Resenha: A montanha

A montanha

O ACIDENTE de Byrd. A prisão de Frankie. A cena humilhante com Lark. Eu não conseguia afastar a sensação de que estava sangrando, de que deixava para trás um rastro escarlate pegajoso enquanto subia as rochas caídas que me levariam até o pequeno prado de pinheiros flexíveis e, depois, à trilha coberta de vegetação que daria no Pico do Anjo. (LANSENS, 2017, p. 24)

Essa bem que poderia ser só mais uma historinha pra boi dormir, entretanto, calhou de visgar… Wolf, seu pai Frankie e Byrd são os nomes que nos inquietam. Trocando em miúdos, um pai porra louca, uma família como referência para a desestruturação, a ausência do melhor amigo, bode total no amor e uma ideia fixa martelando no juízo, mandar o mundo pros diabos no dia do seu aniversário de 18 anos saltando de um lugar chamado Pico do Anjo, no alto da montanha.

Se você nunca desejou sumir quando a coisa ficou escrota – PARABÉNS, FERA! – você é um puta miserávi, só que pra maioria da galera, de carne e osso, não é bem assim que a banda toca e, verdade seja dita, se até Pedro duvidou dos parangolé três vezes, então, fazer o quê, né? “Que atire a primeira pedra”, blá blá blá, blá blá blá…

Contudo, e é preciso ser justa, existe uma parada que nos acompanha desde a gênese do primeiro ser humano vivo nesse planeta – o instinto de sobrevivência – e o interessante nisso tudo é que, por mais que você se revolte com a ordem das estrelas nas galáxias, o mapa da mina tá todinho lá, intrínseco, cravado, codificado no seu dna, e num esplendor tal de inteligência, fazendo com que cada minúscula célula trabalhe para dar conta do recado; e é de uma natureza apoteótica vislumbrar a inteligência com a qual cada pequena partícula do nosso organismo se integra para resolver os micro e macro problemas que aparecem. A unicidade da criação é perfeita, já os nossos gênios…

Outra coisa, seguem em fila indiana mais três nomes que carecem de ser citados, Nola, Vonn e Bridget; as mocinhas que comporão, junto com o nosso bom moço, o quarteto dos perdidos na montanha; e cês já devem estar com o final da história na ponta da língua e é isso mesmo, mas, insisto, vale a pena topar a leitura nem que seja pra sintonizar na vibe de como se tornar um serumaninho melhor, afinal, sempre é tempo, toda hora é hora e você pode ser muito mais do que um punhado de habilidades desenvolvidas para constar no currículo lattes. Fica esperto!

Quanto a citar dicas de como segurar o rojão na hora que o bicho pega, siiiiiim…, tem isso também. Com uma ressalva! Sabe aquele lance de fazer fogo com dois nacos de madeira (saudadezinha A Guerra do Fogo)? Pois, bem esse, esse mesmo, não vai rolar aqui!! 🙂

Beijos!

Continuar lendo Resenha: A montanha

Anúncios

Resenha: Os Excluídos da História – Operários, mulheres e prisioneiros

Os excluídos da história operários, mulheres e prisioneiros

Há coisa de quinze dias estive com minha tia numa loja de móveis e eletrodomésticos. Enquanto aguardava o vendedor finalizar o pedido, via um jovem negro descarregando as mercadorias do caminhão de entregas, juntamente com seu companheiro de serviço.

Ele recebeu, acomodou no ombro esquerdo, um colchão de casal, depois adentrou a loja e seguiu – até ao final do imenso galpão que a constituía – encarou o primeiro lance de escadas, fez a manobra (era uma escada do tipo ziguezague) e subiu o segundo lance.

Desceu, recebeu em torno de três televisores (afinal, se é preciso subir tantas escadas, porquê não pegar logo vários de uma vez e diminuir as subidas, né? Assim pensaram e fizeram), acomodou no ombro esquerdo, e seguiu.

Recebeu mais um televisor, dessa vez com três caixas de liquidificador em cima, opsss uma caiu, o ajudante pegou do chão, reposicionou, e lá se foi outra vez.

Viro pro atendente e pergunto:

– Não tem um elevador que ele possa utilizar ou um sistema de alavancas?

– Não.

– Que absurdo… E se uma mercadoria cair e avariar, ele tem que pagar?

– Normalmente, sim.

– Ninguém se incomoda com o fato de não haver elevadores? Nem os cliente falam nada?

– Não!

– Gente, como assim ninguém se importa? Seu chefe não enxerga o perigo que isso representa? Em pouco tempo esse homem vai ter algum tipo de lesão na coluna, dificilmente vai conseguir o benefício do inss (ainda mais agora com o governo vetando tudo), se vacilar, em pouco tempo perde até o emprego, e aí, como sobrevive? Depois abrem a boca pra falar que grande parte dos processos empilhados são da justiça do trabalho. Levar em consideração as condições de trabalho, não levam, mas se utilizam do argumento dos processos para dizer que um trabalhador com carteira assinada é caro para a empresa e que isso justifica a reforma trabalhista escrota que estão nos empurrando goela abaixo.

Ao que ele emenda o soneto da pior maneira possível:

– É por isso que nossas mães dizem que a gente tem que estudar, né?

Calei a boca. Peguei a nota e, para pagar, minha tia e eu tivemos que subir o inferno das escadas… Sendo que atrás já vinha, novamente, o rapaz.

Nem imagino o peso de todas aquelas mercadorias, mas a conta não fica muito difícil, principalmente, se olharmos por outro ângulo: tal tarefa repetida várias vezes ao dia, seis (ou sete, vai saber!) dias por semana, ao longo de meses e anos. Resultado? Impacto na coluna vertebral e uma série de outras possibilidades. Mas não para por aí, como que esse homem vai suportar os necessários 49 anos de trabalho e contribuição, segundo escravizam, ohhh, ditam as novas regras da Previdência? Com quê qualidade de vida ele vai alcançar a velhice? Aliás, não precisamos nem ir tão longe, apenas pensemos juntos, será que ele consegue, ao final de um dia de batalha, sonhar com um futuro melhor, com uma mudança de emprego ou será que nem pode se permitir a esse luxo porque, afinal, precisa levar o pão para dentro de casa? Quais perspectivas de mudança de vida podem alcançar essa pessoa? A meritocracia diz que ele está no caminho certo, que ele enquadra-se nas estatísticas (só lembrando que estatísticas também mentem…) de crescimento do país etcetera etcetera etcetera

Contudo, os noticiários fazem questão de evidenciar, diariamente, que a base populacional do país está invertendo e que, dentro de pouco tempo, a previdência não dará conta de pagar as aposentadorias de todos. Esquecem-se apenas de frisar que, para tal, o governo ilegítimo pretende onerar apenas o povo, pois os salários da corja do colarinho branco seguem “muito bem, obrigado!”, a corrupção não devolve grana usurpada, taxar as grandes fortunas não entra no script e transparência na gestão dos recursos é igual a unicórnio, ninguém sabe ninguém viu.

