Resenha: A Metamorfose

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Algumas palavras têm o poder de me inculcar e “metamorfose” é uma delas. Lembro que em 2003.2, em meio a uma aula de Direito e Ética em Relações Públicas, o professor sentenciou algo do tipo “nesta profissão, vocês terão que se metamorfosear muitas vezes”, e, tais palavras desceram dubiamente atropeladas goela abaixo, com gosto de vinagre, porque deixavam de ter uma conotação positiva para adquirir ares de negatividade (de sorte que nessa época eu andava lendo Operação Cavalo de Troia e, vez por outra, trocávamos algumas ideias acerca do livro; fora este o salvo-conduto para suportar o final do período).

Já em 2013.2, em meio a uma aula de Patologia, cujo assunto configurava displasia e a sua relação de mudança na célula – um estado de desarrumação na forma e na estrutura, devido a alterações no conteúdo do dna – o professor, numa tentativa de facilitar o entendimento, aludiu “é algo que mexe com a sua intimidade, que mexe com a sua essência” e, de fato, aquilo me marcou, pois apesar de estarmos num contexto negativo, aquelas palavras fluíram aguerridas; encontrava-me numa fase de mudanças, de modo que a ideia de algo que extrapolava o imanente e transcendia me capturou… Eram tantas questões… Mas, na peneira, duas sobressaíam, migrara de humanas para as ciências biológicas e, paulatinamente, estava a me testar, além dos cabelos (tinha descoberto há pouco tempo a rosácea e, aliado ao desejo de manter a pele o mais isenta possível de qualquer química, quer fosse oriunda de produtos para o rosto ou madeixas, imperava a necessidade de aceitação dos cabelos naturais; tudo isso me fez cortá-los totalmente baixinho… Lá estava eu no sexto mês dessa aventura da qual jamais me arrependi!).

Nenhuma grande mudança virá de bandeja, tampouco acontecerá sem esforço. Ousar tornar-se aquilo que você escolheu para si é o primeiro grande passo para tudo na vida.

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Resenha: O processo

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– Como um cão – disse K.

Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele (p. 228).

Isso me remete ao fragmento de uma conversa que tive com uma prima e que, à época, estagiava num abatedouro. Ela dizia: “os bois, quando seguem para o abate, sabem o que está para acontecer; eles seguem firmes e no seu olhar se enxerga uma tal dignidade que não dá pra ficar encarando”.

Assim sendo, diria que K. estava mais prum Nelore do que prum cão, pois os cães, até o último momento, seguem com os humanos acreditando que receberão algum carinho, alguma recompensa, mas esse gado que vai pro abate, nesse tipo de situação, segue altaneiro e resignado, tal qual K. o fez.

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Resenha: Sejamos Todos Feministas

Sejamos Todos Feministas

Não saberei precisar a data, lembro apenas que foi no início deste ano que topei com o vídeo da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Lembro que tinha achado massa, de ter considerado a linguagem leve como um ponto positivo, pois agregava no sentido de alcançar várias pessoas, e que havia ficado interessada nos livros, mas o tempo nem sempre ajuda e, por entre uma coisa aqui e outra acolá, acabei esquecendo.

Só que outras vezes, porém, o “acaso” faz uma gracinha e você acaba se batendo exatamente com aquele objeto de desejo que havia ficado para trás. E, convenhamos, a sensação é tão gostosa quanto encontrar aquele dinheiro esquecido no bolso da calça prestes a ser lavada.

Livrinho de bolso, com 63 páginas que comportam a versão modificada da palestra, tão, mais tão gostosinho de ler, que só lamento isso – ser breve demais. Aliás, por mim, poderia ter continuação porque o grande desafio ainda reside no fato do tema não ser compreendido ou reconhecido nas atitudes e pensamentos da dona-de-casa, da mãe que sai cedo pra trabalhar e deixa seu filho na creche, da aposentada que contribui ou sustenta sua família com aquela renda,  das adolescentes que não se veem projetadas na sociedade porque sua realidade não garante perspectivas de mudança de vida, dos garotos e pais e amigos e parceiros que não se acreditam contemplados pelo tema… Enfim, o desafio é falar com o povo e para o povo.

