Resenha: Um teto todo seu

um teto todo seu

Tudo o que eu poderia fazer seria dar-lhes a minha opinião sob um ponto de vista mais singelo: uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção; e isso, como vocês verão, deixa sem solução o grande problema da verdadeira natureza da ficção. Esquivei-me da obrigação de chegar a uma conclusão sobre esses dois assuntos – mulheres e ficção permanecem, no que me concerne, problemas não resolvidos. Mas, em compensação, vou fazer o possível para mostrar como formei essa opinião acerca do espaço próprio e do dinheiro. Vou revelar a vocês o mais completa e livremente que puder a linha de raciocínio que me levou a isso. Talvez se eu revelar as ideias, os preconceitos que se escondem atrás desse argumento, vocês vejam que têm alguma relação com mulheres e ficção. De qualquer forma, quando o assunto é controverso – e qualquer questão que envolve sexo é -, não se pode esperar a verdade. Só se pode mostrar como se chegou a ter a opinião que se tem. Só se pode dar ao público a oportunidade de tirar as próprias conclusões ao observar as limitações, os preconceitos, as idiossincrasias do palestrante. É mais provável que a ficção contenha mais verdade do que o fato. Por isso, o que proponho, com todas as liberdades e as licenças de uma escritora, é contar a história dos dois dias que precederam minha vinda até aqui… (WOOLF, 2014, p. 12-13).

Então…

Acho que já disse que gosto da VW por conta do geniozinho dela; e se, por falha nossa, não mencionei antes, reitero, topo com esse satanazinho que conhecemos por VW porque a criatura faz perguntas e perguntas e pesa a mão na balança do equilíbrio. Todavia, HOJE, não tô com muita paciência, principalmente, porque perdi tempo procurando Cenas londrinas quando indisfarçadamente a belezinha encontrava-se bailando na minha cara. Sim, eu bu-fei de raiva.

Perdi tempo caçando Cenas londrinas só para lembrar de uma citação, bendito seja Gutenberg!, grafada na página 50, que na época considerei meio esnobe da parte da querida, mas que agora me serve como uma luva de pelica, mesmo sem nunca ter experimentado uma: “Mas ao cruzarmos a gasta soleira, refletimos que Carlyle com água quente encanada não teria sido Carlyle; e mrs. Carlyle sem insetos para matar seria uma mulher diferente da que conhecemos”. Ela estava a visitar as casas de ilustres escritores da sua terrinha quando largou essa pérola.

Pronto! Por ora, guardemos esse curinga na manga.

Já em relação a Um teto todo seu, bem… a figura foi convidada a palestrar em duas faculdades exclusivas para mulheres e, como nunca foi do seu feitio falar inadvertidamente, nos brindou com uma dose borbulhante de criatividade ao misturar invenção e realidade para abordar o tema – mulheres e ficção – que mais tarde resultaria neste ensaio. “Segura essa marimba!”

Por sinal, vocês já ouviram a doçura melodiosa de uma marimba? Para além dos brinquedos de criança, que instrumento sensacional! Inclusive, num domingo desses da vida estando a zapear os canais, eis que deparo-me, no programa Prelúdio, com a apresentação encantadora da Anna Layza. Vale a pena conferir (link no final da resenha).

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Resenha: A crise das esquerdas

A crise das esquerdas

Didático.

Em 2017 tive a chance de me acercar do cotidiano de um certo jovem, conhecido por Hans Castorp, e, para além do vislumbre de uma vida um tanto quanto peculiar, também fui agraciada com a presença do seu inestimável “amigo” Settembrini. Contudo, confesso que fiquei muito chateada naquela ocasião, e ainda hoje, pela infelicidade de não poder estar ali, naquele universo, fruindo com todas aquelas discussões na presença desse personagem – ícone dos ideais de fraternidade e arauto das liberdades – que calhou de ficar tatuado na matéria dos meus sonhos. Pensar em Settembrini é resgatar a vontade de tangibilizar a utopia, os mestres, os sonhos e os sonhadores, quer sejam eles de histórias reais ou não.

Mas, qual é mesmo a relação entre Settembrini e A crise das esquerdas? Então, no livro A montanha mágica, Settembrini resgata Hans do terreno movediço da alienação e o faz acordar para os absurdos da vida, de uma forma muito simples, didática eu diria, e é exatamente nesse ponto que aproveito para martelar o prego – é preciso simplicidade e clareza na exposição dos fatos para que as pessoas compreendam o que se passa ao seu redor. Isto não significa subestimar a capacidade de ninguém, muito pelo contrário, usar de objetividade e clareza significa ter uma real vontade de entendimento por todos, ou pela maior parte do público, e, fatídica e paradoxalmente, isso não é do interesse de muita gente nas posições de poder.

Nessas benditas posições ocorre algo que Chomsky (2011) sinaliza por técnicas de marginalização, cujo objetivo “é fazer as coisas simples se tornarem difíceis”, distantes, talvez até inalcançáveis, de modo a garantir os interesses próprios no jogo da dominação, o que vem a casar suavemente com o que Foucault (1997) qualifica por microfísica do poder; trocando em miúdos, aquele tipo de linguagem que certos intelectuais utilizam, aquele tipo de embromação que os políticos vomitam diariamente, aquele tipo de hieróglifo médico na receita, dentre uma série de outros eventos que te afastam do simples contexto da compreensão para inseri-lo nos calabouços da alienação.

Essencialmente, A crise das esquerdas pretende mostrar – de forma bem DIDÁTICA – que as esquerdas se afastaram do trabalho de base que é o lado a lado com o povo, que é se fazer entender de forma clara e simples, que é resgatar os valores essenciais da social-democracia na busca pela igualdade e liberdade, que é lutar junto, pois enquanto o povo não compreender, de fato, o que está acontecendo e continuar a seguir como massa de manobra, o resultado será apenas esse, crise na democracia e uma perda robusta de direitos. Logo, ou acordamos ou continuaremos a tomar porretada na cabeça e repetindo o desatino do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, feito autômatos, sem sequer possuir um mínimo de privilégios tal qual àqueles criados por Huxley ou Orwell (se é que existia algum privilégio em todo aquele transe).