No mais, e voltando para o lance da loja, acompanhei o esforço hercúleo do carregador durante os quinze ou vinte minutos em que lá estive. Vi como brotavam, freneticamente, as gotas de suor, vi que sua tarefa – absurdamente necessária – não era valorizada, que a sua saúde e integridade física não eram levadas em consideração, que o dono da loja não ficaria pobre em instalar minimamente um sistema de alavancas para levantar as mercadorias, afinal, além do depósito ser no primeiro andar e a loja no térreo, também não havia elevadores para quem quer que fosse, funcionários, idosos, pessoas com deficiência, enfim, quem quer que fosse olhar, comprar e pagar pelas mercadorias, pois os caixas, também, ficavam no primeiro andar.

E outra, quando o mocinho abordou a questão “do estudar”, será que de fato essa educação tinha elementos de sociologia, filosofia, história, dentre outros aspectos que não o da competitividade, o “eu em primeiro lugar”, o mercado que prevaleça porque eu quero o meu dinheiro no bolso e o resto que se foda? É… Por essas e outras que os novos projetos do governo versam pela Escola Sem Partido, pelas Reformas da Previdência e Trabalhista, pelo extermínio da saúde pública e pela manutenção do estado de “Bem-Estar Social do Capital”, afinal, ele é quem diz o preço de tudo e, pelo visto, de todos.

O que tudo isso tem a ver com o livro? Bom, o título já rasga o verbo sem delicadeza, o único detalhe é que todas as passagens aí contidas são de operários, mulheres e prisioneiros que viveram numa França do século XIX, e SINTO MUITÍSSIMO INFORMAR, mas a sarna tacanha da EXPLORAÇÃO que parasita os homens através dos tempos NÃO PASSOU e RESISTE se metamorfoseando e os vampirizando.

Ademais, optei por trabalhá-lo seguindo as próprias modulações da autora – que o divide em três blocos – assim, neste primeiro momento, veremos a Parte 1 – Operários – que se configura por trazer, essencialmente, os seguintes elementos: trabalho autônomo, luta e rendição às máquinas, migrações temporárias aos centros urbanos, migrações permanentes, estabelecimento e formação da população parisense e, por fim, o grande evento do Primeiro de Maio de 1890.

E, sim, fui compelida a pedir ao Manifesto do Partido Comunista que começasse os trabalhos porque… Ora, porque era inevitável.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e então aprendiz – em suma, opressores e oprimidos sempre estiveram em oposição, travando luta ininterrupta, ora velada, ora aberta, uma luta que sempre terminou ou com a reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou com o ocaso conjunto das classes em luta. […]

O modo de funcionamento da indústria, até então feudal ou corporativo, já não dava conta de atender à necessidade que crescia com os novos mercados. Substitui-o a manufatura. Os mestres de corporação foram desalojados pelo estamento médio industrial; a divisão do trabalho entre as diferentes corporações desapareceu perante a divisão do trabalho no interior das próprias oficinas.

Os mercados, no entanto, seguiram crescendo cada vez mais, tanto quanto a demanda. A própria manufatura já não bastava. Foi quando o vapor e as máquinas revolucionaram a produção industrial. O lugar da manufatura foi ocupado pela grande indústria moderna; o do estamento médio industrial, pelos milionários da indústria, os chefes de exércitos industriais inteiros, os modernos burgueses.

A grande indústria produziu o mercado mundial, que a descoberta da América preparara. O mercado mundial deu ao comércio, à navegação marítima e às comunicações por terra entre os países desenvolvimento incomensurável. E esse desenvolvimento, por sua vez, retroagiu sobre a expansão industrial; na mesma medida em que indústria, comércio, navegação marítima e estradas de ferro se expandiam, desenvolvia-se também a burguesia, multiplicavam-se seus capitais, e ela empurrou para segundo plano todas as classes oriundas da Idade Média. (MARX e ENGELS, 2012, p. 44-46)

“PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNAM-SE!”

De tempos em tempo, os trabalhadores vencem, mas apenas de forma efêmera. A verdadeira consequência de suas lutas não é a vitória imediata, mas a unificação cada vez mais abrangente dos trabalhadores. Estimula-a o crescimento dos meios de comunicação, que, criados pela grande indústria, põem os trabalhadores das mais diversas partes em contato uns com os outros. Basta, porém, esse contato para centralizar numa luta nacional, numa luta de classes, as muitas lutas locais, todas elas de caráter idêntico. Mas toda luta de classes é uma luta política. (MARX e ENGELS, 2012, p. 54)

Continuar lendo Resenha: Os Excluídos da História – Operários, mulheres e prisioneiros

Resenha: A Bagaceira

A Bagaceira

“Bagaceira – 1. pátio das fazendas onde são depositados os detritos da cana moída; 2. o próprio ambiente (moral) dos engenhos: moleque de bagaceira, por exemplo.”

“Bagaceiro – diz-se do trabalhador que transporta o bagaço de dentro do engenho para a bagaceira.”

“Bagaço – detrito de cana moída.”

Existem histórias que nos distraem profundamente e existem histórias que nos consomem genuinamente. Lançada em 1928 (com enfoque na seca de 1898), esta é do tipo que te consome porque traz consigo retratos de uma realidade não muito distante, aliás, é exatamente por abordar uma realidade não tão distante que parece cair num esquecimento propício e conveniente. Propício, porque sempre existiu (e existe) quem lucrou (e lucre) em cima da exploração do outro; conveniente, porque tanto mais esquecida, mais fácil de repetir os manejos, ainda que com outra cara e envergadura.

Histórias que metem o dedo na ferida tendem a retratar situações de abuso de poder, predominância da força, truculência, injustiça, desigualdades, corrupção, todavia, e apesar de tudo, também existe um melaço de amor pra contemporizar, afinal, sendo o mundo feito de opostos, nada resistiria de pé não fosse a natureza do amor, da resiliência, bem como o encantamento dos crepúsculos e a certeza das auroras.

