Resenha: Hamlet

Hamlet

Não vou mentir, tenho um recalque desgraçado de certas cenas de filmes em que as pessoas vão andando pelas estações de ônibus, metrô, praças e sempre rola de aparecer alguém tocando um sax, um violão, uma sanfona, um pandeiro, um apito que seja. Aqui em Salvador existem, pelo menos, quatro grandes estações de transporte e eu nunca vi tal cena. Nada, nada, nem uma flauta, e isso me emputece porque a arte muda o estado de espírito das pessoas, ter acesso à arte deveria ser tão primordial quanto feijão e arroz no prato.

Vocês já me conhecem um pouco e sabem que eu não sou de ficar rasgando seda, mas antes entalhar madeira farpada (de preferência sem pregos, pois essa loucura de “eu gosto tanto de parafuso e prego” só apetece a cria da Lispector), entretanto, preciso elencar alguns aspectos relevantes: os monólogos do Hamlet são sensacionais (você precisa ler em voz alta. Aliás, eu tenho dessas loucuras com certas leituras que me soam especiais. O impacto da palavra, a voz e o seu produto na alma conformam todo um contexto que, porra, só a arte pra justificar); você vai ficar puto por não saber escrever sequer um 3.14159265359 tão bem quanto ele (mas, que se lasque esse quê de inalcançável; também podemos aceitar que escrever feito ele não nos interessa e nem é um objetivo de vida. Saber que ele existiu e fez a sua parte, e continua fazendo através do legado que deixou, já está de bom tamanho. Que nada nos limite, mas o que vier pra somar terá caminho aberto :p Agora, caso seja da sua vontade ser páreo-duro na escrita, se jogue e faça!); você vai desejar interpretar algum dos seus personagens (tenho um saudosismo dos saraus, nunca vivi, nunca estive em nenhum, mas adoraria sentir aquele clima de leituras de poesias e textos e o escambau, adoro ver isso nos filmes); você vai rir com as largadas do Horácio (que na minha cabeça é o Matheus Nachtergaele) e como, fatidicamente, nem tudo são flores,  você vai acordar pra realidade da vida com os dilemas que traz no lombo o Príncipe da Dinamarca e que, em algum grau, pode lhe remeter aos seus. Será?

Várias vezes me pego pensando coisas do tipo, Elaine, você não poderia simplesmente fazer uma resenha breve do livro, sem esses comparativos e sem todos estes paralelos? E a resposta é que, até poderia, mas a minha cachaça é essa aqui, sabe? Não tenho pressa, aliás, tenho apenas a obrigação de usar o tempo a meu favor e sentir prazer com a leitura. Ademais, sinceramente, meu interesse aqui é largar a batata quente nas mãos de todos que circulam por este espaço e, acima de qualquer coisa, trocar ideias. Isto posto, questiono se tu te indagas à respeito da razão pela qual a arte não é acessível à todos? Porquê que, juntamente com a educação (e Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro devem chorar com gosto, até hoje, em suas nuvens), ela é ministrada em migalhas, em doses homeopáticas? Porquê que, desde a vibração dos atabaques às guitarras elétricas, os capitães do mato sempre cercearam o povo com a ideia de manter a ordem (ou não)? Porquê que tu precisa passar por situações como pagar mais caro no táxi pra voltar pra casa do que no ingresso apenas para ter acesso, afinal, os teatros e casas de show são sempre longe das periferias? Porquê que grandes shows e concertos e mostras de arte só se reproduzem em, pelo menos, quatro capitais do país? Será à toa? Pois, só sei que é cômodo, só sei que é um ato político, só sei que reflete o paradoxo das heranças excludentes às quais sempre fomos relegados.

Só sei que, na minha cabeça, os museus poderiam estar, por exemplo, nas estações de transporte. A pessoa desceria de manhã na estação, já ficava ligada no frisson do que tava rolando ou não, já começava a vibrar outra energia, a viajar por entre novas ideias e conhecimentos e estímulos que poderiam funcionar até, quem sabe?, como um fiozinho de expansão dos horizontes; antes de voltar pra casa, idem. Na minha cabeça, as bibliotecas poderiam se adequar para ficar abertas 24 h como, aliás, já funciona em outros locais; tipo, pensa aí que sensacional alguma política pública que desse subsídio para que tais instituições pudessem se manter e serem mais democráticas no uso do aparato físico e estrutural por todos, de pessoas que não têm abrigo, mas que teriam a chance de varar a noite numa perspectiva diferente à pessoas que querem estar lá para pesquisar, estudar, ler, passar o tempo, enfim. Na minha cabeça, livros inteiros-pedaços-ou-frases de Cecília Meireles à Machado de Assis poderiam estar nas paredes-no-chão-ou-no-assentos públicos, grafites dos artistas do meu bairro aos Gêmeos deveriam ser cotidiano nas ruas, e não a exceção da regra. Na minha cabeça as estações, e não nos limitem aos shoppings pelo amor do sol, as praças, e todos os ambientes urbanos deveriam ter mais povo mostrando a sua arte, deveriam se constituir como um espaço mais efetivo na vida das pessoas e não ter a sua concepção de nascimento e funcionalidade tão pouco aproveitada. Na minha cabeça tanta coisa, mas na vida real a história é outra e não existem contos de graça. Saca A Vida Secreta De Walter Mitty? Pois, esse último parágrafo foi minha versão bem viajandona, mas deixe estar que já acordei de novo. Bleh…

Hamlet, meu bem, aqui vou eu!!

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