Outra coisa, acabei de qualificar o livro por didático, não foi? Bom, é que me parece muito justo qualificar um livro por didático quando ele transmite uma mensagem que eu compreendo, ainda mais quando traz em seu bojo referências sérias como Norberto Bobbio, Boaventura de Sousa Santos, Maquiavel, Pierre Bourdieu, Antonio Gramsci, Marx & Engels, Hannah Arendt, dentre outros. Mas a questão é: será que se a grande maioria da população o lesse, o entenderia com tranquilidade ou estará este livro também direcionado intencionalmente, ou não?, a públicos específicos?

Sim, porque se estamos a falar sobre os motivos pelos quais a esquerda anda em crise e aventamos, dentre as tantas possibilidades, o distanciamento do povo, lhes pergunto: será que esse mesmo povo consegue entender, com exatidão, ao que se presta esse livro? Ou será que seguimos na manutenção da boa e velha linha de pensamento da classe dominante (tipo o que acontece dentro das universidades quando os acadêmicos escrevem seus artigos e tcc’s citando uns professores aqui, outros teóricos ali, citando uns aos outros e outros tantos daqueles mesmos círculos viciados para a perpetuação de uma hegemonia científica, cujo interesse maior é aquele que será revertido em cifras quando conseguirem ingressar nas residências e mestrados e doutorados, ops, quero dizer, na melhoria das condições de vida da humanidade…)? E olha que, não raro, grande parte da população nem sabe que tais estudos existem, muito menos sabem acessar tais informações.

E, é bem verdade, citei a comunidade acadêmica só para fugir  dos exemplos corriqueiros no que tange à dominação nossa de cada dia, afinal, já conhecemos o nível do trabalho “de ponta” que nos é oportunizado pelos impolutos “donos” dos veículos de comunicação e pela classe política de plantão de sempre (leia tudo num só fôlego, assim não perderá muito tempo acessando tais imagens no seu disco rígido).

Só mais uma coisa, o livro é composto por entrevistas e ensaios perfazendo um total de seis capítulos. Além do direito de discordar de diversos pontos salientados, você também pode se dar ao luxo de tentar descobrir, assim como muitos têm feito, onde foram parar as escritoras e filósofas e pensadoras desse país, porque no livro, não há nem sinal de poeira.

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Resenha: A montanha

A montanha

O ACIDENTE de Byrd. A prisão de Frankie. A cena humilhante com Lark. Eu não conseguia afastar a sensação de que estava sangrando, de que deixava para trás um rastro escarlate pegajoso enquanto subia as rochas caídas que me levariam até o pequeno prado de pinheiros flexíveis e, depois, à trilha coberta de vegetação que daria no Pico do Anjo. (LANSENS, 2017, p. 24)

Essa bem que poderia ser só mais uma historinha pra boi dormir, entretanto, calhou de visgar… Wolf, seu pai Frankie e Byrd são os nomes que nos inquietam. Trocando em miúdos, um pai porra louca, uma família como referência para a desestruturação, a ausência do melhor amigo, bode total no amor e uma ideia fixa martelando no juízo, mandar o mundo pros diabos no dia do seu aniversário de 18 anos saltando de um lugar chamado Pico do Anjo, no alto da montanha.

Se você nunca desejou sumir quando a coisa ficou escrota – PARABÉNS, FERA! – você é um puta miserávi, só que pra maioria da galera, de carne e osso, não é bem assim que a banda toca e, verdade seja dita, se até Pedro duvidou dos parangolé três vezes, então, fazer o quê, né? “Que atire a primeira pedra”, blá blá blá, blá blá blá…

Contudo, e é preciso ser justa, existe uma parada que nos acompanha desde a gênese do primeiro ser humano vivo nesse planeta – o instinto de sobrevivência – e o interessante nisso tudo é que, por mais que você se revolte com a ordem das estrelas nas galáxias, o mapa da mina tá todinho lá, intrínseco, cravado, codificado no seu dna, e num esplendor tal de inteligência, fazendo com que cada minúscula célula trabalhe para dar conta do recado; e é de uma natureza apoteótica vislumbrar a inteligência com a qual cada pequena partícula do nosso organismo se integra para resolver os micro e macro problemas que aparecem. A unicidade da criação é perfeita, já os nossos gênios…

Outra coisa, seguem em fila indiana mais três nomes que carecem de ser citados, Nola, Vonn e Bridget; as mocinhas que comporão, junto com o nosso bom moço, o quarteto dos perdidos na montanha; e cês já devem estar com o final da história na ponta da língua e é isso mesmo, mas, insisto, vale a pena topar a leitura nem que seja pra sintonizar na vibe de como se tornar um serumaninho melhor, afinal, sempre é tempo, toda hora é hora e você pode ser muito mais do que um punhado de habilidades desenvolvidas para constar no currículo lattes. Fica esperto!

Quanto a citar dicas de como segurar o rojão na hora que o bicho pega, siiiiiim…, tem isso também. Com uma ressalva! Sabe aquele lance de fazer fogo com dois nacos de madeira (saudadezinha A Guerra do Fogo)? Pois, bem esse, esse mesmo, não vai rolar aqui!! 🙂

Beijos!

