Vozes

Gosto de ouvir as vozes das pessoas.

Algumas me apaixonam, outras me enternecem, algumas me causam profunda repulsa, outras me excitam, algumas me esvaziam, outras são tão vaidosas e entediantes… Outras, curioosamente, não parecem sair do corpo que lhes habita e isso é tão inesperado.

Algumas vozes reverberam no inconsciente sem serem chamadas, outras são tão fortes quanto o sol, até parece que as trombetas da solenidade lhes algema o calcanhar; algumas são melodiosas feito a lua, outras brilham, furiosamente, feito as estrelas e só desejo que não se apaguem nunca.

Algumas vozes te inspiram tanta confiança que desbravar o mundo parece ser a coisa mais simples por acontecer, outras nos levam para o além-mundo, para o mundo dos seus dias, dos seus dias distantes…

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Insensatez

Nas tuas retas formas

Minhas tortas linhas não se encaixam

Tentam se ajustar

Caem

E, ainda que te admire

Fujo, me abrigo nos braços da solidão

Pois tua sensibilidade é fria e dura

Arremedo de doçura

Me remete às dores e traumas do passado

E eu

Prefiro alimentar o buraco negro diariamente

Suportando a infâmia da latência

A enfrentar sua insurreição

Seria brutal demais

Te liberto de mim, do meu brincar de existir

E me liberto da ilusão de te esperar

 

Resenha: Cegueira Moral – Parte II

2 – A crise da política e a busca de uma linguagem da sensibilidade

“Vivemos numa época em que os intelectuais à moda antiga, ou da era pré-Facebook, correm o perigo de serem relegados para as margens da política e da área pública. Correm o risco de se tornarem não entidades. […] Estamos nos aproximando depressa de uma fase da vida política em que o grande rival de um partido bem-estabelecido não será outro partido de corte ou tonalidade diferente, mas uma organização não governamental ou um movimento social influente. […] Os autocratas russos e chineses percebem isso muito bem. Como todos nós sabemos, ONGs não são bem-vindas em regimes tirânicos; nem tampouco o Facebook, em especial após uma série de ‘revoluções pelo Facebook’ no Oriente Médio, ou a Primavera Árabe, ou mesmo durante a revolução de Facebook dos jovens espanhóis indignados em Madri. Com toda a probabilidade, esses atos de resistência e inquietação social antecipam uma era de movimentos sociais virtuais que serão conduzidos ou integrados por partidos políticos novos ou convencionais. De outro modo, os partidos serão extirpados da face da Terra por esses movimentos. Vivemos uma época de obsessão pelo poder” (DONSKIS, 2014, p. 64-65).

Convenhamos que a obsessão pelo poder sempre existiu, né meu caro? Todavia, agora ela veste um tecido virtual, de plurialcance, camaleônico e de largo espectro, inclusive, isso se aplica tanto para os movimentos úteis quanto para os inúteis. Aonde iremos parar, por enquanto, só o Zuckerberg e o Vale do Silício poderão dizer, mas com certeza uma cascata recheada de plugins novos, de preferência com hologramas, virá por aí.

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Resenha: Cegueira Moral – Parte I

1 – Do diabo a pessoas assustadoramente normais e sensatas

“Privacidade, intimidade, anonimato, direito ao sigilo, tudo isso é deixado de fora das premissas da sociedade de consumidores ou rotineiramente confiscado na entrada pelos seguranças. Na sociedade de consumidores, todos nós somos consumidores de mercadorias, e estas são destinadas ao consumo; uma vez que somos mercadorias, nos vemos obrigados a criar uma demanda de nós mesmos. A internet, com os blogs e o Facebook, versões de mercado das ruas comerciais, destinadas aos pobres, dos salões finos voltados para os VIPs, tende a seguir os padrões estabelecidos pelas fábricas de celebridades públicas; os promotores tendem a ter uma consciência aguda de que, quanto mais íntimo, picante e escandaloso for o conteúdo dos comerciais, mais atraente e exitosa será a promoção e melhores serão as avaliações (da TV, das revistas glamorosas, dos tabloides atrás de celebridades etc.). O resultado geral é uma ‘sociedade confessional’, com microfones plantados dentro de confessionários e megafones em praças públicas. A participação na sociedade confessional é convidativamente aberta a todos, mas há uma grave penalidade para quem fica de fora. Os que relutam em ingressar são ensinados (em geral do modo mais duro) que a versão atualizada do Cogito de Descartes é ‘Sou visto, logo sou’ – e quanto mais pessoas me veem, mais eu sou…” (BAUMAN, 2014, p. 37).

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Resenha: Cegueira Moral

Cegueira Moral

Parece clichê, mas é vida real e que segue. Estava eu no consultório da ortodontista, mais precisamente na ante-sala da recepção cujo sinal de wifi é bom e obviamente usufruía desta atratividade, aguardando o meu momento de adentrar a sala, quando enxergo uma daquelas pilhas de revista que sempre ficam empoleiradas na mesinha (isso sim é clichê!). Começo a folhear um catálogo de arte, que nunca ouvi falar e também não me recordo o nome, e eis que vejo uma indicação de livro – Cegueira Moral a perda da sensibilidade na modernidade líquida, de Zygmunt Bauman – imediamente faço uso da internet e descubro que o livro, realmente, é muito interessante.

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