Até porque, não faltariam questionamentos a serem esmiuçados, tipo, quais são as diferentes questões sociais enfrentadas pelas mulheres ao redor do mundo? Ou, visões acerca do feminismo na academia e nas periferias? Ou, qual a importância do feminismo nos movimentos sociais? Ou, qual o papel da educação enquanto condensadora de base dos coletivos feministas? Ou, arcabouço feminista, você conhece? Ou, qual o papel do empoderamento feminino nas militâncias jovens? Você tem noção do quanto o feminismo tem relação com as políticas públicas? Qual a relação entre escolaridade e feminicídio?… Enfim, múltiplas são as questões a serem abordadas (que podem ser pontuadas, inclusive, por qualquer um de nós), o fato é que, para além da efervescência atual ascendida pelas redes sociais, esse é um tema que ecoa aos quatro cantos do mundo e que precisa ser debatido com seriedade.

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Resenha: Tonio Kröger

Kröger.

À primeira vista, uma novela insossa. À primeira vista, mas como bem diz o ditado: “águas paradas são profundas”, então, tenhamos muito, muito cuidado com aquilo que se nos apresenta como raso, pois, na verdade, são também nessas águas que encontramos pano pra manga e, quiçá, para revoluções imanentes, cujo poder de mudança age desde a sua fonte no dna, e acaba por eclodir num potencial catártico transcendente ao exterior.

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Resenha: A Morte em Veneza

A morte em Veneza.

Recentemente, reli O Retrato de Dorian Gray e, sincronia ou não?, eis que há pouco termino a leitura de A Morte em Veneza. Apesar de serem histórias diferentes, ambas carregam um contextual parecido, abordam o homossexualismo e demonstram os diversos comportamentos das sociedades perante autor e obra.

Publicado em 1890, o romance O Retrato de Dorian Gray foi duramente criticado, censurado e visto como imoral pela sociedade vitoriana. Oscar Wilde, que foi casado, teve filhos e separou-se para viver as relações que de fato lhe apeteciam a alma, foi condenado e preso por relacionar-se com outros homens. Passa de uma carreira de sucesso estrondoso à uma vida de necessidades sem, contudo, deixar de produzir, ao contrário, ficara mais acurado e perspicaz em sua arte.

Já a novela A Morte em Veneza, lançada em 1912, que também traz um tom de autobiográfico no que tange aos desejos homossexuais do autor, não passou por esse crivo coercitivo. Se o fato de Thomas Mann ter se casado, tido seis filhos, e quem sabe?, ter-se anulado em prol da sociedade, de uma vida de aparências, favoreceu tamanha aceitação, eu não saberia explicar no momento, o fato é que me deixou com uma pulguinha atrás da orelha, até porque sabemos que a política das convenções e conveniências sociais solapam os seres humanos e não é de agora. Entretanto, o que tento observar, é que, se os artistas exprimem suas artes baseados em si e no mundo que os rodeia, também nós, podemos depreender um pouco das vossas dores partindo da leitura das suas ações, produções e comportamentos. Aonde quero chegar com isso? Bom, se havia repressão no ar e se isso castrou alguma fagulha de vida no Mann, o fato é que nem por isso ele deixou de transmiti-la ao mundo, e perceberemos isso do primeiro ao último parágrafo do livro, mas o mais interessante é que, à despeito de quaisquer julgamentos pessoais, neste caso, a sociedade parecia impulsioná-lo ao Prêmio Nobel de Literatura. Curioso esse mundo, não? Quais interesses estariam incrustados aí? Ai ai, quem me dera uma máquina do tempo para trazer certos autores aos instantes nossos e descobrir o que eles achariam desse mundo. Será que reescreveriam suas histórias? Será que as mudariam completamente? Será que estariam orgulhosos dos avanços da sociedade? Será que revolucionariam as engrenagens do estado e suas políticas públicas e de direitos humanos? Talvez estejam em outras dimensões convergindo energias construtivas para a mudança dos paradigmas e contribuindo para nossa entrada na Era de Aquário… Tantas possibilidades… Contudo, ainda que mortos, vossos legados atemporais de reflexão permanecem vivos, diria até que mais pulsantes do que nunca.