A Bagaceira tem tudo isso e mais um quê de melancolia, um quê de saudade do que não existiu. É bem verdade que, em diversos momentos, bem se poderia chamar por A Desgraceira, mas tendo em vista os esforços do autor em se mostrar comedido e, ao mesmo tempo fiel às cicatrizes do tempo, aceitaremos de bom grado e sem profanação o seu parto, esquecimento e reaparição (SIM, estas palavras não foram grafadas à toa).

E, pra não dizer que não falo de amor, dedico os versos do poeta Zé da Luz ao que poderia ter sido e não foi.

Ai Se Sêsse

Se um dia nois se gostasse. 

Se um dia nois se queresse. 

Se nois dois se empareasse.

Se juntim nois dois vivesse. 

Se juntim nois dois morasse. 

Se juntim nois drumisse.

Se juntim nois dois morresse

Se pro céu nois assubisse. 

Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice

E se eu me arriminasse. 

E tu cum eu inssistisse pra que eu me arresolvesse. 

E a minha faca puxasse. 

E o bucho do céu furasse. 

Tarvês que nois dois ficasse

Tarvês que nois dois caisse

E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse.

Continuar lendo Resenha: A Bagaceira

Resenha: Bartleby, o escrivão

Bartleby, o escrivão

Há coisa de 15 dias estive lendo O Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa, e acabei cedendo a um impulso nada produtivo – e que, particularmente, não gosto – de deixá-lo de lado. Muito em virtude de algumas associações que vieram à tona e que me exigiram uma energia extra para a qual não havia reserva; mas também porque considerei o momento inoportuno para a aceitação de um Pessoa tão resoluto pela infelicidade, descrença e isenção para com a vida, por isso, me reservei à condição de voltar a ele depois.

Então, eis que recebo alguns livros e resolvo encarar Bartleby, o escrivão, e, meio que voltei numa aula de biofísica, quando o professor explicava sobre a energia de arranque necessária para que os elétrons pudessem alçar determinadas posições na camada de valência. Mas, à propósito, quem é Bartleby? E o que ele tem a ver com tudo isso? Bom… Potencial de ionização, sincronicidade, teoria do caos, teoria da conspiração ou quaisquer que sejam as possíveis definições para dar cabo da frequência dos eventos e da energia que os comporta, o fato é que não existe nenhuma ponta solta nesse universo que possa se dar ao luxo de pretender passar incólume aos prazeres e às dores do mundo. Sinto muito, mas NÃO há essa possibilidade. Não há! Quanto ao que fica… Aí nos cabe o Tempo, sempre soberano.

O rumor era o seguinte: Bartleby, fora um funcionário do Departamento de Cartas Devolvidas em Washington, do qual fora subitamente afastado por uma mudança na administração. Quando penso nesse rumor, mal posso exprimir as emoções que me envolvem. Cartas mortas! Não soa como homens mortos? Imaginem um homem que, por natureza e infortúnio, é propenso a uma insidiosa desesperança. Alguma atividade pode ser mais apropriada para aguçar essa desesperança do que manipular cartas mortas e separá-las para o fogo? (MELVILLE, 2017, p. 88-89)

Continuar lendo Resenha: Bartleby, o escrivão

Resenha: Quarto de Despejo

Quarto de Despejo

18 de julho Levantei as 7 horas. Alegre e contente. Depois que veio os aborrecimentos. Fui no deposito receber… 60 cruzeiros. Passei no Arnaldo. Comprei pão, leite, paguei o que devia e reservei dinheiro para comprar Licor de Cacau para Vera Eunice. Cheguei no inferno. Abri a porta e pus os meninos para fora. A D. Rosa, assim que viu o meu filho José Carlos começou impricar com ele. Não queria que o menino passasse perto do barracão dela. Saiu com um pau para espancá-lo. Uma mulher de 48 anos brigar com criança! As vezes eu saio, ela vem até a minha janela e joga o vaso de fezes nas crianças. Quando eu retorno, encontro os travesseiros sujos e as crianças fétidas. Ela odeia-me. Diz que sou preferida pelos homens bonitos e distintos. E ganho mais dinheiro do que ela.

Surgio a D. Cecilia. Veio repreender os meus filhos. Lhe joguei uma direta, ela retirou-se. Eu disse:

– Tem mulher que diz saber criar os filhos, mas algumas tem filhos na cadeia classificado como mau elemento.

Ela retirou-se. Veio a indolente Maria dos Anjos. Eu disse:

– Eu estava discutindo com a nota, já começou a chegar os trocos. Os centavos. Eu não vou na porta de ninguem. É vocês quem vem na minha porta aborrecer-me. Eu nunca chinguei filhos de ninguem, nunca fui na porta de vocês reclamar contra seus filhos. Não pensa que eles são santos. É que eu tolero crianças.

Veio a D. Silvia reclamar contra os meus filhos. Que os meus filhos são mal iducados. Mas eu não encontro defeito nas crianças. Nem nos meus nem nos dela. Sei que criança não nasce com senso. Quando falo com uma criança lhe dirijo palavras agradaveis. O que aborrece-me é elas vir na minha porta para perturbar a minha escassa tranquilidade interior (…) Mesmo elas aborrecendo-me, eu escrevo. Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu carater. A unica coisa que não existe na favela é solidariedade.

Veio o peixeiro Senhor Antonio Lira e deu-me uns peixes. Vou fazer o almoço. As mulheres sairam, deixou-me em paz por hoje. Elas já deram o espetaculo. A minha porta atualmente é theatro. Todas crianças jogam pedras, mas os meus filhos são os bodes expiatorios. Elas alude que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas tem marido. Mas, são obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por associações de caridade.

Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantê-los. E elas, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas.

Não casei e não estou descontente. Os que preferiu me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horriveis.

Tem a Maria José, mais conhecida por Zefa, que reside no barracão da Rua B numero 9. É uma alcoolatra. Quando está gestante bebe demais. E as crianças nascem e morrem antes dos doze meses. Ela odeia-me porque os meus filhos vingam e por eu ter radio. Um dia ela pediu-me o radio emprestado. Disse-lhe que não podia emprestar. Que ela não tinha filhos, podia trabalhar e comprar. Mas, é sabido que pessoas que são dadas ao vicio da embriaguês não compram nada. Nem roupas. Os ebrios não prosperam. Ela as vezes joga agua nos meus filhos. Ela alude que eu não expanco os meus filhos. Não sou dada a violência. O José Carlos disse:

– Não fique triste mamãe! Nossa Senhora Aparecida há de ter dó da senhora. Quando eu crescer eu compro uma casa de tijolos para a senhora.

