Resenha: A Metamorfose

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Algumas palavras têm o poder de me inculcar e “metamorfose” é uma delas. Lembro que em 2003.2, em meio a uma aula de Direito e Ética em Relações Públicas, o professor sentenciou algo do tipo “nesta profissão, vocês terão que se metamorfosear muitas vezes”, e, tais palavras desceram dubiamente atropeladas goela abaixo, com gosto de vinagre, porque deixavam de ter uma conotação positiva para adquirir ares de negatividade (de sorte que nessa época eu andava lendo Operação Cavalo de Troia e, vez por outra, trocávamos algumas ideias acerca do livro; fora este o salvo-conduto para suportar o final do período).

Já em 2013.2, em meio a uma aula de Patologia, cujo assunto configurava displasia e a sua relação de mudança na célula – um estado de desarrumação na forma e na estrutura, devido a alterações no conteúdo do dna – o professor, numa tentativa de facilitar o entendimento, aludiu “é algo que mexe com a sua intimidade, que mexe com a sua essência” e, de fato, aquilo me marcou, pois apesar de estarmos num contexto negativo, aquelas palavras fluíram aguerridas; encontrava-me numa fase de mudanças, de modo que a ideia de algo que extrapolava o imanente e transcendia me capturou… Eram tantas questões… Mas, na peneira, duas sobressaíam, migrara de humanas para as ciências biológicas e, paulatinamente, estava a me testar, além dos cabelos (tinha descoberto há pouco tempo a rosácea e, aliado ao desejo de manter a pele o mais isenta possível de qualquer química, quer fosse oriunda de produtos para o rosto ou madeixas, imperava a necessidade de aceitação dos cabelos naturais; tudo isso me fez cortá-los totalmente baixinho… Lá estava eu no sexto mês dessa aventura da qual jamais me arrependi!).

Nenhuma grande mudança virá de bandeja, tampouco acontecerá sem esforço. Ousar tornar-se aquilo que você escolheu para si é o primeiro grande passo para tudo na vida.

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Resenha: A Redoma de Vidro

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Desconfio de muita felicidade.

Ninguém é feliz o tempo todo, logo, quando vejo pessoas excessivamente felizes, primeiro, fico cansada, porque existe todo um dispêndio de energia pra dar conta desse tipo papel, segundo, fico curiosa, literalmente, pra conhecer todas as conexões possíveis que permitam que tal criatura consiga se manter nesse nível de gás, afinal, a nossa bioquímica também precisa se recompor (a fisiologia explica… inclusive, os mecanismos de quem recorre aos subterfúgios…), mas definitivamente, gosto de observar a uma certa distância.

Me apraz a ideia da imperfeição. Gente perfeita sempre me dá uma sensação laboriosa de querer buscar a rachadura, o remendo, porque convenhamos, perfeição não é pra esse mundo, ou então, tô mais ultrapassada do que tudo.

Outra coisa, vão me encontrar no bloco dos que quebraram a cara e conheceram algum tipo de buraco negro; taí outra coisa que, mesmo sem conhecer direito, preciso agradecer a existência, pois é preciso haver um espaço onde o nada possa existir e, nesse ínterim, consiga abarcar o todo outra vez. O lado bom desse bloco é que, provavelmente, você respeitará as lições que tirou, ahhhh se vai… O lado ruim é que você nunca mais voltará a ser a mesma pessoa de antes e isso, talvez, lhe tire um certo brilho do olhar, talvez, revele sua natureza tão objetiva na arte da sobrevivência – nem que seja só pra saber o que vem depois da linha do horizonte – que, talvez, seja algo peculiarmente cruel de enxergar no espelho, mas no final das contas, descobrimos que sempre é possível espremer a mente/alma/ou/sei/lá/o/quê ao ponto de novas conexões surgirem para lhe mostrar que a resiliência existe e que se pode usar tal capacidade até o último instante, até o limite cabal das forças (e desejar que haja gratidão e ternura por essa nova consciência. E que as missões tenham sido consideradas porque, sinceramente, se existir vida após a morte, vou virar a desgraça se tiver que voltar com o karma de bater na mesma tecla outra vez, aaaaah se vou…).