Sigamos com a obra!

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Resenha – 1984 – George Orwell

1984 George Orwell..

Algumas vezes me acredito embusteira ao chamar estes encontros de palavrinhas por resenhas. Quem vem aqui buscando detalhes sobre autor e obra, descrição completa dos personagens, resumos, etc e tal, ficará desapontado, pois não faço mais do que expor impressões acerca daquilo que, sob o meu ponto de vista, toca a alma ou indigna a razão. Além do mais, existem diversos blogs, profissionais ou não, que o fazem com tamanha precisão matemática (ou seria vestibulística? Mas, a palavra Vestibular, em Novafala, não está destinada à extinção e será substituída por Enem? Provavelmente, todavia, ainda não estamos em 2050, quando da efetivação da Novafala, inclusive o vestibular também não foi subtraído de todas as universidades/faculdades do país; e outra, 1984 não faz parte dos guias de leituras solicitados, enfim…) e que estão alinhavadamente e tacitamente disponíveis na blogosfera.

Outras tantas vezes fico pensando, vou falar o quê quando o cara já fez um romance caralhudo e me faz parecer a última sobrevivente na fila da criatividade? Então, me apego ao fato de que a vida, ou a versão de realidade de certas pessoas, zilhões de vezes, parece bem mais interessante que a nossa. Depois lembro que, ao menos nesse tempo aí, os caras não recorriam às simulações de felicidade made in photoshop ou às pílulas de realidade entorpecente, vulgo redes sociais, aí suspiro novamente e acredito que a minha insignificância não é de todo produto da nova ordem social. Seria eu, então, uma personagem da revolução de Orwell? Mais uma autômata? Calma, economizem seus tapas na cara de “acorda pra vida”, pois já me dei conta de que sou só mais uma proleta dos tempos modernos que anda com manias de fuga da realidade induzida por universos literários, graças aos céus, infindáveis. Oxalá, meu Deus, por isso!

É, né?, acho que já podemos falar sobre Winston Smith, Júlia, O’Brien … Ai ai ai, eu disse que não descreveria personagens e já estou me contradizendo? Estou pensando em algo e desacreditando ao mesmo tempo? Continuo acreditando naquele algo, mas fingindo que não. Já estou praticando o pensamento-crime, duplipensamento e ainda não sei usar a Novafala? Calma, Elaine, até o final você terá cumprido com os seus estágios de Aprendizado, Compreensão e Aceitação do raciocínio orwelliano.

Por hora, sigamos com as impressões

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Citações – 1984

“Julia não tinha o menor interesse nas diversas ramificações da doutrina do Partido. Sempre que ele começava a falar nos princípios do Socing, do duplipensamento, da mutabilidade do passado e da recusa da realidade objetiva, e a usar palavras em Novafala, ela se entediava, ficava confusa e dizia que nunca prestava atenção naquele tipo de coisa. Se era sabido que tudo aquilo não passava de besteira, por que se preocupar com o assunto? Ela sabia quando aplaudir e quando vaiar e isso era tudo o que precisava saber. Se ele insistisse em discutir aquelas coisas, ela tinha o hábito desconcertante de cair no sono. Era uma dessas pessoas que conseguem adormecer a qualquer momento e em qualquer posição. Conversando com ela, ele percebeu como era fácil exibir um ar de ortodoxia sem fazer a menor ideia do que fosse “ortodoxia”. De certa maneira, a visão de mundo do Partido era adotada com maior convicção entre as pessoas incapazes de entendê-la. Essas pessoas podiam ser levadas a acreditar nas violações mais flagrantes da realidade porque nunca entendiam por inteiro a enormidade do que se solicitava delas, e não estavam suficientemente interessadas nos acontecimentos públicos para perceber o que se passava. Graças ao fato de não entenderem, conservavam a saúde mental. Limitavam-se a engolir tudo, e o que engoliam não lhes fazia mal, porque não deixava nenhum resíduo, exatamente como um grão de milho passa pelo corpo de uma ave sem ser digerido” (ORWELL, 2009, p. 186-187).

Pensava tratar-se de um romance distópico, todavia, leio só cotidiano.

#NãoVaiTerGolpe

 

* ORWELL, G. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.