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Resenha: O Aberto – o homem e o animal

O aberto

A pergunta que não quer calar: a quantas anda o nosso lado animal? Ele existe, subsiste ou faz birra? Tais questionamentos podem até parecer perda de tempo, mas se por um lado controlamos as emoções ao ponto de sermos hipócritas, quer dizer, comedidos nas relações afim de evitarmos os estranhamentos (talvez até processos), por outro, a ciência busca meios para a criação de robôs cada vez mais “sensíveis”; se por um lado domesticamos os ímpetos e arroubos de violência dos nossos animais de quatro patas, por outro, há quem assassine a companheira que dorme ao lado ou o cidadão que grita a falência dos padrões sociais de heteronormatividade; se por um lado não conseguimos lidar com o preço da realidade sem o intermédio dos ansiolíticos, por outro, entregamos o lombo temperado e anestesiado às amarras do capitalismo, assim, quem sabe?, rolam imagens psicodélicas de fundo enquanto se dá o esquartejamento e, posterior, depósito de nossos cérebros na sarjeta.

Aonde foi que, nesse curto-circuito, nos perdemos? Aonde foi que, nesta sanha desenfreada por controle, controle e mais controle, perdemos o equilíbrio? E por que foi mesmo que surgiu essa necessidade de estrangular o lado animal? Será que não precisamos mais dessa bússola, dessa força avassaladora, ancestral, vulcânica, que nos arranca dos recônditos e nos cospe ao mundo sem máscaras, deixando-nos expostos, nus, vulneráveis, quiçá imbatíveis, ou será que estamos lidando muito bem com seu ostracismo ao ponto de prescindirmos dela? Nessa encruzilhada, ou melhor, nesse abismo, exatamente aqui, deixo-os em silêncio, em companhia apenas dos seus pensamentos, na esperança franca de que possam lidar com o eu inconsciente/instinto/não-aberto ou seja lá qual for a referência que melhor lhes aprouver.

No livro, vinte capítulos e um só panorama: limites entre o homem e o animal. Por entre conflitos abissais, céus e terras, caos e adormecimentos, Agambem faz o papel de advogado do diabo e, como bem antecede Joel Birman, trilha caminhos concisos e pautados “pela grande economia no uso das palavras”.  A nós, não cabe a inércia, ao contrário, somos excruciados pelas perguntas que se atropelam e que se não forem feitas no intervalo do nosso tempo desperto, que a tumba as acolha e encerre.

A seguir, apenas alguns vestígios das suas conexões.

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Kafka, Foucault e o power point

kafka foucault e o power point

ALGUÉM CERTAMENTE HAVIA CALUNIADO JOSEF K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum” – eis que assim começa o emblemático imbróglio de Kakfa e o que deveria estar circunscrito ao, inextinguível, universo da literatura, notoriamente troça de nossas caras a véu suspenso, e a contento, pois que a justiça, esta senhora que outrora fora esculpida com ares de prudência e equilíbrio, agora acusa baseada em inalienáveis slides de power point – as provas são prescindíveis – e retóricas refinadas fazendo da canhestra realidade fonte de suplícios que julgávamos sepultados.

Se você leu Kafka julgando tratar-se de absurdos de uma escrita brilhante, penso que seja justo chutar o seu castelinho de areia; mas, por favor, não me leve a mal e não me tome por carrasca, afinal, quem articula sobre a tecnologia política do corpo e se embrenha na microfísica do poder são aqueles que vestem pele de cordeiro e se aconchegam nas minúcias do Golpe. Ademais, qualquer semelhança com a realidade NÃO É mera coincidência

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Resenha: Cenas Londrinas

cenas londrinas

Deixe-me ver, um sexteto afiado ou um punhado de palavras cortantes? Sinceramente? Tanto faz, pois em se tratando de Virginia Woolf  a expectativa é sempre compensadora. E tanto mais importa se estamos a cruzar as casas de grandes homens, as abadias e catedrais da cidade ou o retrato de uma londrina; a única coisa que conta, de verdade, é sacar o quê que esse abalo sísmico tem a dizer.

Desembaraçada e trigueira, a temos na compilação dos cinco ensaios que sacodem a poeira de Londres, a sua cachaça mais querida. Lépida e faceira, a aspergimos no lar de Mrs. Crowe, a única crônica do pedaço.

Lamento, contudo, a abusada obtusidade da publicação, 94 páginas. Isso sim, é de causar contragosto; logo, se me permitem, deixo um conselho breve, sorvam cada gole do chá das cinco com calma, com entrega, e, bom… , sem pressa, pois esta será, talvez, a melhor forma de desfrutar.

P.S.// Deixo-os com uma única citação milimetricamente pulsante (algo dificílimo para mim, rsrsrs… ). E, por favor, apertem o play.

O baratinho de ler VW é que ela não manda recado, diz na lata; é cunhada daquele mesmo grafite que registra e sublinha o papel de uma vez só. Se tentar apagar, vai borrar, mas mesmo assim vai ficar foda.

Curioos@s, aquele abraço!

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Resenha: A Senhora de Wildfell Hall

a senhora de wildfell hall

Me pergunto se fosse o caso de ter sido apresentada à Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, O Morro dos Ventos Uivantes, Jane Eyre e A Senhora de Wildfell Hall sem suas capas originais e sem informações acerca de quem as escreveu, apenas o texto cru, se teria condições de discernir, com precisão, sobre qual era a obra de determinada autora e sobre os seus aspectos intrínsecos. Provavelmente, teria dificuldades e digo isto porque tanto Jane Austen quanto as Irmãs Brontë carregam em seu dna uma quase obrigatoriedade de preciosismo moral e ético na construção de suas protagonistas.

Sim, por meio de quaisquer que sejam os romances destas inglesas, você sempre encontrará histórias muito bem elaboradas e alicerçadas nos moldes da dignidade e da respeitabilidade, uma cobrança sumariamente excessiva, mas tacitamente destinada a poucos grupos; e, sinceramente, o indulto é pesado, pois às mulheres eram relegados os papéis de espinha dorsal, ao passo que ao homem a figura do homúnculo, plenamente disponível ao mundo sensorial, imerso nos elásticos limites da “excentricidade” – bebidas, jogos, relações extraconjugais, falcatruas, mau-caratismo, etcetera, etcetera – e com as bênçãos da sociedade, é claro… A boa e velha sociedade que vive de flertar com a hipocrisia.

