Resenha: Amor Líquido

Amor Líquido.

Vez por outra me pego pensando no modo de vida do Oliveira, sim, o do Cortázar, e, apesar de todas as nossas rusgas, confesso que me enredo um tanto naquele novelo, e é aí que reside a provocação. Explico, o fato dele não ser um devotado do lattes – apenas um amante do conhecimento e, leia-se, por gosto, por opção – não o torna um escravo do sistema, um escravo das implicações de sucesso e perfeição que a sociedade capitalista impinge à todo e qualquer indivíduo que sai do útero. Ao contrário, o conhecimento faz com que a vida dele seja o laboratório que ele precisa, enquanto ser analítico e pulsante, e suas funções laborais apenas cumprem seu papel sem o apelo de TERQUESER a mais rentável, de TERQUE manter o status quo, de TERQUE estar acima do fracasso, acima do sofrimento, acima da angústia da liberdade.

Entretanto, perceber que, apesar de toda a sua resistência, o mundo o absorveu, o catalogou num nos códigos patologizantes (pois em algum grau o amor literalmente o deixou a delirar) e o medicalizou – como aliás fazem diariamente nesse mundão contemporâneo, sofreu/chorou/não foi um sucesso/fracassou/somatizou/tratou o sintoma/a demanda vive latente, mas quem se importa?/medicaliza/se MEDICALIZOU tá tudo certo (SERÁ???? Sabemos que “o buraco é bem mais embaixo” e que “a tonga da mironga do kabuleté” diz outra coisa, mas sejamos realistas, meu caro, há aqui tantos interesses, opppppppppps, tantas respostas quanto possíveis forem e do capitalismo ao socialismo, do cartesianismo ao holismo, do jurássico ao contemporâneo, do individualismo ao coletivo, o ponto derradeiro ou o inacabado fica por sua conta, esteja à vontade, afinal, o diálogo convém mais do que nunca) – meio que dá aquela sensação de nadar nadar e morrer na praia, quando poderia ser diferente, principalmente quando você sabe que o que não falta é chão nesse planeta.

Ademais, algumas perguntas resistem; O quanto que essa obrigação de TER felicidade e SER um sucesso impacta na vida das pessoas? O quanto que essa obrigação FAZ com que as pessoas se percam ou que justifiquem os fins pelos meios? O quanto que essa obrigação truncou os valores e permitiu que chegássemos ao ponto de não mais distinguirmos nada e que, polarizando tudo e agindo autoritariamente (ainda que digam o contrário), sigamos não ouvindo o que de fato importa? Será que isso tem relação com o modus operandi desse mundo líquido?

Pois, o “só sei que nada sei“, a cada dia faz mais sentido e, não se iluda, o conhecimento não fará de você o detentor de todas as verdades ubíquas do mundo, mas te permitirá compreender alguns dos motivos pelos quais os fatos se dão, os comportamentos se sucedem, a ciclicidade dos eventos permanece e os motivos pelos quais a interação humana ainda constitui a razão da evolução nesta terra. No mais, a partir de agora, teremos a polissemia do amor, desde as relações voláteis nas redes sociais até a imperiosa dor sofrida pelos imigrantes nos países da União Europeia e do mundo, através do olhar de Zygmunt Bauman, aquele que sempre carrega os card games cruciais para cada situação. Sigamos!

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Resenha: Cegueira Moral – Parte II

2 – A crise da política e a busca de uma linguagem da sensibilidade

“Vivemos numa época em que os intelectuais à moda antiga, ou da era pré-Facebook, correm o perigo de serem relegados para as margens da política e da área pública. Correm o risco de se tornarem não entidades. […] Estamos nos aproximando depressa de uma fase da vida política em que o grande rival de um partido bem-estabelecido não será outro partido de corte ou tonalidade diferente, mas uma organização não governamental ou um movimento social influente. […] Os autocratas russos e chineses percebem isso muito bem. Como todos nós sabemos, ONGs não são bem-vindas em regimes tirânicos; nem tampouco o Facebook, em especial após uma série de ‘revoluções pelo Facebook’ no Oriente Médio, ou a Primavera Árabe, ou mesmo durante a revolução de Facebook dos jovens espanhóis indignados em Madri. Com toda a probabilidade, esses atos de resistência e inquietação social antecipam uma era de movimentos sociais virtuais que serão conduzidos ou integrados por partidos políticos novos ou convencionais. De outro modo, os partidos serão extirpados da face da Terra por esses movimentos. Vivemos uma época de obsessão pelo poder” (DONSKIS, 2014, p. 64-65).

Convenhamos que a obsessão pelo poder sempre existiu, né meu caro? Todavia, agora ela veste um tecido virtual, de plurialcance, camaleônico e de largo espectro, inclusive, isso se aplica tanto para os movimentos úteis quanto para os inúteis. Aonde iremos parar, por enquanto, só o Zuckerberg e o Vale do Silício poderão dizer, mas com certeza uma cascata recheada de plugins novos, de preferência com hologramas, virá por aí.

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Resenha: Cegueira Moral – Parte I

1 – Do diabo a pessoas assustadoramente normais e sensatas

“Privacidade, intimidade, anonimato, direito ao sigilo, tudo isso é deixado de fora das premissas da sociedade de consumidores ou rotineiramente confiscado na entrada pelos seguranças. Na sociedade de consumidores, todos nós somos consumidores de mercadorias, e estas são destinadas ao consumo; uma vez que somos mercadorias, nos vemos obrigados a criar uma demanda de nós mesmos. A internet, com os blogs e o Facebook, versões de mercado das ruas comerciais, destinadas aos pobres, dos salões finos voltados para os VIPs, tende a seguir os padrões estabelecidos pelas fábricas de celebridades públicas; os promotores tendem a ter uma consciência aguda de que, quanto mais íntimo, picante e escandaloso for o conteúdo dos comerciais, mais atraente e exitosa será a promoção e melhores serão as avaliações (da TV, das revistas glamorosas, dos tabloides atrás de celebridades etc.). O resultado geral é uma ‘sociedade confessional’, com microfones plantados dentro de confessionários e megafones em praças públicas. A participação na sociedade confessional é convidativamente aberta a todos, mas há uma grave penalidade para quem fica de fora. Os que relutam em ingressar são ensinados (em geral do modo mais duro) que a versão atualizada do Cogito de Descartes é ‘Sou visto, logo sou’ – e quanto mais pessoas me veem, mais eu sou…” (BAUMAN, 2014, p. 37).

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Resenha: Cegueira Moral

Cegueira Moral

Parece clichê, mas é vida real e que segue. Estava eu no consultório da ortodontista, mais precisamente na ante-sala da recepção cujo sinal de wifi é bom e obviamente usufruía desta atratividade, aguardando o meu momento de adentrar a sala, quando enxergo uma daquelas pilhas de revista que sempre ficam empoleiradas na mesinha (isso sim é clichê!). Começo a folhear um catálogo de arte, que nunca ouvi falar e também não me recordo o nome, e eis que vejo uma indicação de livro – Cegueira Moral a perda da sensibilidade na modernidade líquida, de Zygmunt Bauman – imediamente faço uso da internet e descubro que o livro, realmente, é muito interessante.

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