Resenha: A crise das esquerdas

A crise das esquerdas

Didático.

Em 2017 tive a chance de me acercar do cotidiano de um certo jovem, conhecido por Hans Castorp, e, para além do vislumbre de uma vida um tanto quanto peculiar, também fui agraciada com a presença do seu inestimável “amigo” Settembrini. Contudo, confesso que fiquei muito chateada naquela ocasião, e ainda hoje, pela infelicidade de não poder estar ali, naquele universo, fruindo com todas aquelas discussões na presença desse personagem – ícone dos ideais de fraternidade e arauto das liberdades – que calhou de ficar tatuado na matéria dos meus sonhos. Pensar em Settembrini é resgatar a vontade de tangibilizar a utopia, os mestres, os sonhos e os sonhadores, quer sejam eles de histórias reais ou não.

Mas, qual é mesmo a relação entre Settembrini e A crise das esquerdas? Então, no livro A montanha mágica, Settembrini resgata Hans do terreno movediço da alienação e o faz acordar para os absurdos da vida, de uma forma muito simples, didática eu diria, e é exatamente nesse ponto que aproveito para martelar o prego – é preciso simplicidade e clareza na exposição dos fatos para que as pessoas compreendam o que se passa ao seu redor. Isto não significa subestimar a capacidade de ninguém, muito pelo contrário, usar de objetividade e clareza significa ter uma real vontade de entendimento por todos, ou pela maior parte do público, e, fatídica e paradoxalmente, isso não é do interesse de muita gente nas posições de poder.

Nessas benditas posições ocorre algo que Chomsky (2011) sinaliza por técnicas de marginalização, cujo objetivo “é fazer as coisas simples se tornarem difíceis”, distantes, talvez até inalcançáveis, de modo a garantir os interesses próprios no jogo da dominação, o que vem a casar suavemente com o que Foucault (1997) qualifica por microfísica do poder; trocando em miúdos, aquele tipo de linguagem que certos intelectuais utilizam, aquele tipo de embromação que os políticos vomitam diariamente, aquele tipo de hieróglifo médico na receita, dentre uma série de outros eventos que te afastam do simples contexto da compreensão para inseri-lo nos calabouços da alienação.

Essencialmente, A crise das esquerdas pretende mostrar – de forma bem DIDÁTICA – que as esquerdas se afastaram do trabalho de base que é o lado a lado com o povo, que é se fazer entender de forma clara e simples, que é resgatar os valores essenciais da social-democracia na busca pela igualdade e liberdade, que é lutar junto, pois enquanto o povo não compreender, de fato, o que está acontecendo e continuar a seguir como massa de manobra, o resultado será apenas esse, crise na democracia e uma perda robusta de direitos. Logo, ou acordamos ou continuaremos a tomar porretada na cabeça e repetindo o desatino do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, feito autômatos, sem sequer possuir um mínimo de privilégios tal qual àqueles criados por Huxley ou Orwell (se é que existia algum privilégio em todo aquele transe).

Outra coisa, acabei de qualificar o livro por didático, não foi? Bom, é que me parece muito justo qualificar um livro por didático quando ele transmite uma mensagem que eu compreendo, ainda mais quando traz em seu bojo referências sérias como Norberto Bobbio, Boaventura de Sousa Santos, Maquiavel, Pierre Bourdieu, Antonio Gramsci, Marx & Engels, Hannah Arendt, dentre outros. Mas a questão é: será que se a grande maioria da população o lesse, o entenderia com tranquilidade ou estará este livro também direcionado intencionalmente, ou não?, a públicos específicos?

Sim, porque se estamos a falar sobre os motivos pelos quais a esquerda anda em crise e aventamos, dentre as tantas possibilidades, o distanciamento do povo, lhes pergunto: será que esse mesmo povo consegue entender, com exatidão, ao que se presta esse livro? Ou será que seguimos na manutenção da boa e velha linha de pensamento da classe dominante (tipo o que acontece dentro das universidades quando os acadêmicos escrevem seus artigos e tcc’s citando uns professores aqui, outros teóricos ali, citando uns aos outros e outros tantos daqueles mesmos círculos viciados para a perpetuação de uma hegemonia científica, cujo interesse maior é aquele que será revertido em cifras quando conseguirem ingressar nas residências e mestrados e doutorados, ops, quero dizer, na melhoria das condições de vida da humanidade…)? E olha que, não raro, grande parte da população nem sabe que tais estudos existem, muito menos sabem acessar tais informações.