Na Inglaterra da era vitoriana, onde imperavam as obtusas diferenças entre as classes sociais, o papel da mulher se restringia à manutenção do lar, cuidado dos filhos e total submissão e dependência ao marido. As personagens da grande maioria desses romances, delicadas ou, aparentemente, muito duras, tendem a encarar as situações com uma resignada força e não se abatem mediante a escalada dos montes ou montanhas de desafios, ao contrário, os encaram com uma fibra descomunal e que lhes agrega muito. Logicamente que as histórias giram em torno do amor e dos ardis e conquistas que tanto lhes floreiam o percurso, mas afinal é isso que também encaramos, né?, pois em qualquer que seja a época, tudo sempre gira em torno do amor, seja lá qual for, por quem for ou pelo quê for…

Por que ler Anne Brontë, afinal? Ora, porque em seu cerne, sim, ao vasculharmos todas as suas camadas e mais camadas de pesadas páginas, lhe capturamos o grito que sai rasgando as cordas vocais e que ecoa aos quatro cantos do mundo a inquietude, o anseio por mudanças e pela soberana necessidade de encarar os enfrentamentos da vida, independentemente dos castradores potenciais femininos, vulgo patriarcado, religiosidade e algemas sociais.

Só mais uma coisa, quer seja como Helen Graham ou Sra. Huntingdon, a moradora de Wildfell Hall é uma daquelas criaturas que você tem vontade de dar um abraço apertado e dizer “vai, minha querida, seja feliz”. E, bom… , se rolar aquele velho link entre a leitura e a lembrança da série Downton Abbey, relaxe, pois ambas conseguiram ser muito felizes na construção e condução dos seus trabalhos.

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Resenha: Fatos e falácias da economia

fatos e falácias da economia

O que você tende a fazer quando é confrontado por ideias diferentes das suas? Consegue ir até ao fim da conversa, da leitura, do vídeo ou o que quer que seja ou simplesmente aciona as suas versões Talião, justiceiro, vingador e cai pra cima? Você consegue equilibrar a balança antes de emitir um depoimento que considere justo, mesmo que seja à respeito daqueles pontos-de-vista que te incomodam e que consideras discrepante?

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RESENHA: O SEGREDO DE HEAP HOUSE

O Segredo de Heap House

A tia Rosamud, verdade seja dita, era velha, ranzinza e meio calombenta, mas, sobretudo, costumava gritar, acusar e dar beliscões por qualquer motivo. Ela distribuía, por bem ou por mal, biscoitos antiflatulência para todos nós, meninos. Sempre conseguia nos encurralar na escada e fazer perguntas sobre a história da família; caso errássemos a resposta, confundindo um primo de segundo grau com um de terceiro grau, por exemplo, ela se tornava impaciente e desagradável, pegava sua maçaneta pessoal (Alice Higgs) e batia na nossa cabeça. Seu. Menino. Burro. Aquilo doía. Demais da conta. De tanto sapecar, socar e surrar jovens cabeças com sua maçaneta pessoal, tia Rosamud criou uma má reputação para as maçanetas em geral, fazendo com que muitos de nós as girássemos com cautela por causa das más lembranças com aqueles objetos. Portanto, não foi surpresa o fato de nós, colegas de estudo, termos ficado especialmente desconfiados naquele dia. Muitos não teriam ficado tristes se a maçaneta nunca mais tivesse sido encontrada, e muitos outros pensavam aterrorizados em toda a atividade subsequente caso ela reaparecesse. Mas, sem dúvida, todos nós sentíamos compaixão por Rosamud e sua perda, sabendo que titia já havia perdido algo antes. (CAREY, 2017, p. 15-16)

E foi a partir de então que me vi compelida a gravar áudios e whatsappar Juliana – a prima -, afinal, alguém precisava se acumpliciar da minha expectativa. Expectativa esta que crescia tal qual o mar de cúmulos. Cúmulos que cresciam tal qual a fome de poder e perpetuação do clã dos Iremonger. Perpetuação que carecia de novos membros e, para tal, cooptaria Lucy Pennant. Lucy Pennant que, destemidamente, chafurdaria pelas numerosas lareiras e escadas, escadas e lareiras, até topar com a curioosidade de Clod. E Clod, catalisador oficial do som surround by todos os objetos da quimera feliz, quero dizer, casa feliz, cuidará para que não nos faltem detalhes pitorescos e, mefiticamente, divertidos.

Detalhe, é uma trilogia, portanto, trate de pregar a bunda no sofá com outras leituras até que saia o volume 2. Se bem que… você pode reler.

Ou ainda, quem sabe?, voltar a lidar com aqueles artigos chatientíficos que lhes jogarão na cara, tão logo recomecem as aulas.

Já sei! Você pode montar a árvore genealógica da sua família pra ver se consegue ultrapassar a de Clod. Ou então, ahhhhhhh, se vira!

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Resenha: Os Excluídos da História – Operários, mulheres e prisioneiros

Os excluídos da história operários, mulheres e prisioneiros

Há coisa de quinze dias estive com minha tia numa loja de móveis e eletrodomésticos. Enquanto aguardava o vendedor finalizar o pedido, via um jovem negro descarregando as mercadorias do caminhão de entregas, juntamente com seu companheiro de serviço.

Ele recebeu, acomodou no ombro esquerdo, um colchão de casal, depois adentrou a loja e seguiu – até ao final do imenso galpão que a constituía – encarou o primeiro lance de escadas, fez a manobra (era uma escada do tipo ziguezague) e subiu o segundo lance.

Desceu, recebeu em torno de três televisores (afinal, se é preciso subir tantas escadas, porquê não pegar logo vários de uma vez e diminuir as subidas, né? Assim pensaram e fizeram), acomodou no ombro esquerdo, e seguiu.