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Resenha: Mulheres, Raça e Classe

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Estava numa roda de conversa, durante o #ocupaUneb contra a #pecdofimdomundo, quando uma das convidadas começou a falar sobre a situação das mulheres na política e no mundo e, mais especificamente, sobre as mulheres negras. Dentre as tantas palavras, oportunamente, colocadas e bem ditas – que me trazia a sensação calorosa de estar no lugar certo e na hora certa fruindo aquelas reflexões – pude guardar algo que não terá uma transcrição devidamente condizente com o que foi dito, mas que essencialmente falava o seguinte “se você saiu do beco, tenha orgulho do beco, enalteça o beco e leve o beco para onde você for. O beco faz parte da sua história e foi o povo do beco que, de alguma forma, te impulsionou a chegar aonde você chegou ou almeja ir”.

Lembro que só pensava no quanto eu gostaria que as milhares de pessoas dos becos mundo afora sentissem a importância de se valorizarem e valorizarem suas histórias; da importância de erguerem suas cabeças e seguirem firmes, e em paz com as suas consciências, porque o fato de morarem onde moram ou da condição social na qual estão, ou estiveram, inseridas não tem que ser o fator determinante de suas vidas, haja vista que tem muita gente bem nascida e aprumada nas riquezas vitalícias da roda da fortuna e que vivem aí, entrando e saindo de listas intermináveis de corrupção.

Mas, como nem tudo é possível e neste momento só posso falar por mim, sigo levando o meu beco comigo e tentando compreender o que ele tem a dizer e a pontuar na vida dos que convivem ao meu redor, afinal, nesse mundo tão grande, curioosamente, existem histórias de beco muito parecidas para se ouvir e contar.

Foi assim que esta fortaleza de mulher, vulgo Angela Davis, chegou chegando… Mó satisfação!! Quanto ao livro, bom, temos 13 capítulos a versar sobre temas que perpassam pelo legado da escravidão à perspectiva de obsolescência das tarefas domésticas, além de necessários, e atemporais, tópicos sobre a origem dos direitos das mulheres, sufrágio feminino, estupro, racismo e uma série de outras demandas que nos parecem beeeem atuais. Obviamente que nem tudo será pontuado porque, além de espantar vocês, certamente, eu não daria conta de bancar os direitos autorais, então, é isso.

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Resenha: O processo

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– Como um cão – disse K.

Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele (p. 228).

Isso me remete ao fragmento de uma conversa que tive com uma prima e que, à época, estagiava num abatedouro. Ela dizia: “os bois, quando seguem para o abate, sabem o que está para acontecer; eles seguem firmes e no seu olhar se enxerga uma tal dignidade que não dá pra ficar encarando”.

Assim sendo, diria que K. estava mais prum Nelore do que prum cão, pois os cães, até o último momento, seguem com os humanos acreditando que receberão algum carinho, alguma recompensa, mas esse gado que vai pro abate, nesse tipo de situação, segue altaneiro e resignado, tal qual K. o fez.

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Resenha: A Montanha Mágica

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Era manhã de natal de 2015 quando entrei no site da Cultura para comprar o livro, pois somente eles ofereciam a edição portuguesa, ademais, em todos os outros cantos o livro A Montanha Mágica encontrava-se esgotado. Chegou no dia 04/02/2016, faltando poucos dias para o meu aniversário, todavia, o semestre letivo também estava por começar, então, – JURO! – não arrisquei iniciar para ficar com o gostinho na boca e depois ser obrigada a parar. Não gosto de ler dessa forma. Esperei até 26/11/2016 e, quando estava prestes a subir a montanha, eis que um componente curricular deixava de ter sua inserção na grade letiva de 2017 para ser ofertado como curso de férias em pleno dezembro. Mais uma vez adiávamos o intento.

