Resenha: A Senhora de Wildfell Hall

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Me pergunto se fosse o caso de ter sido apresentada à Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, O Morro dos Ventos Uivantes, Jane Eyre e A Senhora de Wildfell Hall sem suas capas originais e sem informações acerca de quem as escreveu, apenas o texto cru, se teria condições de discernir, com precisão, sobre qual era a obra de determinada autora e sobre os seus aspectos intrínsecos. Provavelmente, teria dificuldades e digo isto porque tanto Jane Austen quanto as Irmãs Brontë carregam em seu dna uma quase obrigatoriedade de preciosismo moral e ético na construção de suas protagonistas.

Sim, por meio de quaisquer que sejam os romances destas inglesas, você sempre encontrará histórias muito bem elaboradas e alicerçadas nos moldes da dignidade e da respeitabilidade, uma cobrança sumariamente excessiva, mas tacitamente destinada a poucos grupos; e, sinceramente, o indulto é pesado, pois às mulheres eram relegados os papéis de espinha dorsal, ao passo que ao homem a figura do homúnculo, plenamente disponível ao mundo sensorial, imerso nos elásticos limites da “excentricidade” – bebidas, jogos, relações extraconjugais, falcatruas, mau-caratismo, etcetera, etcetera – e com as bênçãos da sociedade, é claro… A boa e velha sociedade que vive de flertar com a hipocrisia.

Na Inglaterra da era vitoriana, onde imperavam as obtusas diferenças entre as classes sociais, o papel da mulher se restringia à manutenção do lar, cuidado dos filhos e total submissão e dependência ao marido. As personagens da grande maioria desses romances, delicadas ou, aparentemente, muito duras, tendem a encarar as situações com uma resignada força e não se abatem mediante a escalada dos montes ou montanhas de desafios, ao contrário, os encaram com uma fibra descomunal e que lhes agrega muito. Logicamente que as histórias giram em torno do amor e dos ardis e conquistas que tanto lhes floreiam o percurso, mas afinal é isso que também encaramos, né?, pois em qualquer que seja a época, tudo sempre gira em torno do amor, seja lá qual for, por quem for ou pelo quê for…

Por que ler Anne Brontë, afinal? Ora, porque em seu cerne, sim, ao vasculharmos todas as suas camadas e mais camadas de pesadas páginas, lhe capturamos o grito que sai rasgando as cordas vocais e que ecoa aos quatro cantos do mundo a inquietude, o anseio por mudanças e pela soberana necessidade de encarar os enfrentamentos da vida, independentemente dos castradores potenciais femininos, vulgo patriarcado, religiosidade e algemas sociais.

Só mais uma coisa, quer seja como Helen Graham ou Sra. Huntingdon, a moradora de Wildfell Hall é uma daquelas criaturas que você tem vontade de dar um abraço apertado e dizer “vai, minha querida, seja feliz”. E, bom… , se rolar aquele velho link entre a leitura e a lembrança da série Downton Abbey, relaxe, pois ambas conseguiram ser muito felizes na construção e condução dos seus trabalhos.

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Resenha: A Redoma de Vidro

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Desconfio de muita felicidade.

Ninguém é feliz o tempo todo, logo, quando vejo pessoas excessivamente felizes, primeiro, fico cansada, porque existe todo um dispêndio de energia pra dar conta desse tipo papel, segundo, fico curiosa, literalmente, pra conhecer todas as conexões possíveis que permitam que tal criatura consiga se manter nesse nível de gás, afinal, a nossa bioquímica também precisa se recompor (a fisiologia explica… inclusive, os mecanismos de quem recorre aos subterfúgios…), mas definitivamente, gosto de observar a uma certa distância.

Me apraz a ideia da imperfeição. Gente perfeita sempre me dá uma sensação laboriosa de querer buscar a rachadura, o remendo, porque convenhamos, perfeição não é pra esse mundo, ou então, tô mais ultrapassada do que tudo.

Outra coisa, vão me encontrar no bloco dos que quebraram a cara e conheceram algum tipo de buraco negro; taí outra coisa que, mesmo sem conhecer direito, preciso agradecer a existência, pois é preciso haver um espaço onde o nada possa existir e, nesse ínterim, consiga abarcar o todo outra vez. O lado bom desse bloco é que, provavelmente, você respeitará as lições que tirou, ahhhh se vai… O lado ruim é que você nunca mais voltará a ser a mesma pessoa de antes e isso, talvez, lhe tire um certo brilho do olhar, talvez, revele sua natureza tão objetiva na arte da sobrevivência – nem que seja só pra saber o que vem depois da linha do horizonte – que, talvez, seja algo peculiarmente cruel de enxergar no espelho, mas no final das contas, descobrimos que sempre é possível espremer a mente/alma/ou/sei/lá/o/quê ao ponto de novas conexões surgirem para lhe mostrar que a resiliência existe e que se pode usar tal capacidade até o último instante, até o limite cabal das forças (e desejar que haja gratidão e ternura por essa nova consciência. E que as missões tenham sido consideradas porque, sinceramente, se existir vida após a morte, vou virar a desgraça se tiver que voltar com o karma de bater na mesma tecla outra vez, aaaaah se vou…).

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