Fui catar papel e permaneci fora de casa uma hora. Quando retornei vi varias pessoas as margens do rio. É que lá estava um senhor inconciente pelo alcool e os homens indolentes da favela lhe vasculhavam os bolsos. Roubaram o dinheiro e rasgaram os documentos (…) É 5 horas. Agora que o Senhor Heitor ligou a luz! E eu, vou lavar as crianças para irem para o leito, porque eu preciso sair. Preciso dinheiro para pagar a luz. Aqui é assim. A gente não gasta luz, mas precisa pagar. Saí e fui catar papel. Andava depressa porque já era tarde. Encontrei uma senhora. Ia maldizendo sua vida conjugal. Observei mas não disse nada. (…) Amarrei os sacos, puis as latas que catei no outro saco e vim para casa. Quando cheguei liguei o radio para saber as horas. Era 23,55. Esquentei comida, li, despi-me e depois deitei. O sono surgiu logo (JESUS, 2014, p. 15-17).

“Você tem fome de quê?”

Continuar lendo Resenha: Quarto de Despejo

Resenha: A Metamorfose

a-metamorfose

Algumas palavras têm o poder de me inculcar e “metamorfose” é uma delas. Lembro que em 2003.2, em meio a uma aula de Direito e Ética em Relações Públicas, o professor sentenciou algo do tipo “nesta profissão, vocês terão que se metamorfosear muitas vezes”, e, tais palavras desceram dubiamente atropeladas goela abaixo, com gosto de vinagre, porque deixavam de ter uma conotação positiva para adquirir ares de negatividade (de sorte que nessa época eu andava lendo Operação Cavalo de Troia e, vez por outra, trocávamos algumas ideias acerca do livro; fora este o salvo-conduto para suportar o final do período).

Já em 2013.2, em meio a uma aula de Patologia, cujo assunto configurava displasia e a sua relação de mudança na célula – um estado de desarrumação na forma e na estrutura, devido a alterações no conteúdo do dna – o professor, numa tentativa de facilitar o entendimento, aludiu “é algo que mexe com a sua intimidade, que mexe com a sua essência” e, de fato, aquilo me marcou, pois apesar de estarmos num contexto negativo, aquelas palavras fluíram aguerridas; encontrava-me numa fase de mudanças, de modo que a ideia de algo que extrapolava o imanente e transcendia me capturou… Eram tantas questões… Mas, na peneira, duas sobressaíam, migrara de humanas para as ciências biológicas e, paulatinamente, estava a me testar, além dos cabelos (tinha descoberto há pouco tempo a rosácea e, aliado ao desejo de manter a pele o mais isenta possível de qualquer química, quer fosse oriunda de produtos para o rosto ou madeixas, imperava a necessidade de aceitação dos cabelos naturais; tudo isso me fez cortá-los totalmente baixinho… Lá estava eu no sexto mês dessa aventura da qual jamais me arrependi!).

Nenhuma grande mudança virá de bandeja, tampouco acontecerá sem esforço. Ousar tornar-se aquilo que você escolheu para si é o primeiro grande passo para tudo na vida.

Continuar lendo Resenha: A Metamorfose

Resenha: A Redoma de Vidro

a-redoma-de-vidro

Desconfio de muita felicidade.

Ninguém é feliz o tempo todo, logo, quando vejo pessoas excessivamente felizes, primeiro, fico cansada, porque existe todo um dispêndio de energia pra dar conta desse tipo papel, segundo, fico curiosa, literalmente, pra conhecer todas as conexões possíveis que permitam que tal criatura consiga se manter nesse nível de gás, afinal, a nossa bioquímica também precisa se recompor (a fisiologia explica… inclusive, os mecanismos de quem recorre aos subterfúgios…), mas definitivamente, gosto de observar a uma certa distância.

Me apraz a ideia da imperfeição. Gente perfeita sempre me dá uma sensação laboriosa de querer buscar a rachadura, o remendo, porque convenhamos, perfeição não é pra esse mundo, ou então, tô mais ultrapassada do que tudo.

Outra coisa, vão me encontrar no bloco dos que quebraram a cara e conheceram algum tipo de buraco negro; taí outra coisa que, mesmo sem conhecer direito, preciso agradecer a existência, pois é preciso haver um espaço onde o nada possa existir e, nesse ínterim, consiga abarcar o todo outra vez. O lado bom desse bloco é que, provavelmente, você respeitará as lições que tirou, ahhhh se vai… O lado ruim é que você nunca mais voltará a ser a mesma pessoa de antes e isso, talvez, lhe tire um certo brilho do olhar, talvez, revele sua natureza tão objetiva na arte da sobrevivência – nem que seja só pra saber o que vem depois da linha do horizonte – que, talvez, seja algo peculiarmente cruel de enxergar no espelho, mas no final das contas, descobrimos que sempre é possível espremer a mente/alma/ou/sei/lá/o/quê ao ponto de novas conexões surgirem para lhe mostrar que a resiliência existe e que se pode usar tal capacidade até o último instante, até o limite cabal das forças (e desejar que haja gratidão e ternura por essa nova consciência. E que as missões tenham sido consideradas porque, sinceramente, se existir vida após a morte, vou virar a desgraça se tiver que voltar com o karma de bater na mesma tecla outra vez, aaaaah se vou…).

Continuar lendo Resenha: A Redoma de Vidro

Resenha: Mulheres, Raça e Classe

mulheres-raca-e-classe

Estava numa roda de conversa, durante o #ocupaUneb contra a #pecdofimdomundo, quando uma das convidadas começou a falar sobre a situação das mulheres na política e no mundo e, mais especificamente, sobre as mulheres negras. Dentre as tantas palavras, oportunamente, colocadas e bem ditas – que me trazia a sensação calorosa de estar no lugar certo e na hora certa fruindo aquelas reflexões – pude guardar algo que não terá uma transcrição devidamente condizente com o que foi dito, mas que essencialmente falava o seguinte “se você saiu do beco, tenha orgulho do beco, enalteça o beco e leve o beco para onde você for. O beco faz parte da sua história e foi o povo do beco que, de alguma forma, te impulsionou a chegar aonde você chegou ou almeja ir”.

Lembro que só pensava no quanto eu gostaria que as milhares de pessoas dos becos mundo afora sentissem a importância de se valorizarem e valorizarem suas histórias; da importância de erguerem suas cabeças e seguirem firmes, e em paz com as suas consciências, porque o fato de morarem onde moram ou da condição social na qual estão, ou estiveram, inseridas não tem que ser o fator determinante de suas vidas, haja vista que tem muita gente bem nascida e aprumada nas riquezas vitalícias da roda da fortuna e que vivem aí, entrando e saindo de listas intermináveis de corrupção.