Recebeu mais um televisor, dessa vez com três caixas de liquidificador em cima, opsss uma caiu, o ajudante pegou do chão, reposicionou, e lá se foi outra vez.

Viro pro atendente e pergunto:

– Não tem um elevador que ele possa utilizar ou um sistema de alavancas?

– Não.

– Que absurdo… E se uma mercadoria cair e avariar, ele tem que pagar?

– Normalmente, sim.

– Ninguém se incomoda com o fato de não haver elevadores? Nem os cliente falam nada?

– Não!

– Gente, como assim ninguém se importa? Seu chefe não enxerga o perigo que isso representa? Em pouco tempo esse homem vai ter algum tipo de lesão na coluna, dificilmente vai conseguir o benefício do inss (ainda mais agora com o governo vetando tudo), se vacilar, em pouco tempo perde até o emprego, e aí, como sobrevive? Depois abrem a boca pra falar que grande parte dos processos empilhados são da justiça do trabalho. Levar em consideração as condições de trabalho, não levam, mas se utilizam do argumento dos processos para dizer que um trabalhador com carteira assinada é caro para a empresa e que isso justifica a reforma trabalhista escrota que estão nos empurrando goela abaixo.

Ao que ele emenda o soneto da pior maneira possível:

– É por isso que nossas mães dizem que a gente tem que estudar, né?

Calei a boca. Peguei a nota e, para pagar, minha tia e eu tivemos que subir o inferno das escadas… Sendo que atrás já vinha, novamente, o rapaz.

Nem imagino o peso de todas aquelas mercadorias, mas a conta não fica muito difícil, principalmente, se olharmos por outro ângulo: tal tarefa repetida várias vezes ao dia, seis (ou sete, vai saber!) dias por semana, ao longo de meses e anos. Resultado? Impacto na coluna vertebral e uma série de outras possibilidades. Mas não para por aí, como que esse homem vai suportar os necessários 49 anos de trabalho e contribuição, segundo escravizam, ohhh, ditam as novas regras da Previdência? Com quê qualidade de vida ele vai alcançar a velhice? Aliás, não precisamos nem ir tão longe, apenas pensemos juntos, será que ele consegue, ao final de um dia de batalha, sonhar com um futuro melhor, com uma mudança de emprego ou será que nem pode se permitir a esse luxo porque, afinal, precisa levar o pão para dentro de casa? Quais perspectivas de mudança de vida podem alcançar essa pessoa? A meritocracia diz que ele está no caminho certo, que ele enquadra-se nas estatísticas (só lembrando que estatísticas também mentem…) de crescimento do país etcetera etcetera etcetera

Contudo, os noticiários fazem questão de evidenciar, diariamente, que a base populacional do país está invertendo e que, dentro de pouco tempo, a previdência não dará conta de pagar as aposentadorias de todos. Esquecem-se apenas de frisar que, para tal, o governo ilegítimo pretende onerar apenas o povo, pois os salários da corja do colarinho branco seguem “muito bem, obrigado!”, a corrupção não devolve grana usurpada, taxar as grandes fortunas não entra no script e transparência na gestão dos recursos é igual a unicórnio, ninguém sabe ninguém viu.

No mais, e voltando para o lance da loja, acompanhei o esforço hercúleo do carregador durante os quinze ou vinte minutos em que lá estive. Vi como brotavam, freneticamente, as gotas de suor, vi que sua tarefa – absurdamente necessária – não era valorizada, que a sua saúde e integridade física não eram levadas em consideração, que o dono da loja não ficaria pobre em instalar minimamente um sistema de alavancas para levantar as mercadorias, afinal, além do depósito ser no primeiro andar e a loja no térreo, também não havia elevadores para quem quer que fosse, funcionários, idosos, pessoas com deficiência, enfim, quem quer que fosse olhar, comprar e pagar pelas mercadorias, pois os caixas, também, ficavam no primeiro andar.

E outra, quando o mocinho abordou a questão “do estudar”, será que de fato essa educação tinha elementos de sociologia, filosofia, história, dentre outros aspectos que não o da competitividade, o “eu em primeiro lugar”, o mercado que prevaleça porque eu quero o meu dinheiro no bolso e o resto que se foda? É… Por essas e outras que os novos projetos do governo versam pela Escola Sem Partido, pelas Reformas da Previdência e Trabalhista, pelo extermínio da saúde pública e pela manutenção do estado de “Bem-Estar Social do Capital”, afinal, ele é quem diz o preço de tudo e, pelo visto, de todos.

O que tudo isso tem a ver com o livro? Bom, o título já rasga o verbo sem delicadeza, o único detalhe é que todas as passagens aí contidas são de operários, mulheres e prisioneiros que viveram numa França do século XIX, e SINTO MUITÍSSIMO INFORMAR, mas a sarna tacanha da EXPLORAÇÃO que parasita os homens através dos tempos NÃO PASSOU e RESISTE se metamorfoseando e os vampirizando.

Ademais, optei por trabalhá-lo seguindo as próprias modulações da autora – que o divide em três blocos – assim, neste primeiro momento, veremos a Parte 1 – Operários – que se configura por trazer, essencialmente, os seguintes elementos: trabalho autônomo, luta e rendição às máquinas, migrações temporárias aos centros urbanos, migrações permanentes, estabelecimento e formação da população parisense e, por fim, o grande evento do Primeiro de Maio de 1890.

E, sim, fui compelida a pedir ao Manifesto do Partido Comunista que começasse os trabalhos porque… Ora, porque era inevitável.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e então aprendiz – em suma, opressores e oprimidos sempre estiveram em oposição, travando luta ininterrupta, ora velada, ora aberta, uma luta que sempre terminou ou com a reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou com o ocaso conjunto das classes em luta. […]

O modo de funcionamento da indústria, até então feudal ou corporativo, já não dava conta de atender à necessidade que crescia com os novos mercados. Substitui-o a manufatura. Os mestres de corporação foram desalojados pelo estamento médio industrial; a divisão do trabalho entre as diferentes corporações desapareceu perante a divisão do trabalho no interior das próprias oficinas.

