Resenha: O Aberto – o homem e o animal

O aberto

A pergunta que não quer calar: a quantas anda o nosso lado animal? Ele existe, subsiste ou faz birra? Tais questionamentos podem até parecer perda de tempo, mas se por um lado controlamos as emoções ao ponto de sermos hipócritas, quer dizer, comedidos nas relações afim de evitarmos os estranhamentos (talvez até processos), por outro, a ciência busca meios para a criação de robôs cada vez mais “sensíveis”; se por um lado domesticamos os ímpetos e arroubos de violência dos nossos animais de quatro patas, por outro, há quem assassine a companheira que dorme ao lado ou o cidadão que grita a falência dos padrões sociais de heteronormatividade; se por um lado não conseguimos lidar com o preço da realidade sem o intermédio dos ansiolíticos, por outro, entregamos o lombo temperado e anestesiado às amarras do capitalismo, assim, quem sabe?, rolam imagens psicodélicas de fundo enquanto se dá o esquartejamento e, posterior, depósito de nossos cérebros na sarjeta.

Aonde foi que, nesse curto-circuito, nos perdemos? Aonde foi que, nesta sanha desenfreada por controle, controle e mais controle, perdemos o equilíbrio? E por que foi mesmo que surgiu essa necessidade de estrangular o lado animal? Será que não precisamos mais dessa bússola, dessa força avassaladora, ancestral, vulcânica, que nos arranca dos recônditos e nos cospe ao mundo sem máscaras, deixando-nos expostos, nus, vulneráveis, quiçá imbatíveis, ou será que estamos lidando muito bem com seu ostracismo ao ponto de prescindirmos dela? Nessa encruzilhada, ou melhor, nesse abismo, exatamente aqui, deixo-os em silêncio, em companhia apenas dos seus pensamentos, na esperança franca de que possam lidar com o eu inconsciente/instinto/não-aberto ou seja lá qual for a referência que melhor lhes aprouver.

No livro, vinte capítulos e um só panorama: limites entre o homem e o animal. Por entre conflitos abissais, céus e terras, caos e adormecimentos, Agambem faz o papel de advogado do diabo e, como bem antecede Joel Birman, trilha caminhos concisos e pautados “pela grande economia no uso das palavras”.  A nós, não cabe a inércia, ao contrário, somos excruciados pelas perguntas que se atropelam e que se não forem feitas no intervalo do nosso tempo desperto, que a tumba as acolha e encerre.

A seguir, apenas alguns vestígios das suas conexões.

Continuar lendo Resenha: O Aberto – o homem e o animal

Anúncios

Resenha: O Jogo da Amarelinha

O Jogo da Amarelinha.

Dia desses lembrei de um jogo ao qual fui apresentada enquanto estava na sétima série, o Tangram. Joguinho simples, composto por sete peças de madeira e que lhe permite criar coisas incríveis, bastando apenas abusar da criatividade. Beleza! Acabei por esquecê-lo em seguida, mas tempo vai, tempo vem, marco com minha prima no shopping e nos encontramos na Saraiva. Assim que olho a primeira tenda de lançamentos, eis que, curioosamente, me deparo com uma caixa de Tangram. Fiquei com aquela sensação gostosa da surpresa, apesar de um tanto acabrunhada com o número de peças – 72. É, né?, se tudo evolui, porque não aumentar o conteúdo da caixa?

Noutro dia desses, fiquei com a proposta do Glauber Rocha no juízo “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Não, eu não quero filmar nada, cada qual no seu cada qual, mas senti vontade de suscitar o jogo e o cineasta para alcançar o Julio Cortázar no sentido de que, partindo do simples que lhe rodeia, coisas fantásticas podem surgir; claro, nem sempre algo incrível para alguns (como, por exemplo, os encantos absurdos da simplicidade ou a beleza incandescente do comum, do cotidiano, do despercebido) será compreendido igualmente por outros, mas só o fato de todos eles existirem já faz com que mais e mais luz se mantenha firme e imponente diante dos buracos negros vários que insistem em sugar estrelas, planetas e galáxias.

Continuar lendo Resenha: O Jogo da Amarelinha