Um ano depois do nosso flerte, no dia 26/12/2016, pós regresso de viagem do Natal, foi que, finalmente, pude transar as ideias do Mann e conhecer a gangue da montanha, rsrsrrsrs… E foi assim que deu-se a minha saga do tempo em relação ao encontro com Hans Castorp, Joachim ZiemBen, Settembrini, Naphta, Ferge, Wehsal, Madame Chauchat e Peeperkorn, os 7 amigos de passeio, ao longo dos 7 anos de estadia, do nosso querido Hans, no Berghof, passando pelas 7 mesas da sala de jantar, e, enquanto conduzia-nos pelas suas mais inefáveis experiências no interior do quarto de número 34, ou seja, uma derivação do 7.

Escrever sobre este livro é um desafio vulgar e fugaz, pois somente a insolência poderia permitir, dadas as circunstâncias, tal empreitada dando-me condições de não levar tal tarefa tão à sério – pois nos é crível a incapacidade de fazê-lo com o devido zelo e esmero que o autor merece – e realizando-a, tão somente, com singeleza e carinho, com um franco enternecimento, como, aliás, é bastante comum à todos aqueles que dele se aproximam. Assim sendo, sigamos!!

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It was midnight in the Howling Forest.

Ai, gente, gosto tanto desse filme e o post foi tão amorosamente escrito que pedi ao querido Igor para compartilhar. Então, eis-me aqui revivendo e os presentando com The Neverending Story, by O reduto do bardo.
Beijos

O Reduto do Bardo

Boa noite, senhoras e senhores, espero que estejam tendo uma grande noite de quinta-feira (ou melhor, madrugada de sexta-feira). Finalmente, depois de um relativamente longo hiato, chegou a hora de continuar os posts sobre fantasia! Tenho que admitir que foi difícil escolher o último filme desse bloco, mas a penosa escolha foi feita e agora é hora de falar sobre um filme completamente desconhecido, que ninguém nunca assistiu ou ouviu falar, e também nunca passou na Sessão da Tarde: “A História Sem Fim” (“The Neverending Story”, 1984), dirigido pelo  alemão Wolfgang Petersen e estrelado por Barret Oliver e Noah Hathaway.

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Bastian (Barret Oliver) é um garoto que mora com o pai em um subúrbio bem comum. Como parece ser a sina de muitas crianças em uma certa idade, ele é perseguido constantemente pelos valentões da escola, que criaram o hábito de jogá-lo em grandes lixeiras. Em uma dessas perseguições, Bastian…

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Resenha: Hamlet

Hamlet

Não vou mentir, tenho um recalque desgraçado de certas cenas de filmes em que as pessoas vão andando pelas estações de ônibus, metrô, praças e sempre rola de aparecer alguém tocando um sax, um violão, uma sanfona, um pandeiro, um apito que seja. Aqui em Salvador existem, pelo menos, quatro grandes estações de transporte e eu nunca vi tal cena. Nada, nada, nem uma flauta, e isso me emputece porque a arte muda o estado de espírito das pessoas, ter acesso à arte deveria ser tão primordial quanto feijão e arroz no prato.

Vocês já me conhecem um pouco e sabem que eu não sou de ficar rasgando seda, mas antes entalhar madeira farpada (de preferência sem pregos, pois essa loucura de “eu gosto tanto de parafuso e prego” só apetece a cria da Lispector), entretanto, preciso elencar alguns aspectos relevantes: os monólogos do Hamlet são sensacionais (você precisa ler em voz alta. Aliás, eu tenho dessas loucuras com certas leituras que me soam especiais. O impacto da palavra, a voz e o seu produto na alma conformam todo um contexto que, porra, só a arte pra justificar); você vai ficar puto por não saber escrever sequer um 3.14159265359 tão bem quanto ele (mas, que se lasque esse quê de inalcançável; também podemos aceitar que escrever feito ele não nos interessa e nem é um objetivo de vida. Saber que ele existiu e fez a sua parte, e continua fazendo através do legado que deixou, já está de bom tamanho. Que nada nos limite, mas o que vier pra somar terá caminho aberto :p Agora, caso seja da sua vontade ser páreo-duro na escrita, se jogue e faça!); você vai desejar interpretar algum dos seus personagens (tenho um saudosismo dos saraus, nunca vivi, nunca estive em nenhum, mas adoraria sentir aquele clima de leituras de poesias e textos e o escambau, adoro ver isso nos filmes); você vai rir com as largadas do Horácio (que na minha cabeça é o Matheus Nachtergaele) e como, fatidicamente, nem tudo são flores,  você vai acordar pra realidade da vida com os dilemas que traz no lombo o Príncipe da Dinamarca e que, em algum grau, pode lhe remeter aos seus. Será?