Mas, como nem tudo é possível e neste momento só posso falar por mim, sigo levando o meu beco comigo e tentando compreender o que ele tem a dizer e a pontuar na vida dos que convivem ao meu redor, afinal, nesse mundo tão grande, curioosamente, existem histórias de beco muito parecidas para se ouvir e contar.

Foi assim que esta fortaleza de mulher, vulgo Angela Davis, chegou chegando… Mó satisfação!! Quanto ao livro, bom, temos 13 capítulos a versar sobre temas que perpassam pelo legado da escravidão à perspectiva de obsolescência das tarefas domésticas, além de necessários, e atemporais, tópicos sobre a origem dos direitos das mulheres, sufrágio feminino, estupro, racismo e uma série de outras demandas que nos parecem beeeem atuais. Obviamente que nem tudo será pontuado porque, além de espantar vocês, certamente, eu não daria conta de bancar os direitos autorais, então, é isso.

Continuar lendo Resenha: Mulheres, Raça e Classe

Resenha: O processo

o-processo

– Como um cão – disse K.

Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele (p. 228).

Isso me remete ao fragmento de uma conversa que tive com uma prima e que, à época, estagiava num abatedouro. Ela dizia: “os bois, quando seguem para o abate, sabem o que está para acontecer; eles seguem firmes e no seu olhar se enxerga uma tal dignidade que não dá pra ficar encarando”.

Assim sendo, diria que K. estava mais prum Nelore do que prum cão, pois os cães, até o último momento, seguem com os humanos acreditando que receberão algum carinho, alguma recompensa, mas esse gado que vai pro abate, nesse tipo de situação, segue altaneiro e resignado, tal qual K. o fez.

Continuar lendo Resenha: O processo

Resenha: A Montanha Mágica

a-montanha-magica

Era manhã de natal de 2015 quando entrei no site da Cultura para comprar o livro, pois somente eles ofereciam a edição portuguesa, ademais, em todos os outros cantos o livro A Montanha Mágica encontrava-se esgotado. Chegou no dia 04/02/2016, faltando poucos dias para o meu aniversário, todavia, o semestre letivo também estava por começar, então, – JURO! – não arrisquei iniciar para ficar com o gostinho na boca e depois ser obrigada a parar. Não gosto de ler dessa forma. Esperei até 26/11/2016 e, quando estava prestes a subir a montanha, eis que um componente curricular deixava de ter sua inserção na grade letiva de 2017 para ser ofertado como curso de férias em pleno dezembro. Mais uma vez adiávamos o intento.

Um ano depois do nosso flerte, no dia 26/12/2016, pós regresso de viagem do Natal, foi que, finalmente, pude transar as ideias do Mann e conhecer a gangue da montanha, rsrsrrsrs… E foi assim que deu-se a minha saga do tempo em relação ao encontro com Hans Castorp, Joachim ZiemBen, Settembrini, Naphta, Ferge, Wehsal, Madame Chauchat e Peeperkorn, os 7 amigos de passeio, ao longo dos 7 anos de estadia, do nosso querido Hans, no Berghof, passando pelas 7 mesas da sala de jantar, e, enquanto conduzia-nos pelas suas mais inefáveis experiências no interior do quarto de número 34, ou seja, uma derivação do 7.

Escrever sobre este livro é um desafio vulgar e fugaz, pois somente a insolência poderia permitir, dadas as circunstâncias, tal empreitada dando-me condições de não levar tal tarefa tão à sério – pois nos é crível a incapacidade de fazê-lo com o devido zelo e esmero que o autor merece – e realizando-a, tão somente, com singeleza e carinho, com um franco enternecimento, como, aliás, é bastante comum à todos aqueles que dele se aproximam. Assim sendo, sigamos!!

Continuar lendo Resenha: A Montanha Mágica

Resenha: Hamlet

Hamlet

Não vou mentir, tenho um recalque desgraçado de certas cenas de filmes em que as pessoas vão andando pelas estações de ônibus, metrô, praças e sempre rola de aparecer alguém tocando um sax, um violão, uma sanfona, um pandeiro, um apito que seja. Aqui em Salvador existem, pelo menos, quatro grandes estações de transporte e eu nunca vi tal cena. Nada, nada, nem uma flauta, e isso me emputece porque a arte muda o estado de espírito das pessoas, ter acesso à arte deveria ser tão primordial quanto feijão e arroz no prato.

Vocês já me conhecem um pouco e sabem que eu não sou de ficar rasgando seda, mas antes entalhar madeira farpada (de preferência sem pregos, pois essa loucura de “eu gosto tanto de parafuso e prego” só apetece a cria da Lispector), entretanto, preciso elencar alguns aspectos relevantes: os monólogos do Hamlet são sensacionais (você precisa ler em voz alta. Aliás, eu tenho dessas loucuras com certas leituras que me soam especiais. O impacto da palavra, a voz e o seu produto na alma conformam todo um contexto que, porra, só a arte pra justificar); você vai ficar puto por não saber escrever sequer um 3.14159265359 tão bem quanto ele (mas, que se lasque esse quê de inalcançável; também podemos aceitar que escrever feito ele não nos interessa e nem é um objetivo de vida. Saber que ele existiu e fez a sua parte, e continua fazendo através do legado que deixou, já está de bom tamanho. Que nada nos limite, mas o que vier pra somar terá caminho aberto :p Agora, caso seja da sua vontade ser páreo-duro na escrita, se jogue e faça!); você vai desejar interpretar algum dos seus personagens (tenho um saudosismo dos saraus, nunca vivi, nunca estive em nenhum, mas adoraria sentir aquele clima de leituras de poesias e textos e o escambau, adoro ver isso nos filmes); você vai rir com as largadas do Horácio (que na minha cabeça é o Matheus Nachtergaele) e como, fatidicamente, nem tudo são flores,  você vai acordar pra realidade da vida com os dilemas que traz no lombo o Príncipe da Dinamarca e que, em algum grau, pode lhe remeter aos seus. Será?