Os mercados, no entanto, seguiram crescendo cada vez mais, tanto quanto a demanda. A própria manufatura já não bastava. Foi quando o vapor e as máquinas revolucionaram a produção industrial. O lugar da manufatura foi ocupado pela grande indústria moderna; o do estamento médio industrial, pelos milionários da indústria, os chefes de exércitos industriais inteiros, os modernos burgueses.

A grande indústria produziu o mercado mundial, que a descoberta da América preparara. O mercado mundial deu ao comércio, à navegação marítima e às comunicações por terra entre os países desenvolvimento incomensurável. E esse desenvolvimento, por sua vez, retroagiu sobre a expansão industrial; na mesma medida em que indústria, comércio, navegação marítima e estradas de ferro se expandiam, desenvolvia-se também a burguesia, multiplicavam-se seus capitais, e ela empurrou para segundo plano todas as classes oriundas da Idade Média. (MARX e ENGELS, 2012, p. 44-46)

“PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNAM-SE!”

De tempos em tempo, os trabalhadores vencem, mas apenas de forma efêmera. A verdadeira consequência de suas lutas não é a vitória imediata, mas a unificação cada vez mais abrangente dos trabalhadores. Estimula-a o crescimento dos meios de comunicação, que, criados pela grande indústria, põem os trabalhadores das mais diversas partes em contato uns com os outros. Basta, porém, esse contato para centralizar numa luta nacional, numa luta de classes, as muitas lutas locais, todas elas de caráter idêntico. Mas toda luta de classes é uma luta política. (MARX e ENGELS, 2012, p. 54)

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Resenha: A Bagaceira

A Bagaceira

“Bagaceira – 1. pátio das fazendas onde são depositados os detritos da cana moída; 2. o próprio ambiente (moral) dos engenhos: moleque de bagaceira, por exemplo.”

“Bagaceiro – diz-se do trabalhador que transporta o bagaço de dentro do engenho para a bagaceira.”

“Bagaço – detrito de cana moída.”

Existem histórias que nos distraem profundamente e existem histórias que nos consomem genuinamente. Lançada em 1928 (com enfoque na seca de 1898), esta é do tipo que te consome porque traz consigo retratos de uma realidade não muito distante, aliás, é exatamente por abordar uma realidade não tão distante que parece cair num esquecimento propício e conveniente. Propício, porque sempre existiu (e existe) quem lucrou (e lucre) em cima da exploração do outro; conveniente, porque tanto mais esquecida, mais fácil de repetir os manejos, ainda que com outra cara e envergadura.

Histórias que metem o dedo na ferida tendem a retratar situações de abuso de poder, predominância da força, truculência, injustiça, desigualdades, corrupção, todavia, e apesar de tudo, também existe um melaço de amor pra contemporizar, afinal, sendo o mundo feito de opostos, nada resistiria de pé não fosse a natureza do amor, da resiliência, bem como o encantamento dos crepúsculos e a certeza das auroras.

A Bagaceira tem tudo isso e mais um quê de melancolia, um quê de saudade do que não existiu. É bem verdade que, em diversos momentos, bem se poderia chamar por A Desgraceira, mas tendo em vista os esforços do autor em se mostrar comedido e, ao mesmo tempo fiel às cicatrizes do tempo, aceitaremos de bom grado e sem profanação o seu parto, esquecimento e reaparição (SIM, estas palavras não foram grafadas à toa).

E, pra não dizer que não falo de amor, dedico os versos do poeta Zé da Luz ao que poderia ter sido e não foi.

Ai Se Sêsse

Se um dia nois se gostasse. 

Se um dia nois se queresse. 

Se nois dois se empareasse.

Se juntim nois dois vivesse. 

Se juntim nois dois morasse. 

Se juntim nois drumisse.

Se juntim nois dois morresse

Se pro céu nois assubisse. 

Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice

E se eu me arriminasse. 

E tu cum eu inssistisse pra que eu me arresolvesse. 

E a minha faca puxasse. 

E o bucho do céu furasse. 

Tarvês que nois dois ficasse

Tarvês que nois dois caisse

E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse.

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Resenha: Bartleby, o escrivão

Bartleby, o escrivão

Há coisa de 15 dias estive lendo O Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa, e acabei cedendo a um impulso nada produtivo – e que, particularmente, não gosto – de deixá-lo de lado. Muito em virtude de algumas associações que vieram à tona e que me exigiram uma energia extra para a qual não havia reserva; mas também porque considerei o momento inoportuno para a aceitação de um Pessoa tão resoluto pela infelicidade, descrença e isenção para com a vida, por isso, me reservei à condição de voltar a ele depois.

Então, eis que recebo alguns livros e resolvo encarar Bartleby, o escrivão, e, meio que voltei numa aula de biofísica, quando o professor explicava sobre a energia de arranque necessária para que os elétrons pudessem alçar determinadas posições na camada de valência. Mas, à propósito, quem é Bartleby? E o que ele tem a ver com tudo isso? Bom… Potencial de ionização, sincronicidade, teoria do caos, teoria da conspiração ou quaisquer que sejam as possíveis definições para dar cabo da frequência dos eventos e da energia que os comporta, o fato é que não existe nenhuma ponta solta nesse universo que possa se dar ao luxo de pretender passar incólume aos prazeres e às dores do mundo. Sinto muito, mas NÃO há essa possibilidade. Não há! Quanto ao que fica… Aí nos cabe o Tempo, sempre soberano.