Várias vezes me pego pensando coisas do tipo, Elaine, você não poderia simplesmente fazer uma resenha breve do livro, sem esses comparativos e sem todos estes paralelos? E a resposta é que, até poderia, mas a minha cachaça é essa aqui, sabe? Não tenho pressa, aliás, tenho apenas a obrigação de usar o tempo a meu favor e sentir prazer com a leitura. Ademais, sinceramente, meu interesse aqui é largar a batata quente nas mãos de todos que circulam por este espaço e, acima de qualquer coisa, trocar ideias. Isto posto, questiono se tu te indagas à respeito da razão pela qual a arte não é acessível à todos? Porquê que, juntamente com a educação (e Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro devem chorar com gosto, até hoje, em suas nuvens), ela é ministrada em migalhas, em doses homeopáticas? Porquê que, desde a vibração dos atabaques às guitarras elétricas, os capitães do mato sempre cercearam o povo com a ideia de manter a ordem (ou não)? Porquê que tu precisa passar por situações como pagar mais caro no táxi pra voltar pra casa do que no ingresso apenas para ter acesso, afinal, os teatros e casas de show são sempre longe das periferias? Porquê que grandes shows e concertos e mostras de arte só se reproduzem em, pelo menos, quatro capitais do país? Será à toa? Pois, só sei que é cômodo, só sei que é um ato político, só sei que reflete o paradoxo das heranças excludentes às quais sempre fomos relegados.

Só sei que, na minha cabeça, os museus poderiam estar, por exemplo, nas estações de transporte. A pessoa desceria de manhã na estação, já ficava ligada no frisson do que tava rolando ou não, já começava a vibrar outra energia, a viajar por entre novas ideias e conhecimentos e estímulos que poderiam funcionar até, quem sabe?, como um fiozinho de expansão dos horizontes; antes de voltar pra casa, idem. Na minha cabeça, as bibliotecas poderiam se adequar para ficar abertas 24 h como, aliás, já funciona em outros locais; tipo, pensa aí que sensacional alguma política pública que desse subsídio para que tais instituições pudessem se manter e serem mais democráticas no uso do aparato físico e estrutural por todos, de pessoas que não têm abrigo, mas que teriam a chance de varar a noite numa perspectiva diferente à pessoas que querem estar lá para pesquisar, estudar, ler, passar o tempo, enfim. Na minha cabeça, livros inteiros-pedaços-ou-frases de Cecília Meireles à Machado de Assis poderiam estar nas paredes-no-chão-ou-no-assentos públicos, grafites dos artistas do meu bairro aos Gêmeos deveriam ser cotidiano nas ruas, e não a exceção da regra. Na minha cabeça as estações, e não nos limitem aos shoppings pelo amor do sol, as praças, e todos os ambientes urbanos deveriam ter mais povo mostrando a sua arte, deveriam se constituir como um espaço mais efetivo na vida das pessoas e não ter a sua concepção de nascimento e funcionalidade tão pouco aproveitada. Na minha cabeça tanta coisa, mas na vida real a história é outra e não existem contos de graça. Saca A Vida Secreta De Walter Mitty? Pois, esse último parágrafo foi minha versão bem viajandona, mas deixe estar que já acordei de novo. Bleh…

Hamlet, meu bem, aqui vou eu!!

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