Várias vezes me pego pensando coisas do tipo, Elaine, você não poderia simplesmente fazer uma resenha breve do livro, sem esses comparativos e sem todos estes paralelos? E a resposta é que, até poderia, mas a minha cachaça é essa aqui, sabe? Não tenho pressa, aliás, tenho apenas a obrigação de usar o tempo a meu favor e sentir prazer com a leitura. Ademais, sinceramente, meu interesse aqui é largar a batata quente nas mãos de todos que circulam por este espaço e, acima de qualquer coisa, trocar ideias. Isto posto, questiono se tu te indagas à respeito da razão pela qual a arte não é acessível à todos? Porquê que, juntamente com a educação (e Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro devem chorar com gosto, até hoje, em suas nuvens), ela é ministrada em migalhas, em doses homeopáticas? Porquê que, desde a vibração dos atabaques às guitarras elétricas, os capitães do mato sempre cercearam o povo com a ideia de manter a ordem (ou não)? Porquê que tu precisa passar por situações como pagar mais caro no táxi pra voltar pra casa do que no ingresso apenas para ter acesso, afinal, os teatros e casas de show são sempre longe das periferias? Porquê que grandes shows e concertos e mostras de arte só se reproduzem em, pelo menos, quatro capitais do país? Será à toa? Pois, só sei que é cômodo, só sei que é um ato político, só sei que reflete o paradoxo das heranças excludentes às quais sempre fomos relegados.

Só sei que, na minha cabeça, os museus poderiam estar, por exemplo, nas estações de transporte. A pessoa desceria de manhã na estação, já ficava ligada no frisson do que tava rolando ou não, já começava a vibrar outra energia, a viajar por entre novas ideias e conhecimentos e estímulos que poderiam funcionar até, quem sabe?, como um fiozinho de expansão dos horizontes; antes de voltar pra casa, idem. Na minha cabeça, as bibliotecas poderiam se adequar para ficar abertas 24 h como, aliás, já funciona em outros locais; tipo, pensa aí que sensacional alguma política pública que desse subsídio para que tais instituições pudessem se manter e serem mais democráticas no uso do aparato físico e estrutural por todos, de pessoas que não têm abrigo, mas que teriam a chance de varar a noite numa perspectiva diferente à pessoas que querem estar lá para pesquisar, estudar, ler, passar o tempo, enfim. Na minha cabeça, livros inteiros-pedaços-ou-frases de Cecília Meireles à Machado de Assis poderiam estar nas paredes-no-chão-ou-no-assentos públicos, grafites dos artistas do meu bairro aos Gêmeos deveriam ser cotidiano nas ruas, e não a exceção da regra. Na minha cabeça as estações, e não nos limitem aos shoppings pelo amor do sol, as praças, e todos os ambientes urbanos deveriam ter mais povo mostrando a sua arte, deveriam se constituir como um espaço mais efetivo na vida das pessoas e não ter a sua concepção de nascimento e funcionalidade tão pouco aproveitada. Na minha cabeça tanta coisa, mas na vida real a história é outra e não existem contos de graça. Saca A Vida Secreta De Walter Mitty? Pois, esse último parágrafo foi minha versão bem viajandona, mas deixe estar que já acordei de novo. Bleh…

Hamlet, meu bem, aqui vou eu!!

Continuar lendo Resenha: Hamlet

Resenha: Amor Líquido

Amor Líquido.

Vez por outra me pego pensando no modo de vida do Oliveira, sim, o do Cortázar, e, apesar de todas as nossas rusgas, confesso que me enredo um tanto naquele novelo, e é aí que reside a provocação. Explico, o fato dele não ser um devotado do lattes – apenas um amante do conhecimento e, leia-se, por gosto, por opção – não o torna um escravo do sistema, um escravo das implicações de sucesso e perfeição que a sociedade capitalista impinge à todo e qualquer indivíduo que sai do útero. Ao contrário, o conhecimento faz com que a vida dele seja o laboratório que ele precisa, enquanto ser analítico e pulsante, e suas funções laborais apenas cumprem seu papel sem o apelo de TERQUESER a mais rentável, de TERQUE manter o status quo, de TERQUE estar acima do fracasso, acima do sofrimento, acima da angústia da liberdade.

Entretanto, perceber que, apesar de toda a sua resistência, o mundo o absorveu, o catalogou num nos códigos patologizantes (pois em algum grau o amor literalmente o deixou a delirar) e o medicalizou – como aliás fazem diariamente nesse mundão contemporâneo, sofreu/chorou/não foi um sucesso/fracassou/somatizou/tratou o sintoma/a demanda vive latente, mas quem se importa?/medicaliza/se MEDICALIZOU tá tudo certo (SERÁ???? Sabemos que “o buraco é bem mais embaixo” e que “a tonga da mironga do kabuleté” diz outra coisa, mas sejamos realistas, meu caro, há aqui tantos interesses, opppppppppps, tantas respostas quanto possíveis forem e do capitalismo ao socialismo, do cartesianismo ao holismo, do jurássico ao contemporâneo, do individualismo ao coletivo, o ponto derradeiro ou o inacabado fica por sua conta, esteja à vontade, afinal, o diálogo convém mais do que nunca) – meio que dá aquela sensação de nadar nadar e morrer na praia, quando poderia ser diferente, principalmente quando você sabe que o que não falta é chão nesse planeta.

Ademais, algumas perguntas resistem; O quanto que essa obrigação de TER felicidade e SER um sucesso impacta na vida das pessoas? O quanto que essa obrigação FAZ com que as pessoas se percam ou que justifiquem os fins pelos meios? O quanto que essa obrigação truncou os valores e permitiu que chegássemos ao ponto de não mais distinguirmos nada e que, polarizando tudo e agindo autoritariamente (ainda que digam o contrário), sigamos não ouvindo o que de fato importa? Será que isso tem relação com o modus operandi desse mundo líquido?

Pois, o “só sei que nada sei“, a cada dia faz mais sentido e, não se iluda, o conhecimento não fará de você o detentor de todas as verdades ubíquas do mundo, mas te permitirá compreender alguns dos motivos pelos quais os fatos se dão, os comportamentos se sucedem, a ciclicidade dos eventos permanece e os motivos pelos quais a interação humana ainda constitui a razão da evolução nesta terra. No mais, a partir de agora, teremos a polissemia do amor, desde as relações voláteis nas redes sociais até a imperiosa dor sofrida pelos imigrantes nos países da União Europeia e do mundo, através do olhar de Zygmunt Bauman, aquele que sempre carrega os card games cruciais para cada situação. Sigamos!

Continuar lendo Resenha: Amor Líquido

Resenha: Sejamos Todos Feministas

Sejamos Todos Feministas

Não saberei precisar a data, lembro apenas que foi no início deste ano que topei com o vídeo da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Lembro que tinha achado massa, de ter considerado a linguagem leve como um ponto positivo, pois agregava no sentido de alcançar várias pessoas, e que havia ficado interessada nos livros, mas o tempo nem sempre ajuda e, por entre uma coisa aqui e outra acolá, acabei esquecendo.