O rumor era o seguinte: Bartleby, fora um funcionário do Departamento de Cartas Devolvidas em Washington, do qual fora subitamente afastado por uma mudança na administração. Quando penso nesse rumor, mal posso exprimir as emoções que me envolvem. Cartas mortas! Não soa como homens mortos? Imaginem um homem que, por natureza e infortúnio, é propenso a uma insidiosa desesperança. Alguma atividade pode ser mais apropriada para aguçar essa desesperança do que manipular cartas mortas e separá-las para o fogo? (MELVILLE, 2017, p. 88-89)

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Resenha: Quarto de Despejo

Quarto de Despejo

18 de julho Levantei as 7 horas. Alegre e contente. Depois que veio os aborrecimentos. Fui no deposito receber… 60 cruzeiros. Passei no Arnaldo. Comprei pão, leite, paguei o que devia e reservei dinheiro para comprar Licor de Cacau para Vera Eunice. Cheguei no inferno. Abri a porta e pus os meninos para fora. A D. Rosa, assim que viu o meu filho José Carlos começou impricar com ele. Não queria que o menino passasse perto do barracão dela. Saiu com um pau para espancá-lo. Uma mulher de 48 anos brigar com criança! As vezes eu saio, ela vem até a minha janela e joga o vaso de fezes nas crianças. Quando eu retorno, encontro os travesseiros sujos e as crianças fétidas. Ela odeia-me. Diz que sou preferida pelos homens bonitos e distintos. E ganho mais dinheiro do que ela.

Surgio a D. Cecilia. Veio repreender os meus filhos. Lhe joguei uma direta, ela retirou-se. Eu disse:

– Tem mulher que diz saber criar os filhos, mas algumas tem filhos na cadeia classificado como mau elemento.

Ela retirou-se. Veio a indolente Maria dos Anjos. Eu disse:

– Eu estava discutindo com a nota, já começou a chegar os trocos. Os centavos. Eu não vou na porta de ninguem. É vocês quem vem na minha porta aborrecer-me. Eu nunca chinguei filhos de ninguem, nunca fui na porta de vocês reclamar contra seus filhos. Não pensa que eles são santos. É que eu tolero crianças.

Veio a D. Silvia reclamar contra os meus filhos. Que os meus filhos são mal iducados. Mas eu não encontro defeito nas crianças. Nem nos meus nem nos dela. Sei que criança não nasce com senso. Quando falo com uma criança lhe dirijo palavras agradaveis. O que aborrece-me é elas vir na minha porta para perturbar a minha escassa tranquilidade interior (…) Mesmo elas aborrecendo-me, eu escrevo. Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu carater. A unica coisa que não existe na favela é solidariedade.

Veio o peixeiro Senhor Antonio Lira e deu-me uns peixes. Vou fazer o almoço. As mulheres sairam, deixou-me em paz por hoje. Elas já deram o espetaculo. A minha porta atualmente é theatro. Todas crianças jogam pedras, mas os meus filhos são os bodes expiatorios. Elas alude que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas tem marido. Mas, são obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por associações de caridade.

Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantê-los. E elas, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas.

Não casei e não estou descontente. Os que preferiu me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horriveis.

Tem a Maria José, mais conhecida por Zefa, que reside no barracão da Rua B numero 9. É uma alcoolatra. Quando está gestante bebe demais. E as crianças nascem e morrem antes dos doze meses. Ela odeia-me porque os meus filhos vingam e por eu ter radio. Um dia ela pediu-me o radio emprestado. Disse-lhe que não podia emprestar. Que ela não tinha filhos, podia trabalhar e comprar. Mas, é sabido que pessoas que são dadas ao vicio da embriaguês não compram nada. Nem roupas. Os ebrios não prosperam. Ela as vezes joga agua nos meus filhos. Ela alude que eu não expanco os meus filhos. Não sou dada a violência. O José Carlos disse:

– Não fique triste mamãe! Nossa Senhora Aparecida há de ter dó da senhora. Quando eu crescer eu compro uma casa de tijolos para a senhora.

Fui catar papel e permaneci fora de casa uma hora. Quando retornei vi varias pessoas as margens do rio. É que lá estava um senhor inconciente pelo alcool e os homens indolentes da favela lhe vasculhavam os bolsos. Roubaram o dinheiro e rasgaram os documentos (…) É 5 horas. Agora que o Senhor Heitor ligou a luz! E eu, vou lavar as crianças para irem para o leito, porque eu preciso sair. Preciso dinheiro para pagar a luz. Aqui é assim. A gente não gasta luz, mas precisa pagar. Saí e fui catar papel. Andava depressa porque já era tarde. Encontrei uma senhora. Ia maldizendo sua vida conjugal. Observei mas não disse nada. (…) Amarrei os sacos, puis as latas que catei no outro saco e vim para casa. Quando cheguei liguei o radio para saber as horas. Era 23,55. Esquentei comida, li, despi-me e depois deitei. O sono surgiu logo (JESUS, 2014, p. 15-17).

“Você tem fome de quê?”

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Resenha: A Metamorfose

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Algumas palavras têm o poder de me inculcar e “metamorfose” é uma delas. Lembro que em 2003.2, em meio a uma aula de Direito e Ética em Relações Públicas, o professor sentenciou algo do tipo “nesta profissão, vocês terão que se metamorfosear muitas vezes”, e, tais palavras desceram dubiamente atropeladas goela abaixo, com gosto de vinagre, porque deixavam de ter uma conotação positiva para adquirir ares de negatividade (de sorte que nessa época eu andava lendo Operação Cavalo de Troia e, vez por outra, trocávamos algumas ideias acerca do livro; fora este o salvo-conduto para suportar o final do período).

