensibilidade grita absurdos que, talvez, só o impacto do zênite consiga adensar e absorver.

É óbvio que carrega um lamento de eras e que, simultaneamente, é um Homem Pulsante, de paradoxa Grossura Calma, que resiste e subsiste às horas do tempo infinito.

Quisera eu que a renúncia de ti conflagrasse o esquecimento, pois quero querer não querer-te e assim, quiçá, alcance a paz.

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Notas sobre ela

 

notas sobre ela

Enquanto remexia nos pequenos tesouros, encontrei a bolinha de gude que ganhei do primo Ravel; ele tinha 7 anos quando me presenteou e disse que era preu guardar pra vida toda, pois faria o mesmo.

Semana passada resolvi dar uma conferida e, como quem não quer nada, perguntei se ainda tinha a dele. Respondeu dizendo que eu era Única e me amava muito.

Acho que perdeu, rsrsrsrsrsr…

17 anos guardada ainda é pouco tempo, de todo modo, atrelei a minha ao seu nome e a inseri na lista das pequenas heranças que serão legadas algum dia.

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Hoje, estando tão saudosa, recebi esse livrinho de poesias.

Li.

Gostei.

Bastante.

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Oceano solitário

 

 

oceano

– Ela está morta? – perguntei.

– Morta? – repetiu a velha senhora de roupão. Ela pareceu ofender-se. – Acha que – disse ela, cuspindo as palavras, como se aquela fosse a única forma de me transmitir a gravidade do que estava dizendo. – Acha que uma Hempstock seria capaz de fazer algo assim tão… comum…?

– Ela está ferida – disse Ginnie Hempstock, aconchegando-me. – Tão ferida quanto pode ficar. Está tão perto da morte que poderá morrer se não fizermos algo a respeito, e rápido. – Um último abraço, e: – Agora vá.

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Nienna

Nienna

Mais poderosa do que Estë é Nienna, irmã dos féanturi, que vive sozinha. Ela conhece a dor da perda e pranteia todos os ferimentos que Arda sofreu pelos estragos provocados por Melkor. Tão imensa era a sua tristeza, à medida que a Música se desenvolvia, que seu canto se transformou em lamento bem antes do final; e o som do lamento mesclou-se aos temas do Mundo antes que ele começasse. Não chora, porém, por si mesma; e quem escutar o que ela diz, aprende a compaixão e a persistência na esperança. Sua morada fica a oeste do Oeste, nos limites do mundo; e ela raramente vem à cidade de Valimar, onde tudo é alegria. Prefere visitar a morada de Mandos, que fica mais perto da sua; e todos os que esperam em Mandos clamam por ela, pois ela traz força ao espírito e transforma a tristeza em sabedoria. As janelas de sua casa olham para fora das muralhas do mundo. (p. 19-20)

 

 

TOLKIEN, JRR. O Silmarillion. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Cem anos de solidão

E então viu o menino. Era um pedaço de carne inchada e ressecada, que todas as formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente até suas tocas pela vereda de pedras do jardim. Aureliano não conseguiu se mexer. E não porque estivesse paralisado pelo estupor, mas porque naquele instante prodigioso as chaves definitivas de Melquíades se revelaram, e viu a epígrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada no tempo e no espaço dos homens: O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas.