Só que outras vezes, porém, o “acaso” faz uma gracinha e você acaba se batendo exatamente com aquele objeto de desejo que havia ficado para trás. E, convenhamos, a sensação é tão gostosa quanto encontrar aquele dinheiro esquecido no bolso da calça prestes a ser lavada.

Livrinho de bolso, com 63 páginas que comportam a versão modificada da palestra, tão, mais tão gostosinho de ler, que só lamento isso – ser breve demais. Aliás, por mim, poderia ter continuação porque o grande desafio ainda reside no fato do tema não ser compreendido ou reconhecido nas atitudes e pensamentos da dona-de-casa, da mãe que sai cedo pra trabalhar e deixa seu filho na creche, da aposentada que contribui ou sustenta sua família com aquela renda,  das adolescentes que não se veem projetadas na sociedade porque sua realidade não garante perspectivas de mudança de vida, dos garotos e pais e amigos e parceiros que não se acreditam contemplados pelo tema… Enfim, o desafio é falar com o povo e para o povo.

Até porque, não faltariam questionamentos a serem esmiuçados, tipo, quais são as diferentes questões sociais enfrentadas pelas mulheres ao redor do mundo? Ou, visões acerca do feminismo na academia e nas periferias? Ou, qual a importância do feminismo nos movimentos sociais? Ou, qual o papel da educação enquanto condensadora de base dos coletivos feministas? Ou, arcabouço feminista, você conhece? Ou, qual o papel do empoderamento feminino nas militâncias jovens? Você tem noção do quanto o feminismo tem relação com as políticas públicas? Qual a relação entre escolaridade e feminicídio?… Enfim, múltiplas são as questões a serem abordadas (que podem ser pontuadas, inclusive, por qualquer um de nós), o fato é que, para além da efervescência atual ascendida pelas redes sociais, esse é um tema que ecoa aos quatro cantos do mundo e que precisa ser debatido com seriedade.

Continuar lendo Resenha: Sejamos Todos Feministas

Resenha: Frankenstein

Frankenstein.

Inspirada pelas histórias de fantasmas que eram contadas por um grupo de amigos, nas reuniões promovidas em sua casa, nos chuvosos dias de 1816, Shelley pegou-se sonhando com a trama de um rapaz, um jovem cientista, que daria vida à uma criatura abominável, a abandonaria e, a partir de então, passaria a ser punido por ter ousado crer-se um Deus capaz de despertar a centelha divina em um corpo inanimado. Tal história, lançada ao público em 1818, veio a lograr muito sucesso e o interessante é que, com ela, algumas analogias ficaram eternizadas e são muito usadas até os dias de hoje, como é o caso por exemplo, da noção de personificação entre Criador e Criatura, pois Victor Frankenstein foi o cientista, ao passo que a criatura sempre fora chamado por Monstro ou Demônio, mas suas alcunhas foram embrenhadas de tal forma, que os termos acabaram se hibridizando. A outra analogia diz respeito ao Complexo de Frankenstein, muito usado para designar, na robótica – o arvorado medo dos robôs e de que eles possam acabar com a humanidade – e, na psicanálise – para abordar os aspectos da dor da rejeição, do medo, da humilhação e sua influência direta no comportamento dos indivíduos.

Continuar lendo Resenha: Frankenstein

Resenha: O Ponto de Mutação

O Ponto de Mutação.

Ainda que os cientistas consigam desbravar o cérebro humano chegando ao ponto de rastrear a origem dos pensamentos, ainda assim, existirá a intuição. Nada contra quem faz pouco caso ou desconsidera, mas para mim – Elaine – ela funciona como uma bússola e foi seguindo seu rastro que alcancei o Fritjof. Um lance curiooso em meio a tudo isto é a necessidade, vigorosa, de uso do bom e velho clichê “tudo ao seu tempo”… “Tudo ao seu tempo” porque, na verdade, lembro de um período em que via um exemplar, do meu antigo chefe, perambulando pelas prateleiras do consultório em que trabalhava e não dava bola; entretanto, quando assisti ao filme, em 2008, comecei a transar suas ideias, e, em 2011, enquanto cursava um componente de Psicologia do Desenvolvimento Humano, lembro de me haver identificado bastante, mas somente agora surgiu a oportunidade no tempo-espaço para que estreitássemos o tete-a-tete, então…

Continuar lendo Resenha: O Ponto de Mutação

Resenha: O Jogo da Amarelinha

O Jogo da Amarelinha.

Dia desses lembrei de um jogo ao qual fui apresentada enquanto estava na sétima série, o Tangram. Joguinho simples, composto por sete peças de madeira e que lhe permite criar coisas incríveis, bastando apenas abusar da criatividade. Beleza! Acabei por esquecê-lo em seguida, mas tempo vai, tempo vem, marco com minha prima no shopping e nos encontramos na Saraiva. Assim que olho a primeira tenda de lançamentos, eis que, curioosamente, me deparo com uma caixa de Tangram. Fiquei com aquela sensação gostosa da surpresa, apesar de um tanto acabrunhada com o número de peças – 72. É, né?, se tudo evolui, porque não aumentar o conteúdo da caixa?

Noutro dia desses, fiquei com a proposta do Glauber Rocha no juízo “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Não, eu não quero filmar nada, cada qual no seu cada qual, mas senti vontade de suscitar o jogo e o cineasta para alcançar o Julio Cortázar no sentido de que, partindo do simples que lhe rodeia, coisas fantásticas podem surgir; claro, nem sempre algo incrível para alguns (como, por exemplo, os encantos absurdos da simplicidade ou a beleza incandescente do comum, do cotidiano, do despercebido) será compreendido igualmente por outros, mas só o fato de todos eles existirem já faz com que mais e mais luz se mantenha firme e imponente diante dos buracos negros vários que insistem em sugar estrelas, planetas e galáxias.

Continuar lendo Resenha: O Jogo da Amarelinha

Resenha: Tonio Kröger

Kröger.

À primeira vista, uma novela insossa. À primeira vista, mas como bem diz o ditado: “águas paradas são profundas”, então, tenhamos muito, muito cuidado com aquilo que se nos apresenta como raso, pois, na verdade, são também nessas águas que encontramos pano pra manga e, quiçá, para revoluções imanentes, cujo poder de mudança age desde a sua fonte no dna, e acaba por eclodir num potencial catártico transcendente ao exterior.