Já em 2013.2, em meio a uma aula de Patologia, cujo assunto configurava displasia e a sua relação de mudança na célula – um estado de desarrumação na forma e na estrutura, devido a alterações no conteúdo do dna – o professor, numa tentativa de facilitar o entendimento, aludiu “é algo que mexe com a sua intimidade, que mexe com a sua essência” e, de fato, aquilo me marcou, pois apesar de estarmos num contexto negativo, aquelas palavras fluíram aguerridas; encontrava-me numa fase de mudanças, de modo que a ideia de algo que extrapolava o imanente e transcendia me capturou… Eram tantas questões… Mas, na peneira, duas sobressaíam, migrara de humanas para as ciências biológicas e, paulatinamente, estava a me testar, além dos cabelos (tinha descoberto há pouco tempo a rosácea e, aliado ao desejo de manter a pele o mais isenta possível de qualquer química, quer fosse oriunda de produtos para o rosto ou madeixas, imperava a necessidade de aceitação dos cabelos naturais; tudo isso me fez cortá-los totalmente baixinho… Lá estava eu no sexto mês dessa aventura da qual jamais me arrependi!).

Nenhuma grande mudança virá de bandeja, tampouco acontecerá sem esforço. Ousar tornar-se aquilo que você escolheu para si é o primeiro grande passo para tudo na vida.

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Resenha: A Redoma de Vidro

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Desconfio de muita felicidade.

Ninguém é feliz o tempo todo, logo, quando vejo pessoas excessivamente felizes, primeiro, fico cansada, porque existe todo um dispêndio de energia pra dar conta desse tipo papel, segundo, fico curiosa, literalmente, pra conhecer todas as conexões possíveis que permitam que tal criatura consiga se manter nesse nível de gás, afinal, a nossa bioquímica também precisa se recompor (a fisiologia explica… inclusive, os mecanismos de quem recorre aos subterfúgios…), mas definitivamente, gosto de observar a uma certa distância.

Me apraz a ideia da imperfeição. Gente perfeita sempre me dá uma sensação laboriosa de querer buscar a rachadura, o remendo, porque convenhamos, perfeição não é pra esse mundo, ou então, tô mais ultrapassada do que tudo.

Outra coisa, vão me encontrar no bloco dos que quebraram a cara e conheceram algum tipo de buraco negro; taí outra coisa que, mesmo sem conhecer direito, preciso agradecer a existência, pois é preciso haver um espaço onde o nada possa existir e, nesse ínterim, consiga abarcar o todo outra vez. O lado bom desse bloco é que, provavelmente, você respeitará as lições que tirou, ahhhh se vai… O lado ruim é que você nunca mais voltará a ser a mesma pessoa de antes e isso, talvez, lhe tire um certo brilho do olhar, talvez, revele sua natureza tão objetiva na arte da sobrevivência – nem que seja só pra saber o que vem depois da linha do horizonte – que, talvez, seja algo peculiarmente cruel de enxergar no espelho, mas no final das contas, descobrimos que sempre é possível espremer a mente/alma/ou/sei/lá/o/quê ao ponto de novas conexões surgirem para lhe mostrar que a resiliência existe e que se pode usar tal capacidade até o último instante, até o limite cabal das forças (e desejar que haja gratidão e ternura por essa nova consciência. E que as missões tenham sido consideradas porque, sinceramente, se existir vida após a morte, vou virar a desgraça se tiver que voltar com o karma de bater na mesma tecla outra vez, aaaaah se vou…).

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Resenha: Mulheres, Raça e Classe

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Estava numa roda de conversa, durante o #ocupaUneb contra a #pecdofimdomundo, quando uma das convidadas começou a falar sobre a situação das mulheres na política e no mundo e, mais especificamente, sobre as mulheres negras. Dentre as tantas palavras, oportunamente, colocadas e bem ditas – que me trazia a sensação calorosa de estar no lugar certo e na hora certa fruindo aquelas reflexões – pude guardar algo que não terá uma transcrição devidamente condizente com o que foi dito, mas que essencialmente falava o seguinte “se você saiu do beco, tenha orgulho do beco, enalteça o beco e leve o beco para onde você for. O beco faz parte da sua história e foi o povo do beco que, de alguma forma, te impulsionou a chegar aonde você chegou ou almeja ir”.

Lembro que só pensava no quanto eu gostaria que as milhares de pessoas dos becos mundo afora sentissem a importância de se valorizarem e valorizarem suas histórias; da importância de erguerem suas cabeças e seguirem firmes, e em paz com as suas consciências, porque o fato de morarem onde moram ou da condição social na qual estão, ou estiveram, inseridas não tem que ser o fator determinante de suas vidas, haja vista que tem muita gente bem nascida e aprumada nas riquezas vitalícias da roda da fortuna e que vivem aí, entrando e saindo de listas intermináveis de corrupção.

Mas, como nem tudo é possível e neste momento só posso falar por mim, sigo levando o meu beco comigo e tentando compreender o que ele tem a dizer e a pontuar na vida dos que convivem ao meu redor, afinal, nesse mundo tão grande, curioosamente, existem histórias de beco muito parecidas para se ouvir e contar.

Foi assim que esta fortaleza de mulher, vulgo Angela Davis, chegou chegando… Mó satisfação!! Quanto ao livro, bom, temos 13 capítulos a versar sobre temas que perpassam pelo legado da escravidão à perspectiva de obsolescência das tarefas domésticas, além de necessários, e atemporais, tópicos sobre a origem dos direitos das mulheres, sufrágio feminino, estupro, racismo e uma série de outras demandas que nos parecem beeeem atuais. Obviamente que nem tudo será pontuado porque, além de espantar vocês, certamente, eu não daria conta de bancar os direitos autorais, então, é isso.

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Resenha: O processo

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– Como um cão – disse K.

Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele (p. 228).

Isso me remete ao fragmento de uma conversa que tive com uma prima e que, à época, estagiava num abatedouro. Ela dizia: “os bois, quando seguem para o abate, sabem o que está para acontecer; eles seguem firmes e no seu olhar se enxerga uma tal dignidade que não dá pra ficar encarando”.

Assim sendo, diria que K. estava mais prum Nelore do que prum cão, pois os cães, até o último momento, seguem com os humanos acreditando que receberão algum carinho, alguma recompensa, mas esse gado que vai pro abate, nesse tipo de situação, segue altaneiro e resignado, tal qual K. o fez.

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