E, é bem verdade, citei a comunidade acadêmica só para fugir  dos exemplos corriqueiros no que tange à dominação nossa de cada dia, afinal, já conhecemos o nível do trabalho “de ponta” que nos é oportunizado pelos impolutos “donos” dos veículos de comunicação e pela classe política de plantão de sempre (leia tudo num só fôlego, assim não perderá muito tempo acessando tais imagens no seu disco rígido).

Só mais uma coisa, o livro é composto por entrevistas e ensaios perfazendo um total de seis capítulos. Além do direito de discordar de diversos pontos salientados, você também pode se dar ao luxo de tentar descobrir, assim como muitos têm feito, onde foram parar as escritoras e filósofas e pensadoras desse país, porque no livro, não há nem sinal de poeira.

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Resenha: O Aberto – o homem e o animal

O aberto

A pergunta que não quer calar: a quantas anda o nosso lado animal? Ele existe, subsiste ou faz birra? Tais questionamentos podem até parecer perda de tempo, mas se por um lado controlamos as emoções ao ponto de sermos hipócritas, quer dizer, comedidos nas relações afim de evitarmos os estranhamentos (talvez até processos), por outro, a ciência busca meios para a criação de robôs cada vez mais “sensíveis”; se por um lado domesticamos os ímpetos e arroubos de violência dos nossos animais de quatro patas, por outro, há quem assassine a companheira que dorme ao lado ou o cidadão que grita a falência dos padrões sociais de heteronormatividade; se por um lado não conseguimos lidar com o preço da realidade sem o intermédio dos ansiolíticos, por outro, entregamos o lombo temperado e anestesiado às amarras do capitalismo, assim, quem sabe?, rolam imagens psicodélicas de fundo enquanto se dá o esquartejamento e, posterior, depósito de nossos cérebros na sarjeta.

Aonde foi que, nesse curto-circuito, nos perdemos? Aonde foi que, nesta sanha desenfreada por controle, controle e mais controle, perdemos o equilíbrio? E por que foi mesmo que surgiu essa necessidade de estrangular o lado animal? Será que não precisamos mais dessa bússola, dessa força avassaladora, ancestral, vulcânica, que nos arranca dos recônditos e nos cospe ao mundo sem máscaras, deixando-nos expostos, nus, vulneráveis, quiçá imbatíveis, ou será que estamos lidando muito bem com seu ostracismo ao ponto de prescindirmos dela? Nessa encruzilhada, ou melhor, nesse abismo, exatamente aqui, deixo-os em silêncio, em companhia apenas dos seus pensamentos, na esperança franca de que possam lidar com o eu inconsciente/instinto/não-aberto ou seja lá qual for a referência que melhor lhes aprouver.

No livro, vinte capítulos e um só panorama: limites entre o homem e o animal. Por entre conflitos abissais, céus e terras, caos e adormecimentos, Agambem faz o papel de advogado do diabo e, como bem antecede Joel Birman, trilha caminhos concisos e pautados “pela grande economia no uso das palavras”.  A nós, não cabe a inércia, ao contrário, somos excruciados pelas perguntas que se atropelam e que se não forem feitas no intervalo do nosso tempo desperto, que a tumba as acolha e encerre.

A seguir, apenas alguns vestígios das suas conexões.

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Resenha: O Jogo da Amarelinha

O Jogo da Amarelinha.

Dia desses lembrei de um jogo ao qual fui apresentada enquanto estava na sétima série, o Tangram. Joguinho simples, composto por sete peças de madeira e que lhe permite criar coisas incríveis, bastando apenas abusar da criatividade. Beleza! Acabei por esquecê-lo em seguida, mas tempo vai, tempo vem, marco com minha prima no shopping e nos encontramos na Saraiva. Assim que olho a primeira tenda de lançamentos, eis que, curioosamente, me deparo com uma caixa de Tangram. Fiquei com aquela sensação gostosa da surpresa, apesar de um tanto acabrunhada com o número de peças – 72. É, né?, se tudo evolui, porque não aumentar o conteúdo da caixa?

Noutro dia desses, fiquei com a proposta do Glauber Rocha no juízo “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Não, eu não quero filmar nada, cada qual no seu cada qual, mas senti vontade de suscitar o jogo e o cineasta para alcançar o Julio Cortázar no sentido de que, partindo do simples que lhe rodeia, coisas fantásticas podem surgir; claro, nem sempre algo incrível para alguns (como, por exemplo, os encantos absurdos da simplicidade ou a beleza incandescente do comum, do cotidiano, do despercebido) será compreendido igualmente por outros, mas só o fato de todos eles existirem já faz com que mais e mais luz se mantenha firme e imponente diante dos buracos negros vários que insistem em sugar estrelas, planetas e galáxias.

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