Continuar lendo Resenha: Tonio Kröger

Resenha: A Morte em Veneza

A morte em Veneza.

Recentemente, reli O Retrato de Dorian Gray e, sincronia ou não?, eis que há pouco termino a leitura de A Morte em Veneza. Apesar de serem histórias diferentes, ambas carregam um contextual parecido, abordam o homossexualismo e demonstram os diversos comportamentos das sociedades perante autor e obra.

Publicado em 1890, o romance O Retrato de Dorian Gray foi duramente criticado, censurado e visto como imoral pela sociedade vitoriana. Oscar Wilde, que foi casado, teve filhos e separou-se para viver as relações que de fato lhe apeteciam a alma, foi condenado e preso por relacionar-se com outros homens. Passa de uma carreira de sucesso estrondoso à uma vida de necessidades sem, contudo, deixar de produzir, ao contrário, ficara mais acurado e perspicaz em sua arte.

Já a novela A Morte em Veneza, lançada em 1912, que também traz um tom de autobiográfico no que tange aos desejos homossexuais do autor, não passou por esse crivo coercitivo. Se o fato de Thomas Mann ter se casado, tido seis filhos, e quem sabe?, ter-se anulado em prol da sociedade, de uma vida de aparências, favoreceu tamanha aceitação, eu não saberia explicar no momento, o fato é que me deixou com uma pulguinha atrás da orelha, até porque sabemos que a política das convenções e conveniências sociais solapam os seres humanos e não é de agora. Entretanto, o que tento observar, é que, se os artistas exprimem suas artes baseados em si e no mundo que os rodeia, também nós, podemos depreender um pouco das vossas dores partindo da leitura das suas ações, produções e comportamentos. Aonde quero chegar com isso? Bom, se havia repressão no ar e se isso castrou alguma fagulha de vida no Mann, o fato é que nem por isso ele deixou de transmiti-la ao mundo, e perceberemos isso do primeiro ao último parágrafo do livro, mas o mais interessante é que, à despeito de quaisquer julgamentos pessoais, neste caso, a sociedade parecia impulsioná-lo ao Prêmio Nobel de Literatura. Curioso esse mundo, não? Quais interesses estariam incrustados aí? Ai ai, quem me dera uma máquina do tempo para trazer certos autores aos instantes nossos e descobrir o que eles achariam desse mundo. Será que reescreveriam suas histórias? Será que as mudariam completamente? Será que estariam orgulhosos dos avanços da sociedade? Será que revolucionariam as engrenagens do estado e suas políticas públicas e de direitos humanos? Talvez estejam em outras dimensões convergindo energias construtivas para a mudança dos paradigmas e contribuindo para nossa entrada na Era de Aquário… Tantas possibilidades… Contudo, ainda que mortos, vossos legados atemporais de reflexão permanecem vivos, diria até que mais pulsantes do que nunca.

Sigamos com a obra!

Continuar lendo Resenha: A Morte em Veneza

Cem anos de solidão

E então viu o menino. Era um pedaço de carne inchada e ressecada, que todas as formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente até suas tocas pela vereda de pedras do jardim. Aureliano não conseguiu se mexer. E não porque estivesse paralisado pelo estupor, mas porque naquele instante prodigioso as chaves definitivas de Melquíades se revelaram, e viu a epígrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada no tempo e no espaço dos homens: O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas.

Em nenhum ato de sua vida Aureliano foi mais lúcido do que quando esqueceu os mortos e a dor de seus mortos e tornou a pregar as portas e as janelas com as cruzetas de Fernanda para não se deixar perturbar por nenhuma tentação do mundo, porque então sabia que nos pergaminhos de Melquíades estava escrito o seu destino. Encontrou-os intactos, entre as plantas pré-históricas e os charcos fumegantes e os insetos luminosos que haviam desterrado do quarto qualquer vestígio da passagem dos homens pela terra, e não teve serenidade para levá-los até a luz, mas ali mesmo, de pé, sem a menor dificuldade, como se tivessem sido escritos em castelhano debaixo do resplendor deslumbrante do meio-dia, começou a decifrá-los em voz alta. Era a história da família, escrita por Melquíades nos seus detalhes mais triviais, com cem anos de antecipação. Tinha redigido em sânscrito, que era sua língua materna, e havia cifrado os versos pares com os códigos pessoais do imperador Augusto, e os ímpares com códigos militares da Lacedemônia. A chave final que Aureliano começava a vislumbrar quando se deixou confundir pelo amor de Amaranta Úrsula, tinha sua raiz no fato de Melquíades não ter ordenado os fatos no tempo convencional dos homens, mas concentrado um século de episódios cotidianos, de maneira que todos coexistissem num mesmo instante. Fascinado pelo achado, Aureliano leu em voz alta, sem saltos, as encíclicas cantadas que o próprio Melquíades fizera Arcádio escutar, e que na realidade eram as predições de sua execução, e encontrou anunciado o nascimento da mulher mais bela do mundo que estava subindo aos céus de corpo e alma, e conheceu a origem dos gêmeos póstumos que renunciavam a decifrar os pergaminhos, não apenas por incapacidade e inconstância, mas porque suas tentativas eram prematuras. Neste ponto, impaciente por conhecer sua própria origem, Aureliano deu um salto. Então começou o vento, morno, incipiente, cheio de vozes do passado, de murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às nostalgias mais tenazes. Não o percebeu, porque naquele momento estava descobrindo os primeiros indícios de seu ser num avô concupiscente que se deixava arrastar pela frivolidade através de um páramo alucinado, à procura de uma mulher formosa que ele faria feliz. Aureliano reconheceu-os, perseguiu os caminhos ocultos de sua descendência, e encontrou o instante de sua própria concepção entre os escorpiões e as borboletas amarelas de um banheiro crepuscular, onde um peão de oficina saciava sua luxúria com uma mulher que entregava a ele por rebeldia. Estava tão absorto, que tampouco sentiu a segunda arremetida do vento, cuja potência ciclônica arrancou as portas e as janelas dos umbrais, destroçou o telhado da varanda oriental e desenraizou os alicerces. Só então descobriu que Amaranta Úrsula não era sua irmã e sim sua tia, e que Francis Drake tinha assaltado Riohacha somente para que eles pudessem se buscar pelos labirintos mais intrincados do sangue, até engendrarem o animal mitológico que haveria de pôr fim à estirpe. Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando conforme vivia esse instante, profetizando a si mesmo no ato de decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra (MARQUES, 2014, p. 444-446).

Continuar lendo Cem anos de solidão