Em nenhum ato de sua vida Aureliano foi mais lúcido do que quando esqueceu os mortos e a dor de seus mortos e tornou a pregar as portas e as janelas com as cruzetas de Fernanda para não se deixar perturbar por nenhuma tentação do mundo, porque então sabia que nos pergaminhos de Melquíades estava escrito o seu destino. Encontrou-os intactos, entre as plantas pré-históricas e os charcos fumegantes e os insetos luminosos que haviam desterrado do quarto qualquer vestígio da passagem dos homens pela terra, e não teve serenidade para levá-los até a luz, mas ali mesmo, de pé, sem a menor dificuldade, como se tivessem sido escritos em castelhano debaixo do resplendor deslumbrante do meio-dia, começou a decifrá-los em voz alta. Era a história da família, escrita por Melquíades nos seus detalhes mais triviais, com cem anos de antecipação. Tinha redigido em sânscrito, que era sua língua materna, e havia cifrado os versos pares com os códigos pessoais do imperador Augusto, e os ímpares com códigos militares da Lacedemônia. A chave final que Aureliano começava a vislumbrar quando se deixou confundir pelo amor de Amaranta Úrsula, tinha sua raiz no fato de Melquíades não ter ordenado os fatos no tempo convencional dos homens, mas concentrado um século de episódios cotidianos, de maneira que todos coexistissem num mesmo instante. Fascinado pelo achado, Aureliano leu em voz alta, sem saltos, as encíclicas cantadas que o próprio Melquíades fizera Arcádio escutar, e que na realidade eram as predições de sua execução, e encontrou anunciado o nascimento da mulher mais bela do mundo que estava subindo aos céus de corpo e alma, e conheceu a origem dos gêmeos póstumos que renunciavam a decifrar os pergaminhos, não apenas por incapacidade e inconstância, mas porque suas tentativas eram prematuras. Neste ponto, impaciente por conhecer sua própria origem, Aureliano deu um salto. Então começou o vento, morno, incipiente, cheio de vozes do passado, de murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às nostalgias mais tenazes. Não o percebeu, porque naquele momento estava descobrindo os primeiros indícios de seu ser num avô concupiscente que se deixava arrastar pela frivolidade através de um páramo alucinado, à procura de uma mulher formosa que ele faria feliz. Aureliano reconheceu-os, perseguiu os caminhos ocultos de sua descendência, e encontrou o instante de sua própria concepção entre os escorpiões e as borboletas amarelas de um banheiro crepuscular, onde um peão de oficina saciava sua luxúria com uma mulher que entregava a ele por rebeldia. Estava tão absorto, que tampouco sentiu a segunda arremetida do vento, cuja potência ciclônica arrancou as portas e as janelas dos umbrais, destroçou o telhado da varanda oriental e desenraizou os alicerces. Só então descobriu que Amaranta Úrsula não era sua irmã e sim sua tia, e que Francis Drake tinha assaltado Riohacha somente para que eles pudessem se buscar pelos labirintos mais intrincados do sangue, até engendrarem o animal mitológico que haveria de pôr fim à estirpe. Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando conforme vivia esse instante, profetizando a si mesmo no ato de decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra (MARQUES, 2014, p. 444-446).

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Citações – 1984

“Julia não tinha o menor interesse nas diversas ramificações da doutrina do Partido. Sempre que ele começava a falar nos princípios do Socing, do duplipensamento, da mutabilidade do passado e da recusa da realidade objetiva, e a usar palavras em Novafala, ela se entediava, ficava confusa e dizia que nunca prestava atenção naquele tipo de coisa. Se era sabido que tudo aquilo não passava de besteira, por que se preocupar com o assunto? Ela sabia quando aplaudir e quando vaiar e isso era tudo o que precisava saber. Se ele insistisse em discutir aquelas coisas, ela tinha o hábito desconcertante de cair no sono. Era uma dessas pessoas que conseguem adormecer a qualquer momento e em qualquer posição. Conversando com ela, ele percebeu como era fácil exibir um ar de ortodoxia sem fazer a menor ideia do que fosse “ortodoxia”. De certa maneira, a visão de mundo do Partido era adotada com maior convicção entre as pessoas incapazes de entendê-la. Essas pessoas podiam ser levadas a acreditar nas violações mais flagrantes da realidade porque nunca entendiam por inteiro a enormidade do que se solicitava delas, e não estavam suficientemente interessadas nos acontecimentos públicos para perceber o que se passava. Graças ao fato de não entenderem, conservavam a saúde mental. Limitavam-se a engolir tudo, e o que engoliam não lhes fazia mal, porque não deixava nenhum resíduo, exatamente como um grão de milho passa pelo corpo de uma ave sem ser digerido” (ORWELL, 2009, p. 186-187).

Pensava tratar-se de um romance distópico, todavia, leio só cotidiano.

#NãoVaiTerGolpe

 

* ORWELL, G. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Pura Poesia

Ainda não terminei a leitura de Assim Falava Zaratustra, todavia, não pude me furtar de vir aqui e transcrever, literalmente, todo um trecho que considero lindo e fausto sobremaneira, simplesmente Pura Poesia, e que trata da visão nietzscheana acerca da aceitação do Eterno Retorno, da reconciliação com o  destino.

Do grande anelo

“Ó minha alma, ensinei-te a dizer ‘hoje’, como se diz ‘um dia’ ou ‘noutro tempo’, e a dançar acima de tudo quanto se chama ‘aqui’, ‘acolá’, ou ‘além’.

Ó minha alma, limpei todos os teus recantos; afastei de ti os pós, as aranhas e a obscuridade.

Ó minha alma, lavei-te do mesquinho pudor e da virtude meticulosa, e te persuadi a ofereceres-te nua ante os olhos do sol.

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Citações: Assim Falava Zaratustra

Zaratustra600

“Calmo é o fundo do meu mar; quem poderia suspeitar que ele contém monstros risonhos?” (NIETZSCHE, 2008, p.160).

“Estado chama-se o mais frio dos monstros frios. É frio também quando mente com aquela mentira rasteira que sai de sua boca: ‘Eu, o Estado, sou o Povo'” (NIETZSCHE, 2008, p. 74).

“De tudo quanto se escreve, agrada-me apenas o que alguém escreve com o próprio sangue. Escreve com sangue; e aprenderás que sangue é espírito” (NIETZSCHE, 2008, p. 59).